domingo, 19 de abril de 2026

TEXTO:At 2.42-47

TEMA: O QUE ESPERA DEUS DE  SUA IGREJA?

Nos dias atuais, existe uma diversidade quase infinita de igrejas. Por um lado, isso é positivo, pois permite que diferentes tipos de pessoas e contextos sociais sejam alcançados pela “multiforme graça de Deus” (1Pedro 4.10). Por outro, essa variedade pode gerar confusão e até mesmo riscos, levando à seguinte pergunta: como discernir qual igreja está, de fato, alinhada com a vontade de Deus?

A resposta está na própria Escritura. A Bíblia é a regra de fé e prática para a verdadeira Igreja. É por meio dela que avaliamos ensinamentos, práticas e direções espirituais. Esse desafio não é novo. Já no tempo do apóstolo Paulo, havia distorções e desvios que ameaçavam a pureza do evangelho. Por isso, ele se dedicava a ensinar, exortar e fortalecer as comunidades cristãs, tanto por meio de suas cartas quanto de suas viagens missionárias.

Em Gálatas 1.6, Paulo expressa sua preocupação ao dizer: “Admiro-me de que estejais passando tão depressa daquele que vos chamou na graça de Cristo para outro evangelho.” Essa advertência revela que nem toda mensagem que se apresenta como “evangelho” é, de fato, verdadeira. Desde o início, a Igreja precisou estar vigilante, firmando-se na verdade revelada por Deus.

Assim, em meio à pluralidade de igrejas nos dias atuais, somos levados a refletir sobre Atos 2.42–47. Nesse trecho, encontramos um modelo claro do que significa ser igreja: o texto não é apenas um registro histórico, mas um padrão para a atualidade. Nele, observamos os princípios que marcaram a comunidade primitiva: perseverança na fé, comunhão verdadeira, generosidade prática, vida de oração e centralidade em Deus. Não se trata de métodos humanos ou estratégias sofisticadas, mas de uma comunidade que vive com coerência aquilo em que crê. Trata-se de uma vida alinhada a Deus, sustentada pelo ensino fiel da Palavra, fortalecida por relacionamentos sinceros e dependente da ação do Espírito Santo.

Diante desse cenário, surgem diversos questionamentos: Será que estamos vivendo aquilo que Jesus Cristo ensinou? Nossa vida fora da igreja confirma aquilo que professamos dentro dela? A Igreja tem sido um lugar de acolhimento e restauração? Afinal, o que Deus espera de Sua Igreja?

É sobre esse assunto que refletiremos nesta mensagem, estruturada em quatro pontos:

Primeiro,sendo uma Igreja perseverante (v.42).Os seguidores de Cristo se destacavam por sua perseverança. O texto afirma que eles “perseveravam” na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações.  Aqueles cristãos não viviam a fé de forma momentânea, mas cultivavam um compromisso diário com Deus e com a comunidade.Não era algo ocasional ou superficial, mas uma prática contínua, firme e intencional. Hoje, isso nos desafia a não negligenciarmos o ensino bíblico, mas a buscarmos conhecimento sólido, que transforme nossa vida e molde nossas decisões. Ser uma Igreja perseverante hoje é manter-se firme nesses mesmos pilares. É continuar buscando a Deus quando tudo vai bem, mas também quando as circunstâncias são difíceis. É não abandonar a fé diante das lutas, mas permanecer confiando, obedecendo e caminhando.

Segundo, uma Igreja revestida de temor (v.43). Esse temor não é medo que afasta, mas respeito que aproxima, reconhecendo a santidade, grandeza e autoridade do Senhor. Ele começa no coração de cada cristão e se manifesta de forma coletiva na vida da igreja. O texto mostra que esse temor estava “em cada alma”, indicando que a saúde espiritual da Igreja depende de todos. Além disso, o temor prepara o ambiente para o agir de Deus. Os sinais e prodígios não eram o foco, mas consequência de uma comunidade que honrava a Deus. Onde há reverência, há manifestação divina.Portanto, mais do que buscar poder ou experiências, a Igreja deve cultivar o temor.

