terça-feira, 22 de setembro de 2026


TEXTO: Fp 2.1-4(5-13)  

TEMA: VIVER EM UNIDADE, HUMILDADE E AMOR

Vivemos em uma sociedade que frequentemente coloca o indivíduo no centro. Somos incentivados a pensar em nossos direitos, nossos interesses, nossos desejos e nossas conquistas.

Paulo chama os cristãos de Filipos a uma mudança de perspectiva sobre esta questão. Havia entre eles comunhão, amor e participação no Evangelho. Mas como acontece em qualquer comunidade cristã, também existiam desafios relacionados à convivência, aos interesses pessoais e à necessidade de preservar a unidade. Por isso, Paulo exorta os filipenses a não colocarem seus próprios interesses acima dos interesses dos outros. Ele mostra que a verdadeira unidade cristã não nasce simplesmente de concordarmos em tudo, mas de termos Cristo como centro da nossa vida.

O cristão não deve viver olhando apenas para si mesmo. Ele é chamado a olhar para Cristo e, a partir de Cristo, olhar para o seu irmão. O apóstolo apresenta, então, o próprio Cristo como o maior exemplo de humildade, serviço e obediência. Aquele que assumiu a condição de servo e foi obediente até a morte de cruz.

Podemos resumir a mensagem desta passagem em três partes:

Primeiro, a unidade cristã nasce do amor e da comunhão (vv. 1–4). A vida cristã é marcada pela comunhão com Cristo e pelo amor entre os irmãos. Paulo chama os cristãos a viverem em unidade, tendo o mesmo amor e o mesmo propósito. Ele não deve buscar apenas os seus próprios interesses, mas também o bem daqueles que estão ao seu redor. A humildade combate o egoísmo, a competição e a busca por reconhecimento pessoal. Quando os cristãos vivem em amor, cuidado e serviço, demonstram a realidade da fé em Cristo.

Segundo, Cristo é o exemplo perfeito de humildade e obediência (vv. 5–8). Cristo é apresentado como o exemplo perfeito de humildade e obediência. Embora sendo Deus, ele assumiu a forma de servo e veio ao mundo para cumprir a vontade do Pai. Jesus não buscou seus próprios interesses, mas entregou-se por amor à humanidade. Sua humildade foi demonstrada de maneira plena quando se tornou obediente até à morte, e morte de cruz. Na cruz, Cristo realizou a obra da nossa salvação e revelou a profundidade do seu amor. Por isso, os cristãos são chamados a ter a mesma atitude de humildade e serviço. Olhar para Cristo nos ensina a colocar a vontade de Deus e o bem do próximo acima dos interesses pessoais.

Terceiro, Deus exalta Cristo e opera em nós a vontade de viver para ele (vv. 9–13). Depois de sua humilhação e morte, Cristo foi exaltado pelo Pai e recebeu o nome que está acima de todo nome. Diante de Jesus, todo joelho se dobrará e toda língua confessará que ele é o Senhor. Sua exaltação revela a vitória daquele que se humilhou para realizar nossa salvação. Paulo também ensina que Deus continua agindo na vida dos cristãos, operando neles tanto o querer como o realizar segundo a sua boa vontade. A nova vida não nasce da capacidade humana, mas da ação graciosa de Deus. Por isso, o cristão vive para Cristo com fé, gratidão e obediência. A obra de Deus em nós nos conduz a uma vida que procura honrar o Senhor em todas as circunstâncias

                                                             I

Paulo inicia este trecho lembrando aos filipenses as bênçãos que eles já receberam por estarem unidos a Cristo: “Portanto, se há alguma exortação em Cristo, se alguma consolação de amor, se alguma comunhão do Espírito, se alguns afetos e compaixões...” (v.1). O termo "portanto" implica que ele está aqui expandindo a exortação (v.27).  Ele não apresenta a unidade cristã como uma obrigação isolada, mas como uma consequência daquilo que Deus realizou na vida dos cristãos. O apóstolo menciona quatro realidades que caracterizam a vida daqueles que pertencem a Cristo: exortação em Cristo, consolação de amor, comunhão do Espírito e afetos e misericórdias.

Primeiro, ele afirma: “Se há, pois, alguma exortação em Cristo” – A palavra “exortação” também pode trazer a ideia de encorajamento, estímulo e fortalecimento. Em Cristo, os cristãos recebem palavras que os animam a permanecer firmes na fé. Paulo lembra que a vida cristã não é vivida de maneira isolada. A união com Cristo também produz uma relação de cuidado e encorajamento entre os irmãos. Segunda: “Alguma consolação de amor” – O amor cristão proporciona consolo, amparo e fortalecimento.  Neste sentido, o cristão que experimenta o amor de Deus em Cristo também é chamado a transmitir esse amor aos outros. A comunidade cristã deve ser um lugar em que os irmãos encontrem apoio, cuidado e encorajamento, especialmente nos momentos de dificuldade.

Terceira: “Alguma comunhão do Espírito” – A comunhão cristã tem sua origem no Espírito Santo. É ele quem reúne os cristãos em torno de Cristo e os conduz à mesma fé. Essa comunhão não significa que todos tenham a mesma personalidade, opinião ou função, mas que todos pertencem ao mesmo Senhor e participam da mesma graça. Por isso, a unidade da igreja está fundamentada na obra de Deus. Quarta: “Se há afetos e misericórdias” – Paulo aponta também para os sentimentos de amor, compaixão e cuidado que devem existir entre os cristãos. A misericórdia recebida de Deus em Cristo transforma a maneira como o cristão olha para o próximo. Quem foi alcançado pela misericórdia de Deus não deve permanecer indiferente diante das necessidades do irmão.

Assim, Paulo recorda primeiro tudo aquilo que os cristãos receberam em Cristo e, a partir disso, chama-os a viver em unidade, amor e humildade. A unidade cristã não nasce do esforço humano para criar uma aparência de harmonia, mas da comunhão com Cristo e da ação do Espírito Santo.

Paulo continua sua exortação mostrando que a comunhão recebida em Cristo deve produzir unidade na vida da igreja. Ele pede aos filipenses que completem a sua alegria por meio de uma vida marcada pelo amor, pela harmonia e pela humildade: “Completai a minha alegria, de modo que penseis a mesma coisa, tenhais o mesmo amor, sejais unidos de alma, tendo o mesmo sentimento.” (v. 2). Aqui, encontramos um forte chamado à unidade. Paulo deseja que a unidade dos filipenses seja completa. “Completai a minha alegria” – Paulo já tinha grande alegria por causa da fé dos filipenses e de sua participação no Evangelho. Agora, ele deseja que essa alegria seja completa ao ver a comunidade vivendo em verdadeira unidade. O apóstolo não está preocupado apenas com o crescimento individual dos cristãos, mas com a maneira como eles convivem uns com os outros.

Ele menciona quatro aspectos: “penseis a mesma coisa”; “tenhais o mesmo amor”; “sejais unidos de alma”; “tendo o mesmo sentimento”. Primeiro, ele afirma: “De modo que penseis a mesma coisa” – Paulo chama os cristãos a terem uma mesma disposição diante da fé e da vida cristã. Isso não significa que todos precisem pensar exatamente da mesma maneira em questões secundárias. O sentido é que estejam unidos naquilo que é fundamental: Cristo, o Evangelho e a graça de Deus. A unidade cristã nasce quando a vontade de Cristo ocupa o centro da vida da comunidade. Segundo: “Tenhais o mesmo amor” – O mesmo amor significa que os cristãos devem amar uns aos outros com o amor que receberam de Cristo. Não deve haver espaço para rivalidade, competição ou preferência pessoal que provoque divisão. O amor cristão procura o bem do outro e não apenas a satisfação dos próprios interesses.

Terceiro: “Sejais unidos de alma” – Paulo aprofunda a ideia de unidade. Os filipenses deveriam permanecer ligados uns aos outros em propósito e comunhão. A igreja não é uma reunião de pessoas que simplesmente compartilham o mesmo espaço, mas uma comunidade formada por pessoas unidas pela fé em Cristo.Quarto: “Tendo o mesmo sentimento” – Essa expressão prepara o caminho para o exemplo de Cristo apresentado nos versículos 5–8. O sentimento que Paulo deseja ver nos filipenses, é aquilo que foi demonstrado pelo próprio Jesus: humildade, serviço e disposição para colocar o bem do outro acima dos interesses pessoais.

Paulo. depois de falar sobre unidade, amor e comunhão, ele trata diretamente do orgulho e da busca pelos próprios interesses: “Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo.” (v.3). Paulo condena atitudes motivadas pelo desejo de defender interesses pessoais ou de criar grupos e disputas dentro da comunidade. O cristão não deve agir pensando em vencer uma discussão, conquistar reconhecimento ou impor sua própria vontade. Quando interesses pessoais ocupam o primeiro lugar, a comunhão é prejudicada. Também nada façais por “vanglória” – A vanglória é a busca pela própria honra, reconhecimento e importância. O problema não está apenas em realizar boas obras, mas em fazê-las para receber elogios e destaque. Na comunidade cristã, ninguém deve procurar ser mais importante do que os outros. Toda honra pertence ao Senhor, e tudo o que fazemos deve estar relacionado ao serviço a Deus e ao próximo.

No entanto, façais “por humildade” – Paulo apresenta a humildade como o caminho contrário ao partidarismo e à vanglória. A humildade cristã não significa desprezar a si mesmo nem negar os dons que Deus concedeu. Significa reconhecer que não somos o centro de tudo e que recebemos de Deus aquilo que temos. Além disso, Paulo chama os cristãos a olhar para o próximo com respeito e consideração. Isso não significa afirmar que o outro seja necessariamente mais capaz ou mais importante em todas as situações. Significa colocar o bem do irmão acima da busca egoísta pelos próprios interesses. O cristão aprende a perguntar não apenas “o que eu quero?”, mas também “como posso servir e beneficiar meu irmão?”

Paulo continua desenvolvendo a exortação à humildade iniciada no versículo 3. Ele mostra que a verdadeira humildade cristã não consiste apenas em uma atitude interior, mas se manifesta na maneira como o cristão olha para as necessidades e interesses das outras pessoas: “Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros.” (v.4). Paulo não está dizendo que o cristão deve desprezar suas próprias necessidades, responsabilidades ou interesses. A Bíblia não ensina a negligência pessoal. O problema está em viver concentrado exclusivamente em si mesmo, colocando os próprios desejos sempre acima dos demais. O egoísmo faz com que a pessoa enxergue apenas aquilo que lhe interessa.

