quinta-feira, 3 de setembro de 2026

 TEXTO: RM 13.1-10

TEMA: O CRISTÃO VIVE EM AMOR E RESPONSABILIDADE

No capítulo 12, Paulo ensinou que o cristão deve oferecer sua vida a Deus como um sacrifício vivo, santo e agradável. Ele também apresentou diversos ensinamentos sobre o amor cristão, o serviço ao próximo, a humildade, a prática do bem e a necessidade de viver em paz com todos, tanto quanto depender de nós.

Agora, no capítulo 13, Paulo  apresenta importantes orientações para a vida cristã diária. Ele mostra que a fé recebida pela graça de Deus produz frutos visíveis. O amor a Deus se manifesta no amor ao próximo; a submissão ao Senhor se reflete também no respeito à ordem estabelecida; e a nova vida em Cristo conduz o cristão a viver com responsabilidade diante das pessoas e da sociedade. Assim, somos chamados a compreender que o cristão vive neste mundo como alguém transformado pela graça de Deus, demonstrando sua fé por meio do amor e da responsabilidade em sua vida diária.

Por isso, Romanos 13.1-10 destaca duas áreas importantes da vida cristã: a responsabilidade diante das autoridades e o amor para com o próximo. O cristão respeita as autoridades, cumpre seus deveres e, acima de tudo, reconhece que existe uma dívida que nunca termina: a dívida do amor.

A partir deste texto, veremos três verdades: primeiro, o cristão deve respeitar as autoridades; segundo, o cristão não deve viver em dívida com o próximo; e, terceiro, o amor é o cumprimento da Lei.

Primeiro,  o cristão deve respeitar as autoridades (vv 1-7). Paulo ensina que Deus estabeleceu as autoridades para promover a ordem e a organização da sociedade. Por isso, o cristão é chamado a respeitar as autoridades constituídas e cumprir seus deveres como cidadão. Isso não significa concordar com tudo o que uma autoridade faz, pois toda autoridade humana também está sujeita à Palavra de Deus. Paulo destaca o pagamento de impostos e tributos, mostrando que o cristão deve ser responsável e honesto em seus compromissos. Também deve demonstrar respeito e honra àqueles que exercem funções de autoridade. A obediência às autoridades, porém, nunca pode estar acima da obediência a Deus. Assim, o cristão procura viver de maneira correta, responsável e pacífica na sociedade.

Segundo,  o cristão não deve viver em dívida com o próximo ( v.8). O cristão deve procurar cumprir suas obrigações e honrar seus compromissos, especialmente aqueles relacionados ao próximo. Entretanto, existe uma dívida que nunca termina: a dívida do amor. Nunca podemos pensar que já amamos suficientemente as pessoas ao nosso redor, pois o amor deve acompanhar continuamente a vida cristã. Amar significa servir, ajudar, perdoar, suportar e procurar o bem do próximo. Esse amor não depende apenas de sentimentos ou de receber algo em troca, mas nasce da vontade de Deus. O cristão ama, porque foi primeiro amado por Deus. Portanto, enquanto estivermos neste mundo, continuaremos tendo a oportunidade e a responsabilidade de demonstrar o amor de Cristo às pessoas.

Terceiro,  o amor é o cumprimento da lei (vv 9-10). Paulo afirma que “quem ama o próximo tem cumprido a lei”. O verdadeiro amor impede que pratiquemos o mal contra aqueles que estão ao nosso redor. Quem ama não mata, não adultera, não furta e não cobiça, porque deseja preservar e fazer o bem ao próximo. Dessa maneira, o amor não elimina os mandamentos de Deus, mas demonstra sua aplicação concreta na vida. O amor cristão não é apenas uma palavra ou um sentimento, mas uma atitude que procura o bem do outro. Quando amamos, respeitamos, servimos, perdoamos e cuidamos das pessoas. Esse amor tem sua origem no próprio Deus, que nos amou e enviou Cristo para nossa salvação. Por isso, aquele que foi alcançado pelo amor e pelo perdão de Cristo é chamado a viver esse mesmo amor em seus relacionamentos.

                                                              I

Paulo inicia este texto ensinando sobre a maneira como o cristão deve viver em relação às autoridades constituídas. Ele mostra que o cristão é chamado a viver de maneira responsável, respeitosa e consciente diante das autoridades. Por isso, afirma: “Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores” (v.1a). A expressão “todo homem” mostra que essa orientação não é dirigida apenas a algumas pessoas, mas a todos. Nenhum cristão está excluído desse ensinamento. Todos somos chamados a reconhecer e respeitar as autoridades estabelecidas na sociedade.

Entretanto, ao falar em sujeição às autoridades, Paulo não está ensinando uma submissão sem limites, mas uma atitude de respeito e responsabilidade dentro da ordem estabelecida por Deus. Por isso, a palavra “sujeito” não significa que o cristão deva considerar toda autoridade humana perfeita ou concordar com tudo o que ela faz. Também não significa uma obediência cega e absoluta. As autoridades humanas são exercidas por pessoas pecadoras e, portanto, podem cometer erros, praticar injustiças e até ordenar coisas contrárias à vontade de Deus. Quando uma autoridade exige que o cristão desobedeça claramente à Palavra de Deus, permanece o princípio ensinado pelos apóstolos: “Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29).

É justamente nesse ponto que Paulo nos conduz a olhar para além das autoridades humanas e a reconhecer Deus, que está acima de todas elas. O cristão sabe que existe um Deus soberano e que, mesmo em um mundo marcado pelo pecado, Ele continua sendo o Senhor sobre todas as coisas. Tudo tem sua origem e existência debaixo da soberania de Deus, inclusive as estruturas de autoridade. A Palavra de Deus nos lembra essa verdade quando Paulo afirma: “não há autoridade que não proceda de Deus” (v. 1b). Nenhuma autoridade existe fora do conhecimento, do controle e da permissão de Deus. Isso não significa que Deus aprove todas as atitudes ou decisões daqueles que exercem o poder, mas significa que nenhuma autoridade humana está acima de sua soberania. Por isso, nossa segurança definitiva não está em quem ocupa uma posição de poder, mas naquele que possui todo poder e toda autoridade. Governantes passam, governos mudam e autoridades falham, mas Deus permanece soberano e continua no controle de todas as coisas.

Depois de ensinar que todo cristão deve estar sujeito às autoridades superiores e afirmar que não existe autoridade que não proceda de Deus, o apóstolo conclui apresentando uma verdade fundamental: “as autoridades que existem foram por Deus instituídas” (v.1c). Essa afirmação mostra que a autoridade, como princípio e estrutura de governo, faz parte da ordem que Deus estabeleceu para a vida humana. Quando Paulo afirma que as autoridades foram instituídas por Deus significa, primeiramente, que Deus permite e estabelece estruturas de autoridade para a organização da sociedade. Deus criou o ser humano para viver em comunidade, mas, com a entrada do pecado no mundo, a convivência humana passou a ser marcada pelo egoísmo, pela violência, pela injustiça e pela busca de poder. Por isso, Deus utiliza as autoridades para organizar a sociedade, estabelecer limites, proteger as pessoas e conter o avanço do mal.

Paulo continua seu ensinamento dizendo: “De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação” (v.2). Agora, o apóstolo apresenta a consequência para aqueles que deliberadamente se colocam contra a ordem estabelecida. Paulo não está defendendo uma obediência cega a qualquer governante, nem afirmando que tudo o que uma autoridade faz é aprovado por Deus. Ele está ensinando que o cristão não deve cultivar uma atitude permanente de rebeldia, desprezo ou desrespeito contra as autoridades constituídas.

O problema não é simplesmente discordar de uma autoridade. O cidadão pode discordar de uma lei, questionar uma decisão ou manifestar sua opinião diante de uma injustiça. O problema está em rejeitar a própria autoridade e agir deliberadamente contra a ordem e as leis que organizam a sociedade. Quando alguém se coloca contra a autoridade simplesmente, porque não aceita qualquer limite para sua liberdade, acaba contribuindo para a desordem e para o enfraquecimento da convivência social.

Paulo deixa evidente que “aquele que se opõe à autoridade”, consequentemente, “resiste à ordenação de Deus”. Essa afirmação precisa ser compreendida corretamente. Deus estabeleceu a autoridade como instrumento para preservar a ordem e conter o mal em uma sociedade marcada pelo pecado. Portanto, desprezar toda e qualquer autoridade significa rejeitar uma estrutura que Deus permite para o bem da vida em sociedade. O cristão não deve ser conhecido por sua rebeldia, mas por sua responsabilidade, respeito e disposição para contribuir para o bem comum.

Ao mesmo tempo, precisamos lembrar que a autoridade humana não é absoluta. Quando uma autoridade exige aquilo que claramente contradiz a Palavra de Deus, o cristão não pode obedecer. Os apóstolos nos deixaram esse princípio: “Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29). Assim,Paulo não elimina a responsabilidade de discernimento do cristão. Pelo contrário, ensina que devemos respeitar a autoridade sem jamais colocá-la acima do próprio Deus.

Paulo conclui dizendo que aqueles que resistem “trarão sobre si mesmos condenação”. Aqui encontramos também a realidade das consequências. Quem desobedece às leis e desafia deliberadamente as autoridades pode sofrer as penalidades estabelecidas pela própria sociedade. A autoridade possui justamente a função de estabelecer limites e aplicar consequências quando esses limites são violados. Dessa maneira, o cidadão que age de forma irresponsável não pode simplesmente ignorar as consequências de seus atos.