Terceiro, uma Igreja generosa (vv.44–45). A Igreja primitiva vivia de tal forma que seus bens não eram vistos como propriedade exclusiva, mas como recursos a serviço de Deus e do próximo. Por isso, compartilhavam tudo conforme a necessidade de cada um.Essa generosidade não era imposta, mas nascia de corações transformados pelo evangelho. O amor ao próximo se manifestava de maneira concreta, levando-os a abrir mão do próprio conforto para suprir necessidades alheias. Portanto, a verdadeira fé também se revela na forma como lidamos com o que temos. O chamado é claro: mais do que acumular, somos desafiados a compartilhar, usando tudo o que Deus nos deu para abençoar outras pessoas.

Quarto, uma Igreja alegre e que cresce (vv.46–47). Por fim, o texto mostra que a alegria e o crescimento da igreja eram consequências naturais de uma vida alinhada com Deus. Eles perseveravam diariamente, tanto no templo quanto nas casas, revelando que a fé não se limitava a um momento específico, mas fazia parte  da vida cristã. A alegria que experimentavam era genuína e simples, fruto da presença de Deus. Não dependia das circunstâncias, mas de uma vida centrada no Senhor. Seu testemunho, marcado pelo amor prático e por uma vida coerente, impactava a sociedade ao redor. E, acima de tudo, o crescimento vinha de Deus: “o Senhor lhes acrescentava, dia após dia, os que iam sendo salvos”.

                                                                 I

O capítulo 2 de Atos dos Apóstolos, é narrada a descida do Espírito Santo no dia de Pentecostes, um marco decisivo para o início da Igreja. Logo após esse acontecimento, ocorre a poderosa pregação de Pedro, por meio da qual milhares de pessoas são alcançadas pelo evangelho e passam a integrar a comunidade cristã. A partir desse momento, o autor não destaca apenas o crescimento numérico da Igreja, mas, sobretudo, a maneira como essa nova comunidade vivia e se organizava. O texto afirma que aqueles que faziam parte dessa comunidade, “perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações” (v.42). A palavra “perseverar”, no grego (προσκαρτερέω), carrega a ideia de aderir firmemente, persistir com constância e não desanimar. Significa estar profundamente comprometido, agarrado a algo com todas as forças, sem abrir mão. Isso mostra que a vida cristã daqueles primeiros cristãos não era baseada em emoções passageiras, mas em uma decisão diária de permanecer firmes naquilo que haviam recebido.

Essa perseverança se manifestava através quatro pilares fundamentais da Igreja primitiva. Em primeiro lugar, “na doutrina dos apóstolos”. Perseverar na doutrina dos apóstolos significa viver firmemente alicerçado no ensino verdadeiro da Palavra de Deus. A Igreja  não construía sua fé em opiniões, tradições humanas ou experiências isoladas, mas no ensinamento transmitido pelos apóstolos — homens que conviveram com Cristo e foram testemunhas diretas de Sua obra.Essa doutrina abrangia tudo aquilo que Jesus ensinou: o arrependimento, a graça, a salvação, o amor ao próximo, a santidade e o Reino de Deus. Era um ensino vivo, que não ficava apenas no campo intelectual, mas transformava a vida prática dos cristãos. Eles não apenas ouviam, mas obedeciam.

Perseverar nessa doutrina também revela constância. Não era algo ocasional, mas um compromisso contínuo de aprender e crescer espiritualmente. Havia fome pela Palavra, desejo de conhecer mais a Deus e disposição para viver segundo Seus princípios.Para a Igreja de hoje, esse ensino continua sendo essencial. Vivemos em um tempo de muitas vozes e opiniões, mas a Igreja que se pauta rigorosamente pelas Escrituras é aquela que permanece fiel à verdade bíblica. Isso exige dedicação à leitura das Escrituras, atenção ao ensino correto e discernimento para não se desviar.Além disso, estar firmado na doutrina dos apóstolos protege a Igreja contra erros, fortalece a fé e direciona a vida cristã. É a base que sustenta todas as outras áreas: comunhão, serviço, oração e testemunho.Portanto, uma Igreja que persevera na doutrina não é levada por modismos, mas permanece firme, enraizada na verdade. É uma comunidade que cresce com solidez, porque está edificada sobre o fundamento seguro da Palavra de Deus.