Cristo não viveu para buscar seus próprios interesses, mas entregou-se por nós. Ele deixou de lado sua glória, assumiu a forma de servo e foi obediente até à morte de cruz. Por isso,

O cristão é chamado a olhar além de si mesmo. Deve perceber as necessidades, dificuldades, alegrias e preocupações daqueles que estão ao seu redor. Isso envolve cuidado, disposição para ajudar, paciência e serviço. O amor cristão procura o bem do próximo. A expressão “também” é importante. Paulo não diz que devemos ignorar aquilo que é nosso, mas que devemos acrescentar à preocupação com nossos próprios interesses a preocupação com os interesses dos outros. A vida cristã não é centrada no “eu”, mas está aberta ao próximo.

Portanto, Paulo ensina que a humildade cristã se manifesta no cuidado com o próximo. Quem foi alcançado pelo amor de Cristo aprende a olhar para além de si mesmo. Na família, na igreja e na sociedade, o cristão é chamado a perguntar: “Como posso servir? Como posso ajudar? Como posso buscar o bem do meu próximo?”

                                                             II

Depois de exortar os filipenses à unidade, ao amor e à consideração pelo próximo nos versículos 1–4, ele mostra que essa atitude não é apenas uma exigência moral, mas encontra sua expressão perfeita na pessoa e na obra de Jesus. Paulo apresenta Cristo como o modelo supremo de humildade que deve orientar a vida dos cristãos.

Ele não apenas compartilhou o seu apreço e encorajamento, mas também os confrontou com um chamado profundo e essencial para a vida cristã. Ele mostrou aos filipenses que não basta apenas conhecer a Cristo, é preciso imitá-lo. Ele torna evidente esta questão quando afirma: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus.” (v.5). Paulo usa aqui o verbo grego φρονεῖτε, que significa “pensar”, “ter mentalidade”, “estar inclinado para”. Literalmente, a exortação é: "Pensai nisto em vós mesmos.” Não se trata apenas de uma reflexão intelectual, mas de uma profunda atitude e adoção de uma maneira de pensar e sentir. É um apelo ou exortação para que os cristãos de Filipos imitasse a Cristo. Seguissem o seu exemplo ao renunciar a si mesmo e obedecer aos seus mandamentos. Enfim, tivessem o mesmo sentimento (atitude) que houve também “em Cristo Jesus.”

Como cristãos, é preciso ter os mesmos sentimentos de Jesus. Ter os mesmos sentimentos significa, antes de tudo, despojar-se de si mesmo, das virtudes que pensamos ter, dos direitos que reivindicamos, das glórias e honrarias que buscamos. Ter os sentimentos de Cristo é assumir, humildemente, a condição de servo, renunciando à nossa própria vontade em favor da vontade de Deus e do bem do próximo. Lembrem-se: para nos aproximarmos de Cristo Jesus, é preciso que tenhamos em nosso coração o desejo de ter os sentimentos que Ele tem!

A Bíblia nos ensina, como seguir o exemplo de Cristo: Paulo afirma em 1 Coríntios: “Sigam o meu exemplo, assim como eu sigo o de Cristo” (1 Coríntios 11.1). Ele ensina os cristãos a examinar cuidadosamente a vida de nosso Salvador, não apenas como um modelo distante, mas como um exemplo vivo a ser imitado em cada detalhe. Jesus também disse aos seus discípulos: “Se alguém deseja ser meu seguidor, deve renunciar a si mesmo, tomar a sua cruz e seguir-me” (Mateus 16.24).

Esta renúncia não é apenas um ato isolado, mas uma postura contínua de negar o egoísmo e as ambições pessoais em favor do reino de Deus. Ocorre que a essência da vida cristã reside em seguir o exemplo de Jesus Cristo. Isto demonstra que precisamos colocar em prática no dia a dia os sentimentos de Jesus, pois isso envolve amar ao próximo, (Mateus 22.39), perdoar aqueles que nos ofendem (Mateus 6.14-15), buscar a justiça com misericórdia (Miqueias 6.8), ser compassivo com os necessitados (Mateus 25.34-40) e viver uma vida de integridade e santidade (1 Pedro 1.15-16). 

Mas qual era o “mesmo sentimento de Cristo” que os filipenses deveriam observar? Paulo apresenta a resposta a partir do versículo 6: “pois ele, subsistindo em forma de Deus.” (v.6a). Quando Paulo afirma que Jesus foi “subsistindo em forma de Deus,” significa que Cristo é a verdadeira e plena expressão da revelação de Deus. No grego, há duas palavras para explicar o termo "forma": σχῆμα e μορφῇ. A primeira se refere à forma externa, à aparência que muda com o passar do tempo, como a maneira de vestir ou o porte físico em diferentes fases da vida.

A segunda, μορφῇ, significa a forma essencial pela qual uma pessoa ou coisa é percebida pela visão; é a aparência externa que não muda, que revela a natureza intrínseca. Paulo usou este segundo termo, μορφῇ, para dizer aos filipenses, que Jesus tinha a forma de Deus, ou seja, Jesus é Deus em sua essência de modo inalterável, e que isto não pode ser mudado pelas circunstâncias. Esta não é uma mera semelhança passageira, mas uma afirmação clara da deidade de Cristo.

Portanto, Cristo é a verdadeira e plena expressão da revelação de Deus. Ele sempre foi e sempre será Deus. Embora sendo Deus, não considerou que ser igual a Deus fosse algo a que deveria se apegar. Paulo afirma que Ele “não teve por usurpação ser igual a Deus,” (v.6b). A palavra grega ἁρπαγμός e do verbo ἁρπάζω é essencial neste versículo. De modo geral significa o ato de pegar pela força, roubo; tomar algo de outro para si mesmo; apego a alguma coisa. Significa que Jesus não tentou "agarrar-se" ou "apegar-se" ao seu status e papel, exclusivamente, divinos como o Filho de Deus em sua encarnação. Não considerou que a sua igualdade com Deus fosse algo a ser usado para seu próprio benefício. Isto demonstra a sua humildade e disposição em esvaziar-se a si mesmo. O que se conclui é que Jesus não deixou de ser Deus. Ele é totalmente Deus (João 8.58; 10.30) e sempre existiu desde a eternidade. Basta olharmos para a palavra “ser” por um momento. “Ser” denota a natureza essencial da pessoa, a essência, aquilo que é inalienável e imutavelmente verdadeiro sobre Ele. Enfim, Jesus possui esta natureza como Deus. Esse é o Seu ser, quem Ele é: natureza inata, imutável, eterna, inalterável.

Contudo, Ele renunciou a isso voluntariamente a fim de cumprir a vontade de Seu Pai ao se tornar humano: “Antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo” (v. 7a)." Cristo esvaziou-se de quê? De sua deidade? De sua natureza? De suas prerrogativas divinas? De ser igual a Deus? Então, vejamos! Paulo usa o termo κενόω que significa “esvaziar, tornar vazio, privar de força”. Este verbo está na terceira pessoa do singular e na voz ativa, a qual demonstra que a ação foi efetuada “por Cristo” e não “por outra pessoa em Cristo.”  Isto identifica Cristo como sujeito realiza a ação de forma independente. Sendo que o objeto dessa ação está presente na palavra precedente derivada de ἑαυτοῦ que significa “ele mesmo, a si mesmo”, indicando que a ação recai sobre o próprio Cristo. A partir deste momento assume a "forma de servo", (μορφὴ δούλου), que descreve sua condição de servo humilde e obediente.

Jesus também “tornou-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana.” (v.7b). Literalmente se tornou humano. Ele assumiu a natureza humana. A natureza humana de Jesus é um tema central na fé cristã, e é descrita na Bíblia. Ela apresenta o profundo mistério do eterno e infinito Filho de Deus adentrando no tempo e no espaço e assumindo a natureza humana. Ele viveu como um ser humano.   Ele entrou no mundo a partir do ventre de uma mulher, como as demais pessoas.  Exercia seu ofício na carpintaria de José. Experimentou fome, cansaço, tristeza, tentação e necessidade de dormir, tal como fez no barco. De fato, Jesus tornou-se semelhante aos homens ao assumir a forma de servo, renunciando a seus privilégios celestiais.

Mas por que Jesus se fez semelhante aos homens? Vejamos cinco pontos: primeiro, para se identificar plenamente com a humanidade. Ao se tornar humano, Jesus experimentou em sua própria vida as alegrias, tristezas, tentações (sem pecar), dores e limitações da condição humana.  Segundo: para ser o sacrifício perfeito pelo pecado. A lei de Deus exigia um sacrifício perfeito para a expiação dos pecados.  Terceiro:  para vencer a morte e o diabo. Através de sua morte e ressurreição como homem, Jesus derrotou o poder da morte e do diabo, que tinha domínio sobre aqueles que estavam sob a condenação do pecado (Hebreus 2.14-15; 1 Coríntios 15.54-57).

Quarto: para nos dar um exemplo de vida. Jesus viveu uma vida humana perfeita, demonstrando como devemos amar a Deus e ao próximo. Sua humildade, obediência, serviço e amor sacrificial são modelos para os seus seguidores (1 Pedro 2.21). Quinto: para revelar plenamente a Deus. Ao se tornar humano, Deus se revelou de uma maneira que a humanidade pudesse compreender e experimentar diretamente. Jesus disse: "Quem me vê, vê o Pai" (João 14:9). Sua vida e seus ensinamentos nos mostram o caráter, o amor e a justiça de Deus de forma tangível.

O preço pago na cruz também se manifesta no sacrifício exemplar de Jesus: “Jesus assumiu a forma de servo e humilhou-se até à morte, e morte de cruz.” (v.8). Jesus é o maior exemplo de humildade que temos na história do mundo. Ele despiu-se de Sua glória e veio como um simples homem, tornando-se servo e assumindo os pecados de toda a humanidade. Agora, precisamos olhar para Jesus e aprender sobre a verdadeira humildade. Reconhecer as nossas falhas! Deixar de lado as nossas posições, poderes e vantagens. Esvaziar-se do "eu" e assumir a forma de servos. Isto ilustra como devemos nos despojar do orgulho e servir a Cristo

Vamos aceitar o convite de Jesus: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vocês o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e achareis descanso para a vossa alma.” (Mt 13.28,29). Portanto, ao contemplar a vida do Senhor, podemos encontrar atitudes sempre repletas de humildade.