Como cidadãos deste mundo e, ao mesmo tempo, cidadãos do reino de Deus, devemos cumprir nossos deveres, respeitar as autoridades, obedecer às leis justas, pagar aquilo que é devido e buscar a paz e o bem da sociedade. Mesmo quando discordamos de quem governa, somos chamados a agir com respeito e equilíbrio.A grande questão para o cristão não é apenas: “O que o governo está fazendo?”; mas também: “Como eu estou vivendo como cristão dentro desta sociedade?” Nossa conduta deve demonstrar que pertencemos a Cristo. Podemos discordar sem odiar, questionar sem promover violência, defender a justiça sem abandonar o amor e exercer nossa cidadania sem perder de vista nossa cidadania celestial.

Paulo continua seus ensinamentos. Ele agora explica uma das principais funções da autoridade: promover a ordem, combater o mal e reconhecer aqueles que praticam o bem: “Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela” (v.3). A primeira parte do versículo apresenta uma realidade muito simples: quem pratica o bem não precisa viver com medo da autoridade. O cidadão que respeita as leis, cumpre seus deveres e procura viver corretamente não deve ter como objetivo fugir das autoridades ou temê-las constantemente. A autoridade existe justamente para preservar a ordem e proteger a sociedade daqueles que praticam o mal.

Paulo faz uma distinção entre quem pratica o bem e quem pratica o mal. O temor da autoridade está relacionado principalmente àquele que viola as leis e prejudica o próximo. O criminoso teme a autoridade, porque sabe que seus atos podem trazer consequências. Já aquele que procura viver corretamente pode ter uma relação tranquila com as autoridades. Isso demonstra que a autoridade possui uma função importante: estabelecer limites para o mal e favorecer uma sociedade organizada. Quando ele afirma: “faze o bem e terás louvor dela”, ele mostra que o propósito da autoridade não é simplesmente punir. A autoridade também deve reconhecer e favorecer aqueles que fazem o que é correto. O governo ideal deve criar condições para que o cidadão possa viver com segurança, liberdade e dignidade. Dessa forma, a autoridade cumpre uma função positiva na sociedade, e não apenas repressiva.

Esse princípio também traz uma aplicação importante para a vida cristã. O cristão não deve ser conhecido como alguém que vive em conflito permanente com as autoridades. Pelo contrário, sua maneira de viver deve demonstrar honestidade, responsabilidade e respeito. O cidadão cristão procura cumprir suas obrigações, respeitar as leis e fazer o bem ao próximo. Sua vida deve ser um testemunho da fé que professa , diante de muitas autoridades que nem sempre cumprem perfeitamente sua função. Existem governos injustos e autoridades que podem agir de maneira incorreta.

Portanto, Paulo nos chama a refletir sobre nossa própria conduta. Antes de reclamar das autoridades, precisamos perguntar: Estou fazendo o bem? Estou cumprindo minhas responsabilidades? Minha vida contribui para a ordem e para o bem da sociedade? O cristão não deve apenas exigir direitos; deve também assumir responsabilidades.

Paulo continua explicando a função das autoridades e afirma: “Visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal” (v.4). Paulo apresenta uma verdade ainda mais profunda: a autoridade é “ministro de Deus”. A palavra “ministro” mostra que a autoridade não existe simplesmente para exercer poder ou satisfazer os interesses de quem governa. Ela possui uma função e uma responsabilidade diante de Deus. Mesmo quando aquele que ocupa o cargo não reconhece o Senhor, sua função de autoridade continua debaixo da soberania divina. Quando Paulo afirma que a autoridade é “ministro de Deus para teu bem”, ele destaca o propósito positivo do governo. A autoridade deve trabalhar para o bem da sociedade, protegendo a vida, promovendo a ordem, defendendo os direitos e criando condições para que as pessoas possam viver em segurança. Portanto, exercer autoridade não é apenas possuir poder sobre outras pessoas; é receber uma responsabilidade em benefício do próximo.

Paulo ainda acrescenta: “Entretanto, se fizeres o mal, teme”. Aqui, aparece novamente a função da autoridade de combater o mal. O governo possui a responsabilidade de estabelecer limites e aplicar consequências àqueles que violam as leis e prejudicam o próximo. Isso não significa que toda punição humana seja perfeita, mas que a existência de mecanismos de justiça é necessária em uma sociedade marcada pelo pecado. Paulo aponta para o poder que a autoridade possui para punir o mal: “não é sem motivo que ela traz a espada”. A “espada” representa o poder coercitivo da autoridade civil, isto é, sua capacidade de aplicar sanções e proteger a sociedade. Paulo não está incentivando a violência, mas reconhecendo que uma autoridade que não possui meios para impedir ou punir o mal teria dificuldade para cumprir sua função de preservar a ordem.

É importante perceber, porém, que a autoridade não recebe a espada para agir de maneira arbitrária. Ela deve utilizá-la para combater o mal e promover a justiça. Quando a autoridade pune o inocente, protege o criminoso ou utiliza seu poder para interesses pessoais, ela está abusando da responsabilidade que recebeu. Mas há também uma aplicação muito importante para nós. Se a autoridade é “ministro de Deus para teu bem”, o cristão deve compreender que obedecer às leis justas e respeitar as autoridades faz parte de sua responsabilidade como cidadão. Não devemos procurar constantemente maneiras de escapar de nossas obrigações. Somos chamados a viver honestamente, cumprir nossos deveres e contribuir para o bem da sociedade.

Depois de explicar que as autoridades existem dentro da ordem estabelecida por Deus e que possuem a responsabilidade de promover o bem e combater o mal, Paulo mostra que a relação do cristão com as autoridades não deve ser baseada somente no medo das consequências. Ele afirma: “É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência” (v.5). O cristão não deve obedecer às leis simplesmente, porque teme receber uma multa, ser punido ou sofrer alguma consequência. A motivação é mais profunda: “por dever de consciência”. Isso significa que o cristão reconhece diante de Deus que viver de maneira responsável e respeitosa na sociedade faz parte de sua vocação. A consciência cristã sabe que Deus deseja ordem, responsabilidade e respeito nas relações humanas. Por isso, o cristão procura cumprir suas obrigações não apenas, porque existe uma lei que o obriga, mas porque deseja viver de maneira agradável a Deus.

É importante lembrar que a verdadeira obediência cristã não nasce apenas do medo da punição, mas de uma consciência orientada pela vontade de Deus. O cristão cumpre seus deveres, porque deseja honrar ao Senhor também por meio de sua vida pública e de sua cidadania. Diante desta constatação, podemos perguntar: Como tenho exercido minha cidadania? Sou conhecido como alguém responsável, honesto e respeitador? Cumpro meus deveres ou procuro sempre encontrar maneiras de fugir deles? Respeito as autoridades mesmo quando discordo delas? Sei apresentar minha discordância de maneira respeitosa e responsável?

Paulo continua dizendo: “Por esse motivo também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo constantemente a este serviço” (v.6). Ele apresenta uma aplicação concreta dessa verdade: o pagamento dos tributos.  Primeiro, ele aponta para tudo o que  acabou de ensinar: “por esse motivo.” A expressão significa por esta razão, por causa disso ou em consequência do que foi dito anteriormente.Paulo está afirmando, por causa de toda essa responsabilidade e reconhecimento da função da autoridade, o cristão também deve cumprir suas obrigações civis, entre elas o pagamento de tributos. Enfim, o cristão deve respeitar as autoridade por dever de consciência e também deve cumprir corretamente suas obrigações civis. Entre essas obrigações está o pagamento dos impostos e tributos estabelecidos pelas autoridades.

É justamente nesse sentido que Paulo acrescenta a expressão: “atendendo constantemente a este serviço”. Com essas palavras, ele mostra que as autoridades exercem continuamente a função que lhes foi confiada. Elas não foram estabelecidas apenas para ocupar uma posição de poder, mas para realizar um serviço em favor da organização e da preservação da sociedade. Paulo destaca, portanto, que a autoridade possui uma responsabilidade permanente. Por exercer continuamente esse serviço, o cristão também é chamado a reconhecer suas obrigações como cidadão e a contribuir honestamente para a manutenção dos serviços necessários à vida em sociedade. Ele deve pagar aquilo que é legitimamente devido, respeitar as leis e contribuir para o bem comum.  Não deve ser conhecido pela desonestidade, pela sonegação, pela corrupção ou pela tentativa de obter vantagens indevidas.

Paulo ainda afirma: “Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra” (v.7). O apóstolo amplia sua orientação e mostra que o cristão deve procurar dar a cada pessoa aquilo que lhe é devido. Aqui, encontramos um princípio importante para a vida cristã: o cristão deve agir com responsabilidade, honestidade, respeito e honra em seus relacionamentos. Quando Paulo diz “pagai a todos o que lhes é devido”, ele está ensinando que existem obrigações que precisam ser cumpridas.  Aquilo que é devido deve ser entregue. Aquilo que precisa ser cumprido deve ser cumprido. Essa orientação alcança tanto as obrigações financeiras como também as relações sociais e o respeito devido às pessoas.

Paulo menciona primeiro: “a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto”. Ele reforça aquilo que já havia ensinado no versículo anterior. O cristão deve cumprir honestamente suas obrigações financeiras para com o Estado. Não deve procurar meios desonestos para escapar daquilo que legitimamente deve. A fé cristã não elimina nossas responsabilidades civis; pelo contrário, ensina-nos a cumpri-las de maneira correta.

