sexta-feira, 18 de setembro de 2026

 

TEXTO: Mt 21.23-27 (28-32)

TEMA: A AUTORIDADE DE JESUS E A VERDADEIRA OBEDIÊNCIA

Vivemos em uma sociedade em que a autoridade é constantemente questionada. Muitas vezes, as pessoas perguntam: “Quem lhe deu autoridade para fazer isso?” Essa também foi a pergunta dirigida a Jesus. Os principais sacerdotes e os anciãos do povo não estavam interessados em conhecer a verdade, mas em questionar a autoridade de Jesus e colocar em dúvida a origem de sua missão.

Jesus, porém, não responde simplesmente à pergunta. Ele conduz seus ouvintes a refletirem sobre a autoridade de Deus e sobre a maneira como cada pessoa responde à sua Palavra. Em seguida, por meio da parábola dos dois filhos, mostra que não basta falar que obedecemos a Deus. A verdadeira obediência se manifesta quando ouvimos a sua Palavra, nos arrependemos e confiamos nele.

Esse texto também nos leva a olhar para nossa própria vida. Podemos conhecer a Palavra de Deus, falar sobre fé e até afirmar que queremos obedecer ao Senhor, mas a pergunta é: como estamos respondendo à autoridade de Jesus? Ele é verdadeiramente o nosso Senhor? Estamos dispostos a ouvir sua Palavra, reconhecer nossos pecados, arrepender-nos e viver pela fé?

Por isso, nesta passagem, veremos três verdades importantes:

Primeiro, Jesus possui autoridade que vem de Deus (vv. 23–27). Os principais sacerdotes e anciãos questionam a autoridade de Jesus, mas Ele mostra que sua autoridade não depende da aprovação humana. Sua autoridade vem de Deus, e rejeitá-la significa também rejeitar aquele que o enviou.

Segundo, Deus chama o pecador ao arrependimento (vv. 28–30). Na parábola dos dois filhos, Jesus mostra que Deus chama as pessoas a trabalhar em sua vinha. O filho que inicialmente recusou, mas depois se arrependeu e foi, demonstra que Deus deseja uma mudança verdadeira de coração e de atitude.

Terceiro, a verdadeira obediência nasce da fé (vv. 31–32). Jesus ensina que não basta dizer que obedecemos a Deus; é necessário confiar nele e viver de acordo com sua vontade. Os que ouviram João e creram demonstraram arrependimento e fé, enquanto aqueles que permaneceram na incredulidade rejeitaram o caminho da salvação.

                                                                 I

Os principais sacerdotes e anciãos questionam a autoridade de Jesus, O texto diz: “Com que autoridade fazes estas coisas? E quem te deu essa autoridade?” (v.23). A pergunta feita a Jesus revela a oposição das autoridades religiosas à sua pessoa e ao seu ministério. Eles haviam visto Jesus entrar no templo, expulsar os que comercializavam naquele lugar e ensinar o povo. Diante disso, os principais sacerdotes e os anciãos queriam saber de onde vinha a autoridade com a qual Jesus realizava essas coisas

Essas autoridades religiosas ocupavam posições importantes dentro da estrutura religiosa de Israel e consideravam-se responsáveis por preservar a ordem e a tradição do povo. Por isso, a atuação de Jesus no templo representava um confronto direto com aquilo que elas consideravam ser sua esfera de autoridade.

Eles são enfáticos nos seus questionamentos: “Com que autoridade fazes estas coisas? E quem te deu essa autoridade?” A expressão “estas coisas” provavelmente se refere ao que Jesus vinha fazendo naquele contexto: sua entrada em Jerusalém, sua atuação no templo, o ensino que oferecia ao povo e, especialmente, a expulsão dos comerciantes do templo. Eles não questionavam apenas uma ação isolada, mas a legitimidade de todo o ministério de Jesus. A pergunta, portanto, era: quem autorizou Jesus a ensinar, corrigir e agir dessa maneira? Eles queriam que ele apresentasse uma credencial que justificasse suas ações.

É importante perceber que Jesus não havia buscado essa autoridade entre os líderes religiosos. Ele não dependia da aprovação dos sacerdotes ou dos anciãos para realizar a missão que recebera. Sua autoridade vinha de Deus. O Pai o havia enviado para realizar a missão que lhe confiara. Portanto, a verdadeira questão não era simplesmente descobrir quem havia dado autoridade a Jesus, mas reconhecer se estavam dispostos a aceitar a autoridade daquele que Deus havia enviado.

Essa pergunta continua sendo importante para nós. Jesus não é apenas um mestre entre tantos outros, cuja palavra podemos aceitar ou rejeitar conforme nossa vontade. Ele é o Senhor e tem autoridade sobre a nossa vida. Sua Palavra nos mostra nosso pecado, chama-nos ao arrependimento e anuncia o perdão que recebemos pela graça, por meio da fé. Assim, o texto nos convida não a questionar a autoridade de Jesus, mas a submeter-nos a ela pela fé. A verdadeira obediência começa quando reconhecemos que Cristo tem autoridade divina e confiamos nele como nosso Senhor e Salvador.

Jesus, então, afirma aos principais sacerdotes e anciãos, que haviam questionado sua autoridade. Ele não evita a pergunta, mas conduz aqueles homens a uma questão ainda mais profunda. Mostra que, antes de responder, eles precisavam se examinarem sobre aquilo que já sabiam a respeito de João Batista: “Eu também vos farei uma pergunta; se me responderdes, também eu vos direi com que autoridade faço estas coisas” (v.24).

Jesus estabelece uma condição: se eles respondessem à sua pergunta, ele também responderia à pergunta deles. A questão colocada por Jesus exigia uma resposta clara: a autoridade de João Batista vinha de Deus ou dos homens? A expressão “se me responderdes”, mostra que Jesus lhes dá oportunidade de se posicionarem diante da verdade. Eles precisavam reconhecer de onde vinha a autoridade de João. Se admitissem que João havia sido enviado por Deus, teriam de levar a sério sua mensagem e seu testemunho a respeito de Jesus.

Portanto, Jesus coloca aqueles líderes diante de uma escolha. Eles não poderiam simplesmente permanecer neutros. Precisavam responder. A verdade de Deus exige uma tomada de posição, pois diante da Palavra do Senhor o ser humano é chamado a ouvir, reconhecer e crer.

Jesus finalmente menciona o assunto que eles haviam levantado: sua autoridade. Ele promete que, se respondessem à sua pergunta, também lhes diria de onde vinha sua autoridade: “também eu vos direi com que autoridade faço estas coisas”. As “coisas” que Jesus fazia incluíam sua entrada em Jerusalém, a purificação do templo e seu ensino. Os líderes religiosos questionavam quem havia dado a Jesus o direito de agir daquela maneira. Entretanto, Jesus sabia que sua autoridade não procedia dos homens. Ele havia sido enviado pelo Pai e exercia sua missão segundo a vontade de Deus.

Assim, o evangelista nos mostra que Jesus não precisa receber autoridade dos homens para ser Senhor e Salvador. Sua autoridade vem de Deus. Ele ensina, confronta o pecado, anuncia o Reino, perdoa e salva porque foi enviado pelo Pai. O desafio colocado aos líderes religiosos continua sendo importante: não basta questionar Jesus; é necessário ouvir sua Palavra e reconhecer sua autoridade.

A resposta de Jesus também está ligada ao testemunho de João Batista por Deus. Jesus então responde com uma pergunta sobre o batismo de João: “Donde era o batismo de João? Do céu ou dos homens? E eles discorriam entre si: Se dissermos: Do céu, ele nos dirá: Então, por que não crestes nele?” (v.25). Ele não está fugindo da pergunta. Ele mostra que, antes de responder, eles precisam se posicionar diante da autoridade de João Batista.

Jesus coloca diante dos líderes religiosos uma pergunta objetiva: “Donde era o batismo de João?” Eles haviam questionado a autoridade de Jesus, e agora precisam responder sobre a autoridade de João Batista. A questão não era simplesmente sobre o batismo, mas sobre a origem da missão e da mensagem de João. João havia pregado o arrependimento e preparado o povo para a chegada do Messias. Seu ministério não era independente de Deus; ele havia sido enviado para anunciar aquele que viria depois dele. Portanto, se os líderes religiosos reconhecessem que João havia recebido sua autoridade de Deus, teriam de considerar também o testemunho de João a respeito de Jesus.

Jesus apresenta somente duas possibilidades sobre a origem do batismo de João: “do céu” ou “dos homens”. Se o batismo de João vinha do céu, sua missão tinha origem divina. Significa que a autoridade de João vinha de Deus. Reconhecer isso exigiria aceitar sua pregação e levar a sério seu testemunho acerca de Jesus. Mas se vinha dos homens, João seria apenas alguém que agia por sua própria autoridade.

Os líderes não respondem imediatamente a Jesus. Eles começam a discutir entre si qual seria a resposta mais conveniente. Isso revela algo importante: eles não estavam procurando sinceramente a verdade, mas tentando encontrar uma resposta que protegesse sua posição. A preocupação deles não era: “O que Deus está nos mostrando?” A preocupação era: “O que será melhor para nós?” Em vez de submeterem seu entendimento à verdade de Deus, procuram calcular as consequências de cada resposta. Isso demonstra como o pecado pode levar o ser humano a resistir à verdade mesmo quando ela está diante de seus olhos. O problema daqueles líderes não era falta de inteligência, mas um coração fechado para reconhecer a ação de Deus.

A verdade é que a pergunta de Jesus os colocou diante da Palavra de Deus e exigiu delas uma resposta sincera. Então, começaram a raciocinar entre si, mas não por amor à verdade. Estavam preocupados com as consequências de sua resposta: “Se dissermos: Do céu, ele nos dirá: Então, por que não crestes nele?” Eles percebem que reconhecer a origem divina do ministério de João os colocaria diante de uma consequência inevitável: “por que não crestes nele?” Se João havia sido enviado por Deus, sua mensagem deveria ser recebida com fé e obediência. Ele não apontava para si mesmo, mas para Cristo. Portanto, rejeitar João significava também rejeitar o testemunho que Deus estava dando acerca de Jesus.

Vejamos a incoerência daqueles líderes: eles questionavam a autoridade de Jesus, mas se recusavam a reconhecer a autoridade de João, que havia sido enviado por Deus para preparar o caminho do Senhor. Ao rejeitarem João e sua mensagem, estavam, na realidade, rejeitando o próprio Cristo para quem João apontava. A resistência à mensagem de João revelava a dureza do coração diante da ação de Deus.

Diante de Jesus, também nós não somos chamados a calcular o que nos é mais conveniente, nem a moldar a verdade de Deus de acordo com nossos interesses. Somos chamados a ouvir sua Palavra, reconhecer sua autoridade e confiar nele como aquele que foi enviado pelo Pai para a nossa salvação. A verdadeira fé não procura desculpas para resistir à Palavra de Deus, mas, pela ação do Espírito Santo, recebe-a com humildade e confiança.

No entanto, os principais sacerdotes e anciãos consideram a possibilidade de afirmar que o batismo de João tinha origem humana. Nesse caso, estariam dizendo que João não havia sido enviado por Deus e que sua autoridade não era divina: “E, se dissermos: Dos homens, tememos o povo, porque todos consideram João como profeta” (v.26). Mas, eles mesmos sabiam que essa resposta seria problemática. João era amplamente reconhecido pelo povo como profeta, e sua pregação havia alcançado muitas pessoas. Sendo assim, eles “temiam o povo.” Aqui aparece claramente a motivação deles. O temor não era de Deus, mas das pessoas. Eles estavam preocupados com a reação do povo.