                                                            III

No entanto, Sua completa humilhação na cruz foi seguida imediatamente pela Sua exaltação: 'Deus o exaltou sobremaneira' (v.9a). A expressão 'exaltou sobremaneira' traduz o verbo grego ὑπερυψόω, que significa exaltar à mais alta posição e poder, elevando à majestade suprema. Expressão que só pode ser aplicada a Cristo. Sendo assim, Deus, o Pai enalteceu o Filho de uma forma gloriosa, elevando até a máxima altura. Deus não deixou Cristo na sepultura, mas levantou-o da morte, levou-o de volta ao céu e o glorificou (At 2.33; Hb 1.3). Deus deu a Jesus “toda autoridade no céu e na terra” (Mt 28.18). Deu a ele autoridade para julgar (Jo 5.27) e fê-lo senhor de vivos e de mortos (Rm 14.9), fazendo-o assentar à sua destra, acima de todo principado e potestade, constituindo-o a cabeça de toda a igreja (Ef 1.20-22).

Que momento maravilhoso! Deus o elevou à mais alta posição e ainda lhe “deu um nome que está acima de todo nome.” (v.9b). Mas não era qualquer nome. Era um nome que o distinguisse, nitidamente, de todos os outros nomes (Ef 1.20-21). Conforme o versículo 11 e Atos 2.36, se tem em vista um nome particular, provalmente, κύριος. Este é um termo que tem vários sentidos: pode significa senhor, mestre, amo quando usado como uma forma de atribuição; nome que chegou a ser o título oficial dos imperadores romanos. A Septuaginta, tradução grega do Antigo Testamento, usa κύριος   para substituir o nome   YHWH (יהוה), reforçando a ideia de que Jesus compartilha da mesma natureza e autoridade de Deus. Na teologia do Novo Testamento, é o título concedido a Jesus como resultado de sua ressurreição e exaltação: (Atos 2.36).

No entanto, este nome tornou-se comum para expressar o senhorio de Cristo no contexto do mundo greco-romano (Romanos 10.9; Filipenses 2.11). Desta maneira, quando Jesus era chamado κύριος significava que era o Senhor, o Rei dos reis e Senhor de imperadores. Este foi o grande título pelo qual Jesus chegou a ser conhecido na Igreja primitiva, que denota sua soberania absoluta. A Bíblia diz que quem tem o Filho tem a vida. Ele recebeu este nome por herança (Hb 1.4) e por doação (2.9). Por meio desse nome os enfermos são curados (At 3.6), os perdidos são salvos (At 4.12), os crentes são perdoados (1Jo 2.12), os cativos são libertos (Lc 10.17), as orações são respondidas (Jo 16.23). E o apóstolo Paulo diz que devemos fazer tudo em nome de Jesus (Cl 3.17).

Diante deste nome de Jesus, agora, todos O reconhecerão. Paulo afirma “se dobre todo o joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra.” (10a). O verbo κάμπτω (dobrar) significa reverenciar, ajoelhar-se. Demonstra que todos devem dobrar os seus joelhos, seja nos céus, na terra e debaixo da terra.  Isto abrange a totalidade da criação. (Rm 8.22-1 Co 15.24-28; Ef 1.20-22). Ajoelhar-se diante de alguém, especialmente de autoridades, era sempre uma expressão de respeito e reverência por elas. Era a expressão de uma espécie de humildade. Já no sentido religioso o dobrar os joelhos é um símbolo de reverência, submissão e adoração. Na verdade, nos ajuda a focar em Deus, a reconhecer a Sua grandeza e a expressar a nossa dependência d’Ele. Representa renunciar à autojustiça e de qualquer confiança em nós mesmos, reconhecendo que é somente por meio de Deus que encontraremos a verdadeira força, e é somente nessa força que devemos nos apoiar.

Quantos personagens na Bíblia dobraram seus joelhos.  É um grande exemplo para o homem. Na dedicação do templo de Jerusalém, “Salomão ficou em pé na plataforma e depois ajoelhou-se diante de toda a assembleia de Israel, levantou as mãos para o céu e orou” (2Cr 6.13). Pouco antes de morrer apedrejado, Estêvão caiu de joelhos e bradou: “Senhor não os considere culpados deste pecado” (At 7.60). Quando Elias “subiu o alto do Carmelo, dobrou-se até o chão e pôs o rosto entre os joelhos”. Com a cabeça, o peito e o ventre totalmente dobrados em cima dos joelhos, o profeta pediu chuva e ela veio (1Rs 18.42; Tg 5.18). O salmista exclama: “Vinde, adoremos e prostremo-nos, ajoelhemo-nos diante do Senhor, nosso Criador!” (Sl 95.6). Paulo escreve sobre a reverência que presta a Deus, ele a expressa nestas palavras: “Por isso, me ponho de joelhos diante do Pai, do qual toma o nome toda a família nos céus e na terra” (Ef 3.14-15). Mas o maior exemplo e modelo que todos nós temos é Jesus Cristo. Antes de Jesus ir para a cruz, Ele estava de joelhos no Jardim do Getsêmani, como sinal de sua submissão à vontade do Pai. Na agonia do Getsêmani, Jesus “se afastou a uma pequena distância, ajoelhou-se e começou a orar” (Lc 22.41).

Estes exemplos são demonstrações o quanto devemos também dobrar os nossos joelhos diante do Senhor. Por isso, dobre seus joelhos diante de Deus e clame a Ele, diante de seus problemas, dificuldades e angústias! Lute diante das batalhas que você tem enfrentado, dobrando os seus joelhos. Reconheça que você é completamente fraco e indefeso. E ninguém pode ajudá-lo mais do que o Senhor Soberano e Todo - poderoso. Descubra por si mesmo os efeitos transformadores que podem ser alcançados por meio de joelhos dobrados.

Em virtude do poder e majestade de Jesus Cristo, e pelo reconhecimento de que ele é o Senhor, toda língua o confessará. Paulo afirma: “toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor.” (v.11a). Não basta apenas um reconhecimento interno. É necessário que toda criatura proclame abertamente que Jesus Cristo é o Senhor. Confesse que Ele é o Rei dos reis, o Senhor dos senhores, o Todo-poderoso Deus, diante de quem os poderosos deste mundo vão ter que se curvar e confessar que ele é Senhor. Este título ‘Senhor” (κύριος) carrega consigo implicações de divindade, autoridade máxima e domínio. E, por isso, devemos confessar! O ato de confessar é uma declaração essencial da nossa fé. Todo este reconhecimento e confissão têm como propósito final a “glória de Deus Pai.” (v.11b). O fim último de todas as coisas é a glória de Deus (1Co 10.31). Toda a glória que não é dada a Deus é glória vazia, é vanglória. Cristo se humilhou e suportou a cruz para a glória de Deus (Jo 17.1). Ele ressuscitou e foi exaltado para a glória de Deus (2.11).

Depois de apresentar Cristo como exemplo de humildade e obediência, Paulo volta-se diretamente aos filipenses. “Assim, pois, amados meus, como sempre obedecestes, não só na minha presença, porém, muito mais agora, na minha ausência, desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor.” (v.12). A partir daqui ele mostra como a fé em Cristo se manifesta na vida diária. Paulo fala aos filipenses com carinho. Eles são “amados”, isto é, pessoas pelas quais ele demonstra profundo afeto pastoral. Sua exortação não nasce de dureza, mas do amor e do desejo de que permaneçam firmes na fé. Paulo também reconhece a fidelidade dos filipenses. Eles já haviam demonstrado disposição para obedecer à Palavra de Deus. A vida cristã envolve ouvir a Palavra e viver de acordo com ela. A obediência não é uma tentativa de conquistar a salvação, mas uma resposta de fé à graça recebida em Cristo.

Paulo havia sido uma referência importante para aquela comunidade, mas sua fé não deveria depender da presença física do apóstolo. Eles precisavam permanecer firmes mesmo quando Paulo não estivesse entre eles: “Não só na minha presença, porém, muito mais agora, na minha ausência”. Isso também mostra que a maturidade cristã envolve permanecer fiel à Palavra mesmo quando não há alguém nos observando ou orientando pessoalmente. A fé está fundamentada em Cristo e em sua Palavra, não na presença de um líder humano.

Paulo não está ensinando que os filipenses deveriam conquistar a salvação por meio de obras. A salvação é dom da graça de Deus em Cristo. “Desenvolver” significa viver essa salvação recebida, permitindo que a fé se manifeste na vida, nas atitudes e nos relacionamentos. O cristão, salvo pela graça, cresce na fé e produz frutos de uma vida transformada pelo Evangelho. E isto deve ocorrer “Com temor e tremor” – Essas palavras expressam reverência, seriedade e humildade diante de Deus. O cristão não trata sua relação com Deus de maneira superficial. Ele reconhece a santidade e a grandeza do Senhor e vive confiando na graça divina.

A vida cristã continua sendo uma vida de obediência depois da conversão. O cristão vive pela graça, permanece na Palavra e cresce na fé. Mesmo quando não há um pastor ou outro cristão por perto, ele continua chamado a permanecer fiel a Cristo, com reverência, humildade e confiança na graça de Deus.

Paulo explica o que acabou de dizer no versículo 12. Depois de chamar os filipenses a viverem a salvação “com temor e tremor”, ele mostra que a vida cristã não depende apenas do esforço humano. É Deus quem opera no cristão: “Porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.” (v. 13). “Porque Deus é quem efetua em vós” – Paulo coloca Deus no centro da vida cristã. O verbo “efetua” indica ação e operação. Deus age no seu povo, conduzindo e fortalecendo aqueles que pertencem a Cristo. A santificação não é uma conquista independente do cristão, mas obra de Deus em sua vida.

Deus atua também na vontade: “Tanto o querer”. Ele produz no cristão o desejo de viver de acordo com sua Palavra. O cristão passa a desejar aquilo que agrada a Deus. Esse novo querer não nasce simplesmente de uma força de vontade humana, mas da ação de Deus por meio do Evangelho e do Espírito Santo. Deus não apenas desperta o desejo de fazer o bem, mas também concede forças e condições para que esse desejo se transforme em ação. Há uma diferença entre querer fazer algo e conseguir realizá-lo. Paulo afirma que Deus opera nas duas dimensões: no querer e no realizar.