Em seguida, Paulo acrescenta algo que vai além do dinheiro: “a quem respeito, respeito”. O respeito é uma atitude que reconhece a posição e a responsabilidade que uma pessoa exerce. Isso não significa considerar uma autoridade infalível, nem concordar com todas as suas decisões. Podemos discordar de uma autoridade e, ao mesmo tempo, tratá-la com respeito. Discordar não significa necessariamente desrespeitar. O cristão pode questionar uma decisão, denunciar uma injustiça e defender aquilo que é correto, mas deve fazê-lo de maneira responsável e respeitosa.

Depois, Paulo afirma: “a quem honra, honra”. Honrar significa reconhecer aquilo que é digno de reconhecimento. A autoridade deve ser tratada com honra por causa da função que exerce. Isso não significa colocar o governante no lugar de Deus, muito menos transformar uma autoridade humana em objeto de idolatria. Significa reconhecer que Deus estabeleceu estruturas de autoridade para a organização da sociedade e que aqueles que ocupam essas funções carregam uma responsabilidade que deve ser respeitada.

No entanto, muitas vezes, pensamos primeiro nos nossos direitos e somente depois nas nossas responsabilidades. Queremos ser respeitados, mas nem sempre respeitamos. Queremos receber, mas nem sempre estamos dispostos a dar. Queremos que os outros cumpram suas obrigações, mas podemos negligenciar as nossas. Precisamos examinar nossa maneira de viver: Estamos cumprindo aquilo que devemos? Somos honestos em nossas obrigações? Tratamos as autoridades com respeito, mesmo quando discordamos delas? Honramos aqueles que merecem honra? Temos sido pessoas responsáveis em nossos relacionamentos?

                                                                 II

Paulo agora apresenta uma nova aplicação para a vida cristã. Depois de falar sobre os deveres que devemos cumprir para com as autoridades e ensinar que devemos dar a cada um aquilo que lhe é devido, ele afirma: “A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros; pois quem ama o próximo tem cumprido a lei” (v. 8). Quando Paulo diz: “A ninguém fiqueis devendo coisa alguma”, ele está ensinando que o cristão deve agir com responsabilidade e honestidade em seus compromissos. Não deve viver deliberadamente deixando de cumprir aquilo que deve aos outros. Deve procurar honrar seus compromissos, cumprir sua palavra e agir corretamente em suas responsabilidades. A vida cristã não combina com a irresponsabilidade, a desonestidade ou a tentativa de tirar vantagem do próximo.

Mas Paulo imediatamente apresenta uma exceção: “exceto o amor com que vos ameis uns aos outros”. Essa é uma maneira muito bonita de ensinar que o amor cristão nunca chega ao ponto de podermos dizer: “Já fiz tudo o que devia fazer; agora não preciso mais amar”. Pelo contrário, enquanto vivermos neste mundo, sempre haverá oportunidade e necessidade de amar, servir, perdoar, ajudar e fazer o bem ao próximo.A dívida do amor é diferente das demais dívidas. Uma dívida financeira pode ser quitada. Depois que pagamos o que devemos, a obrigação termina. Mas o amor cristão é uma dívida permanente. Nunca chegamos ao ponto de dizer que já amamos suficientemente o nosso próximo. Sempre podemos amar mais, servir mais, perdoar mais e demonstrar maior consideração pelos outros.

No entanto, Paulo não está falando aqui de um sentimento superficial ou simplesmente de simpatia. O amor cristão é uma atitude concreta em favor do próximo. É procurar o bem do outro, ajudá-lo em suas necessidades, perdoá-lo quando nos ofende, falar a verdade, evitar aquilo que pode prejudicá-lo e agir com misericórdia. O amor verdadeiro não permanece apenas nas palavras; ele se manifesta em atitudes. Paulo também corrige uma compreensão equivocada da vida cristã. Não basta cumprir leis, pagar impostos e respeitar autoridades. Tudo isso é importante, mas Deus deseja mais: que o cristão viva em amor para com o próximo. Podemos ser pessoas corretas diante das leis e, ainda assim, ter um coração cheio de rancor, orgulho, inveja e falta de misericórdia. Paulo nos conduz para uma dimensão mais profunda da vida cristã.

Então, ele conclui: “pois quem ama o próximo tem cumprido a lei”. O amor resume a vontade de Deus para os relacionamentos humanos. Quem ama verdadeiramente não deseja matar, roubar, adulterar, mentir ou prejudicar o próximo. O amor leva a pessoa a respeitar, proteger, honrar e buscar o bem do outro. Isso não significa que o amor substitui os mandamentos de Deus. Pelo contrário, o amor é justamente aquilo que dá sentido ao cumprimento dos mandamentos. Quando amamos o próximo, procuramos viver de acordo com aquilo que Deus ordena. O amor não elimina a lei; ele expressa o propósito da lei no relacionamento com o próximo.

Quando olhamos para nós mesmos, percebemos que, muitas vezes, falhamos justamente nesse ponto. Nem sempre amamos como deveríamos. Somos rápidos para julgar, lentos para perdoar, facilmente ofendidos e, muitas vezes, preocupados apenas com nossos próprios interesses. Precisamos amar mais. Antes de tudo, precisamos olhar para aquele que nos amou perfeitamente: Jesus Cristo.Cristo não nos amou porque éramos dignos de seu amor. Ele nos amou quando ainda éramos pecadores. Não esperou que nós pagássemos nossa dívida diante de Deus. Ele tomou sobre si a nossa dívida e a pagou completamente na cruz. O apóstolo Paulo escreve em outro lugar: “havendo riscado o escrito de dívida que era contra nós [...] removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz” (Cl 2.14).

 Portanto, a vida cristã começa não com aquilo que fazemos por Deus ou pelo próximo, mas com aquilo que Deus fez por nós em Cristo. Fomos amados, perdoados e reconciliados com Deus pela graça. Agora, alcançados por esse amor, somos chamados a amar nosso próximo.

Isto é especialmente importante para a vida da igreja. A comunidade cristã deve ser um lugar onde o amor de Cristo é visto de maneira concreta. Isso significa que não podemos viver presos a mágoas, disputas, ressentimentos e interesses pessoais.Na igreja, haverá diferenças de opinião, personalidades diferentes e situações que podem gerar conflitos. Porém, o cristão é chamado a olhar para o irmão não como um adversário, mas como alguém por quem Cristo também morreu.

Por isso, podemos perguntar: Que tipo de testemunho estamos dando por meio dos nossos relacionamentos? As pessoas conseguem perceber o amor de Cristo em nossa maneira de tratar umas às outras? Ou nossa maneira de viver demonstra apenas cobrança, julgamento e ressentimento?

                                                                    III

Depois de afirmar, no versículo anterior, que aquele que ama o próximo cumpre a lei, Paulo agora mostra de maneira prática o que significa esse amor. Ele apresenta alguns dos mandamentos de Deus que regulam diretamente o nosso relacionamento com outras pessoas. Paulo, afirma: “Pois isto: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e, se há qualquer outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (v.9a).

Vejamos o que nos diz o primeiro mandamento citado por Paulo: “Não adulterarás”. Deus estabeleceu esse mandamento para proteger o casamento e a família. O amor verdadeiro não destrói o relacionamento conjugal, não invade aquilo que pertence ao outro e não usa outra pessoa para satisfazer desejos egoístas. Pelo contrário, amar o próximo significa respeitar o casamento, a família e a dignidade de cada pessoa. O amor cristão também exige pureza de pensamentos, palavras e atitudes, procurando honrar a Deus e preservar aquilo que Ele estabeleceu.

Em seguida, Paulo afirma: “Não matarás”. O amor não procura destruir a vida do próximo; pelo contrário, procura preservá-la, protegê-la e promover o seu bem. O mandamento não se refere apenas ao ato físico de tirar a vida, mas também nos leva a rejeitar o ódio, a violência, a vingança e toda atitude que possa prejudicar deliberadamente o próximo. O cristão é chamado não somente a evitar o mal, mas também a fazer o bem, cuidando da vida e das necessidades daqueles que Deus coloca em seu caminho.

Depois aparece o mandamento: “Não furtarás”. O amor não toma para si aquilo que pertence ao próximo. Quem ama respeita os bens, o trabalho e os direitos das outras pessoas. A desonestidade, o roubo, a fraude e toda tentativa de obter vantagem em prejuízo do próximo contradizem diretamente o amor cristão. Pelo contrário, o amor leva o cristão a agir com honestidade, contentamento e responsabilidade, procurando o bem do próximo e não aquilo que pode ser obtido às suas custas.

Paulo ainda acrescenta: “Não cobiçarás”. Aqui, o mandamento alcança o coração e os desejos mais profundos do ser humano. É possível que uma pessoa nunca roube aquilo que pertence ao próximo, mas ainda assim deseje de maneira egoísta aquilo que ele possui. A cobiça revela um coração insatisfeito, que olha para os bens, as conquistas ou a situação do outro e pensa: “Eu também quero isso”. O amor cristão, porém, conduz ao contentamento com aquilo que Deus nos concede e nos ensina a alegrar-nos com o bem do próximo, sem inveja, ciúme ou desejo de tomar para nós aquilo que pertence a ele.

Paulo então resume todos esses mandamentos dizendo: “tudo nesta palavra se resume: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” . Essa afirmação nos mostra que o amor não é simplesmente mais uma regra entre muitas outras. O amor expressa o propósito dos mandamentos de Deus para os nossos relacionamentos com o próximo. Quem verdadeiramente ama não deseja prejudicar o outro, não procura tirar dele aquilo que lhe pertence, não destrói sua família e não alimenta desejos egoístas contra ele. Pelo contrário, procura respeitar, proteger, ajudar e promover o bem do próximo.