O reconhecimento de João como profeta era tão forte entre o povo que os líderes não se sentiam livres para negar isso publicamente. Eles estavam presos entre duas respostas: se dissessem que João vinha de Deus, seriam confrontados por Jesus por não terem crido nele; se dissessem que João vinha dos homens, temiam a reação do povo. Percebe-se, portanto, que o temor dos homens estava impedindo aqueles líderes de reconhecerem a verdade de Deus. Eles conheciam as implicações da questão, mas preferiam proteger sua posição em vez de se submeterem à verdade.

Depois de discutirem entre si, os principais sacerdotes e anciãos finalmente respondem a Jesus: “Não sabemos” (v.27a). Essa resposta não significa necessariamente que eles realmente desconhecessem a origem do batismo de João. Pelo contexto, eles haviam percebido claramente as consequências de cada resposta. Assim, “não sabemos” funciona como uma resposta evasiva. Eles não queriam reconhecer a verdade nem assumir as consequências de sua própria posição. Em vez de confessarem aquilo que sabiam, esconderam-se atrás de uma resposta conveniente.

Jesus então responde à atitude deles: “Nem eu vos digo com que autoridade faço estas coisas” (v.27b). Ele os havia dado uma oportunidade de responder sinceramente à sua pergunta. Contudo, diante da recusa deles em reconhecer a verdade, Jesus não continua o debate nos termos que eles desejavam. Isso mostra a sabedoria de Jesus. Ele não precisava prolongar uma discussão com pessoas que não estavam buscando sinceramente a verdade. A conversa havia revelado o verdadeiro problema daqueles líderes: eles não queriam reconhecer a autoridade de Deus quando isso os colocava diante da necessidade de arrependimento e fé.

Os líderes religiosos tinham diante de si o testemunho de João e as próprias obras de Jesus, mas não queriam reconhecer aquilo que essas evidências apontavam. Também nós somos chamados a não usar desculpas para fugir da Palavra de Deus. Quando o Senhor nos confronta com sua Lei, somos chamados ao arrependimento; quando anuncia o Evangelho, somos chamados a confiar em Cristo. A Palavra de Deus não deve ser usada apenas para satisfazer nossa curiosidade, mas recebida com fé e submissão. Jesus é o Senhor, e sua autoridade não depende do reconhecimento dos homens.

                                                                      II

Nos versículos anteriores, os principais sacerdotes e os anciãos questionaram Jesus: “Com que autoridade fazes estas coisas?” Jesus, porém, mostrou que a questão não poderia ser separada da autoridade de João Batista. Quando perguntou se o batismo de João era “do céu ou dos homens”, eles perceberam que qualquer resposta os colocaria diante da verdade. Por isso, responderam evasivamente: “Não sabemos.” É justamente nesse contexto que Jesus conta a parábola dos dois filhos. “Que vos parece? Um homem tinha dois filhos. E, dirigindo-se ao primeiro, disse: Filho, vai hoje trabalhar na vinha” (v.28).

Podemos dividir o versículo em três partes: primeiro, “que vos parece?” Jesus inicia uma parábola fazendo essa pergunta. Ele deseja levar os seus ouvintes a refletirem sobre aquilo que estão ouvindo. Não apresenta simplesmente uma conclusão pronta, mas conduz os próprios interlocutores a julgarem a situação apresentada. A pergunta é importante porque, logo antes, os principais sacerdotes e anciãos haviam se recusado a responder honestamente sobre João Batista. Agora, Jesus conta uma história que os levará a confrontar a própria atitude.

Segunda parte: “um homem tinha dois filhos.” Jesus apresenta um pai e dois filhos. Os dois pertencem à mesma família e recebem uma ordem do mesmo pai. A diferença entre eles aparecerá não naquilo que dizem, mas na maneira como respondem à vontade do pai. Os dois filhos representam pessoas que ouvem a vontade de Deus, mas reagem de maneiras diferentes. Jesus está preparando seus ouvintes para compreender que não basta pertencer exteriormente ao povo de Deus ou dizer as palavras corretas. O que importa é uma resposta verdadeira à Palavra de Deus.

Terceira parte: “E, dirigindo-se ao primeiro, disse: Filho, vai hoje trabalhar na vinha.” Nesta terceira parte, Jesus apresenta o primeiro filho. O pai se dirige a ele com uma palavra de proximidade e afeto: “Filho. vai hoje trabalhar na vinha”. O termo “hoje” chama a atenção para a urgência da resposta. O pai não está falando de algo para um futuro indefinido. Há uma tarefa a ser realizada naquele momento. O convite do pai exige uma resposta concreta: ouvir sua palavra e agir de acordo com ela.

No entanto, “Ele, porém, respondeu: Sim, Senhor; porém não foi” (v.29). A resposta inicial demonstra respeito e disposição. Ele chama o pai de “Senhor” e, com suas palavras, parece aceitar prontamente o pedido. Contudo, sua atitude posterior contradiz aquilo que havia dito. Ele afirmou que iria, mas não cumpriu a ordem recebida.

Jesus mostra que não basta uma resposta correta de palavras quando ela não é acompanhada pela obediência. O primeiro filho representa aqueles que podem demonstrar exteriormente respeito por Deus, falar de maneira religiosa e até afirmar que estão dispostos a fazer a sua vontade, mas, na prática, permanecem afastados dela. Há uma diferença entre dizer “sim” a Deus com os lábios e viver esse “sim” na prática.

Entretanto, a parábola também prepara o contraste com o segundo filho. Jesus apresenta a resposta: “E, dirigindo-se ao segundo, disse-lhe o mesmo. Porém este respondeu: Não quero; depois, arrependido, foi” (v.30). Sua resposta, porém, é direta e negativa: “Não quero.” Ele não demonstra disposição para obedecer. Sua atitude inicial é de resistência à vontade do pai. Essa resposta mostra que, naquele momento, o filho estava com o coração voltado para a sua própria vontade. Ele ouve a ordem, compreende o que o pai deseja, mas decide não obedecer. Não há tentativa de justificar sua atitude; simplesmente afirma que não quer.

Jesus apresenta aqui uma realidade que também encontramos na vida daqueles que, inicialmente, rejeitam a vontade de Deus. Há pessoas que, num primeiro momento, resistem à Palavra, afastam-se de Deus ou vivem em desobediência. Entretanto, isso não precisa ser o ponto final de sua história. Pela ação da Palavra, podem reconhecer o seu pecado, arrepender-se e voltar-se para o Senhor. O que antes era um “não” pode transformar-se em uma resposta de fé e obediência.

Entretanto, algo acontece com aquele filho: “depois, arrependido, foi”. O filho reconsidera sua atitude e muda de caminho. A palavra “depois” mostra que a atitude do filho mudou. Ele não permaneceu em sua primeira decisão. O texto diz que ficou “arrependido” e, então, foi trabalhar na vinha. Aqui está o ponto central da parábola: o arrependimento produz mudança de atitude. O filho havia dito “não”, mas depois reconheceu seu erro e fez aquilo que o pai havia pedido. O arrependimento não consiste apenas em sentir tristeza pelo erro. Ele envolve reconhecer que se tomou um caminho errado e voltar-se para a vontade de Deus.

Isso também serve de advertência contra uma fé meramente exterior. Podemos falar de Deus, confessar a fé, participar da vida da igreja e usar palavras corretas, mas tudo isso precisa estar acompanhado de uma vida que reconheça a autoridade da Palavra de Deus.

                                                                      III

 Jesus agora leva seus ouvintes a uma conclusão que eles mesmos terão de reconhecer. Depois de apresentar os dois filhos, Jesus pergunta. A pergunta é simples: “Qual dos dois fez a vontade do pai?” (v.31a). Eles responderam de forma clara: “O primeiro”. Eles reconhecem que foi o primeiro filho quem fez a vontade do pai, porque, embora tenha inicialmente desobedecido, arrependeu-se e depois foi. Assim, os próprios líderes religiosos reconhecem que aquele que inicialmente recusou, mas depois se arrependeu e obedeceu, foi quem realmente fez a vontade do pai. Jesus utiliza a resposta deles para levá-los a perceber a própria incoerência.

Ele chama a atenção dos seus ouvintes para aquilo que está prestes a declarar. Não se trata de uma simples opinião, mas de uma verdade que confronta diretamente aqueles que estavam questionando sua autoridade: “Em verdade vos digo que publicanos” (31b). Essas palavras devem ter sido muito fortes para os principais sacerdotes e anciãos. Publicanos e meretrizes eram pessoas desprezadas social e religiosamente naquela sociedade. Os publicanos eram vistos como pecadores por sua associação com o sistema tributário romano, enquanto as prostitutas eram consideradas publicamente pecadoras.

Jesus agora deixa ainda mais claro e mais surpreendente: “publicanos e meretrizes vos precedem no reino de Deus” (31c). Os publicanos e as meretrizes, considerados pessoas pecadoras e desprezadas pelos líderes religiosos, estavam sendo alcançados pela mensagem de arrependimento e pela graça de Deus. A expressão “vos precedem” é especialmente significativa. Jesus não está dizendo que o pecado dessas pessoas era aceitável. O ponto é outro: aqueles que reconheciam sua condição pecaminosa e recebiam a mensagem de João estavam respondendo a Deus com arrependimento e fé. Por outro lado, os líderes religiosos, apesar de sua aparência de piedade, estavam rejeitando a mensagem de Deus.

Jesus conclui sua palavra aos líderes religiosos mostrando que o problema deles não estava na falta de oportunidade para ouvir e reconhecer a verdade. Pelo contrário, eles haviam recebido o testemunho de João Batista e haviam visto a transformação daqueles que acolheram sua mensagem. Por isso, Jesus declara: “Porque João veio a vós outros no caminho da justiça.” (v.32a). João Batista veio como mensageiro de Deus, chamando o povo ao arrependimento e preparando o caminho para Cristo. A expressão “caminho da justiça” indica que sua mensagem estava de acordo com a vontade de Deus. João não anunciava uma mensagem própria, mas chamava as pessoas a abandonarem o pecado e a confiarem naquele que viria depois dele. Também não significa que João ensinava que as pessoas poderiam conquistar a salvação por suas próprias obras. Sua pregação apontava para o arrependimento e para a fé no Salvador. Ele preparava o povo para receber Jesus.

Os principais sacerdotes e os anciãos haviam ouvido a pregação de João, mas não creram nele: “e não acreditastes nele” (v.32b). O problema não era falta de informação. Eles tiveram contato com a mensagem de João e puderam perceber que sua pregação estava relacionada às promessas de Deus, mas, mesmo assim, rejeitaram aquilo que Deus lhes dizia por meio dele. A incredulidade deles revelava uma resistência à Palavra de Deus. Ouvir a Palavra não é suficiente; é necessário recebê-la com fé e arrependimento.

Jesus apresenta um contraste muito forte: “ao passo que publicanos e meretrizes creram” (v.32c). Publicanos e meretrizes, pessoas consideradas pecadoras e desprezadas pela sociedade religiosa da época, responderam à mensagem de João com arrependimento e fé. Jesus não está dizendo que os pecados dessas pessoas eram aceitáveis. Pelo contrário, o fato de terem crido demonstra que reconheceram sua necessidade de arrependimento e da misericórdia de Deus. Aqueles que eram considerados indignos pelos homens receberam a mensagem de João e foram conduzidos à fé. Isso mostra que, no Reino de Deus, a salvação não é determinada pela posição social, pela reputação ou pelos méritos humanos, mas pela graça de Deus recebida pela fé.

Jesus volta-se novamente para os líderes religiosos. Eles não apenas tinham rejeitado inicialmente a mensagem de João; também viram o resultado da sua pregação. Viram pessoas consideradas pecadoras mudarem de atitude e se voltarem para Deus. Mesmo diante desse testemunho, permaneceram resistentes: “Vós, porém, nem depois, vendo isto” (v.32d). A expressão “nem depois” mostra que tiveram novas oportunidades para reconhecer o erro e mudar de atitude.