Isso impede tanto o orgulho quanto o desânimo. O cristão não pode se orgulhar de suas boas obras como se fossem resultado exclusivamente de seus próprios méritos. Ao mesmo tempo, não precisa desesperar diante de suas limitações, pois Deus continua trabalhando nele. Enfim, Deus age de acordo com sua vontade, que é boa e está relacionada ao seu propósito para aqueles que estão em Cristo. A vida cristã está nas mãos de Deus. Ele conduz seus filhos e os capacita a viverem de maneira agradável a ele.

Estimados irmãos, Paulo nos ensina que a vida cristã deve ser marcada pelo amor, pela comunhão, pela humildade e pelo cuidado com o próximo. Não devemos agir por partidarismo ou vanglória, nem buscar somente os nossos próprios interesses, mas considerar também aquilo que é dos outros. Cristo é o fundamento e o exemplo dessa vida. Aquele que existia em forma de Deus assumiu a forma de servo, tornou-se homem e humilhou-se até à morte, e morte de cruz. Ele fez tudo isso por nós e para a nossa salvação. Mas a cruz não foi o fim. Deus o exaltou sobremaneira, e toda língua confessará que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.

Por isso, somos chamados a viver de maneira coerente com a salvação que recebemos. Nossa fé deve aparecer na maneira como tratamos os irmãos, como servimos ao próximo e como enfrentamos as dificuldades da vida. A humildade cristã não procura reconhecimento, mas procura servir.

Paulo termina lembrando uma verdade consoladora: “Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.” Não estamos sozinhos na caminhada cristã. O mesmo Deus que nos salvou em Cristo continua trabalhando em nós por meio de sua Palavra e do Espírito Santo. Portanto, olhemos para Cristo, vivamos em unidade, sirvamos com humildade e confiemos na ação de Deus. Que nossa vida como cristãos revele o amor daquele que se humilhou por nós e que agora reina como Senhor. E que, em tudo o que fizermos, o nosso propósito seja o mesmo apresentado por Paulo: “para glória de Deus Pai.”

Que possamos aprender com o exemplo de Cristo e buscar viver com a mesma humildade e amor que Ele demonstrou, servindo uns aos outros com alegria e nos dedicando a cumprir a vontade de Deus. Assim, seremos verdadeiramente exaltados por Deus, não por nossos próprios méritos, mas pela graça e pelo amor de Cristo que habita em nós. Amém!

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

 

TEXTO: Mt 21.23-27 (28-32)

TEMA: A AUTORIDADE DE JESUS E A VERDADEIRA OBEDIÊNCIA

Vivemos em uma sociedade em que a autoridade é constantemente questionada. Muitas vezes, as pessoas perguntam: “Quem lhe deu autoridade para fazer isso?” Essa também foi a pergunta dirigida a Jesus. Os principais sacerdotes e os anciãos do povo não estavam interessados em conhecer a verdade, mas em questionar a autoridade de Jesus e colocar em dúvida a origem de sua missão.

Jesus, porém, não responde simplesmente à pergunta. Ele conduz seus ouvintes a refletirem sobre a autoridade de Deus e sobre a maneira como cada pessoa responde à sua Palavra. Em seguida, por meio da parábola dos dois filhos, mostra que não basta falar que obedecemos a Deus. A verdadeira obediência se manifesta quando ouvimos a sua Palavra, nos arrependemos e confiamos nele.

Esse texto também nos leva a olhar para nossa própria vida. Podemos conhecer a Palavra de Deus, falar sobre fé e até afirmar que queremos obedecer ao Senhor, mas a pergunta é: como estamos respondendo à autoridade de Jesus? Ele é verdadeiramente o nosso Senhor? Estamos dispostos a ouvir sua Palavra, reconhecer nossos pecados, arrepender-nos e viver pela fé?

Por isso, nesta passagem, veremos três verdades importantes:

Primeiro, Jesus possui autoridade que vem de Deus (vv. 23–27). Os principais sacerdotes e anciãos questionam a autoridade de Jesus, mas Ele mostra que sua autoridade não depende da aprovação humana. Sua autoridade vem de Deus, e rejeitá-la significa também rejeitar aquele que o enviou.

Segundo, Deus chama o pecador ao arrependimento (vv. 28–30). Na parábola dos dois filhos, Jesus mostra que Deus chama as pessoas a trabalhar em sua vinha. O filho que inicialmente recusou, mas depois se arrependeu e foi, demonstra que Deus deseja uma mudança verdadeira de coração e de atitude.

Terceiro, a verdadeira obediência nasce da fé (vv. 31–32). Jesus ensina que não basta dizer que obedecemos a Deus; é necessário confiar nele e viver de acordo com sua vontade. Os que ouviram João e creram demonstraram arrependimento e fé, enquanto aqueles que permaneceram na incredulidade rejeitaram o caminho da salvação.

                                                                 I

Os principais sacerdotes e anciãos questionam a autoridade de Jesus, O texto diz: “Com que autoridade fazes estas coisas? E quem te deu essa autoridade?” (v.23). A pergunta feita a Jesus revela a oposição das autoridades religiosas à sua pessoa e ao seu ministério. Eles haviam visto Jesus entrar no templo, expulsar os que comercializavam naquele lugar e ensinar o povo. Diante disso, os principais sacerdotes e os anciãos queriam saber de onde vinha a autoridade com a qual Jesus realizava essas coisas

Essas autoridades religiosas ocupavam posições importantes dentro da estrutura religiosa de Israel e consideravam-se responsáveis por preservar a ordem e a tradição do povo. Por isso, a atuação de Jesus no templo representava um confronto direto com aquilo que elas consideravam ser sua esfera de autoridade.

Eles são enfáticos nos seus questionamentos: “Com que autoridade fazes estas coisas? E quem te deu essa autoridade?” A expressão “estas coisas” provavelmente se refere ao que Jesus vinha fazendo naquele contexto: sua entrada em Jerusalém, sua atuação no templo, o ensino que oferecia ao povo e, especialmente, a expulsão dos comerciantes do templo. Eles não questionavam apenas uma ação isolada, mas a legitimidade de todo o ministério de Jesus. A pergunta, portanto, era: quem autorizou Jesus a ensinar, corrigir e agir dessa maneira? Eles queriam que ele apresentasse uma credencial que justificasse suas ações.

É importante perceber que Jesus não havia buscado essa autoridade entre os líderes religiosos. Ele não dependia da aprovação dos sacerdotes ou dos anciãos para realizar a missão que recebera. Sua autoridade vinha de Deus. O Pai o havia enviado para realizar a missão que lhe confiara. Portanto, a verdadeira questão não era simplesmente descobrir quem havia dado autoridade a Jesus, mas reconhecer se estavam dispostos a aceitar a autoridade daquele que Deus havia enviado.

Essa pergunta continua sendo importante para nós. Jesus não é apenas um mestre entre tantos outros, cuja palavra podemos aceitar ou rejeitar conforme nossa vontade. Ele é o Senhor e tem autoridade sobre a nossa vida. Sua Palavra nos mostra nosso pecado, chama-nos ao arrependimento e anuncia o perdão que recebemos pela graça, por meio da fé. Assim, o texto nos convida não a questionar a autoridade de Jesus, mas a submeter-nos a ela pela fé. A verdadeira obediência começa quando reconhecemos que Cristo tem autoridade divina e confiamos nele como nosso Senhor e Salvador.

Jesus, então, afirma aos principais sacerdotes e anciãos, que haviam questionado sua autoridade. Ele não evita a pergunta, mas conduz aqueles homens a uma questão ainda mais profunda. Mostra que, antes de responder, eles precisavam se examinarem sobre aquilo que já sabiam a respeito de João Batista: “Eu também vos farei uma pergunta; se me responderdes, também eu vos direi com que autoridade faço estas coisas” (v.24).

Jesus estabelece uma condição: se eles respondessem à sua pergunta, ele também responderia à pergunta deles. A questão colocada por Jesus exigia uma resposta clara: a autoridade de João Batista vinha de Deus ou dos homens? A expressão “se me responderdes”, mostra que Jesus lhes dá oportunidade de se posicionarem diante da verdade. Eles precisavam reconhecer de onde vinha a autoridade de João. Se admitissem que João havia sido enviado por Deus, teriam de levar a sério sua mensagem e seu testemunho a respeito de Jesus.

Portanto, Jesus coloca aqueles líderes diante de uma escolha. Eles não poderiam simplesmente permanecer neutros. Precisavam responder. A verdade de Deus exige uma tomada de posição, pois diante da Palavra do Senhor o ser humano é chamado a ouvir, reconhecer e crer.

Jesus finalmente menciona o assunto que eles haviam levantado: sua autoridade. Ele promete que, se respondessem à sua pergunta, também lhes diria de onde vinha sua autoridade: “também eu vos direi com que autoridade faço estas coisas”. As “coisas” que Jesus fazia incluíam sua entrada em Jerusalém, a purificação do templo e seu ensino. Os líderes religiosos questionavam quem havia dado a Jesus o direito de agir daquela maneira. Entretanto, Jesus sabia que sua autoridade não procedia dos homens. Ele havia sido enviado pelo Pai e exercia sua missão segundo a vontade de Deus.

Assim, o evangelista nos mostra que Jesus não precisa receber autoridade dos homens para ser Senhor e Salvador. Sua autoridade vem de Deus. Ele ensina, confronta o pecado, anuncia o Reino, perdoa e salva porque foi enviado pelo Pai. O desafio colocado aos líderes religiosos continua sendo importante: não basta questionar Jesus; é necessário ouvir sua Palavra e reconhecer sua autoridade.

A resposta de Jesus também está ligada ao testemunho de João Batista por Deus. Jesus então responde com uma pergunta sobre o batismo de João: “Donde era o batismo de João? Do céu ou dos homens? E eles discorriam entre si: Se dissermos: Do céu, ele nos dirá: Então, por que não crestes nele?” (v.25). Ele não está fugindo da pergunta. Ele mostra que, antes de responder, eles precisam se posicionar diante da autoridade de João Batista.

Jesus coloca diante dos líderes religiosos uma pergunta objetiva: “Donde era o batismo de João?” Eles haviam questionado a autoridade de Jesus, e agora precisam responder sobre a autoridade de João Batista. A questão não era simplesmente sobre o batismo, mas sobre a origem da missão e da mensagem de João. João havia pregado o arrependimento e preparado o povo para a chegada do Messias. Seu ministério não era independente de Deus; ele havia sido enviado para anunciar aquele que viria depois dele. Portanto, se os líderes religiosos reconhecessem que João havia recebido sua autoridade de Deus, teriam de considerar também o testemunho de João a respeito de Jesus.