Jesus ensinou esse mesmo princípio quando resumiu a lei nos dois grandes mandamentos: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo (Mt 22.37-40). O amor ao próximo, portanto, não está separado da vontade de Deus, mas é a sua expressão prática nos relacionamentos humanos. Amar significa tratar o outro com o mesmo cuidado e consideração que desejamos receber. Significa olhar para suas necessidades, respeitar seus direitos, preservar sua dignidade e procurar o seu bem.

A Palavra de Deus mostra que não conseguimos cumprir perfeitamente esse mandamento. Nós não amamos o próximo como deveríamos. Muitas vezes, amamos aqueles que nos amam, mas temos dificuldade de amar aqueles que nos ofendem, nos contrariam ou pensam de maneira diferente de nós. Por isso, as palavras de Paulo não deve ser apenas um chamado para “tentar amar mais”. Mas a necessidade de olhar para Cristo.Na cruz, Jesus demonstrou o maior amor possível: entregou sua própria vida para salvar aqueles que estavam perdidos em seus pecados.Cristo cumpriu perfeitamente a lei em nosso lugar. Ele amou a Deus e ao próximo perfeitamente. Sua justiça é oferecida gratuitamente ao pecador que confia nele.Por isso, a vida cristã não começa com a nossa capacidade de amar, mas com o amor que recebemos de Deus em Cristo. “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4.19).

Depois de apresentar vários mandamentos — não adulterar, não matar, não furtar e não cobiçar — Paulo chega a uma conclusão clara: quem verdadeiramente ama o próximo não procura fazer-lhe mal. Por isso, ele afirma: “O amor não pratica o mal contra o próximo”(v. 10a). A primeira afirmação do versículo é muito significativa. Paulo não está dizendo simplesmente que o amor evita alguns pecados específicos. Ele apresenta um princípio abrangente para toda a vida cristã. Quem ama não deseja destruir o casamento do outro, não procura tirar sua vida, não rouba seus bens, não age de maneira desonesta e não alimenta desejos egoístas por aquilo que pertence ao próximo.

Paulo, portanto, mostra que o amor cristão não é apenas um sentimento ou uma palavra bonita. O amor se manifesta em atitudes concretas. Quem ama respeita, protege, serve, perdoa, ajuda e procura fazer o bem. Dessa maneira, o amor cumpre aquilo que os mandamentos de Deus determinam em relação ao próximo. Quando o coração é conduzido pelo amor, o cristão não pergunta apenas o que é permitido ou proibido, mas procura viver de maneira que honre a Deus e beneficie aqueles que estão ao seu redor. É nesse sentido que Paulo afirma: “o cumprimento da lei é o amor.”

Enfim, Paulo conclui o texto dizendo: “de sorte que o cumprimento da lei é o amor” (v. 10b). Isso não significa que o cristão possa abandonar os mandamentos de Deus e simplesmente dizer: “Eu amo”. O amor verdadeiro não é uma alternativa à lei de Deus. Pelo contrário, o verdadeiro amor conduz a pessoa a viver de acordo com aquilo que Deus ordena. Quem ama procura colocar em prática a vontade de Deus em seus relacionamentos com o próximo.Se amamos o nosso próximo, não vamos querer prejudicá-lo. Se amamos nosso cônjuge, procuraremos preservar a fidelidade matrimonial. Se amamos o próximo, não tiraremos aquilo que lhe pertence. Se amamos, não desejaremos sua ruína, mas procuraremos o seu bem. Se amamos, estaremos dispostos a ajudar, servir, perdoar e estender a mão àquele que necessita. Assim, o amor não elimina os mandamentos; ele os coloca em prática no relacionamento com o próximo.

Estimados irmãos!Paulo ensina que o cristão deve viver de maneira responsável diante das autoridades e da sociedade. Deve respeitar as autoridades, cumprir seus deveres, pagar aquilo que é devido e agir com honestidade, sabendo que toda autoridade está debaixo da soberania de Deus.

Acima de todas essas responsabilidades está a dívida do amor. O cristão é chamado a amar o próximo, porque “o cumprimento da lei é o amor” (v. 10). Esse amor se manifesta em atitudes concretas: respeito, serviço, perdão, honestidade e busca pelo bem do próximo.

Contudo, reconhecemos que nem sempre conseguimos viver assim. Por isso, nossa esperança está em Cristo, que cumpriu perfeitamente a lei e nos amou até a cruz. Como pessoas perdoadas pela graça, somos chamados a viver em amor e responsabilidade, honrando a Deus, respeitando as autoridades e servindo ao próximo.

Que nossa vida seja um testemunho de que pertencemos a Cristo: responsáveis diante da sociedade, respeitosos diante das autoridades e, acima de tudo, comprometidos em amar o próximo. Amém.

 

terça-feira, 1 de setembro de 2026

 TEXTO: MT 18.1-20

TEMA: A ATITUDE DO CRISTÃO  NO REINO DOS CÉUS

 O capítulo 18 do Evangelho de Mateus apresenta importantes ensinamentos de Jesus sobre a conduta que deve caracterizar os relacionamentos entre os cristãos no reino dos céus. Nesse capítulo, Jesus trata de temas fundamentais para a vida da comunidade cristã, como a humildade, o cuidado com os pequeninos, a busca pela ovelha perdida, a disciplina eclesiástica, o perdão e a reconciliação entre os irmãos. Ele também faz parte do último grande discurso de Jesus antes de sua viagem a Jerusalém, onde cumpriria sua missão de sofrer, morrer e ressuscitar. Assim, seus ensinamentos apontam para a maneira como seus discípulos deveriam viver em comunhão, cuidando uns dos outros e buscando sempre a restauração daqueles que se afastassem do caminho.

No texto de hoje, Jesus prepara seus discípulos não apenas para os acontecimentos que estavam por vir, mas também para a maneira como deveriam viver e se relacionar como comunidade daqueles que pertencem ao seu Reino. Os discípulos estavam preocupados com uma questão: “Quem é, porventura, o maior no reino dos céus?” (v.1). A pergunta revela que eles ainda pensavam em termos de posição, grandeza e reconhecimento. Jesus, porém, mostra que os valores do Reino são diferentes dos valores deste mundo.

Enfim, o cristão é chamado a viver com humildade, ter cuidado para não fazer tropeçar os pequeninos, buscar aquele que se afastou e procurar a reconciliação com o irmão. Esses ensinamentos mostram que a vida cristã não está centrada em “quem é o maior”, mas em como podemos servir e cuidar uns aos outros. No reino de Deus, a verdadeira grandeza não está em dominar ou ser reconhecido, mas em humilhar-se, confiar em Cristo e amar o próximo.

Por isso, ao meditarmos sobre o texto, precisamos nos questionar:  Qual deve ser a nossa atitude diante do reino de Deus? Jesus apresenta quatro atitudes fundamentais que devemos ter:

Primeiro, o cristão deve ter uma atitude de humildade (vv. 1-5). Os discípulos perguntaram a Jesus quem seria o maior no reino dos céus. Jesus respondeu apresentando uma criança como exemplo de humildade. No reino de céus, a verdadeira grandeza não está em posição, poder ou reconhecimento. Jesus ensina que é necessário converter-se e tornar-se como uma criança, reconhecendo nossa dependência de Deus. A criança representa simplicidade, confiança e humildade. O cristão não deve buscar superioridade nem reconhecimento diante dos outros, mas reconhecer sua necessidade da graça de Deus. A humildade leva o cristão a confiar no Senhor e a servir ao próximo. No reino de céus, a verdadeira grandeza está em se humilhar diante de Deus e confiar em Cristo.

Segundo, o cristão deve cuidar para não fazer tropeçar os pequeninos ( vv. 6-9).O cristão deve cuidar para não fazer tropeçar os pequeninos. Jesus apresenta uma séria advertência contra aqueles que levam ao pecado “um destes pequeninos que creem em mim” (v.6). O cristão precisa compreender que suas palavras, atitudes e exemplos podem influenciar a fé e a vida espiritual de outras pessoas. Por isso, deve vigiar sua própria conduta e evitar tudo aquilo que possa conduzir o irmão ao pecado. Jesus usa uma linguagem forte para mostrar a gravidade de ser causa de tropeço. Ao mesmo tempo, ensina que devemos tratar o pecado com seriedade e estar dispostos a abandonar aquilo que nos afasta de Deus. No reino de céus, o cristão não vive apenas pensando em si, mas também procura proteger, fortalecer e edificar a fé dos seus irmãos.

Terceiro,o cristão deve buscar o irmão que se afastou (vv. 10-14). Jesus ensina que o cristão não deve ser indiferente ao irmão que se afastou. Na parábola da ovelha perdida, o pastor deixa as noventa e nove e procura a que se perdeu.Isso demonstra o grande valor que cada pessoa tem diante de Deus. O afastamento de um irmão deve despertar em nós preocupação e amor. A Igreja é chamada a procurar aqueles que estão distantes e ajudá-los a retornar. Essa busca deve ser feita com paciência, amor e espírito de restauração. Deus não deseja que nenhum dos seus pequeninos pereça. Assim, o cristão imita o amor de Cristo, que veio buscar e salvar o perdido.