Mesmo assim, permaneceram sem arrependimento: “vos arrependestes para crer nele” (v.32e). A expressão “não vos arrependestes” revela o problema central. Eles não estavam simplesmente desinformados. Tinham recebido a mensagem, tinham visto seus frutos, mas continuavam resistindo.   Tiveram oportunidade de se arrepender e crer, mas não o fizeram. O arrependimento aqui envolve reconhecer o erro, abandonar a resistência à Palavra e voltar-se para Deus. A fé, por sua vez, significa confiar na promessa de Deus e receber aquele para quem João apontava: Jesus Cristo. Por isso, Jesus mostra que o problema não era falta de evidências, mas falta de arrependimento e fé. O Evangelho estava diante deles, mas eles não quiseram se voltar para Cristo e nele confiar.

Estimados irmãos! O texto nos coloca diante de uma questão fundamental: quem tem autoridade sobre a nossa vida? Os principais sacerdotes e os anciãos questionaram Jesus, querendo saber com que autoridade ele fazia aquelas coisas. Entretanto, o problema deles não era falta de informação, mas a falta de disposição para reconhecer a autoridade de Jesus. Eles ouviram a Palavra, viram as obras de Cristo, mas permaneceram resistentes e incrédulos.

A parábola dos dois filhos também nos ensina que Deus não procura apenas palavras, promessas ou aparências religiosas. O primeiro filho disse que não iria, mas depois se arrependeu e foi. O segundo disse que iria, mas não foi. Jesus mostra, assim, que a verdadeira obediência não está simplesmente naquilo que dizemos, mas em ouvir a Palavra de Deus e, pela ação do Espírito Santo, arrepender-nos e viver de acordo com a sua vontade. O arrependimento transforma a direção da vida.

Portanto, irmãos, não endureçamos o nosso coração diante da Palavra de Cristo. Reconheçamos sua autoridade, arrependamo-nos dos nossos pecados e confiemos na sua graça. Que a nossa fé não seja apenas uma declaração de palavras, mas uma fé que, alcançada pelo Evangelho, produz frutos de arrependimento, amor e obediência. Que possamos dizer “sim” ao nosso Senhor não apenas com os lábios, mas com uma vida que confia nele e procura viver segundo a sua Palavra. Amém!

TEXTO: SL 25

TEMA: COLOQUEMOS A NOSSA CONFIANÇA NO SENHOR!

O Salmo 25 é atribuído a Davi. É um dos nove Salmos acrósticos, hinos que utilizam as letras do alfabeto (22 na língua hebraica) na sequência para iniciar cada verso, linha ou estrofe. O contexto deste salmo nos mostra que Davi vivia momentos de tristezas, preocupações, angústias, aflições, bem como se sentia cercado de perigos  e ameaça. Sendo assim, ele precisa encontrar o caminho certo que o leve com segurança ao seu destino. A quem ele pode pedir ajuda? Em quem ele pode confiar? Consciente da própria fragilidade, ele clama ao Senhor, ao Deus de Israel, que nunca abandonou seu povo, pelo contrário, o guiou na longa jornada através do deserto até a terra prometida. Esta lembrança renasce no salmista a esperança do socorro. Confia plenamente nas suas promessas e no seu grande amor.

Quando falamos de confiança, precisamos nos questionar: Onde estamos colocando nossa confiança? Nas ideologias? Nas riquezas? Nas nossas forças? Na verdade, o que se observa neste mundo moderno é que a maioria das pessoas tem depositado a sua confiança em qualquer outra coisa, menos em Deus.  Davi poderia ter depositado toda a sua confiança nestas coisas, mas, escolheu confiar somente no Senhor. E você, tem confiado somente em Deus? Tem dado exemplo de fé e confiança em Deus? Lembrando que a nossa confiança não está em qualquer coisa ou em qualquer pessoa, mas sim em Deus. Deus é a nossa fortaleza. Somente Ele, com sua infinita sabedoria e misericórdia, poderá nos garantir a paz, mesmo em meio às provações e correria da vida moderna. Somente Ele poderá iluminar as trevas de nossos pecados e apontar saídas para todos os desafios.  Quando tivermos aprendido a confiar em Deus, não mais teremos medo das coisas que enfrentamos neste mundo.

Davi inicia a sua oração invocando a presença do Senhor. Durante toda a sua vida, quando se via em meio às dificuldades, adversidades e desafios, ele orava a Deus. Em sua oração, pede ao Senhor que elevasse a sua alma à sua presença, porque o seu coração estava abatido: “A ti, Senhor, elevo a minha alma.” (v.1). A expressão “elevo” significa levantar-se, aceitar, exultar. Elevar a alma ao Senhor é a maneira de andarmos ao seu lado, procurando descobrir e fazer a sua vontade em nossas vidas. Elevar a alma é agir corretamente, caminhando com segurança por estarmos na presença de Deus. E aquele que eleva a sua alma ao Senhor jamais ficará decepcionado, nunca será envergonhado.

Davi, diante da situação que estava vivendo, resolve colocar sua esperança em algo bem maior do que ajuda dos homens. Ele colocou sua confiança em Deus: “Deus meu, em ti confio.” (v.2a). Quantas vezes deixamos de confiar em Deus, pois tentamos resolver os nossos problemas baseados nas nossas forças. Quantos vezes desejamos viver a vida, ao enfrentar situações, caminhar pela estrada da nossa existência, como se pudéssemos dar conta, por nós mesmos, dos nossos problemas. Então, descobrimos que este não é o melhor caminho que conduz à presença de Deus. O melhor é confiar em Deus, como fez Davi. Uma das necessidades de Davi era de não ser envergonhado diante de seus inimigos: “não seja eu envergonhado, nem exultem sobre mim os meus inimigos.” (v.2b). Essa deve ser uma experiência terrível, ser apanhado em um ato errado, pecaminoso e ser exposto publicamente entre às pessoas.

Davi não queria passar por este tipo de situação, de ser envergonhado. É, por isso, pode dizer no versículo 3: “Com efeito, dos que em ti esperam, ninguém será envergonhado; envergonhados serão os que, sem causa, procedem traiçoeiramente”. Ele afirma desta forma, porque não confiava nas suas próprias forças, no seu poder político, nas suas riquezas, mas depositava a sua confiança no Deus misericordioso, amoroso, bondoso, verdadeiro, criador de todas as coisas. A confiança de Davi em Deus era plena, pois tinha absoluta convicção, fé, de que somente o Senhor podia livrá-lo das armadilhas, perdição, emboscadas, da morte, do pecado, das trevas. Por isso, preferiu manter seus olhos elevados na expectativa de que receberia, ajuda do Senhor através de sua oração.

Em meio às dificuldades, adversidades e desafios, o salmista suplica ao Senhor: “Faze-me, Senhor, conhecer os teus caminhos.” (v4a). Na verdade, há uma imensa vontade do salmista de andar nos caminhos humildes de Deus, de amor e fidelidade diante das suas aflições. Mas, afinal, que caminho Davi queria conhecer. É evidente que os termos “caminhos” e “veredas” não se referem à questão geográfica, mas se referem aos ensinos e orientações de Deus que Davi almejava seguir e andar em conformidade com a verdade. Ele age desta forma, porque sabia que vivendo no pecado, era impossível seguir este caminho.

O fato é que Davi percorrendo uma sucessão de maus caminhos equivocados, sem rumo e sem destino, não podia estar em comunhão com o Senhor. E por falta de vigilância, caiu em adultério e cometeu homicídio, desagradando gravemente ao Senhor. Mas ele entendeu ainda que era precisa encontrar o caminho certo, que o levasse com segurança ao seu destino: a presença do Senhor. Não queria apenas conhecer os caminhos, mas pediu ao Senhor que o “ensinasse sobre as suas veredas.” (v4b), que andasse num caminho reto, aprumado, que não permitisse andar em caminhos que o levasse à ruína, mas ao ensina da Lei.

Precisamos também pedir ao Senhor que nos ensine a conhecer os seus caminhos! Os caminhos que nos conduz à sua presença, pois vivemos num mundo emaranhado de caminhos bons e ruins. E, muitas vezes, trilhamos caminhos equivocados, que no começo parece ser o rumo certo, conduzindo para a vitória. No entanto, ficamos desapontados quando damos conta de que aquele caminho, atraente e promissor, tornou-se perigoso, confuso, prejudicial. Estes não são os caminhos que conduz à presença do Senhor. Mas para conhecer estes caminhos é preciso mudanças na nossa vida, pois o nosso coração precisa de limpeza. Precisa ser trocado, pois ele é egoísta, mundano, influenciado pelo pecado, e não pode ouvir a voz de Deus, seguir suas orientações e o caminho que Ele nos propõe a seguir. Quer andar nos caminhos do Senhor? Quer deixar de viver uma vida injusta? Quer andar nos caminhos de integridade, de obediência? Quer fazer a vontade de Deus?  Só existe um caminho: siga ao Senhor!

O salmista ainda esclarece que para andar nos caminhos do Senhor, requer um espírito submisso aos seus ensinamentos (Lei), como indicam os verbos no imperativo do versículo 5: “Guia-me na tua verdade e ensina-me, pois tu és o Deus da minha salvação, em quem espero todo o dia." Davi tinha a necessidade de conhecer a verdade de Deus. Essa verdade revela o Deus que ajuda, socorre, aqueles que nele esperam (v.3), entre os quais está o salmista. A sua esperança é persistente, constante e incansável, durante o “dia todo”, esperando o socorro do Senhor.

A linguagem é a de um coração profundamente impressionado com a sensação da misericórdia e da bondade de Deus.: “Lembra-te, Senhor, das tuas misericórdias e das tuas bondades, que são desde a eternidade.” (v.6). O verbo lembrar significa recordar, trazer a mente, fazer um memorial. Davi lembra de dois atributos divinos que fazem parte da aliança de Deus com o seu povo, as suas misericórdias e o seu amor verdadeiro. São palavras que expressam a atitude de forte compaixão e do amor de Deus, é que se concretiza no perdão e na salvação de seu povo. Davi neste momento, ao orar ao suplicar esses atributos ao Senhor, Ele está consciente de que não pode existir nenhum andar nos caminhos do Senhor, sem a bondosa, ajuda dele e sem sua graça e misericórdia.

Acima de tudo, o “lembrar” do salmista inclui o perdão dos seus pecados: “não se lembre dos meus pecados da mocidade, nem das minhas transgressões. (v.7a). O salmista suplica ao Senhor que não se lembre de seus pecados do passado. Não se lembre dos pecados da sua mocidade, nem das transgressões. Sendo assim, ele ora a Deus para que todas as ofensas desse período de sua vida, possam ser perdoadas e esquecidas. Portanto, ao examinar sua própria vida, o autor do salmo viu que as misericórdias de Deus eram incessantes e constantes para com ele desde os primeiros anos. Não somente ao salmista, mas a todo o povo, proporcionado muitas dádivas. No seu entender, esses atos de misericórdia e bondade nunca falharam. Deus é sempre bom. amoroso, misericordioso.

Quanta vezes também suplicamos como o salmista: “Lembra-te, Senhor, das tuas misericórdias e das tuas bondades...não se lembre dos meus pecados da mocidade, nem das minhas transgressões.” Suplicando ao Senhor que vem nos socorrer quando enfrentamos a angústia e dor, quando as tentações nos assaltam ou quando sofrimentos nos sobrevêm por causa de enfermidades e preocupações pela subsistência da vida em tempos difíceis e pelo perdão dos nossos pecados, pois o pecado destroe o nosso relacionamento com Deus. Lembra-te! É uma ação que tem como pressuposto o passado. Não há como lembrar-se sem olhar para trás e ver a ações de Deus em nossa vida. É isso o que devemos fazer também todos os dias. Precisamos nos achegar a Deus, nos humilharmos para alcançarmos o perdão de nossos pecados pois, enquanto não fizermos isso, não poderemos ter nenhuma paz, nenhum alívio para a nossa alma.