Jesus apresenta somente duas possibilidades sobre a origem do batismo de João: “do céu” ou “dos homens”. Se o batismo de João vinha do céu, sua missão tinha origem divina. Significa que a autoridade de João vinha de Deus. Reconhecer isso exigiria aceitar sua pregação e levar a sério seu testemunho acerca de Jesus. Mas se vinha dos homens, João seria apenas alguém que agia por sua própria autoridade.

Os líderes não respondem imediatamente a Jesus. Eles começam a discutir entre si qual seria a resposta mais conveniente. Isso revela algo importante: eles não estavam procurando sinceramente a verdade, mas tentando encontrar uma resposta que protegesse sua posição. A preocupação deles não era: “O que Deus está nos mostrando?” A preocupação era: “O que será melhor para nós?” Em vez de submeterem seu entendimento à verdade de Deus, procuram calcular as consequências de cada resposta. Isso demonstra como o pecado pode levar o ser humano a resistir à verdade mesmo quando ela está diante de seus olhos. O problema daqueles líderes não era falta de inteligência, mas um coração fechado para reconhecer a ação de Deus.

A verdade é que a pergunta de Jesus os colocou diante da Palavra de Deus e exigiu delas uma resposta sincera. Então, começaram a raciocinar entre si, mas não por amor à verdade. Estavam preocupados com as consequências de sua resposta: “Se dissermos: Do céu, ele nos dirá: Então, por que não crestes nele?” Eles percebem que reconhecer a origem divina do ministério de João os colocaria diante de uma consequência inevitável: “por que não crestes nele?” Se João havia sido enviado por Deus, sua mensagem deveria ser recebida com fé e obediência. Ele não apontava para si mesmo, mas para Cristo. Portanto, rejeitar João significava também rejeitar o testemunho que Deus estava dando acerca de Jesus.

Vejamos a incoerência daqueles líderes: eles questionavam a autoridade de Jesus, mas se recusavam a reconhecer a autoridade de João, que havia sido enviado por Deus para preparar o caminho do Senhor. Ao rejeitarem João e sua mensagem, estavam, na realidade, rejeitando o próprio Cristo para quem João apontava. A resistência à mensagem de João revelava a dureza do coração diante da ação de Deus.

Diante de Jesus, também nós não somos chamados a calcular o que nos é mais conveniente, nem a moldar a verdade de Deus de acordo com nossos interesses. Somos chamados a ouvir sua Palavra, reconhecer sua autoridade e confiar nele como aquele que foi enviado pelo Pai para a nossa salvação. A verdadeira fé não procura desculpas para resistir à Palavra de Deus, mas, pela ação do Espírito Santo, recebe-a com humildade e confiança.

No entanto, os principais sacerdotes e anciãos consideram a possibilidade de afirmar que o batismo de João tinha origem humana. Nesse caso, estariam dizendo que João não havia sido enviado por Deus e que sua autoridade não era divina: “E, se dissermos: Dos homens, tememos o povo, porque todos consideram João como profeta” (v.26). Mas, eles mesmos sabiam que essa resposta seria problemática. João era amplamente reconhecido pelo povo como profeta, e sua pregação havia alcançado muitas pessoas. Sendo assim, eles “temiam o povo.” Aqui aparece claramente a motivação deles. O temor não era de Deus, mas das pessoas. Eles estavam preocupados com a reação do povo.

O reconhecimento de João como profeta era tão forte entre o povo que os líderes não se sentiam livres para negar isso publicamente. Eles estavam presos entre duas respostas: se dissessem que João vinha de Deus, seriam confrontados por Jesus por não terem crido nele; se dissessem que João vinha dos homens, temiam a reação do povo. Percebe-se, portanto, que o temor dos homens estava impedindo aqueles líderes de reconhecerem a verdade de Deus. Eles conheciam as implicações da questão, mas preferiam proteger sua posição em vez de se submeterem à verdade.

Depois de discutirem entre si, os principais sacerdotes e anciãos finalmente respondem a Jesus: “Não sabemos” (v.27a). Essa resposta não significa necessariamente que eles realmente desconhecessem a origem do batismo de João. Pelo contexto, eles haviam percebido claramente as consequências de cada resposta. Assim, “não sabemos” funciona como uma resposta evasiva. Eles não queriam reconhecer a verdade nem assumir as consequências de sua própria posição. Em vez de confessarem aquilo que sabiam, esconderam-se atrás de uma resposta conveniente.

Jesus então responde à atitude deles: “Nem eu vos digo com que autoridade faço estas coisas” (v.27b). Ele os havia dado uma oportunidade de responder sinceramente à sua pergunta. Contudo, diante da recusa deles em reconhecer a verdade, Jesus não continua o debate nos termos que eles desejavam. Isso mostra a sabedoria de Jesus. Ele não precisava prolongar uma discussão com pessoas que não estavam buscando sinceramente a verdade. A conversa havia revelado o verdadeiro problema daqueles líderes: eles não queriam reconhecer a autoridade de Deus quando isso os colocava diante da necessidade de arrependimento e fé.

Os líderes religiosos tinham diante de si o testemunho de João e as próprias obras de Jesus, mas não queriam reconhecer aquilo que essas evidências apontavam. Também nós somos chamados a não usar desculpas para fugir da Palavra de Deus. Quando o Senhor nos confronta com sua Lei, somos chamados ao arrependimento; quando anuncia o Evangelho, somos chamados a confiar em Cristo. A Palavra de Deus não deve ser usada apenas para satisfazer nossa curiosidade, mas recebida com fé e submissão. Jesus é o Senhor, e sua autoridade não depende do reconhecimento dos homens.

                                                                      II

Nos versículos anteriores, os principais sacerdotes e os anciãos questionaram Jesus: “Com que autoridade fazes estas coisas?” Jesus, porém, mostrou que a questão não poderia ser separada da autoridade de João Batista. Quando perguntou se o batismo de João era “do céu ou dos homens”, eles perceberam que qualquer resposta os colocaria diante da verdade. Por isso, responderam evasivamente: “Não sabemos.” É justamente nesse contexto que Jesus conta a parábola dos dois filhos. “Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. E, dirigindo-se ao primeiro, disse: Filho, vai hoje trabalhar na vinha” (v.28).

Podemos dividir o versículo em três partes: primeiro, “que vos parece?” Jesus inicia uma parábola fazendo essa pergunta. Ele deseja levar os seus ouvintes a refletirem sobre aquilo que estão ouvindo. Não apresenta simplesmente uma conclusão pronta, mas conduz os próprios interlocutores a julgarem a situação apresentada. A pergunta é importante porque, logo antes, os principais sacerdotes e anciãos haviam se recusado a responder honestamente sobre João Batista. Agora, Jesus conta uma história que os levará a confrontar a própria atitude.

Segunda parte: “um homem tinha dois filhos.” Jesus apresenta um pai e dois filhos. Os dois pertencem à mesma família e recebem uma ordem do mesmo pai. A diferença entre eles aparecerá não naquilo que dizem, mas na maneira como respondem à vontade do pai. Os dois filhos representam pessoas que ouvem a vontade de Deus, mas reagem de maneiras diferentes. Jesus está preparando seus ouvintes para compreender que não basta pertencer exteriormente ao povo de Deus ou dizer as palavras corretas. O que importa é uma resposta verdadeira à Palavra de Deus.

Terceira parte: “E, dirigindo-se ao primeiro, disse: Filho, vai hoje trabalhar na vinha.” Nesta terceira parte, Jesus apresenta o primeiro filho. O pai se dirige a ele com uma palavra de proximidade e afeto: “Filho. vai hoje trabalhar na vinha”. O termo “hoje” chama a atenção para a urgência da resposta. O pai não está falando de algo para um futuro indefinido. Há uma tarefa a ser realizada naquele momento. O convite do pai exige uma resposta concreta: ouvir sua palavra e agir de acordo com ela.

No entanto, “Ele, porém, respondeu: Sim, Senhor; porém não foi” (v.29). A resposta inicial demonstra respeito e disposição. Ele chama o pai de “Senhor” e, com suas palavras, parece aceitar prontamente o pedido. Contudo, sua atitude posterior contradiz aquilo que havia dito. Ele afirmou que iria, mas não cumpriu a ordem recebida.

Jesus mostra que não basta uma resposta correta de palavras quando ela não é acompanhada pela obediência. O primeiro filho representa aqueles que podem demonstrar exteriormente respeito por Deus, falar de maneira religiosa e até afirmar que estão dispostos a fazer a sua vontade, mas, na prática, permanecem afastados dela. Há uma diferença entre dizer “sim” a Deus com os lábios e viver esse “sim” na prática.

Entretanto, a parábola também prepara o contraste com o segundo filho. Jesus apresenta a resposta: “E, dirigindo-se ao segundo, disse-lhe o mesmo. Porém este respondeu: Não quero; depois, arrependido, foi” (v.30). Sua resposta, porém, é direta e negativa: “Não quero.” Ele não demonstra disposição para obedecer. Sua atitude inicial é de resistência à vontade do pai. Essa resposta mostra que, naquele momento, o filho estava com o coração voltado para a sua própria vontade. Ele ouve a ordem, compreende o que o pai deseja, mas decide não obedecer. Não há tentativa de justificar sua atitude; simplesmente afirma que não quer.

Jesus apresenta aqui uma realidade que também encontramos na vida daqueles que, inicialmente, rejeitam a vontade de Deus. Há pessoas que, num primeiro momento, resistem à Palavra, afastam-se de Deus ou vivem em desobediência. Entretanto, isso não precisa ser o ponto final de sua história. Pela ação da Palavra, podem reconhecer o seu pecado, arrepender-se e voltar-se para o Senhor. O que antes era um “não” pode transformar-se em uma resposta de fé e obediência.

Entretanto, algo acontece com aquele filho: “depois, arrependido, foi”. O filho reconsidera sua atitude e muda de caminho. A palavra “depois” mostra que a atitude do filho mudou. Ele não permaneceu em sua primeira decisão. O texto diz que ficou “arrependido” e, então, foi trabalhar na vinha. Aqui está o ponto central da parábola: o arrependimento produz mudança de atitude. O filho havia dito “não”, mas depois reconheceu seu erro e fez aquilo que o pai havia pedido. O arrependimento não consiste apenas em sentir tristeza pelo erro. Ele envolve reconhecer que se tomou um caminho errado e voltar-se para a vontade de Deus.