Quarto, o cristão deve buscar a reconciliação (vv. 15-20). Jesus ensina que o cristão deve buscar a reconciliação quando surge um conflito ou quando um irmão peca contra outro. O primeiro passo é conversar pessoalmente com o irmão, com amor e humildade.O objetivo não é humilhar, acusar ou condenar, mas “ganhar o irmão” (v.15). Se ele não ouvir, Jesus orienta que outras pessoas sejam envolvidas para ajudar na reconciliação.A comunidade cristã deve tratar o pecado com seriedade, mas sempre buscando a restauração do irmão.O perdão e a reconciliação devem ocupar um lugar central na vida do povo de Deus.Jesus também mostra a importância da comunhão da Igreja reunida em seu nome.No reino os céus, o cristão não alimenta conflitos, mas procura perdoar, reconciliar e restaurar.

                                                               I

Vivemos em uma época em que o segundo lugar não tem grande importância.O importante é ser o primeiro.Esta é a grande preocupação do homem: ser o primeiro,o maior,o vitorioso;conquistar sucesso,honra,medalhas, poder,status, aparência e destaque na vida .Não importa o meio pelo qual se obterá o sucesso. Não importa se causa prejuízo ao seu semelhante e à sociedade. Também não importa como e por qual meio, honesto ou não. O que importa é a fama, o sucesso em alcançar o objetivo.

Este reflexo da nossa sociedade, também estava presente na vida dos discípulos,quando, certa vez, Jesus estava caminhando para Jerusalém,  não para conquistar um reino deste mundo, mas para dar a sua própria vida,os discípulos fizeram uma pergunta a Jesus:  “Quem é, porventura, o maior no reino dos céus?”(v.1). Essa pergunta demonstrava que alguns discípulos estavam preocupados com a questão da grandeza. Estavam preocupados com promoções e posições importantes dentro do reino do céus.Sendo assim,imaginavam que Jesus escolheria  um deles para ser o maior.Escolheria um para ocupar o cargo mais alto administrativo quando Jesus estabelecesse Seu Reino.

Na verdade, os discípulos tinham um conceito equivocado sobre o reino dos céus. Eles imaginavam apenas um reino físico, visível, exterior, terreno e político, que lhes possibilitaria receber honras, ocupar posições importantes e obter vantagens pessoais.

Eles não estavam satisfeitos com aquilo que possuíam. O chamado de Jesus para serem “pescadores de homens” parecia não ser suficiente. Para eles, essa posição não bastava.Enfim, os discípulos ainda não queriam ajustar plenamente a sua vida ao plano divino, pois alimentavam seus próprios sonhos, expectativas e ambições. Precisavam aprender que o reino dos céus  não é fundamentado no poder, na glória e nas honras humanas, mas no serviço, na humildade e na submissão à vontade de Deus.

Naquele momento,Jesus poderia dar a resposta aos discípulos.Mas não deu! Ele age de outra forma. Chama então uma criança, coloca-a no meio dos discípulos e afirma: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus” (v.3 ). O que Jesus queria dizer?Através do exemplo das crianças,Jesus estabelece determinados principios.

Primeiro: “Em verdade vos digo.” Jesus usou, muitas vezes, esta expressão quando precisava confrontar alguém que não compreendia Sua mensagem ou que duvidava dele e do que Ele pregava.É uma declaração que afirma ou confirma uma verdade muito importe e solene.E o que segue após esta verdade deve ser recebido, refletido, assimilado e obedecido.Sendo assim, Jesus  está fazendo uma afirmação “veemente”, “forte”, “ousada” sobre quem Ele é, aos discípulos!

Segundo: “se não vos converterdes.” Jesus fala em conversão  para os discípulos. O verbo usado é στρέφω, que significa  virar, girar, mudar a conduta, mudar a mente.Ele enfatiza a necessidade de conversão, de uma mudança de mentalidade para aqueles que desejam fazer parte do reino dos céus.Isto quer dizer que  os discípulos teriam que mudar o modo,como eles estavam agindo. São chamados a viver a renuncia, mudança de  conduta, constantemente, e não apenas em um momento da vida.

Terceiro: “e se não vos tornardes como crianças.” Mas o que é “se tornar como criança”?Primeiro precisamos fazer uma analise de uma criança. No antigo oriente a criança representava a ordem mais baixa da camada social. Não decidiam absolutamente nada. A criança não tinha poder, status ou direito. Elas eram dependentes, vulneráveis e totalmente sujeitadas a autoridade do pai.  Como se observa, a criança precisava dos pais para tudo. Não poderia sobreviver sem a ajuda dos pais, não poderia se alimentar nem aprender a andar sem a ajuda dos pais.Portanto,eram totalmente dependentes.

Jesus não está dizendo que seus discípulos deveriam literalmente tornar-se crianças. Na verdade, Ele está ensinando: “Quer realmente ser importante? Quer ser o maior?” Então, saiba que isso não acontecerá por meio do poder ou do domínio sobre os outros, da ambição pessoal, da busca por prestígio, publicidade ou benefícios individuais. No reino do céus, não é uma posição de destaque que torna alguém importante, mas determinadas características que as crianças possuem e que os discípulos precisam aprender. Jesus está afirmando que o maior no reino dos céus é aquele que reconhece a sua dependência. Assim como uma criança é totalmente dependente, o ser humano deve reconhecer a sua carência e incapacidade de alcançar, por seus próprios méritos, o reino dos céus.

Depois de corrigir o conceito equivocado dos discípulos sobre a grandeza no reino dos céus, Jesus apresenta um princípio completamente diferente daquele valorizado pelo mundo. Os discípulos queriam saber quem seria o maior, mas Jesus mostra que a verdadeira grandeza não está no poder, na posição, na fama ou no reconhecimento. No reino dos céus, os valores são diferentes: o maior é aquele que se humilha. Jesus afirma: “Portanto, aquele que se humilhar como esta criança, esse é o maior no reino dos céus.” (v.4). A criança colocada por Jesus no meio dos discípulos torna-se um exemplo da atitude que eles deveriam possuir: humildade. Humilhar-se significa abandonar a pretensão de grandeza, deixar de confiar em si mesmo e reconhecer a própria incapacidade diante de Deus. O pecador não pode conquistar o reino dos céus por suas obras, méritos, posição ou importância. Ele precisa aproximar-se de Deus com humildade, reconhecendo sua necessidade da misericórdia divina.

Portanto, a verdadeira grandeza no reino dos céus não consiste em estar acima dos outros, mas em colocar-se humildemente diante de Deus e servir ao próximo. Quem reconhece que nada possui para oferecer, como mérito diante de Deus e confia somente em Cristo, aprende o verdadeiro significado da grandeza.Jesus não apenas ensinou sobre a humildade; Ele próprio é o maior exemplo de humildade. Aquele que é o Filho eterno de Deus deixou a glória dos céus e veio ao mundo para servir e salvar os pecadores. Ele não buscou honra, poder ou reconhecimento humano. Jesus declarou: “Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos” (Mc 10.45). Sua vida foi marcada pelo serviço, pela entrega e pela obediência ao Pai.

Diante do foi exposto,precisamos nos questionar: O que estamos buscando em nossa vida cristã? Reconhecimento, posições, honra e prestígio? Ou desejamos humildemente servir a Cristo e ao próximo? Jesus nos ensina que o maior no reino dos céus não é aquele que procura ser servido, mas aquele que reconhece sua dependência de Deus e vive para servir.

Jesus deixa isso ainda mais evidente quando afirma: “Quem receber uma criança, tal como esta, em meu nome, a mim me recebe” (v. 5). Lemos também em Marcos: “Qualquer que receber uma criança, tal como esta, em meu nome, a mim me recebe; e qualquer que a mim me receber, não recebe a mim, mas ao que me enviou” (Mc 9.37).

Receber uma criança por causa do nome de Jesus é uma maneira de receber o próprio Jesus. É um sinal de nossa comunhão com Deus. Lemos em Colossenses 3.17: “E tudo o que fizerem, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus.”

Portanto, receber uma criança, tão dependente, vulnerável e totalmente sujeita à autoridade do pai, sempre foi uma atitude valorizada por Jesus. Ele sempre as tratou com amor. Ele as amava. Certo dia, algumas crianças foram levadas até Jesus para serem abençoadas por Ele, os discípulos achavam que não seria importante a presença dessas crianças na convivência com Jesus. Jesus não gostou dessa atitude. Vendo isso, “indignou-se” e disse: “Deixai vir a mim os pequeninos, não os embaraceis, porque dos tais é o reino de Deus.” Isso demonstra que  as crianças não são desprezadas por Deus. Pelo contrário, são recebidas com amor e cuidado por Jesus.

                                                                     II

Jesus, mais uma vez, usa as crianças como comparação. Agora, emprega o termo de forma mais abrangente, utilizando-o no plural, certamente referindo-se aos vários “pequeninos” que estavam ali presentes. Ele afirma: “Qualquer, porém, que fizer tropeçar a um destes pequeninos que creem em mim” (v. 6a).Na verdade, Jesus amplia o conceito de “pequenino” para aqueles que foram convertidos, que seguem a Jesus e o aceitam pela fé .Há  uma ligação muito bonita entre os versículos 1–5 e 6–14: Jesus começa falando de uma criança (παιδίον) como exemplo de humildade e depois fala dos “pequeninos” (μικροί). Esse termo usado por Jesus, não se limita à idade física, mas aponta para todos os que pertencem a Cristo pela fé. Jesus ensina que esses pequeninos são preciosos para Deus e, por isso, jamais devem ser desprezados, escandalizados ou conduzidos ao pecado.