O salmista clama pelo perdão divino e reconhece que o Senhor é um guia fiel e gracioso Ele apresenta dois adjetivos do caráter sublime do Senhor.  “Bom e reto é o Senhor.” (v.8a). Ambos os adjetivos aparecem unidos, indicando a bondade e retidão que Deus revela em sua Lei e espera que os homens as pratiquem como aquilo que é “bom” e “reto” aos olhos do Senhor. É o próprio Senhor quem estabelece do que é reto e justo para o seu povo e a humanidade. Por isso, sempre que pecamos, devemos nos achegar a Deus com um coração contrito, arrependido, humilhado, e desejoso do perdão. Ele nos ouve e nos perdoa, pois é compassivo e misericordioso para conosco. Ele nunca nos esquece.  

E uma das formas de Deus nos mostrar a sua bondade é pelo fato Dele “apontar o caminho aos pecadores” (v.8b), e nos guia na justiça neste caminho, pois o Senhor é o próprio caminho. (v. 9). Ele também nos orienta pelas “veredas do Senhor que são misericórdia e verdade.” (v.10a). Nessas veredas, Deus demonstra seu caráter de “misericórdia e verdade”, dois termos que aparecerem juntos, que indicam o amor misericordioso e compromisso fiel de Deus para com os seus, expressos em salvação e cuidado protetor. Isto é para os que guardam a sua aliança e os seus testemunhos.” (v.10b). De fato, quando pertencemos ao Senhor, o nosso objetivo é guardar a sua aliança, pois as veredas do Senhor são caracterizadas por sua aliança de amor e sua fidelidade para com aqueles que guardam. Ao fazermos isso, o Senhor nos guia com segurança através do mundo de perigos em direção ao seu objetivo final.

O que se observa é que o salmista adquire uma nova confiança ao refletir sobre o nome do Senhor. Ele demonstra uma expressão de confiança: “Por causa do teu nome, Senhor, perdoa a minha iniquidade, que é grande.” (v.11). Sem condições em si de alcançar o perdão divino, o salmista clama para que o Senhor lhe conceda a graça com base em seu próprio nome. O “nome” aponta para a existência, caráter e reputação do Senhor, em como a revelação de sua glória na Criação e Redenção (Sl 8.1; 124.8; Êx 19.5-6). Foi com base em seu nome que o Senhor salvou e confirmou sua aliança com Israel (Êx 3.14ss; 6.2-8). Trouxe de volta o seu povo quando se desviou da sua verdade. É por causa da sua bondade que o salmista almeja do Senhor o perdão de seus pecados. Por maior que seja seu pecado, o perdão de Deus, “por causa de (seu) nome”, é maior. O nome do Senhor abrange mais do que apenas sua bondade. Representa tudo o que Ele é. Por isso, Davi se dirige ao Senhor desta forma, porque ele sabe que a sua iniquidade “é grande”. Isso significa que ninguém além de Deus pode tirá-lo. E assim é, pois a iniquidade pode ser grande, o perdão de Deus é maior (Sl 103.3; Sl 103.10-12).

Depois de entender a grandeza de seus pecados e da necessidade de perdão, o salmista agora menciona com que tipo de homem Deus tratará: “Ao homem que teme ao Senhor,  ele o instruirá no caminho que deve escolher” (v.12). Mas quem é o homem que teme ao Senhor?  É aquele que atende aos seus requisitos, isto é, reconhece que o Senhor é santo, todo-poderoso, reto, puro, onisciente, sábio. Ao olhar a Deus à luz disto, vemo-nos como somos: pecadores, débeis, frágeis e necessitados. Quando reconhecemos quem é Deus e quem somos, caímos humilhados a seus pés. Ele ensinará, irá nos guiar e instruir-nos no caminho que devemos seguir ou, em outras palavras, da maneira certa. Como é maravilhoso saber que o Senhor sempre nos orienta pelo Espírito de sabedoria a escolhermos o caminho certo. Mas esta instrução só pode ser desfrutada pelo “homem que teme ao Senhor”.

Portanto, o salmista apresenta quatro benefícios específicos que são prometidos ao homem que teme ao Senhor. Primeiro, ele será ensinado no caminho que deve escolher. Será guiado pelo Senhor em suas escolhas. Em segundo lugar, na prosperidade repousará a sua alma (v.13a). O termo alma é usado simplesmente para designar um indivíduo, ser, vida, pessoa. Para “homem que teme ao Senhor,” o resultado será uma vida interior repleto de paz. Em terceiro lugar, sua descendência herdará a terra. (v.13b). “Herdar a terra” basicamente significa receber a herança prometida por Deus. Os filhos que seguirem seus passos “herdarão a terra”. Eles terão seu lar na terra sob o governo do Messias.

Esse homem abençoado desfrutará do benefício da instrução espiritual: “Intimidade do Senhor é para os que o temem, aos quais ele dará a conhecer a sua aliança.” (v.14). O termo hebraico סֹוד traduzido por intimidade, significa literalmente “conselho confidencial.” Sugere uma comunicação íntima e duradoura com o Senhor. E Ele também os fará conhecer o real significado de “Sua aliança”. Eles saberão que em Cristo, o Senhor cumpriu todas as condições da aliança e que, com base nisso, desfrutarão de todas as bênçãos. (Jr 31:31-34). As bênçãos da aliança que serão sua porção, podem ser resumidas em ter uma comunhão confidencial com o Senhor, na qual Ele revela seus pensamentos.

Como consequência dessas bênçãos, o salmista mantém seus olhos fixos no Senhor: “Os meus olhos se elevam continuamente ao Senhor, pois ele me tirará os pés do laço.” (v.15). Quando o salmista afirma que seus olhos estavam fixos em Deus, estava declarando que apesar das aflições, dos problemas que estava vivendo; da perplexidade, dúvida, dificuldade, perigo em vista da morte e do mundo futuro, ele olhou para Deus como seu guia, e depositou a sua esperança em Deus. E movido pela certeza da libertação que virá do Senhor, ele afirma: “Ele me tirará os pés do laço”. Para onde estamos olhando? Há pessoas que olham constantemente para trás, para justificar suas queixas, para murmurar dos tropeços, para lamentar as derrotas; outras desistem facilmente, não lutam e nem se esforçam, não perseveram quando sofrem o primeiro revés, esquecem de olhar para o alto   e pedir socorro ao Senhor. Deus nunca deixará aqueles que tem seus olhos voltados para o céu sem receber socorro.

Davi encerra a série de orações com uma súplica a Deus por livramento da sua angústia. Em várias ocasiões, Davi se sentiu sozinho diante das suas aflições e, assim, longe de Deus. Sendo assim, ele suplica ao Senhor. Ele apresenta suas aflições a Deus e pede que o alivie: “Volta-te para mim e tem compaixão, porque estou sozinho e aflito.” (v.16). Dá nos entender que a face de Deus, voltou-se para outra direção. Então, o salmista suplica que o Senhor esteja atento a ele, que se volte e o contemple, demonstrando a sua compaixão.

Qual era o motivo? Estava sozinho e aflito. O termo יָחִיד significa estar sozinho, solitário. Então, aquele está sozinho é um abandonado, miserável. Não há tristeza mais profunda que venha à mente do que a ideia de que estamos sozinhos no mundo, e que não temos um amigo; que ninguém se importa conosco; que ninguém está preocupado com nada que possa nos acontecer; que ninguém se importaria se morrêssemos; que ninguém derramaria uma lágrima por nós. E o termo עָנִי significa pobre, aflito, humilde, miserável. Ocorre que David, vivia. muitas vezes, nesta situação. Situação que lembra os seus pecados de sua infância, os desígnios e propósitos de seus inimigos.

No entanto, o salmista olha para Deus, em oração, com a esperança de não se achar desprovido de tal apoio diante de seus sofrimentos. Ele suplica: “Alivia-me as tribulações do Coração; tira-me das minhas angústias.” (v.17). Note como o salmista tinha consciência das aflições que estava enfrentado. Sabendo desta situação, ele recorre a Deus. Em outra ocasião, ele também suplicou. Ele demonstrou a sua confiança no Senhor: “Na minha angústia, clamo ao Senhor, e ele me ouve” (Sl 120.1). Ele confiou no Senhor, pois já o havia restaurado antes, e, certamente, poderia fazer o mesmo naquela situação que estava passando. Enquanto estivermos neste mundo a nossa vida é uma eterna luta diante das tribulações e as dificuldades pelas quais passamos. Quanto de nós não viveu aquelas horas em que olhamos ao redor e nos sentimos tão angustiados que não conseguimos pensar em nenhuma solução para o problema que estamos passando. Parece que a tribulação nos cerca de todos os lados.  Porém, em meio aos problemas aparentemente avassaladores, Deus prometeu nos livrar. Ele sempre está com aquele que tem o coração atribulado.

Davi busca a presença do Senhor e o alívio das suas tribulações, ainda admitindo que seu sofrimento estava vinculado ao seu pecado: “Considera as minhas aflições e o meu sofrimento e perdoa todos os meus pecados.” (v.18). O verbo רָאָה significa ver, examinar, inspecionar, perceber, considerar. O segundo verbo נָשָׂא significa levantar-se, erguer, carregar, tomar. Isto significa que o salmista suplica para que o Senhor olhe com compaixão para a sua aflição e sofrimento. Mas ao dizer “carrega meus pecados”, a ideia do salmista é ser perdoado dos seus pecados e ser liberto de seu domínio. Seus pecados realmente o preocupavam. Davi foi perdoado imediatamente após ter reconhecido sua culpa quando cometeu adultério: “Então Davi disse a Natã: "Pequei contra o Senhor”! E Natã respondeu: "O Senhor perdoou o seu pecado. Você não morrerá.” (2 Sm 12.13).  

 O salmista se apega à sua íntegra retidão e confiança no Senhor, a fim de pedir a Deus que o salve de seus inimigos, bem como resgate Israel de suas aflições. Este é o último clamor de Davi nesse salmo. Ele pede por socorro.  Entretanto, seu desejo é que os olhos de Deus repousem, dessa vez, sobre seus inimigos e sobre o mal que lhe têm feito. Ele afirma: “Considera os meus inimigos, pois são muitos e me abominam com ódio cruel.” (v.19). Eis o motivo da aflição de Davi: inimigos que, sem limites, o perseguem e querem sua destruição.

A vida de Davi foi marcada por muitos inimigos. Saul e todos os seus homens perseguiram Davi. Golias e uma multidão de filisteus eram seus inimigos. Os zifeus, uma tribo da mesma região que Davi, o traíram (1 Samuel 23.19). Assim havia mais adversários do que companheiros na vida de Davi. Até seu próprio filho querido, organizou uma rebelião enorme contra ele. Por isso, havia motivo para dizer: Senhor, considera os meus inimigos, pois são muitos e me abominam com ódio cruel. A Bíblia mostra que os nossos inimigos são muitos. Eles são vigorosos e poderosos. Eles fingem ser amigos em nossa presença, mas falam mal por trás das nossas costas. Eles gritam e oprimem. São conspiradores e destruidores.