Isso também serve de advertência contra uma fé meramente exterior. Podemos falar de Deus, confessar a fé, participar da vida da igreja e usar palavras corretas, mas tudo isso precisa estar acompanhado de uma vida que reconheça a autoridade da Palavra de Deus.

                                                                      III

 Jesus agora leva seus ouvintes a uma conclusão que eles mesmos terão de reconhecer. Depois de apresentar os dois filhos, Jesus pergunta. A pergunta é simples: “Qual dos dois fez a vontade do pai?” (v.31a). Eles responderam de forma clara: “O primeiro”. Eles reconhecem que foi o primeiro filho quem fez a vontade do pai, porque, embora tenha inicialmente desobedecido, arrependeu-se e depois foi. Assim, os próprios líderes religiosos reconhecem que aquele que inicialmente recusou, mas depois se arrependeu e obedeceu, foi quem realmente fez a vontade do pai. Jesus utiliza a resposta deles para levá-los a perceber a própria incoerência.

Ele chama a atenção dos seus ouvintes para aquilo que está prestes a declarar. Não se trata de uma simples opinião, mas de uma verdade que confronta diretamente aqueles que estavam questionando sua autoridade: “Em verdade vos digo que publicanos” (31b). Essas palavras devem ter sido muito fortes para os principais sacerdotes e anciãos. Publicanos e meretrizes eram pessoas desprezadas social e religiosamente naquela sociedade. Os publicanos eram vistos como pecadores por sua associação com o sistema tributário romano, enquanto as prostitutas eram consideradas publicamente pecadoras.

Jesus agora deixa ainda mais claro e mais surpreendente: “publicanos e meretrizes vos precedem no reino de Deus” (31c). Os publicanos e as meretrizes, considerados pessoas pecadoras e desprezadas pelos líderes religiosos, estavam sendo alcançados pela mensagem de arrependimento e pela graça de Deus. A expressão “vos precedem” é especialmente significativa. Jesus não está dizendo que o pecado dessas pessoas era aceitável. O ponto é outro: aqueles que reconheciam sua condição pecaminosa e recebiam a mensagem de João estavam respondendo a Deus com arrependimento e fé. Por outro lado, os líderes religiosos, apesar de sua aparência de piedade, estavam rejeitando a mensagem de Deus.

Jesus conclui sua palavra aos líderes religiosos mostrando que o problema deles não estava na falta de oportunidade para ouvir e reconhecer a verdade. Pelo contrário, eles haviam recebido o testemunho de João Batista e haviam visto a transformação daqueles que acolheram sua mensagem. Por isso, Jesus declara: “Porque João veio a vós outros no caminho da justiça.” (v.32a). João Batista veio como mensageiro de Deus, chamando o povo ao arrependimento e preparando o caminho para Cristo. A expressão “caminho da justiça” indica que sua mensagem estava de acordo com a vontade de Deus. João não anunciava uma mensagem própria, mas chamava as pessoas a abandonarem o pecado e a confiarem naquele que viria depois dele. Também não significa que João ensinava que as pessoas poderiam conquistar a salvação por suas próprias obras. Sua pregação apontava para o arrependimento e para a fé no Salvador. Ele preparava o povo para receber Jesus.

Os principais sacerdotes e os anciãos haviam ouvido a pregação de João, mas não creram nele: “e não acreditastes nele” (v.32b). O problema não era falta de informação. Eles tiveram contato com a mensagem de João e puderam perceber que sua pregação estava relacionada às promessas de Deus, mas, mesmo assim, rejeitaram aquilo que Deus lhes dizia por meio dele. A incredulidade deles revelava uma resistência à Palavra de Deus. Ouvir a Palavra não é suficiente; é necessário recebê-la com fé e arrependimento.

Jesus apresenta um contraste muito forte: “ao passo que publicanos e meretrizes creram” (v.32c). Publicanos e meretrizes, pessoas consideradas pecadoras e desprezadas pela sociedade religiosa da época, responderam à mensagem de João com arrependimento e fé. Jesus não está dizendo que os pecados dessas pessoas eram aceitáveis. Pelo contrário, o fato de terem crido demonstra que reconheceram sua necessidade de arrependimento e da misericórdia de Deus. Aqueles que eram considerados indignos pelos homens receberam a mensagem de João e foram conduzidos à fé. Isso mostra que, no Reino de Deus, a salvação não é determinada pela posição social, pela reputação ou pelos méritos humanos, mas pela graça de Deus recebida pela fé.

Jesus volta-se novamente para os líderes religiosos. Eles não apenas tinham rejeitado inicialmente a mensagem de João; também viram o resultado da sua pregação. Viram pessoas consideradas pecadoras mudarem de atitude e se voltarem para Deus. Mesmo diante desse testemunho, permaneceram resistentes: “Vós, porém, nem depois, vendo isto” (v.32d). A expressão “nem depois” mostra que tiveram novas oportunidades para reconhecer o erro e mudar de atitude.

Mesmo assim, permaneceram sem arrependimento: “vos arrependestes para crer nele” (v.32e). A expressão “não vos arrependestes” revela o problema central. Eles não estavam simplesmente desinformados. Tinham recebido a mensagem, tinham visto seus frutos, mas continuavam resistindo.   Tiveram oportunidade de se arrepender e crer, mas não o fizeram. O arrependimento aqui envolve reconhecer o erro, abandonar a resistência à Palavra e voltar-se para Deus. A fé, por sua vez, significa confiar na promessa de Deus e receber aquele para quem João apontava: Jesus Cristo. Por isso, Jesus mostra que o problema não era falta de evidências, mas falta de arrependimento e fé. O Evangelho estava diante deles, mas eles não quiseram se voltar para Cristo e nele confiar.

Estimados irmãos! O texto nos coloca diante de uma questão fundamental: quem tem autoridade sobre a nossa vida? Os principais sacerdotes e os anciãos questionaram Jesus, querendo saber com que autoridade ele fazia aquelas coisas. Entretanto, o problema deles não era falta de informação, mas a falta de disposição para reconhecer a autoridade de Jesus. Eles ouviram a Palavra, viram as obras de Cristo, mas permaneceram resistentes e incrédulos.

A parábola dos dois filhos também nos ensina que Deus não procura apenas palavras, promessas ou aparências religiosas. O primeiro filho disse que não iria, mas depois se arrependeu e foi. O segundo disse que iria, mas não foi. Jesus mostra, assim, que a verdadeira obediência não está simplesmente naquilo que dizemos, mas em ouvir a Palavra de Deus e, pela ação do Espírito Santo, arrepender-nos e viver de acordo com a sua vontade. O arrependimento transforma a direção da vida.

Portanto, irmãos, não endureçamos o nosso coração diante da Palavra de Cristo. Reconheçamos sua autoridade, arrependamo-nos dos nossos pecados e confiemos na sua graça. Que a nossa fé não seja apenas uma declaração de palavras, mas uma fé que, alcançada pelo Evangelho, produz frutos de arrependimento, amor e obediência. Que possamos dizer “sim” ao nosso Senhor não apenas com os lábios, mas com uma vida que confia nele e procura viver segundo a sua Palavra. Amém!

TEXTO: SL 25

TEMA: COLOQUEMOS A NOSSA CONFIANÇA NO SENHOR!

O Salmo 25 é atribuído a Davi. É um dos nove Salmos acrósticos, hinos que utilizam as letras do alfabeto (22 na língua hebraica) na sequência para iniciar cada verso, linha ou estrofe. O contexto deste salmo nos mostra que Davi vivia momentos de tristezas, preocupações, angústias, aflições, bem como se sentia cercado de perigos  e ameaça. Sendo assim, ele precisa encontrar o caminho certo que o leve com segurança ao seu destino. A quem ele pode pedir ajuda? Em quem ele pode confiar? Consciente da própria fragilidade, ele clama ao Senhor, ao Deus de Israel, que nunca abandonou seu povo, pelo contrário, o guiou na longa jornada através do deserto até a terra prometida. Esta lembrança renasce no salmista a esperança do socorro. Confia plenamente nas suas promessas e no seu grande amor.

Quando falamos de confiança, precisamos nos questionar: Onde estamos colocando nossa confiança? Nas ideologias? Nas riquezas? Nas nossas forças? Na verdade, o que se observa neste mundo moderno é que a maioria das pessoas tem depositado a sua confiança em qualquer outra coisa, menos em Deus.  Davi poderia ter depositado toda a sua confiança nestas coisas, mas, escolheu confiar somente no Senhor. E você, tem confiado somente em Deus? Tem dado exemplo de fé e confiança em Deus? Lembrando que a nossa confiança não está em qualquer coisa ou em qualquer pessoa, mas sim em Deus. Deus é a nossa fortaleza. Somente Ele, com sua infinita sabedoria e misericórdia, poderá nos garantir a paz, mesmo em meio às provações e correria da vida moderna. Somente Ele poderá iluminar as trevas de nossos pecados e apontar saídas para todos os desafios.  Quando tivermos aprendido a confiar em Deus, não mais teremos medo das coisas que enfrentamos neste mundo.

Davi inicia a sua oração invocando a presença do Senhor. Durante toda a sua vida, quando se via em meio às dificuldades, adversidades e desafios, ele orava a Deus. Em sua oração, pede ao Senhor que elevasse a sua alma à sua presença, porque o seu coração estava abatido: “A ti, Senhor, elevo a minha alma.” (v.1). A expressão “elevo” significa levantar-se, aceitar, exultar. Elevar a alma ao Senhor é a maneira de andarmos ao seu lado, procurando descobrir e fazer a sua vontade em nossas vidas. Elevar a alma é agir corretamente, caminhando com segurança por estarmos na presença de Deus. E aquele que eleva a sua alma ao Senhor jamais ficará decepcionado, nunca será envergonhado.