Em segundo lugar, “na comunhão”.A palavra “comunhão”, no texto grego (κοινωνία)  carrega um significado muito mais profundo do que simples convivência. Ela aponta para o ato de compartilhar a vida, participar de uma mesma realidade espiritual e caminhar em íntima associação.A Igreja primitiva entendia que fazer parte do corpo de Cristo implicava viver dessa maneira: juntos, cuidando uns dos outros e caminhando como uma verdadeira família espiritual. Não havia espaço para o individualismo, pois cada pessoa reconhecia que fazia parte de algo maior.Além disso, a perseverança era evidente na comunhão. Eles não caminhavam isoladamente, mas em unidade. Existia um compromisso real com a vida em comunidade, com o cuidado mútuo e com relacionamentos verdadeiros. Mesmo diante de dificuldades e perseguições, não abandonavam a convivência, pois entendiam que a fé se fortalece no relacionamento com os irmãos. A comunhão não era apenas proximidade física, mas envolvimento sincero e espiritual.

Para a igreja de hoje, esse é um grande desafio. Em uma sociedade marcada pelo individualismo e pela superficialidade, somos chamados a viver uma comunhão verdadeira, profunda e intencional. Isso exige disposição para se envolver e investir tempo na vida uns dos outros. Porque essa comunhão envolve companheirismo verdadeiro — estar ao lado, dividir alegrias e também dificuldades. Não se trata apenas de presença física, mas de envolvimento sincero com a vida do outro. Além disso, inclui auxílio e contribuição: cada membro deve colocar seus dons, tempo e recursos a serviço dos demais, demonstrando um amor prático. Enfim, é estar presente não apenas nos momentos de celebração, mas também nas lutas. É chorar com os que choram, alegrar-se com os que se alegram e carregar os fardos uns dos outros.

Em terceiro lugar, a perseverança manifestava-se no “partir do pão”. Esse ato constitui um dos pilares fundamentais da igreja primitiva, carregando consigo um profundo significado teológico — ainda que amplamente debatido entre os teólogos. Para compreender essa expressão, é necessário analisar a frase grega τῇ κλάσει τοῦ ἄρτου. A presença do artigo definido e o uso do singular sugerem que Lucas, autor de Atos, não se referia apenas às refeições diárias para saciar a fome, mas a um rito específico: a Ceia do Senhor, o memorial litúrgico instituído por Cristo.O próprio Lucas utiliza essa mesma expressão ao descrever o encontro dos discípulos no caminho de Emaús, quando “o reconheceram no partir do pão”. Isso confere ao termo um peso sacramental, e não apenas nutricional.

Para o pensador Hermann Sasse (1895–1976), um dos mais influentes teólogos luteranos do século XX e reconhecido por sua firme defesa da ortodoxia confessional, ao analisar a expressão τῇ κλάσει τοῦ ἄρτου, Sasse argumenta que essa construção gramatical não é casual. Pelo contrário, ela indica que os primeiros cristãos não se reuniam apenas para uma refeição comum ou cotidiana, mas participavam de um rito específico, já reconhecido e estabelecido: a Santa Ceia instituída por Cristo.Para Sasse

O uso dos artigos definidos aponta claramente para “aquele” pão — o pão da última ceia — e não para qualquer alimento compartilhado. Se o texto dissesse apenas “partindo pão” (sem os artigos), poderia se referir a uma refeição comum. No entanto, ao afirmar “o partir do pão”, o autor destaca um evento singular, carregado de significado teológico próprio e reconhecido por toda a comunidade cristã.