Assim, depois de o salmista abrir seu coração a Deus dizendo-lhe o que o aflige, roga para que o Senhor o guarde: “Guarda-me a alma e livra-me.” (v.20a). A expressão “alma”, nesse texto, tem a intenção de apontar para o salmista. Ele não quer apenas proteção espiritual, mas livramento das mãos dos que o odeiam. Para tanto, a sua reação foi procurar refúgio no Senhor: “não seja eu envergonhado, pois em ti me refugio.” (v.20b). O termo בּוּשׁ no hebraico significa envergonhar, ser envergonhado, ficar embaraçado, ficar desapontado. Diante de tamanho perigo, Davi suplica para que o Senhor o guarde, livre e salve da vergonha por causa da sua confiança em Deus. A verdade é que aqueles que confiam em Deus nunca terão vergonha. 

Ainda que o cenário seja de adversidade, Davi encontra em Deus seu mais alto refúgio, e essa certeza resulta em alegria. Sua segurança será a sua sinceridade (integridade) e a retidão (v.21), e sua certeza estará em esperar no Senhor. O termo תֹּם no hebraico significa a condição de ser sem defeito, perfeição, sinceridade, solidez, retidão, inteireza. E o termo יָשָׁר significa retidão, integro, honesto. Dois termos importantes que o salmista necessitava em sua vida, e ele pede ao Senhor que as preservasse. Na Bíblia, temos o exemplo de Jó. Ele foi elogiado por ser um homem íntegro, reto, temente a Deus e que se desvia do mal. (Jó 1.1). Viver com integridade em um mundo onde os corruptos parecem favorecidos, é um desafio.

Finalizando, o salmista expande a sua oração à nação que também necessita da graça de Deus: “Ó Deus, redime a Israel de todas as suas tribulações." (v.22). Ele reivindica para Israel aquilo que pediu para si mesmo, e transforma uma petição pessoal em hino para a congregação inteira. Ocorre que o salmista vê o clamor do povo para que o Senhor redima Israel de suas tribulações como um desejo semelhante ao do profeta Jeremias diante da agonia do cerco babilônico e do Exílio (Jr 31.11).

Estimados irmãos! Davi nos deu um grande exemplo de confiança em Deus. Ele não confiou em qualquer coisa ou em qualquer pessoa, mas, escolheu confiar somente no Senhor. Ele venceu sua angústia e viu mais uma vez Deus se manifestar em sua vida. E você, tem confiado somente em Deus? Lembrem-se: quando colocamos a nossa confiança no Senhor, nada pode abalar a nossa estrutura, pois a confiança no Senhor produz uma firmeza inigualável. É certo que lutas veem e virão. Muitas aflições, muitas provas, muitas dúvidas e sofrimentos. Mas, por fim, a promessa é que sempre haverá firmeza, até a eternidade. Portanto, não hesite em suplicar ao Senhor diante das suas aflições, pois aqueles que confiam e que esperam no Senhor renovarão as suas forças e encontrarão soluções para vencer. Amém


quarta-feira, 16 de setembro de 2026

 

TEXTO: Is 55.6–9

TEMA: BUSCAI O SENHOR ENQUANTO SE PODE ACHAR

O profeta Isaías apresenta um chamado urgente ao povo de Deus: “Buscai o SENHOR enquanto se pode achar, invocai-o enquanto está perto” (v. 6). Essas palavras nos lembram que não podemos tratar a nossa relação com Deus com indiferença ou adiamento. O SENHOR se aproxima de nós com sua Palavra e nos chama ao arrependimento e à fé.

O ser humano, por causa do pecado, naturalmente procura seguir seus próprios pensamentos e caminhos. Acredita o que é melhor para sua vida e tenta conduzi-la de acordo com sua própria vontade. Porém, Isaías nos mostra que os caminhos de Deus são superiores aos nossos e que precisamos abandonar nossos próprios caminhos para voltar ao SENHOR.

O texto, portanto, nos convida a refletir sobre três verdades

                                                          I

Primeiro, busquemos o SENHOR enquanto ele se deixa encontrar (v. 6). Isaías começa com uma convocação: “Buscai o SENHOR enquanto se pode achar; invocai-o enquanto está perto”. Essas palavras revelam a urgência do chamado de Deus. Não se trata simplesmente de procurar alguma coisa que esteja perdida, mas de voltar o coração para aquele que é a fonte da vida, da salvação e do perdão.

Buscar o SENHOR significa reconhecer que precisamos dele e que não encontramos a verdadeira vida em nossas próprias forças, méritos ou capacidades. Buscar o SENHOR significa voltar-se para Ele, ouvir a sua Palavra, confiar em suas promessas e viver debaixo de sua graça. O ser humano, por natureza, procura construir sua própria segurança e, muitas vezes, tenta resolver sua vida longe de Deus. Mas Isaías nos chama a abandonar esse caminho e a voltar-nos para o SENHOR. É Deus quem toma a iniciativa e chama o pecador para junto de si. Por isso, a busca pelo SENHOR não é uma tentativa humana de alcançar um Deus distante, mas uma resposta àquele Deus que se aproxima de nós e nos chama por meio de sua Palavra.

O profeta acrescenta: “invocai-o enquanto está perto”. Deus não está distante do seu povo. Ele se revela e se aproxima por meio de sua Palavra. O SENHOR fala, chama, corrige, consola e oferece a salvação. Onde a Palavra de Deus é anunciada, ali o SENHOR chama pecadores ao arrependimento e lhes oferece o perdão. Não precisamos procurar Deus em caminhos desconhecidos ou em experiências extraordinárias. Ele vem ao nosso encontro onde prometeu estar: em sua Palavra e nos meios da graça.

Por isso, o chamado de Isaías também é um chamado ao arrependimento. Buscar o SENHOR envolve abandonar aquilo que nos afasta dele e reconhecer nossa necessidade de sua misericórdia. Não podemos permanecer presos ao pecado, à autossuficiência ou à confiança em nós mesmos. O SENHOR nos chama a deixar esses caminhos e a confiar nele. Sua Palavra mostra o nosso pecado, mas também anuncia a maravilhosa notícia de que há perdão e salvação naquele que se aproxima do pecador.

Esse chamado também nos lembra que não devemos adiar a nossa volta para Deus. Isaías diz: “enquanto se pode achar” e “enquanto está perto”. Há uma urgência nessas palavras. O tempo da graça deve ser aproveitado. Hoje, Deus fala conosco; hoje ele nos chama; hoje ele oferece seu perdão. Por isso, não devemos endurecer o coração nem pensar que podemos deixar para amanhã aquilo que Deus nos chama a fazer hoje.

Como cristãos, somos constantemente chamados a permanecer na Palavra. Buscar o SENHOR não é apenas uma decisão tomada uma única vez, mas uma vida de fé. Voltamos continuamente às promessas de Deus porque somos pecadores que necessitam diariamente de sua graça. Na Palavra, Deus nos sustenta; no Batismo, nos lembra de sua promessa; na Santa Ceia, Cristo nos concede seu verdadeiro corpo e sangue para o perdão dos pecados. Assim, Deus continua vindo ao nosso encontro e fortalecendo nossa fé.

Portanto, irmãos, enquanto o SENHOR se deixa encontrar, busquemo-lo. Enquanto sua Palavra é anunciada, ouçamos. Enquanto sua graça é oferecida, recebamos com fé. E enquanto ele está perto, invoquemos o seu nome. Não confiemos em nós mesmos, mas naquele que promete: “Buscai o SENHOR enquanto se pode achar; invocai-o enquanto está perto”. O SENHOR não rejeita o pecador que se volta para ele, mas oferece misericórdia, perdão e vida por sua graça,

                                                            II

Segundo abandonemos nossos caminhos e voltemos para o SENHOR (v. 7).O profeta continua afirmando: “Deixe o perverso o seu caminho, o iníquo, os seus pensamentos; converta-se ao SENHOR, que se compadecerá dele, e volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar”. Depois de chamar o povo a buscar o SENHOR, Isaías mostra o que essa busca implica. Não podemos buscar verdadeiramente a Deus enquanto insistimos em permanecer nos caminhos que nos afastam dele. Por isso, o chamado do profeta é claro: é necessário abandonar o caminho do pecado e voltar-se para o SENHOR.

Isaías fala primeiro ao “perverso o seu caminho: ele mostra que o arrependimento envolve abandonar o caminho do pecado. Não se trata apenas de reconhecer que algo está errado, mas de voltar-se para Deus, abandonando uma vida orientada pelo pecado. Depois fala do “iníquo, os seus pensamentos”. Ele amplia o sentido. Deus não olha somente para as ações externas, mas também para o coração e os pensamentos. O pecado começa no interior e se manifesta nas palavras e atitudes. Por isso, o chamado de Deus alcança a pessoa por inteiro.

Abandonar os nossos caminhos significa reconhecer que nem sempre o caminho que escolhemos é o caminho de Deus. Muitas vezes, confiamos em nossa própria sabedoria, buscamos nossa própria vontade e tentamos conduzir a vida de acordo com os nossos desejos. O pecado nos faz pensar que sabemos melhor do que Deus o que é bom para nós. Mas a Palavra nos chama a reconhecer o nosso erro, confessar o pecado e abandonar aquilo que nos afasta do SENHOR.

Esse abandono não significa que o cristão consiga, por suas próprias forças, eliminar completamente o pecado de sua vida. Enquanto vivermos neste mundo, continuaremos lutando contra o pecado. O arrependimento cristão não consiste em apresentar diante de Deus uma vida perfeita, mas em reconhecer o pecado e voltar-se para a misericórdia de Deus. É deixar de justificar o pecado e, pela ação do Espírito Santo, confessá-lo diante do SENHOR.

No entanto, Isaías não diz apenas: “deixe o seu caminho”. Ele acrescenta: “converta-se ao SENHOR”. O arrependimento possui essas duas dimensões: afastar-se do pecado e voltar-se para Deus. Não basta simplesmente abandonar determinados comportamentos; é necessário voltar o coração para o SENHOR e confiar nele. O verdadeiro arrependimento não termina na tristeza pelo pecado, mas encontra seu destino na graça e no perdão de Deus.

E aqui está a grande esperança apresentada pelo profeta: “que se compadecerá dele”. Deus não recebe o pecador arrependido com rejeição, mas com misericórdia. O SENHOR conhece nossa fraqueza, conhece nossos pecados e sabe da nossa incapacidade de salvar a nós mesmos. Mesmo assim, ele nos chama para perto de si. Sua compaixão não é conquistada por nossos méritos. Ela nasce do próprio coração misericordioso de Deus.

Isaías apresenta então uma das afirmações mais consoladoras deste texto: “porque é rico em perdoar”. Deus não perdoa apenas uma parte do pecado; não oferece misericórdia somente àqueles que conseguiram melhorar sua vida. Ele é “rico em perdoar”. Seu perdão é maior do que a nossa culpa, sua misericórdia é maior do que a nossa miséria e sua graça é maior do que os nossos pecados.

Essa palavra é especialmente importante porque, muitas vezes, carregamos culpas que pensamos serem grandes demais para serem perdoadas. Podemos olhar para o passado e lembrar erros, decisões, palavras e atitudes que gostaríamos de apagar. Podemos até pensar que Deus não nos perdoará novamente. Mas Isaías nos conduz para longe de nós mesmos e nos aponta para Deus: “volte-se para o nosso Deus, porque é rico em perdoar”. A segurança do pecador não está na pequenez do seu pecado, mas na grandeza da misericórdia de Deus.

Para nós, cristãos, essa promessa encontra seu pleno cumprimento em Jesus Cristo. É nele que Deus demonstra de maneira definitiva sua misericórdia para com pecadores. Cristo levou sobre si a culpa do pecado e morreu na cruz para conquistar o perdão. Por isso, quando Deus nos chama ao arrependimento, ele não nos conduz ao desespero, mas ao Evangelho. Ele nos chama a abandonar a confiança em nós mesmos e a confiar naquele que morreu e ressuscitou por nós.