Jesus insiste que, no discipulado cristão, não devemos ser causa de tropeço para ninguém, especialmente para aqueles que creem nele, isto é, para os seus “pequeninos”. Jesus usa o verbo grego σκανδαλίζω que  significa colocar uma pedra de tropeço ou um obstáculo no caminho, fazendo com que outra pessoa tropece e caia. No sentido espiritual, significa levar alguém ao pecado, enfraquecer sua fé ou contribuir para que se afaste de Cristo. Jesus trata esse assunto com muita seriedade porque a vida e o testemunho de um cristão podem influenciar profundamente a fé de outra pessoa. Nossas palavras, atitudes, exemplos e decisões podem fortalecer ou enfraquecer aqueles que caminham conosco. Por isso, o discípulo de Jesus precisa ter cuidado para não usar sua liberdade de maneira irresponsável, nem agir de modo que possa prejudicar espiritualmente o próximo.

 No entanto,Jesus continua sendo severo nas suas colocações, para aqueles que impedem ou faz tropeçar um destes pequeninos que tem fé. É nessa perspectiva que Ele adverte ao afirmar aos discípulos: “melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma grande pedra de moinho, e fosse afogado na profundeza do mar.” (v.6b).Pendurar uma pedra de moinho ao pescoço de um homem, e afogá-lo no mar, era o castigo mais terrível,pois era uma sentença de morte certa.Por isso, é preciso ter cuidado para que os “pequeninos crentes”  não se escandalizem, nem tropecem na fé.Para Jesus é melhor morrer do que causar danos aos pequeninos que acreditam na sua mensagem.

Isso demonstra que Jesus se coloca ao lado dos seus “pequeninos”. Ele os valoriza, acolhe e deseja protegê-los. Por isso, condena com muita seriedade qualquer atitude que possa se tornar motivo de escândalo ou tropeço para a fé de outra pessoa. Ele afirma: “Ai do mundo, por causa dos escândalos; porque é inevitável que venham escândalos, mas ai do homem pelo qual vem o escândalo!” (v. 7).A expressão “ai” possui, na linguagem bíblica, o sentido de lamentação, dor e pesar, mas também pode assumir o sentido de advertência, condenação e juízo. Jesus está alertando solenemente aqueles que, por suas palavras, atitudes, comportamentos ou exemplos, tornam-se instrumentos de tropeço na vida espiritual de outras pessoas.

Jesus reconhece que “é inevitável que venham escândalos”. Esta é uma grande verdade. Enquanto vivermos neste mundo marcado pelo pecado, haverá situações que poderão causar tropeço e levar pessoas a pecar. O “ai” pronunciado por Jesus revela a gravidade dessa responsabilidade. Muitas vezes, podemos nos tornar pedras de tropeço no caminho de outros, especialmente dos irmãos mais fracos na fé. Por isso, precisamos cuidar para que nossas palavras, atitudes e ações não sejam motivo de escândalo na vida dos pequeninos de Jesus, levando-os a tropeçar ou até mesmo a se afastar da fé.Deus não quer que sejamos pedras de tropeço na vida de ninguém. Se uma atitude nossa ou uma ação de nossa parte levar um irmão a pecar diante de Deus, precisamos reconhecer o nosso erro, arrepender-nos e buscar corrigir aquilo que fizemos. Como cristãos, somos chamados não a colocar obstáculos no caminho dos outros, mas a ajudá-los a permanecer firmes na fé e a caminhar com segurança ao lado de Cristo.

Jesus adverte ainda os discipulos:  “Portanto, se a tua mão ou o teu pé te faz tropeçar, corta-o e lança-o fora de ti; melhor é entrares na vida manco ou aleijado do que, tendo duas mãos ou dois pés, seres lançado no fogo eterno. Se um dos teus olhos te faz tropeçar, arranca-o e lança-o fora de ti; melhor é entrares na vida com um só dos teus olhos do que, tendo dois, seres lançado no inferno de fogo.” (vv. 8 e 9 ). Evidentemente, Jesus não está dizendo aos discipulos que deveriam mutilar o seu corpo. Essa é uma linguagem figurada, mas extremamente forte, que demonstra a máxima seriedade com que deveriam tratar o pecado. Sendo assim,  Jesus quer despertar seus discípulos para a gravidade do pecado e para suas consequências eternas.

Mas o que representam para a nossa vida essas imagens? A mão, o pé e o olho representam, de maneira figurada, diferentes aspectos da nossa vida e também os meios pelos quais podemos ser conduzidos ao pecado. A mão pode representar aquilo que fazemos; o pé, os caminhos pelos quais andamos; e o olho, aquilo que vemos, desejamos e permitimos entrar em nosso coração. Isto significa que Jesus está ensinando que tudo aquilo que se torna uma ocasião de pecado precisa ser tratado com seriedade. Se algum hábito, comportamento, relacionamento, ambiente ou desejo está constantemente nos afastando de Deus, precisamos reconhecer o perigo e tomar providências.

É importante também observar que o problema fundamental não está nas mãos, nos pés ou nos olhos. O pecado não desapareceria simplesmente pela mutilação do corpo, pois sua raiz está no coração humano. O próprio Jesus ensina que é do interior do ser humano que procedem os maus pensamentos e os pecados. Por isso, a verdadeira necessidade do ser humano é a transformação do coração pela graça de Deus.As palavras de Jesus, portanto, é um convite à santificação. O discípulo de Cristo deve estar disposto a renunciar até mesmo àquilo que lhe parece importante ou precioso, se isso estiver se tornando um obstáculo entre ele e Deus. Nada neste mundo deve ocupar um lugar tão importante que possa nos afastar de Cristo.

Portanto, é necessário cortar o mal pela raiz, evitando más influências e corrigindo, com amor e disciplina, atitudes que prejudicam os irmãos mais fracos na fé. As mãos, os pés e os olhos devem ser instrumentos para o bem: mãos que praticam o amor e a caridade, pés que vão ao encontro do próximo e olhos que buscam aquilo que é bom. Assim, somos chamados a servir ao Senhor e ao próximo, vivendo de maneira que ninguém seja impedido de crer na mensagem de Jesus.

Jesus estabelece também um contraste entre duas realidades diante das nossas decisões: “ melhor é entrares na vida com um só dos teus olhos do que, tendo dois, seres lançado no inferno de fogo”. A expressão “entrar na vida” aponta para a vida eterna e para a comunhão definitiva com Deus. Já o “fogo eterno”, por sua vez, revela a seriedade do juízo e das consequências eternas da rejeição a Deus. Mas o que significa ser “lançado no fogo eterno” ou “no inferno de fogo?”

O termo grego traduzido por inferno é γεεννα. Este termo  significa literalmente “vale de Hinom”, um lugar que ficava próximo de Jerusalém. Nos tempos bíblicos, esse vale era usado como depósito de lixo. O fogo era mantido constantemente aceso para queimar todos os detritos.  Onde recém-nascidos eram abandonados por alguma deformação e onde corpos de “indignos” eram lançados para apodrecer. Era comum haver fogo consumindo os gases em decomposição. O que não era destruído pelo fogo era consumido por larvas.

Jesus usa esta palavra como um símbolo apropriado para descrever o perverso e sua destruição futura. (Mateus 23.33).Ele descreve o lugar para aqueles que se rebelam contra Deus.É um lugar terrível! Será um castigo eterno. Sobre este lugar Isaías afirma: “E realmente sairão e olharão para os cadáveres dos homens que transgrediram contra mim; pois os próprios vermes sobre eles não morrerão e o próprio fogo deles não se apagará. (Isaías 66.24).

Portanto, Jesus utiliza uma linguagem deliberadamente severa para despertar a consciência dos seus discípulos. O pecado não deve ser tratado com indiferença, como algo pequeno ou sem importância. Ele precisa ser reconhecido, confessado e abandonado. Não se trata de uma mutilação física, mas de uma renúncia espiritual e prática ao pecado.

                                                                III

Jesus se volta novamente para os pequeninos . O fato  é que Ele está  preocupado com o cuidado de seus filhos amados: “Vede, não desprezeis a qualquer destes pequeninos; porque eu vos afirmo que os seus anjos nos céus veem incessantemente a face de meu Pai celeste.” (v.10).Portanto,tomem cuidado para receber e não ofender o crente mais fraco de Cristo.A primeira instância desse cuidado é “que os seus anjos nos céus veem incessantemente a face de meu Pai celeste.” Isto significa que estes anjos que vivem na presença do Pai,possuem um ministério especial de cuidar dos que não podem cuidar de si mesmos,  aqueles que creem no Seu Filho (v. 6).As Escrituras ensinam que anjos guardam e ministram ao povo de Deus (Sl 91.11; Hb 1.14), e que a estes seres espirituais podem ser atribuídas áreas específicas de responsabilidade (Dn 12.1).

A maior demonstração de que o Pai se preocupa e cuida dos pequeninos foi o envio de seu Filho ao mundo. Jesus veio salvar o que estava perdido (v.11). Isso significa que Deus não rejeita um coração quebrantado, nem manda embora aqueles que vêm a Ele. Pelo contrário, recebe os pecadores e, com seu amor, consola e acalma o coração angustiado por causa do pecado. Ele está de braços abertos, chamando-nos e convidando-nos a voltar para junto dele.

Jesus ilustra esse grande amor por meio da parábola da ovelha perdida, utilizando uma imagem muito conhecida tanto no Antigo quanto no Novo Testamento: a figura do pastor que conduz suas ovelhas aos pastos verdejantes e às águas tranquilas. Dessa forma, Ele reforça o cuidado, a paciência e a fidelidade que Deus sempre demonstrou para com o seu rebanho e para com cada pessoa individualmente.Os pastores da Palestina também demonstravam esse amor pelas suas ovelhas. Eram experientes em encontrar suas ovelhas. Eram capazes de seguir os rastros de uma ovelha perdida por longas distâncias e enfrentavam precipícios, montanhas e lugares perigosos para encontrá-la e devolvê-la ao rebanho.