Davi, diante da situação que estava vivendo, resolve colocar sua esperança em algo bem maior do que ajuda dos homens. Ele colocou sua confiança em Deus: “Deus meu, em ti confio.” (v.2a). Quantas vezes deixamos de confiar em Deus, pois tentamos resolver os nossos problemas baseados nas nossas forças. Quantos vezes desejamos viver a vida, ao enfrentar situações, caminhar pela estrada da nossa existência, como se pudéssemos dar conta, por nós mesmos, dos nossos problemas. Então, descobrimos que este não é o melhor caminho que conduz à presença de Deus. O melhor é confiar em Deus, como fez Davi. Uma das necessidades de Davi era de não ser envergonhado diante de seus inimigos: “não seja eu envergonhado, nem exultem sobre mim os meus inimigos.” (v.2b). Essa deve ser uma experiência terrível, ser apanhado em um ato errado, pecaminoso e ser exposto publicamente entre às pessoas.

Davi não queria passar por este tipo de situação, de ser envergonhado. É, por isso, pode dizer no versículo 3: “Com efeito, dos que em ti esperam, ninguém será envergonhado; envergonhados serão os que, sem causa, procedem traiçoeiramente”. Ele afirma desta forma, porque não confiava nas suas próprias forças, no seu poder político, nas suas riquezas, mas depositava a sua confiança no Deus misericordioso, amoroso, bondoso, verdadeiro, criador de todas as coisas. A confiança de Davi em Deus era plena, pois tinha absoluta convicção, fé, de que somente o Senhor podia livrá-lo das armadilhas, perdição, emboscadas, da morte, do pecado, das trevas. Por isso, preferiu manter seus olhos elevados na expectativa de que receberia, ajuda do Senhor através de sua oração.

Em meio às dificuldades, adversidades e desafios, o salmista suplica ao Senhor: “Faze-me, Senhor, conhecer os teus caminhos.” (v4a). Na verdade, há uma imensa vontade do salmista de andar nos caminhos humildes de Deus, de amor e fidelidade diante das suas aflições. Mas, afinal, que caminho Davi queria conhecer. É evidente que os termos “caminhos” e “veredas” não se referem à questão geográfica, mas se referem aos ensinos e orientações de Deus que Davi almejava seguir e andar em conformidade com a verdade. Ele age desta forma, porque sabia que vivendo no pecado, era impossível seguir este caminho.

O fato é que Davi percorrendo uma sucessão de maus caminhos equivocados, sem rumo e sem destino, não podia estar em comunhão com o Senhor. E por falta de vigilância, caiu em adultério e cometeu homicídio, desagradando gravemente ao Senhor. Mas ele entendeu ainda que era precisa encontrar o caminho certo, que o levasse com segurança ao seu destino: a presença do Senhor. Não queria apenas conhecer os caminhos, mas pediu ao Senhor que o “ensinasse sobre as suas veredas.” (v4b), que andasse num caminho reto, aprumado, que não permitisse andar em caminhos que o levasse à ruína, mas ao ensina da Lei.

Precisamos também pedir ao Senhor que nos ensine a conhecer os seus caminhos! Os caminhos que nos conduz à sua presença, pois vivemos num mundo emaranhado de caminhos bons e ruins. E, muitas vezes, trilhamos caminhos equivocados, que no começo parece ser o rumo certo, conduzindo para a vitória. No entanto, ficamos desapontados quando damos conta de que aquele caminho, atraente e promissor, tornou-se perigoso, confuso, prejudicial. Estes não são os caminhos que conduz à presença do Senhor. Mas para conhecer estes caminhos é preciso mudanças na nossa vida, pois o nosso coração precisa de limpeza. Precisa ser trocado, pois ele é egoísta, mundano, influenciado pelo pecado, e não pode ouvir a voz de Deus, seguir suas orientações e o caminho que Ele nos propõe a seguir. Quer andar nos caminhos do Senhor? Quer deixar de viver uma vida injusta? Quer andar nos caminhos de integridade, de obediência? Quer fazer a vontade de Deus?  Só existe um caminho: siga ao Senhor!

O salmista ainda esclarece que para andar nos caminhos do Senhor, requer um espírito submisso aos seus ensinamentos (Lei), como indicam os verbos no imperativo do versículo 5: “Guia-me na tua verdade e ensina-me, pois tu és o Deus da minha salvação, em quem espero todo o dia." Davi tinha a necessidade de conhecer a verdade de Deus. Essa verdade revela o Deus que ajuda, socorre, aqueles que nele esperam (v.3), entre os quais está o salmista. A sua esperança é persistente, constante e incansável, durante o “dia todo”, esperando o socorro do Senhor.

A linguagem é a de um coração profundamente impressionado com a sensação da misericórdia e da bondade de Deus.: “Lembra-te, Senhor, das tuas misericórdias e das tuas bondades, que são desde a eternidade.” (v.6). O verbo lembrar significa recordar, trazer a mente, fazer um memorial. Davi lembra de dois atributos divinos que fazem parte da aliança de Deus com o seu povo, as suas misericórdias e o seu amor verdadeiro. São palavras que expressam a atitude de forte compaixão e do amor de Deus, é que se concretiza no perdão e na salvação de seu povo. Davi neste momento, ao orar ao suplicar esses atributos ao Senhor, Ele está consciente de que não pode existir nenhum andar nos caminhos do Senhor, sem a bondosa, ajuda dele e sem sua graça e misericórdia.

Acima de tudo, o “lembrar” do salmista inclui o perdão dos seus pecados: “não se lembre dos meus pecados da mocidade, nem das minhas transgressões. (v.7a). O salmista suplica ao Senhor que não se lembre de seus pecados do passado. Não se lembre dos pecados da sua mocidade, nem das transgressões. Sendo assim, ele ora a Deus para que todas as ofensas desse período de sua vida, possam ser perdoadas e esquecidas. Portanto, ao examinar sua própria vida, o autor do salmo viu que as misericórdias de Deus eram incessantes e constantes para com ele desde os primeiros anos. Não somente ao salmista, mas a todo o povo, proporcionado muitas dádivas. No seu entender, esses atos de misericórdia e bondade nunca falharam. Deus é sempre bom. amoroso, misericordioso.

Quanta vezes também suplicamos como o salmista: “Lembra-te, Senhor, das tuas misericórdias e das tuas bondades...não se lembre dos meus pecados da mocidade, nem das minhas transgressões.” Suplicando ao Senhor que vem nos socorrer quando enfrentamos a angústia e dor, quando as tentações nos assaltam ou quando sofrimentos nos sobrevêm por causa de enfermidades e preocupações pela subsistência da vida em tempos difíceis e pelo perdão dos nossos pecados, pois o pecado destroe o nosso relacionamento com Deus. Lembra-te! É uma ação que tem como pressuposto o passado. Não há como lembrar-se sem olhar para trás e ver a ações de Deus em nossa vida. É isso o que devemos fazer também todos os dias. Precisamos nos achegar a Deus, nos humilharmos para alcançarmos o perdão de nossos pecados pois, enquanto não fizermos isso, não poderemos ter nenhuma paz, nenhum alívio para a nossa alma.

O salmista clama pelo perdão divino e reconhece que o Senhor é um guia fiel e gracioso Ele apresenta dois adjetivos do caráter sublime do Senhor.  “Bom e reto é o Senhor.” (v.8a). Ambos os adjetivos aparecem unidos, indicando a bondade e retidão que Deus revela em sua Lei e espera que os homens as pratiquem como aquilo que é “bom” e “reto” aos olhos do Senhor. É o próprio Senhor quem estabelece do que é reto e justo para o seu povo e a humanidade. Por isso, sempre que pecamos, devemos nos achegar a Deus com um coração contrito, arrependido, humilhado, e desejoso do perdão. Ele nos ouve e nos perdoa, pois é compassivo e misericordioso para conosco. Ele nunca nos esquece.  

E uma das formas de Deus nos mostrar a sua bondade é pelo fato Dele “apontar o caminho aos pecadores” (v.8b), e nos guia na justiça neste caminho, pois o Senhor é o próprio caminho. (v. 9). Ele também nos orienta pelas “veredas do Senhor que são misericórdia e verdade.” (v.10a). Nessas veredas, Deus demonstra seu caráter de “misericórdia e verdade”, dois termos que aparecerem juntos, que indicam o amor misericordioso e compromisso fiel de Deus para com os seus, expressos em salvação e cuidado protetor. Isto é para os que guardam a sua aliança e os seus testemunhos.” (v.10b). De fato, quando pertencemos ao Senhor, o nosso objetivo é guardar a sua aliança, pois as veredas do Senhor são caracterizadas por sua aliança de amor e sua fidelidade para com aqueles que guardam. Ao fazermos isso, o Senhor nos guia com segurança através do mundo de perigos em direção ao seu objetivo final.

O que se observa é que o salmista adquire uma nova confiança ao refletir sobre o nome do Senhor. Ele demonstra uma expressão de confiança: “Por causa do teu nome, Senhor, perdoa a minha iniquidade, que é grande.” (v.11). Sem condições em si de alcançar o perdão divino, o salmista clama para que o Senhor lhe conceda a graça com base em seu próprio nome. O “nome” aponta para a existência, caráter e reputação do Senhor, em como a revelação de sua glória na Criação e Redenção (Sl 8.1; 124.8; Êx 19.5-6). Foi com base em seu nome que o Senhor salvou e confirmou sua aliança com Israel (Êx 3.14ss; 6.2-8). Trouxe de volta o seu povo quando se desviou da sua verdade. É por causa da sua bondade que o salmista almeja do Senhor o perdão de seus pecados. Por maior que seja seu pecado, o perdão de Deus, “por causa de (seu) nome”, é maior. O nome do Senhor abrange mais do que apenas sua bondade. Representa tudo o que Ele é. Por isso, Davi se dirige ao Senhor desta forma, porque ele sabe que a sua iniquidade “é grande”. Isso significa que ninguém além de Deus pode tirá-lo. E assim é, pois a iniquidade pode ser grande, o perdão de Deus é maior (Sl 103.3; Sl 103.10-12).

Depois de entender a grandeza de seus pecados e da necessidade de perdão, o salmista agora menciona com que tipo de homem Deus tratará: “Ao homem que teme ao Senhor,  ele o instruirá no caminho que deve escolher” (v.12). Mas quem é o homem que teme ao Senhor?  É aquele que atende aos seus requisitos, isto é, reconhece que o Senhor é santo, todo-poderoso, reto, puro, onisciente, sábio. Ao olhar a Deus à luz disto, vemo-nos como somos: pecadores, débeis, frágeis e necessitados. Quando reconhecemos quem é Deus e quem somos, caímos humilhados a seus pés. Ele ensinará, irá nos guiar e instruir-nos no caminho que devemos seguir ou, em outras palavras, da maneira certa. Como é maravilhoso saber que o Senhor sempre nos orienta pelo Espírito de sabedoria a escolhermos o caminho certo. Mas esta instrução só pode ser desfrutada pelo “homem que teme ao Senhor”.