Assim, abandonar nossos caminhos não significa simplesmente “tentar ser uma pessoa melhor”. Significa reconhecer que precisamos de Cristo. Significa deixar de confiar em nossas obras e descansar na graça de Deus. O SENHOR nos chama a abandonar o caminho da autossuficiência para caminhar pela fé em suas promessas. Quando caímos em pecado, não precisamos fugir de Deus; precisamos voltar para ele, confessar nossos pecados e receber novamente a certeza de seu perdão.

Portanto, irmãos, o convite de Isaías continua atual: “converta-se ao SENHOR” e “volte-se para o nosso Deus”. Não permaneçamos presos aos nossos velhos caminhos. Não façamos do pecado uma justificativa para permanecer longe de Deus. Voltemos ao SENHOR, porque ele é compassivo e “rico em perdoar”. Há perdão para o pecador arrependido, há graça para o culpado e há vida para aquele que, pela fé, se refugia na misericórdia de Deus.

                                                                     III

Terceiro, confiemos nos pensamentos e caminhos de Deus (vv. 8–9). Isaías declara: “Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o SENHOR”. Depois de chamar o povo a buscar o SENHOR e abandonar os seus próprios caminhos, o profeta mostra por que podemos confiar em Deus. Os pensamentos de Deus são superiores aos nossos pensamentos, e os seus caminhos são muito mais elevados do que os nossos. Deus enxerga aquilo que nós não conseguimos enxergar e conhece aquilo que está além da nossa compreensão.

Nós, muitas vezes, queremos compreender tudo o que acontece. Gostaríamos de saber por que determinadas situações acontecem, por que algumas orações parecem não ser respondidas da maneira que esperamos e por que Deus permite determinadas dificuldades. Quando não conseguimos compreender, somos tentados a pensar que Deus está distante ou que não está cuidando de nós. Mas Isaías nos lembra que os pensamentos de Deus não são os nossos pensamentos. A nossa compreensão é limitada; a sabedoria de Deus é perfeita.

Isso não significa que Deus seja imprevisível ou que não possamos conhecê-lo. Pelo contrário, Deus se revela claramente em sua Palavra. Não conhecemos tudo sobre Deus, mas conhecemos aquilo que ele quis revelar para nossa salvação. Sabemos que ele é santo, justo, misericordioso e fiel. Acima de tudo, sabemos que ele demonstrou seu amor por nós em Jesus Cristo. Por isso, quando não compreendemos os caminhos de Deus, podemos continuar confiando no próprio Deus que conhecemos por meio de sua Palavra.

O profeta prossegue: “Porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos” (v. 9). A comparação mostra a enorme diferença entre Deus e o ser humano. Assim como os céus estão muito acima da terra, os pensamentos e caminhos do SENHOR estão acima dos nossos. Não podemos colocar Deus dentro dos limites da nossa razão. A fé reconhece que Deus sabe o que nós não sabemos e que seus propósitos são maiores do que aquilo que conseguimos compreender.

Essa verdade é especialmente importante quando passamos por momentos difíceis. Em determinadas situações, podemos olhar para a nossa vida e perguntar: “Por que Deus permitiu que isso acontecesse?” Nem sempre teremos uma resposta imediata. A Bíblia não promete que compreenderemos todas as coisas. Mas ela nos chama a confiar naquele que permanece fiel em todas as circunstâncias. Mesmo quando não entendemos o caminho, podemos confiar naquele que conduz os seus filhos.

Também precisamos aplicar essa palavra à salvação. O caminho de Deus para salvar o pecador não corresponde àquilo que o ser humano naturalmente esperaria. Nós poderíamos imaginar que Deus salvaria aqueles que fossem suficientemente bons, que apresentassem obras suficientes ou que conseguissem merecer a sua aprovação. Mas Deus revelou um caminho muito diferente: a salvação é concedida pela graça, por causa de Cristo, recebida pela fé. A cruz, aos olhos humanos, parece fraqueza e derrota; porém, nela Deus realizou a nossa redenção.

Portanto, os caminhos de Deus nos ensinam a abandonar a confiança em nossa própria sabedoria. Quando queremos determinar como Deus deve agir, colocamos nossa razão acima da Palavra. A fé faz o contrário: submete-se à Palavra de Deus e confia em suas promessas. Isso não significa abandonar a razão ou deixar de buscar entendimento, mas reconhecer seus limites. Quando a nossa compreensão entra em conflito com aquilo que Deus revelou, é a Palavra de Deus que permanece como autoridade segura.

Há também aqui uma ligação muito importante com os versículos anteriores. No versículo 7, Deus chama o perverso a abandonar o seu caminho e voltar-se para ele. Nos versículos 8–9, Deus explica que os seus caminhos são mais altos do que os nossos. Isso nos mostra que o arrependimento envolve também deixar de insistir em nosso próprio caminho. O pecador quer seguir sua própria vontade; Deus o chama para um caminho melhor. O SENHOR não nos chama para perdermos algo que realmente precisamos, mas para recebermos aquilo que somente ele pode dar.

Por isso, confiar nos pensamentos e caminhos de Deus significa confiar mesmo quando não enxergamos o resultado. Significa continuar firmes na Palavra quando as circunstâncias parecem contradizê-la. Significa crer que Deus continua sendo Deus quando a vida não acontece conforme nossos planos. Nossa segurança não está em compreender todos os detalhes do caminho, mas em saber quem está conduzindo nossa vida.

E sabemos quem é esse Deus: é o Deus que foi ao nosso encontro em Cristo. O Deus que perdoa, que se compadece e que é rico em perdoar. O Deus que entregou seu próprio Filho para nos reconciliar consigo. Portanto, quando não entendemos seus caminhos, podemos olhar para Cristo e lembrar que o coração de Deus é favorável a nós. A cruz é a maior prova de que Deus não nos abandona.

Assim, irmãos, não precisamos ter todas as respostas para permanecer na fé. Há momentos em que Deus nos permite caminhar pela confiança e não pela compreensão. Nesses momentos, lembremo-nos das palavras de Isaías: “os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos”. Confiemos no Senhor, porque seus caminhos são mais altos que os nossos, sua sabedoria é perfeita e sua graça permanece firme. Quando não conseguimos compreender o caminho, podemos descansar naquele que conhece o caminho perfeitamente.

Estimados irmãos! O texto nos apresenta um chamado urgente e, ao mesmo tempo, cheio de esperança: “Buscai o SENHOR enquanto se pode achar.” Deus nos chama para perto dele. Ele nos chama a abandonar o pecado, reconhecer nossa necessidade e confiar em sua misericórdia.

O texto também nos lembra que Deus é “rico em perdoar”. Não precisamos permanecer presos ao passado, carregando nossa culpa como se tivéssemos de pagar por ela. Em Cristo, Deus oferece perdão completo. Jesus tomou sobre si nossa culpa e nos reconciliou com o Pai.

Por isso, quando não entendermos os caminhos de Deus, confiemos nele. Quando enfrentarmos dificuldades, permaneçamos firmes em sua Palavra. Quando reconhecermos nosso pecado, voltemos para o Senhor. Seus pensamentos são mais altos que os nossos, seus caminhos são melhores que os nossos e sua misericórdia é maior do que a nossa culpa.

Busquemos o SENHOR enquanto se pode achar. Voltemos para ele em arrependimento e fé. E confiemos naquele que é rico em perdoar e que, em Jesus Cristo, nos oferece a verdadeira vida e a salvação. Amém.

terça-feira, 15 de setembro de 2026

TEXTO:  MT 20.1-16

TEMA: NÃO PELOS MÉRITOS, MAS PELA GRAÇA

Vivemos em uma sociedade em que quase tudo é medido pelo merecimento. Quem trabalha mais espera receber mais. Quem se esforça mais espera uma recompensa maior. Quem chega primeiro entende que deve ter alguma vantagem sobre quem chegou depois. Desde cedo aprendemos a comparar nossos esforços, resultados e conquistas com os das outras pessoas. Essa maneira de pensar também pode aparecer em nossa vida cristã. Podemos imaginar que, porque servimos mais tempo, participamos mais da igreja ou realizamos mais atividades, temos mais direitos diante de Deus. 

É nesse contexto que Jesus apresenta a parábola dos trabalhadores da vinha. O dono da vinha sai diversas vezes durante o dia para chamar trabalhadores. Alguns começam a trabalhar logo pela manhã; outros são chamados às nove horas, ao meio-dia, às três e até às cinco da tarde. Quando chega o momento do pagamento, acontece algo que surpreende todos: aqueles que trabalharam apenas uma hora recebem o mesmo valor daqueles que suportaram o peso e o calor do dia inteiro.

A reação dos primeiros trabalhadores revela o problema. Eles não conseguem olhar para o que receberam sem comparar com aquilo que os outros receberam. Aos seus olhos, o pagamento deveria ser proporcional ao esforço realizado. Mas o senhor da vinha mostra que o reino de Deus não funciona segundo a lógica dos méritos humanos. Deus não nos concede a salvação porque fizemos mais do que os outros, porque somos mais fiéis ou porque conseguimos apresentar uma vida digna diante dele.

A parábola nos conduz, portanto, ao centro do Evangelho: a graça de Deus. Nós somos pecadores e nada podemos exigir de Deus como pagamento por nossas obras. Tudo o que recebemos dele é fruto de sua bondade e misericórdia. A vida eterna, o perdão dos pecados e a salvação são dons que Deus concede gratuitamente por causa de Jesus Cristo.

Por isso, a pergunta que a parábola coloca diante de nós não é: “Quanto eu mereço receber de Deus?”, mas: “Quão grande é a graça que Deus oferece ao pecador?”. Quando compreendemos isso, deixamos de confiar em nossos méritos, abandonamos as comparações e aprendemos a agradecer pela graça que também alcança nosso irmão.

Diante dessa Palavra, vamos refletir sobre três verdades:

Primeiro, Deus chama pessoas diferentes para trabalhar em sua vinha (vv. 1–7). O dono da vinha sai várias vezes para chamar trabalhadores, alguns logo pela manhã e outros somente ao longo do dia. Isso mostra que Deus chama pessoas em diferentes momentos de suas vidas. O chamado para o reino de Deus não acontece da mesma maneira para todos. Alguns conhecem a Palavra de Deus desde cedo, enquanto outros são alcançados pela graça mais tarde. O importante não é o tempo em que fomos chamados, mas pertencer ao Senhor. Deus continua chamando pessoas para viverem sob sua graça e servirem em seu Reino. Por isso, devemos agradecer o chamado de Deus e responder com fé e dedicação.

Segundo, Deus concede seus dons segundo a sua graça, e não segundo os nossos méritos (vv. 8–12). No final do dia, o dono da vinha ordena que todos recebam o pagamento. Para surpresa dos trabalhadores, os que chegaram por último recebem primeiro e aqueles que trabalharam apenas uma hora recebem o mesmo valor dos que trabalharam o dia inteiro. Os primeiros trabalhadores entendem o pagamento como uma questão de merecimento. A graça de Deus, porém, não funciona segundo os cálculos e méritos humanos. A salvação não é recompensa por aquilo que fazemos, mas presente concedido por Deus. Ninguém pode apresentar suas obras como motivo para exigir algo do Senhor. No reino de Deus, recebemos muito mais do que merecemos: recebemos a graça e o perdão em Cristo.