É justamente essa imagem que Jesus apresenta no texto. Quando um pastor perdia uma ovelha, ele saía em busca daquela que havia se desviado: “Que vos parece? Se um homem tiver cem ovelhas, e uma delas se extraviar, não deixará ele nos montes as noventa e nove, indo procurar a que se extraviou?”(v.12)Para pastor, as noventa e nove não eram suficientes. Por maior que fosse o rebanho, aquela única ovelha continuava sendo importante e preciosa.Ele estava disposto a fazer todo esforço necessário para encontrar a ovelha perdida. E, quando a encontrava, a sua reação era de grande alegria. Em Lucas 15.5-7, encontramos as expressões: “põe-na sobre os ombros”, “cheio de júbilo” e “alegrai-vos comigo”.  Jesus conclui ensinando que “haverá maior júbilo no céu por um pecador que se arrepende”.

Da mesma forma, o Senhor nos deixou um grande exemplo. Ele sempre se preocupou com suas ovelhas. Nunca esperava que uma ovelha perdida retornasse por conta própria, mas, pessoalmente, ia em busca daquelas que se encontravam em dificuldade.

A preocupação de Jesus era buscar e salvar as pessoas desprezadas pela sociedade, que viviam sem orientação, sem rumo, sem consolo e sem esperança; pessoas que viviam em meio às dúvidas, ao desespero e ao pecado. O Senhor tem grande alegria em buscar e encontrar cada uma de suas pequenas ovelhas, incluindo você e eu.Jesus declara: “Em verdade vos digo que maior prazer sentirá por causa desta do que pelas noventa e nove que não se extraviaram” (v. 13). De fato, Jesus, o Bom Pastor, cuida de suas ovelhas e lhes dá a vida. Ele as busca com carinho e, quando necessário, chega a carregá-las sobre os ombros. Dá especial atenção às ovelhas feridas, doentes e desviadas e deseja que nenhuma delas permaneça sozinha ou afastada do rebanho.

Essa atitude de Jesus demonstra que “não é da vontade de vosso Pai celeste que pereça um só destes pequeninos” (v. 14). A vontade de Deus é que todos sejam salvos. Ele não deseja que suas ovelhas se percam, mas que sejam encontradas, restauradas e permaneçam sob o cuidado amoroso do Bom Pastor.

                                                                 IV

No entanto, Jesus nos ensina como devemos tratar aqueles que erram conosco: Ele diz: “Se teu irmão pecar [contra ti], vai argui-lo entre ti e ele só” (v.15). O primeiro passo é uma conversa pessoal entre o ofendido e o ofensor. Quando entendemos que alguém fez algo de errado conosco, devemos simplesmente chamar essa pessoa para uma conversa amigável e expor a situação de maneira tranquila. Mostrar a falta e confrontar o pecado de maneira direta, porém com amor e espírito fraternal. O objetivo não é humilhar, vencer uma discussão ou provar quem está certo, mas levar o irmão ao reconhecimento de seu pecado e, consequentemente, ao arrependimento e à reconciliação. Ele não diz para esperarmos a pessoa que errou vir falar conosco, mas diz “vai.”

Isso se torna ainda mais claro na conclusão de Jesus: “Se ele te ouvir, ganhaste a teu irmão”(v.15a). Essa é a grande finalidade de todo o processo. Não se trata de vencer uma discussão, provar que estamos certos ou expor os erros de alguém. Trata-se de ganhar o irmão, isto é, ajudá-lo a reconhecer seu pecado, arrepender-se, receber o perdão de Deus e ser restaurado à comunhão da Igreja.O fato de Jesus usar o verbo “ganhar”,indica que há alegria do céu motivada pelo arrependimento de um filho de Deus que voltou para os braços do Pai. No retorno existem feridas, fraqueza, vergonha, cicatrizes e sentimento de culpa, mas tudo isso é resolvido pelo Senhor Jesus Cristo, pois ele limpa as nossas feridas, lava o nosso coração e tira de nós toda a culpa por meio do seu abraço acolhedor.

No entanto,se não houver acordo, tornam-se necessárias outras medidas. Neste caso o membro ofendido deve levar com ele uma ou duas pessoas para evitar confusão quanto ao que for dito por uma parte ou outra:  “Se, porém, não te ouvir, toma ainda contigo uma ou duas pessoas”(v.16a).Este procedimento deve ocorrer quando  o contato individual for infrutífero, se o irmão não der ouvidos à abordagem prescrita anteriormente.É necessário uma segunda instância com a participação de mais outras pessoas que servem como testemunhas e representantes da comunidade.  São pessoas que deverão testemunhar e participar do encaminhamento do processo de disciplina, da exortação, do aconselhamento, objetivando que o faltoso "ouça" ou entenda que está vivendo no pecado.Jesus fundamenta essa orientação no princípio do Antigo Testamento: “por boca de duas ou três testemunhas, será confirmada toda palavra” (Dt 19.15).Portanto, “toda palavra se estabeleça”(v.16b) significa que a questão deve ser tratada com seriedade e justiça, para que não haja acusações falsas, mal-entendidos ou decisões baseadas apenas na opinião de uma pessoa.

Contudo se ainda o irmão não reconhece o seu pecado.Se a conversa particular não produziu resultado e, posteriormente, a presença de uma ou duas testemunhas também não levou o irmão ao arrependimento, então a situação deve ser apresentada à igreja: então a igreja deve ser comunicada: “dize-o à igreja “ (v.17c).Este é o último recurso e nada mais é do que um reconhecimento, ou, uma alteração de status da pessoa que, certamente, não quer mais viver na comunidade cristã. Então, a igreja procurará por todos os meios possíveis trazer o irmão ao convívio . Ela deve alertar o irmão das consequências de seu pecado e aconselhá-la a se arrepender na certeza do perdão de Deus.  Mas quando se recusa  a arrepender-se e rejeita a correção da Palavra de Deus  será considerado como  gentio ( descrente) e publicano: “considera-o como gentio e publicano” (v.17d).

Jesus faz essa comparação com os gentios e publicanos que, no contexto judaico, eram considerados pessoas que estavam fora da comunhão religiosa de Israel. Com isso, Jesus ensina que aquele que, mesmo depois de ser advertido individualmente, na presença de testemunhas e, finalmente, pela própria igreja, continua recusando-se a ouvir e a arrepender-se, deve ser considerado como alguém que está fora da comunhão da igreja.Entretanto, essa comparação não significa que essa pessoa deva ser odiada, desprezada ou abandonada. O próprio Jesus demonstrou amor pelos gentios, publicanos e pecadores, aproximando-se deles e chamando-os ao arrependimento e à fé.

A igreja deve tratar aquele que está afastado da comunhão com amor, mantendo aberta a possibilidade de arrependimento e desejando sempre a sua restauração.Como devemos proceder?Jesus nos ensina: conversar pessoalmente com ele; depois, se necessário, levar testemunhas; e, finalmente, envolver toda a igreja. Ele também ensina que, quando uma pessoa insiste em permanecer no pecado e rejeita a correção da igreja, essa situação precisa ser reconhecida pela comunidade cristã.Neste sentido, a igreja tem uma grande responsabilidade no tratamento daqueles que se desviam do caminho. Ela recebeu de Cristo a autoridade para exercer a disciplina eclesiástica, absolvendo e restaurando aqueles que se arrependem e desligando da comunhão aqueles que, de maneira persistente, não reconhecem o seu pecado nem demonstram arrependimento.Jesus declara: “Em verdade vos digo que tudo o que ligardes na terra terá sido ligado nos céus, e tudo o que desligardes na terra terá sido desligado nos céus” (v. 18).

Jesus deixa claro que as palavras que seguem possuem autoridade e certeza, pois não se trata de uma opinião ou decisão meramente humana, mas de uma palavra fundamentada na autoridade do próprio Cristo.Nestas palavras de Jesus é  importante observar quatro expressões com aspecto diferente da autoridade que Cristo confiou à igreja. Em primeiro lugar, Jesus afirma: “Tudo o que ligardes na terra” (v. 18a). Aqui, Jesus destaca a responsabilidade da igreja na terra. Quando Jesus usa o verbo ligar significa que a igreja, deve agir de acordo com a Palavra de Cristo, retendo os pecados daquele que permanece impenitente. Não se trata de uma decisão baseada em sentimentos pessoais, vingança ou julgamento humano, mas do exercício responsável do ministério que Cristo confiou à sua Igreja. A igreja deve anunciar com seriedade que o pecado não pode ser encoberto ou tratado com indiferença

Em segundo lugar, Jesus diz: “terá sido ligado nos céus” (v.18b). Com essas palavras, Jesus mostra que a autoridade exercida pela igreja não tem origem nela mesma, mas vem do próprio Deus. A igreja não age segundo seus próprios critérios, sentimentos ou interesses, nem possui autoridade para estabelecer por conta própria o que deve ser ligado ou desligado. Sua autoridade está fundamentada na Palavra de Cristo.