Portanto, o salmista apresenta quatro benefícios específicos que são prometidos ao homem que teme ao Senhor. Primeiro, ele será ensinado no caminho que deve escolher. Será guiado pelo Senhor em suas escolhas. Em segundo lugar, na prosperidade repousará a sua alma (v.13a). O termo alma é usado simplesmente para designar um indivíduo, ser, vida, pessoa. Para “homem que teme ao Senhor,” o resultado será uma vida interior repleto de paz. Em terceiro lugar, sua descendência herdará a terra. (v.13b). “Herdar a terra” basicamente significa receber a herança prometida por Deus. Os filhos que seguirem seus passos “herdarão a terra”. Eles terão seu lar na terra sob o governo do Messias.

Esse homem abençoado desfrutará do benefício da instrução espiritual: “Intimidade do Senhor é para os que o temem, aos quais ele dará a conhecer a sua aliança.” (v.14). O termo hebraico סֹוד traduzido por intimidade, significa literalmente “conselho confidencial.” Sugere uma comunicação íntima e duradoura com o Senhor. E Ele também os fará conhecer o real significado de “Sua aliança”. Eles saberão que em Cristo, o Senhor cumpriu todas as condições da aliança e que, com base nisso, desfrutarão de todas as bênçãos. (Jr 31:31-34). As bênçãos da aliança que serão sua porção, podem ser resumidas em ter uma comunhão confidencial com o Senhor, na qual Ele revela seus pensamentos.

Como consequência dessas bênçãos, o salmista mantém seus olhos fixos no Senhor: “Os meus olhos se elevam continuamente ao Senhor, pois ele me tirará os pés do laço.” (v.15). Quando o salmista afirma que seus olhos estavam fixos em Deus, estava declarando que apesar das aflições, dos problemas que estava vivendo; da perplexidade, dúvida, dificuldade, perigo em vista da morte e do mundo futuro, ele olhou para Deus como seu guia, e depositou a sua esperança em Deus. E movido pela certeza da libertação que virá do Senhor, ele afirma: “Ele me tirará os pés do laço”. Para onde estamos olhando? Há pessoas que olham constantemente para trás, para justificar suas queixas, para murmurar dos tropeços, para lamentar as derrotas; outras desistem facilmente, não lutam e nem se esforçam, não perseveram quando sofrem o primeiro revés, esquecem de olhar para o alto   e pedir socorro ao Senhor. Deus nunca deixará aqueles que tem seus olhos voltados para o céu sem receber socorro.

Davi encerra a série de orações com uma súplica a Deus por livramento da sua angústia. Em várias ocasiões, Davi se sentiu sozinho diante das suas aflições e, assim, longe de Deus. Sendo assim, ele suplica ao Senhor. Ele apresenta suas aflições a Deus e pede que o alivie: “Volta-te para mim e tem compaixão, porque estou sozinho e aflito.” (v.16). Dá nos entender que a face de Deus, voltou-se para outra direção. Então, o salmista suplica que o Senhor esteja atento a ele, que se volte e o contemple, demonstrando a sua compaixão.

Qual era o motivo? Estava sozinho e aflito. O termo יָחִיד significa estar sozinho, solitário. Então, aquele está sozinho é um abandonado, miserável. Não há tristeza mais profunda que venha à mente do que a ideia de que estamos sozinhos no mundo, e que não temos um amigo; que ninguém se importa conosco; que ninguém está preocupado com nada que possa nos acontecer; que ninguém se importaria se morrêssemos; que ninguém derramaria uma lágrima por nós. E o termo עָנִי significa pobre, aflito, humilde, miserável. Ocorre que David, vivia. muitas vezes, nesta situação. Situação que lembra os seus pecados de sua infância, os desígnios e propósitos de seus inimigos.

No entanto, o salmista olha para Deus, em oração, com a esperança de não se achar desprovido de tal apoio diante de seus sofrimentos. Ele suplica: “Alivia-me as tribulações do Coração; tira-me das minhas angústias.” (v.17). Note como o salmista tinha consciência das aflições que estava enfrentado. Sabendo desta situação, ele recorre a Deus. Em outra ocasião, ele também suplicou. Ele demonstrou a sua confiança no Senhor: “Na minha angústia, clamo ao Senhor, e ele me ouve” (Sl 120.1). Ele confiou no Senhor, pois já o havia restaurado antes, e, certamente, poderia fazer o mesmo naquela situação que estava passando. Enquanto estivermos neste mundo a nossa vida é uma eterna luta diante das tribulações e as dificuldades pelas quais passamos. Quanto de nós não viveu aquelas horas em que olhamos ao redor e nos sentimos tão angustiados que não conseguimos pensar em nenhuma solução para o problema que estamos passando. Parece que a tribulação nos cerca de todos os lados.  Porém, em meio aos problemas aparentemente avassaladores, Deus prometeu nos livrar. Ele sempre está com aquele que tem o coração atribulado.

Davi busca a presença do Senhor e o alívio das suas tribulações, ainda admitindo que seu sofrimento estava vinculado ao seu pecado: “Considera as minhas aflições e o meu sofrimento e perdoa todos os meus pecados.” (v.18). O verbo רָאָה significa ver, examinar, inspecionar, perceber, considerar. O segundo verbo נָשָׂא significa levantar-se, erguer, carregar, tomar. Isto significa que o salmista suplica para que o Senhor olhe com compaixão para a sua aflição e sofrimento. Mas ao dizer “carrega meus pecados”, a ideia do salmista é ser perdoado dos seus pecados e ser liberto de seu domínio. Seus pecados realmente o preocupavam. Davi foi perdoado imediatamente após ter reconhecido sua culpa quando cometeu adultério: “Então Davi disse a Natã: "Pequei contra o Senhor”! E Natã respondeu: "O Senhor perdoou o seu pecado. Você não morrerá.” (2 Sm 12.13).  

 O salmista se apega à sua íntegra retidão e confiança no Senhor, a fim de pedir a Deus que o salve de seus inimigos, bem como resgate Israel de suas aflições. Este é o último clamor de Davi nesse salmo. Ele pede por socorro.  Entretanto, seu desejo é que os olhos de Deus repousem, dessa vez, sobre seus inimigos e sobre o mal que lhe têm feito. Ele afirma: “Considera os meus inimigos, pois são muitos e me abominam com ódio cruel.” (v.19). Eis o motivo da aflição de Davi: inimigos que, sem limites, o perseguem e querem sua destruição.

A vida de Davi foi marcada por muitos inimigos. Saul e todos os seus homens perseguiram Davi. Golias e uma multidão de filisteus eram seus inimigos. Os zifeus, uma tribo da mesma região que Davi, o traíram (1 Samuel 23.19). Assim havia mais adversários do que companheiros na vida de Davi. Até seu próprio filho querido, organizou uma rebelião enorme contra ele. Por isso, havia motivo para dizer: Senhor, considera os meus inimigos, pois são muitos e me abominam com ódio cruel. A Bíblia mostra que os nossos inimigos são muitos. Eles são vigorosos e poderosos. Eles fingem ser amigos em nossa presença, mas falam mal por trás das nossas costas. Eles gritam e oprimem. São conspiradores e destruidores.

Assim, depois de o salmista abrir seu coração a Deus dizendo-lhe o que o aflige, roga para que o Senhor o guarde: “Guarda-me a alma e livra-me.” (v.20a). A expressão “alma”, nesse texto, tem a intenção de apontar para o salmista. Ele não quer apenas proteção espiritual, mas livramento das mãos dos que o odeiam. Para tanto, a sua reação foi procurar refúgio no Senhor: “não seja eu envergonhado, pois em ti me refugio.” (v.20b). O termo בּוּשׁ no hebraico significa envergonhar, ser envergonhado, ficar embaraçado, ficar desapontado. Diante de tamanho perigo, Davi suplica para que o Senhor o guarde, livre e salve da vergonha por causa da sua confiança em Deus. A verdade é que aqueles que confiam em Deus nunca terão vergonha. 

Ainda que o cenário seja de adversidade, Davi encontra em Deus seu mais alto refúgio, e essa certeza resulta em alegria. Sua segurança será a sua sinceridade (integridade) e a retidão (v.21), e sua certeza estará em esperar no Senhor. O termo תֹּם no hebraico significa a condição de ser sem defeito, perfeição, sinceridade, solidez, retidão, inteireza. E o termo יָשָׁר significa retidão, integro, honesto. Dois termos importantes que o salmista necessitava em sua vida, e ele pede ao Senhor que as preservasse. Na Bíblia, temos o exemplo de Jó. Ele foi elogiado por ser um homem íntegro, reto, temente a Deus e que se desvia do mal. (Jó 1.1). Viver com integridade em um mundo onde os corruptos parecem favorecidos, é um desafio.

Finalizando, o salmista expande a sua oração à nação que também necessita da graça de Deus: “Ó Deus, redime a Israel de todas as suas tribulações." (v.22). Ele reivindica para Israel aquilo que pediu para si mesmo, e transforma uma petição pessoal em hino para a congregação inteira. Ocorre que o salmista vê o clamor do povo para que o Senhor redima Israel de suas tribulações como um desejo semelhante ao do profeta Jeremias diante da agonia do cerco babilônico e do Exílio (Jr 31.11).

Estimados irmãos! Davi nos deu um grande exemplo de confiança em Deus. Ele não confiou em qualquer coisa ou em qualquer pessoa, mas, escolheu confiar somente no Senhor. Ele venceu sua angústia e viu mais uma vez Deus se manifestar em sua vida. E você, tem confiado somente em Deus? Lembrem-se: quando colocamos a nossa confiança no Senhor, nada pode abalar a nossa estrutura, pois a confiança no Senhor produz uma firmeza inigualável. É certo que lutas veem e virão. Muitas aflições, muitas provas, muitas dúvidas e sofrimentos. Mas, por fim, a promessa é que sempre haverá firmeza, até a eternidade. Portanto, não hesite em suplicar ao Senhor diante das suas aflições, pois aqueles que confiam e que esperam no Senhor renovarão as suas forças e encontrarão soluções para vencer. Amém