Terceiro, no reino de Deus, precisamos abandonar a comparação e confiar na bondade do Senhor (vv. 13–16). Os primeiros trabalhadores ficaram indignados porque compararam o que receberam com o que os outros receberam. A comparação produziu insatisfação e fez com que deixassem de perceber a bondade do senhor da vinha. Jesus mostra como facilmente podemos agir da mesma maneira em nossa vida cristã. Podemos comparar nosso serviço, nossos dons e nossa caminhada com a dos outros. Mas Deus não nos chama para medir a graça recebida pela graça concedida ao nosso irmão. Devemos confiar que o Senhor é justo, bondoso e livre para conceder seus dons como deseja. A graça recebida pelo outro não diminui a graça que Deus concedeu a nós. Por isso, no reino de Deus, abandonemos a comparação e alegremo-nos porque tudo o que recebemos vem da bondade do Senhor.

                                                         I

A parábola dos Trabalhadores da Vinha é uma das parábolas de Jesus encontrada exclusivamente no Evangelho de Mateus. Nela, Jesus explica de maneira didática o que é o reino dos céus. Ele afirma: “O reino dos céus ...” (v.1a). O reino dos céus compreende tudo aquilo que se relaciona com Deus e com o seu governo sobre a vida dos seres humanos. É o domínio, o reinado e a soberania de Deus. Entretanto, o reino dos céus é diferente dos reinos humanos. A lógica que vigora entre os homens, em matéria de valores, pensamentos, julgamentos e recompensas, não é a mesma lógica do reino dos céus. Enquanto os homens costumam avaliar as pessoas segundo seus méritos, realizações e posições, no reino dos céus a salvação não é resultado das obras humanas, mas é recebida pela graça de Deus.

Para compreender melhor essa parábola, precisamos observar o contexto anterior. Jesus havia se encontrado com um jovem rico que lhe perguntou: “Mestre, que farei eu de bom, para alcançar a vida eterna?” (Mt 19.16). O jovem queria saber o que deveria fazer para conquistar a vida eterna. Jesus o confrontou com a realidade do seu coração e o chamou a deixar aquilo que ocupava o primeiro lugar em sua vida e a segui-lo. Entretanto, o jovem retirou-se triste, porque possuía muitas riquezas. Seu apego aos bens materiais revelou que ele não estava disposto a renunciar a sua segurança para seguir a Cristo.

Diante disso, Pedro tomou a palavra e perguntou a Jesus: “Eis que nós tudo deixamos e te seguimos; que será, pois, de nós?” (Mt 19.27). A pergunta de Pedro revela uma preocupação com recompensa. Ele parecia pensar em termos de troca: nós deixamos tudo, nós seguimos Jesus; o que receberemos em troca? Havia, portanto, uma espécie de espírito de barganha. Pedro queria saber qual seria o benefício daqueles que haviam deixado tudo para seguir o Mestre.

É nesse contexto que Jesus apresenta a parábola dos Trabalhadores da Vinha. Ele deseja corrigir uma compreensão equivocada sobre o reino dos céus. Os discípulos precisavam compreender que o reino dos céus não funciona segundo a lógica do merecimento humano. Não se trata de uma recompensa concedida àqueles que fizeram mais, trabalharam por mais tempo ou ocuparam posições de maior destaque. O Reino pertence a Deus, e tudo o que nele recebemos é fruto de sua graça.

Jesus então explica aos seus discípulos alguns princípios importantes que eles precisavam compreender, especialmente Pedro, em razão da pergunta que havia feito anteriormente: “Eis que nós tudo deixamos e te seguimos; que será, pois, de nós?” Sendo assim Jesus afirma que este reino é “semelhante a um dono de casa que saiu de madrugada para assalariar trabalhadores para a sua vinha” (v.1b). Em seu ensino, Jesus utiliza figuras de linguagem para tornar mais expressiva e compreensível a sua resposta. Ele emprega elementos conhecidos da vida cotidiana daquela época para transmitir verdades espirituais. Em uma cultura predominantemente agrária, a imagem de uma vinha e de trabalhadores era facilmente compreendida pelos seus ouvintes. Jesus, portanto, parte de uma realidade conhecida para ensinar uma verdade a respeito do reino dos céus.

Nesse sentido, Jesus compara o reino dos céus a um dono de casa que possuía uma vinha. Esse proprietário saiu de madrugada para contratar trabalhadores, pois precisava de pessoas para realizar o trabalho em sua vinha. O texto apresenta a figura de um homem que toma a iniciativa de buscar trabalhadores para a sua propriedade. A vinha exigia trabalho e, por isso, ao longo daquele dia, o proprietário voltaria várias vezes para chamar outras pessoas.

O primeiro grupo de trabalhadores foi contratado pelo proprietário logo pela manhã: O texto diz: “E, tendo ajustado com os trabalhadores a um denário por dia, mandou-os para a vinha” (v. 2). O denário era uma moeda de prata utilizada no Império Romano e correspondia, de modo geral, ao pagamento de um trabalhador por um dia de serviço. Depois de estabelecer o acordo, o proprietário enviou os trabalhadores para a sua vinha. Aqui existe um acordo claro: os trabalhadores receberiam aquilo que havia sido combinado. Eles não estavam sendo enganados nem recebendo uma promessa vaga. O dono da vinha estabelece uma remuneração e os envia para o trabalho.

Porém, à medida que a parábola avança, Jesus introduz um elemento que surpreenderá os trabalhadores e os seus ouvintes: o proprietário continuará saindo para chamar outras pessoas. Por isso, voltou à praça em diferentes horários em busca de trabalhadores. Diz o texto: “Saindo pela terceira hora, viu, na praça, outros que estavam desocupados” (v.3). A terceira hora correspondia aproximadamente às nove horas da manhã. Havia outros trabalhadores esperando uma oportunidade. Eles estavam na praça, lugar onde normalmente se reuniam aqueles que procuravam trabalho. O proprietário então lhes diz: “Ide vós também para a vinha, e vos darei o que for justo” (v. 4). Interessante notar que não são os “desempregados” que procuram o patrão pedindo-lhe emprego, mas é o próprio patrão que vai ao encontro deles na praça convidando-os para trabalhar na sua vinha.

No entanto, dono da vinha não se limita a contratar trabalhadores pela manhã. À medida que o dia avança, ele volta à praça e encontra outros homens desocupados. O texto diz: “Saindo outra vez, perto da hora sexta e da nona, procedeu da mesma forma” (v. 5). A sexta hora correspondia aproximadamente ao meio-dia, e a nona hora, aproximadamente às três horas da tarde. Portanto, já havia passado boa parte do dia, mas o proprietário continuava saindo em busca de trabalhadores. Isso é significativo. Ele não pensa que já era tarde demais, nem considera encerrado o período de contratação. Enquanto ainda havia tempo, ele continuava procurando aqueles que estavam desocupados na praça.

Assim, o proprietário que não desiste de procurar trabalhadores para a sua vinha. Mesmo quando o dia já estava avançado, ele continuava saindo e chamando aqueles que ainda estavam desocupados. Isso revela a sua disposição de oferecer uma oportunidade enquanto ainda havia tempo. Essa atitude do proprietário nos ajuda a compreender a maneira como Deus chama pessoas para o seu Reino. É Ele quem toma a iniciativa. Não somos nós que conquistamos o direito de entrar na vinha por nossos próprios méritos. Deus nos chama por sua graça e nos concede o privilégio de servi-lo. Ele alcança pessoas em diferentes momentos da vida. Alguns conhecem a Palavra desde a infância; outros são alcançados mais tarde. Alguns são chamados a servir ao Senhor durante muitos anos; outros começam a servi-lo quando já estão em uma fase mais avançada da vida. O tempo do chamado pode ser diferente, mas o Senhor continua sendo o mesmo, e a graça continua sendo a mesma. Por isso, ninguém deve considerar-se superior ao outro por ter servido ao Senhor por mais tempo.

Chegamos agora a uma nova saída do proprietário. O texto diz: “E, saindo por volta da hora undécima, encontrou outros que estavam desocupados e perguntou-lhes: Por que estivestes aqui desocupados o dia todo?” (v. 6). A hora undécima correspondia aproximadamente às cinco horas da tarde. O dia de trabalho estava terminando, pois normalmente terminava por volta das seis horas. Isso significa que aqueles homens haviam passado praticamente todo o dia na praça sem encontrar trabalho. A pergunta do proprietário chama a nossa atenção: “Por que estivestes aqui desocupados o dia todo?”.

É impressionante que o proprietário ainda saia à procura de trabalhadores quando o dia estava praticamente terminando. Poderia parecer inútil contratar alguém naquele momento. Restava pouco tempo para trabalhar, e seria muito mais fácil simplesmente deixar aqueles homens na praça. Mas o proprietário não age dessa maneira. Ele ainda os chama. Isso reforça uma das grandes verdades da parábola: a graça de Deus continua alcançando pessoas que, aos olhos humanos, poderiam parecer estar chegando tarde demais

Então, os trabalhadores respondem ao proprietário: A resposta daqueles homens é simples: “Porque ninguém nos contratou. Então, lhes disse: Ide vós também para a vinha.” (v. 7). Eles estavam desocupados não porque se recusassem a trabalhar, mas porque ninguém havia lhes oferecido trabalho. Durante todo o dia permaneceram na praça, esperando uma oportunidade. Sendo assim, mesmo faltando apenas pouco tempo para o encerramento do trabalho, ele ainda os chama. Isso demonstra a sua bondade e a sua iniciativa. Ele não considera que seja tarde demais para aqueles homens. Ao contrário, oferece-lhes também a oportunidade de trabalhar na sua vinha.

Os trabalhadores simplesmente recebem o convite e vão para a vinha. Da mesma forma, Deus continua chamando pessoas para trabalhar em sua vinha. Somos chamados a ir ao encontro daqueles que estão cansados, abatidos e necessitados de esperança. A pergunta, então, precisa ser dirigida também a nós: Como temos respondido ao chamado do Senhor? Estamos dispostos a servir na sua vinha? Temos compreendido o serviço cristão como um privilégio recebido pela graça ou como uma oportunidade para buscar reconhecimento e recompensa?

                                                                 II

Ao final do dia, o dono da vinha ordenou que os trabalhadores fossem pagos. O texto diz: “Chamou os trabalhadores e pagou-lhes o salário, começando pelos últimos, indo até aos primeiros” (v.8). A ordem do pagamento já cria expectativa. Os trabalhadores que haviam chegado por último foram os primeiros a receber. Isso certamente chamou a atenção daqueles que haviam trabalhado desde a primeira hora, pois eles podiam imaginar que receberiam mais do que os outros. Ocorre que o proprietário não faz o pagamento de maneira aleatória. Ao começar pelos últimos, ele prepara a cena para revelar uma verdade importante. Todos os trabalhadores receberão o que lhes foi prometido, mas a maneira como o pagamento acontece mostrará que a recompensa não será determinada simplesmente pelo tempo de trabalho. Os últimos, que haviam trabalhado apenas uma hora, seriam os primeiros a receber.

Aqui começamos a perceber com mais clareza o ensino da parábola sobre a graça de Deus. O Senhor não trata os seus filhos de acordo com uma escala de méritos humanos. Aqueles que foram chamados primeiro não possuem motivo para se considerar superiores aos que foram chamados depois. Todos dependem igualmente da bondade do Senhor. O pagamento também mostra que o proprietário é fiel à sua palavra. Ele havia combinado com os primeiros trabalhadores o pagamento de um denário e, agora, cumpre o que havia prometido. Portanto, não há injustiça da parte do proprietário. A questão que surgirá não será se ele cumpriu sua promessa, mas como ele decidiu conceder sua bondade também aos últimos.