Em terceiro lugar,Jesus diz: “E tudo o que desligardes na terra”(v.18c).Aqui, Jesus apresenta o outro lado do ministério das chaves: o desligar, isto é, a autoridade de perdoar os pecados. Depois de tratar da seriedade da persistência no pecado sem arrependimento, Jesus também mostra que a igreja possui a responsabilidade de anunciar o perdão àquele que reconhece seu pecado, arrepende-se e confia na graça de Deus.Quando o pecador arrependido confessa sua culpa e busca o perdão, a igreja pode anunciar, com base na promessa de Cristo, que seus pecados estão perdoados. Esse perdão não tem origem na igreja nem depende dos méritos do pecador. A fonte do perdão é o próprio Cristo, que levou sobre si os nossos pecados e conquistou na cruz a nossa reconciliação com Deus.

Quarto lugar: “Terá sido desligado nos céus”(v.18d).Finalmente, Jesus mostra a certeza e a autoridade do perdão anunciado pela igreja. Quando o pecador reconhece seu pecado, arrepende-se e recebe o perdão anunciado pela igreja de acordo com a Palavra de Cristo, ele não está recebendo apenas uma declaração humana. É o próprio Deus quem promete e concede esse perdão por meio de Cristo.A expressão “terá sido desligado nos céus” aponta para a realidade celestial do perdão anunciado na terra. O perdão não depende dos sentimentos, das emoções ou dos méritos daquele que o recebe, mas da obra de Cristo na cruz e da promessa de Deus revelada no Evangelho.

Por isso, o cristão pode descansar com segurança na promessa de Cristo. Quando a igreja anuncia o perdão ao pecador arrependido, ela está proclamando a graça que Deus oferece em Jesus. O pecado foi perdoado por causa de Cristo, e essa promessa não depende daquilo que sentimos, mas da fidelidade daquele que prometeu.Assim, Jesus oferece à sua igreja e aos seus filhos uma palavra de grande consolo: o perdão anunciado na terra, segundo a Palavra de Cristo, está fundamentado na promessa de Deus nos céus.

Jesus apresenta outra grande responsabilidade da igreja: o exercício da vida de oração.  Depois de ensinar sobre a correção e a disciplina do irmão que pecou, Ele mostra a importância da oração daqueles que estão reunidos em seu nome: “Em verdade também vos digo que, se dois dentre vós, sobre a terra, concordarem a respeito de qualquer coisa que, porventura, pedirem, ser-lhes-á concedida por meu Pai, que está nos céus”(v.19).Jesus novamente utiliza a expressão “em verdade vos digo”. Ele chama a atenção dos discípulos para outra importante promessa.Jesus fala sobre a oração da igreja.Isso mostra que a igreja não deve tratar seus problemas apenas com recursos humanos. Ela precisa buscar a Deus em oração e ensinar sobre a reconciliação entre irmãos, Assim, Jesus convida seus discípulos a confiarem na promessa de Deus e a buscarem sua vontade em oração.

Ao mencionar “se dois dentre vós... concordarem” , Jesus mostra que não é necessário um grande número de pessoas para que seus discípulos estejam reunidos em oração. Mesmo um pequeno grupo de cristãos possui grande valor diante de Deus. O poder da oração não está na quantidade de pessoas, mas na promessa e na presença de Cristo. Ela  não é um instrumento para impor nossa vontade a Deus, mas uma expressão de confiança e dependência do Pai.A verdadeira concordância cristã, portanto, não significa simplesmente que duas ou mais pessoas desejam a mesma coisa. Pessoas podem concordar entre si e, ainda assim, desejar algo contrário à vontade de Deus. A concordância da qual Jesus fala está fundamentada na Palavra de Deus. Os cristãos são chamados a buscar, juntos, aquilo que agrada ao Senhor, permitindo que a sua Palavra dirija seus pensamentos, decisões e orações.

Jesus ao falar da importância da oração no contexto da igreja, os discípulos podem apresentar suas necessidades diante de Deus. Não há assunto pequeno demais para ser levado ao Pai: “A respeito de qualquer coisa que, porventura, pedirem”( v. 19d).Entretanto, isso não significa que Deus dará tudo aquilo que pedirmos exatamente da maneira como desejamos. A oração cristã não é uma forma de obrigar Deus a fazer a nossa vontade. Oramos confiando que Ele sabe o que é melhor. Portanto, podemos pedir com confiança, mas sempre submetendo nossos desejos à sabedoria e à vontade do Pai.

No entanto, Deus ouve e responde às orações de seus filhos segundo sua boa e sábia vontade:“Ser-lhes-a concedida por meu Pai”( v.19e).Aqui, encontramos a promessa de Deus. Jesus garante que o Pai ouve seus filhos. Deus não é indiferente às nossas necessidades e não ignora nossas orações.Às vezes, a resposta de Deus será “sim”; outras vezes, será “não” ou “espere”. Mas em todas as situações podemos confiar que Ele age com sabedoria, amor e bondade.Nossa segurança não está em receber tudo aquilo que pedimos, mas em saber que estamos nas mãos de um Pai que nos ama.Jesus termina dizendo: “meu Pai, que está nos céus”( v.19f). O Deus a quem oramos é o Senhor soberano sobre todas as coisas. Ele está nos céus, mas não está distante de seus filhos..

Portanto, o Deus a quem oramos é o Senhor soberano sobre todas as coisas. Ele está nos céus, mas não está distante de seus filhos.O Pai celestial conhece nossas necessidades, ouve nossas orações e cuida de nós. Por isso, a igreja pode enfrentar conflitos, dificuldades e situações difíceis sem perder a esperança.Nossa confiança não está na força humana, mas naquele que está nos céus e possui todo poder.

Depois de apresentar os estágios da disciplina cristã, cujo objetivo é restaurar o irmão faltoso e conduzi-lo, de forma amorosa, ao arrependimento e à reconciliação, Jesus Cristo afirma que é a sua própria autoridade que torna legítimo esse processo dentro da igreja. Ele explica o motivo de tudo isso ser possível: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (v. 20).Esse versículo deve ser entendido dentro do seu contexto. Jesus está ensinando seus discípulos sobre a disciplina dentro da comunidade do reino de Deus, isto é, a igreja. Com essas palavras, Ele reforça o que havia ensinado anteriormente, confirmando que estaria presente no meio daqueles que se reunissem em seu nome para tratar de questões relacionadas à vida e à disciplina da comunidade.

Em outras palavras, as testemunhas e a comunidade não agem segundo seus próprios interesses, mas estão debaixo da autoridade de Cristo. Por isso, qualquer decisão deve estar de acordo com a vontade de Deus e fundamentada em sua Palavra. É o próprio Senhor Jesus quem está presente no meio da igreja, dirigindo e sustentando sua ação pastoral e disciplinar.

Estimados irmãos! Hoje, através deste texto, aprendemos qual deve ser a atitude do cristão no reino dos Céus. Jesus nos chama a viver em humildade, reconhecendo nossa dependência de Deus; a levar o pecado a sério, evitando ser causa de tropeço; e a cuidar daqueles que são mais fracos na fé. Também nos ensina a buscar a reconciliação quando surgem conflitos, procurando o irmão com amor e exercendo a disciplina cristã com o objetivo de conduzir o pecador ao arrependimento e à restauração. A igreja é chamada a permanecer fiel à Palavra de Deus, anunciar a seriedade do pecado e proclamar o perdão ao pecador arrependido.

Portanto, somente podemos viver essa vida, porque fomos alcançados pela graça de Deus em Cristo. Por isso, como cidadãos do reino dos Céus, somos chamados a viver com humildade, amor pelo próximo, disposição para perdoar, fidelidade à Palavra e confiança em Deus por meio da oração. Que essa seja a atitude que caracterize nossa vida como discípulos de Cristo. Amém.


APONTAMENTOS:

 l גֵּיא בֶן־הִנֹּם   (Vale do filho de Hinom)  γέεννα  ( Genna)

A Geena era o nome dado ao vale de Hinom, localizado nas proximidades de Jerusalém. Esse lugar possuía uma história marcada por práticas terríveis e, por isso, tornou-se um símbolo de maldição e juízo.

Nos tempos do Antigo Testamento, alguns israelitas que haviam abandonado o Senhor praticaram naquele vale a idolatria e chegaram ao ponto de sacrificar seus próprios filhos no fogo ao deus pagão Moloque. Por causa dessas abominações, o lugar ficou associado ao pecado, à idolatria e ao julgamento de Deus. Posteriormente, durante as reformas do rei Josias, aquele local foi profanado, como forma de impedir que tais práticas pagãs continuassem.

Ao longo do tempo, o vale passou a ser associado àquilo que era impuro, desprezado e destinado à destruição. Por isso, a palavra Geena tornou-se uma forte imagem para expressar o juízo final de Deus. Quando Jesus utiliza essa expressão, seus ouvintes compreendiam que Ele estava falando sobre a seriedade do pecado e sobre a realidade do julgamento divino.

A Geena, portanto, servia como uma imagem poderosa de destruição e condenação. Jesus a utiliza para advertir seus discípulos de que o pecado não deve ser tratado com indiferença. Tudo aquilo que nos afasta de Deus deve ser combatido seriamente. A mensagem de Cristo não é que devamos mutilar literalmente o nosso corpo, mas que devemos abandonar radicalmente tudo aquilo que nos conduz ao pecado.

Assim, a referência à Geena nos lembra da gravidade do pecado e da seriedade do juízo de Deus. Ao mesmo tempo, aponta para a necessidade que todos temos da graça e do perdão de Cristo. Somente nele encontramos libertação da condenação e a esperança da vida eterna. Cristo tomou sobre si o castigo que merecíamos, para que, pela fé nele, recebêssemos perdão, salvação e vida eterna.