No entanto, quando chegou a vez dos trabalhadores que haviam sido contratados por último, o texto diz: “Vindo os da hora undécima, recebeu cada um deles um denário” (v.9). Esses trabalhadores haviam trabalhado apenas aproximadamente uma hora, mas receberam o mesmo valor que havia sido combinado com aqueles que trabalharam desde a primeira hora. Isso certamente causou surpresa.  Esperavam  que quem trabalhou mais tempo recebesse mais. Entretanto, o proprietário não está sendo injusto com ninguém. Ele havia prometido aos primeiros um denário e cumpriria essa promessa. Aos últimos, porém, decidiu conceder também um denário, demonstrando sua bondade.

É importante lembrar que graça de Deus não é distribuída conforme os méritos humanos. Os trabalhadores da última hora não receberam porque trabalharam muito, mas porque o proprietário foi generoso com eles. Da mesma forma, a salvação não é uma recompensa pelo tempo que servimos a Deus ou pela quantidade de boas obras que realizamos. Ela é recebida pela graça de Deus, mediante a fé em Cristo.

Quando chegaram os primeiros trabalhadores, eles imaginaram que receberiam mais. O texto diz: “Ao chegarem os primeiros, pensaram que receberiam mais; porém, também estes receberam um denário cada um” (v. 10). Eles haviam trabalhado desde cedo, suportado o calor e realizado um dia inteiro de trabalho. Por isso, ao perceberem que os últimos haviam recebido um denário, esperavam receber uma quantia maior. Entretanto, receberam exatamente o que havia sido combinado: um denário. O proprietário não havia diminuído o pagamento dos primeiros nem quebrado sua palavra. Eles receberam aquilo que lhes fora prometido. O problema estava na expectativa deles de receber mais por terem trabalhado mais tempo

Na vida cristã, isso também pode acontecer. Podemos pensar que, por servirmos a Deus há mais tempo, por termos realizado mais trabalhos ou por termos enfrentado mais dificuldades, deveríamos receber maiores privilégios diante dele. A parábola nos lembra que não podemos transformar nosso serviço em motivo de orgulho ou em instrumento para exigir de Deus uma recompensa maior.

O denário recebido pelos primeiros mostras que Deus é fiel à sua promessa, enquanto o pagamento dos últimos revela sua graça e generosidade. Não devemos medir a bondade de Deus pelo que os outros recebem, mas agradecer a graça que nós mesmos recebemos. Todos os trabalhadores recebem do mesmo proprietário e permanecem dependentes da sua bondade.

Ao receberem o mesmo salário, os primeiros trabalhadores começaram a reclamar contra o proprietário. O texto diz: “Mas, tendo-o recebido, murmuravam contra o dono da casa” (v. 11). Eles haviam recebido exatamente o que havia sido combinado, mas, ao compararem o seu pagamento com o dos últimos, sentiram-se prejudicados. A murmuração revela que o problema não estava no pagamento recebido, mas no coração daqueles trabalhadores. Eles não conseguiram alegrar-se com a generosidade demonstrada aos outros. O fato de os últimos receberem o mesmo valor despertou neles insatisfação, inveja e sentimento de superioridade.

Essa atitude também pode aparecer na vida cristã. Podemos olhar para o que Deus concede ao nosso próximo e pensar que merecemos mais porque servimos há mais tempo ou porque enfrentamos maiores dificuldades. Porém, quando começamos a comparar méritos e recompensas, esquecemos que tudo o que recebemos de Deus é fruto da sua graça.

Os trabalhadores que haviam sido contratados primeiro apresentam sua reclamação: “Estes últimos trabalharam somente uma hora; contudo, os igualaste a nós, que suportamos a fadiga e o calor do dia” (v. 12). Eles reconhecem que trabalharam durante todo o dia, enfrentando o cansaço e o calor, enquanto os últimos trabalharam apenas uma hora. A reclamação revela que eles estavam olhando para a situação a partir da lógica do mérito. Para eles, quem trabalhou mais deveria necessariamente receber mais. O problema não era terem recebido menos do que o combinado, pois receberam exatamente um denário. O que os incomodava era ver que os últimos haviam recebido o mesmo valor.

Jesus mostra, assim, o contraste entre mérito e graça. Os primeiros pensavam em termos de recompensa proporcional ao trabalho realizado. O proprietário, porém, age com generosidade para com os últimos. Isso nos ensina que o reino de Deus não funciona segundo a lógica dos méritos humanos. A salvação é dádiva da graça de Deus, e não pagamento por aquilo que fazemos.

Também precisamos tomar cuidado para não transformar nosso serviço cristão em motivo de orgulho. Podemos servir durante muitos anos, enfrentar dificuldades e dedicar grande parte da nossa vida à obra do Senhor, mas nada disso nos dá direito de exigir mais da graça de Deus. Tudo o que recebemos dele continua sendo presente imerecido.

                                                               III

O proprietário responde a um dos trabalhadores que murmuravam: “Mas ele, respondendo, disse a um deles: amigo, não te faço injustiça; não combinaste comigo um denário?” (v. 13). A resposta do proprietário é clara: não houve injustiça. Os primeiros trabalhadores haviam concordado livremente com o valor de um denário e receberam exatamente aquilo que havia sido combinado. O problema, portanto, não estava na atitude do proprietário, mas na maneira como aqueles trabalhadores passaram a enxergar o pagamento. Eles não estavam reclamando porque haviam recebido menos do que o prometido, mas porque outros haviam recebido a mesma quantia. A comparação transformou a gratidão em murmuração.

Mesmo diante da reclamação, o proprietário não responde com agressividade. Ele corrige o trabalhador e mostra que sua acusação não tinha fundamento. Deus também nos ensina, por meio dessa parábola, que não devemos medir sua bondade pelo que ele concede aos outros. Ele destaca a sua fidelidade e a sua justiça. Ele cumpre aquilo que havia prometido, mas também demonstra sua generosidade para com os últimos. Deus não nos deve nada; tudo o que recebemos dele é fruto de sua graça. Por isso, em vez de comparar o que recebemos com o que o nosso próximo recebe, somos chamados a confiar na justiça de Deus e agradecer por sua bondade.

O proprietário continua sua resposta dizendo: “Toma o que é teu e vai-te; pois quero dar a este último tanto quanto a ti” (v. 14). Ele reafirma que o primeiro trabalhador deveria receber aquilo que havia sido combinado. Não havia motivo para reclamação, pois o proprietário estava cumprindo sua palavra. Ao mesmo tempo, ele deixa claro que tinha liberdade para ser generoso com os últimos. A expressão “quero dar” destaca a liberdade e a bondade do proprietário. Ele não está sendo obrigado a pagar o mesmo valor aos que trabalharam menos; ele decide fazê-lo por sua própria vontade. É justamente essa generosidade que incomoda os primeiros trabalhadores. Eles queriam que a recompensa fosse determinada pelo mérito e pelo tempo de trabalho.

Precisamos cuidar para que nosso serviço cristão não se transforme em motivo de orgulho ou comparação. Podemos servir ao Senhor durante muitos anos, mas continuamos dependendo da mesma graça que alcança aquele que chegou depois de nós. Deus é justo em suas promessas e generoso em sua graça.

O proprietário ainda continua sua resposta: “Porventura, não me é lícito fazer o que quero do que é meu? Ou são maus os teus olhos porque eu sou bom?” (v.15). Com essas palavras, ele mostra que tem liberdade para fazer com os seus bens aquilo que deseja. Os primeiros trabalhadores haviam recebido exatamente o que fora combinado, portanto não havia injustiça. O proprietário simplesmente decidiu ser generoso com aqueles que haviam trabalhado menos tempo. A expressão “são maus os teus olhos porque eu sou bom?” revela o verdadeiro problema daqueles trabalhadores. Eles não estavam insatisfeitos porque haviam recebido menos do que o prometido, mas porque não conseguiam aceitar que o proprietário fosse generoso com os outros. Seus olhos estavam voltados para o que o próximo recebeu, e essa comparação produziu inveja e murmuração. A bondade concedida ao outro passou a ser vista como uma injustiça contra eles.

Esse ensinamento também se aplica à nossa vida cristã. Podemos cair na tentação de pensar que, porque servimos a Deus há muitos anos, realizamos muitas atividades ou enfrentamos muitas dificuldades, temos direito a uma recompensa maior. Mas a parábola nos lembra que tudo o que recebemos de Deus é fruto de sua graça. A salvação não é pagamento por nossos méritos, mas presente gratuito concedido por Deus em Cristo. Nossas obras são frutos da fé e da gratidão, não a causa da nossa salvação.

Assim, Jesus nos convida a olhar menos para aquilo que o outro recebe e mais para a bondade de Deus. Não devemos permitir que a graça concedida ao nosso irmão se transforme em motivo de inveja. Se Deus é bom para com ele, devemos alegrar-nos com essa bondade. O problema não está na generosidade de Deus, mas no coração humano que, muitas vezes, deseja transformar a graça em mérito e a misericórdia em recompensa.

Na conclusão da parábola: “Assim, os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos” (v.16), Jesus retoma  aqui uma afirmação que já havia feito anteriormente, mostrando que os critérios do reino de Deus são diferentes dos critérios humanos. Aqueles que, aos olhos das pessoas, parecem ter maior importância ou maior mérito não ocupam necessariamente o primeiro lugar diante de Deus.

Os “últimos” são aqueles trabalhadores que chegaram por último e, mesmo tendo trabalhado pouco tempo, receberam a mesma dádiva. Já os “primeiros” são aqueles que trabalharam desde o início do dia e que, por causa da comparação e da murmuração, passaram a considerar-se merecedores de mais. Jesus não está dizendo que o trabalho ou a fidelidade dos primeiros trabalhadores não têm valor. O problema está em transformar o serviço prestado em motivo de superioridade e em exigir de Deus uma recompensa com base em méritos.

No reino dos céus, ninguém pode apresentar diante de Deus uma lista de méritos e exigir a salvação como pagamento. Todos somos pecadores e dependemos da mesma graça. O trabalhador da “primeira hora” e o trabalhador da “hora undécima”  recebem o mesmo dom da graça, não porque fizeram a mesma quantidade de obras, mas porque o Senhor é misericordioso e concede gratuitamente aquilo que ninguém poderia conquistar por si mesmo.

Portanto, “os últimos serão primeiros, e os primeiros serão últimos” é um chamado à humildade e à confiança na graça. Não precisamos competir, comparar-nos ou sentir inveja daquilo que Deus concede aos outros. Somos chamados a servir ao Senhor com gratidão, reconhecendo que o maior privilégio não é receber mais do que o nosso irmão, mas pertencer à vinha do Senhor pela sua graça. Em Cristo, todos os que creem recebem o mesmo presente: o perdão dos pecados e a vida eterna.

A parábola dos trabalhadores da vinha nos ensina que o reino de Deus não funciona segundo a lógica dos méritos humanos, mas segundo a graça de Deus. Os trabalhadores que chegaram primeiro receberam aquilo que havia sido combinado, enquanto os últimos receberam, pela bondade do proprietário, a mesma quantia. Não houve injustiça; houve generosidade. Deus permanece fiel às suas promessas e, ao mesmo tempo, demonstra sua graça de maneira abundante.

Essa parábola também nos alerta contra a comparação, a inveja e a murmuração. Podemos servir ao Senhor durante muitos anos e, ainda assim, cair na tentação de pensar que merecemos mais do que outros. Mas tudo o que temos e somos diante de Deus depende de sua graça. Não devemos olhar para o que o nosso irmão recebeu e perguntar por que ele recebeu tanto, mas olhar para aquilo que Deus nos concedeu e agradecer. Na vinha do Senhor, não servimos para conquistar a salvação; servimos porque já fomos alcançados pelo amor de Deus.

Que Deus nos conserve humildes, agradecidos e firmes em sua graça, para que sirvamos em sua vinha não por obrigação ou merecimento, mas em resposta ao seu amor. Amém.