Nesse contexto, o partir do pão não era um ato isolado, mas um momento de profunda comunhão com Cristo e entre os irmãos. As refeições eram realizadas à mesa, em um ambiente simples e acolhedor. Esse espaço não servia apenas para a alimentação, mas se tornava um lugar de comunhão, onde os cristãos compartilhavam a vida, a fé e o amor.À mesa, eles partiam o pão com alegria e sinceridade de coração, fortalecendo os laços entre si e mantendo viva a lembrança do sacrifício de Cristo. Esse momento preservava a consciência de que a salvação foi conquistada na cruz, trazendo à memória o perdão e a graça.Em resumo, o partir do pão é importante, porque relembra o sacrifício, fortalece a comunhão com Cristo, promove a unidade da Igreja e alimenta a esperança, tornando a fé algo vivo e concreto.

Por fim, a oração também ocupava um lugar central na vida da Igreja: “e perseveravam na oração”. Essa expressão revela que a oração não era algo ocasional, mas um estilo de vida constante. Os primeiros cristãos entenderam que sua força não vinha de estratégias humanas, mas de uma dependência contínua de Deus.Eles expressavam sua dependência do Senhor, buscavam direção, intercediam uns pelos outros e cultivavam a comunhão com Deus. Era nesse ambiente que encontravam força para enfrentar as dificuldades, coragem para testemunhar e para discernir a vontade divina.

Perseverar na oração significa permanecer firme, mesmo quando as circunstâncias são difíceis. Não se trata apenas de orar em momentos de necessidade, mas de cultivar uma vida diária de comunhão com o Senhor. A oração era o espaço onde a Igreja buscava direção, encontrava consolo e recebia poder para viver e testemunhar. Foi por meio da oração que aquela comunidade se manteve unida, sensível à voz de Deus e fortalecida diante das perseguições. Eles intercediam uns pelos outros, compartilhavam suas cargas e experimentavam a ação de Deus de maneira real.

Para a Igreja de hoje, esse ensino continua atual e necessário. Em meio à correria e às distrações, somos chamados a resgatar uma vida de oração perseverante. É na presença de Deus que encontramos força, sabedoria e renovação.Assim, uma Igreja que persevera na oração é uma igreja viva, dependente de Deus e preparada para cumprir o seu propósito no mundo.

Portanto, ser uma Igreja perseverante hoje significa trilhar o mesmo caminho da Igreja primitiva: permanecer fiel tanto nos momentos de bonança quanto nos de adversidade. É continuar crendo, servindo, aprendendo e caminhando com Deus, mesmo quando as circunstâncias são desfavoráveis. Afinal, a perseverança revela firmeza de caráter e uma profunda confiança no Senhor. Sob essa ótica, uma Igreja perseverante não é aquela que está isenta de lutas; pelo contrário, a batalha é constante. O diferencial está em ser uma comunidade que se mantém firme na Palavra, na comunhão e na oração, mantendo-se verdadeiramente centrada em Cristo. Esse é o tipo de Igreja que glorifica a Deus.Diante disso, surge uma pergunta inevitável: temos perseverado de forma constante ou apenas em momentos isolados? O crescimento espiritual não acontece por acaso, mas por meio de uma caminhada contínua com o Pai, na qual fé e prática permanecem inseparáveis.

                                                           II

O versículo 43 apresenta uma consequência natural de uma Igreja que persevera em Deus: “Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos.”A expressão “em cada alma havia temor”, revela uma das marcas mais profundas da Igreja primitiva: a consciência viva da presença de Deus no meio do seu povo. Não se tratava de um medo paralisante, mas de um temor reverente, um respeito santo que nascia ao reconhecer que o Senhor estava agindo de maneira real e poderosa entre eles. Esse temor era fruto de uma vida espiritual autêntica. Os cristãos perseveravam na doutrina, na comunhão, no partir do pão e nas orações e, como resultado, experimentavam a manifestação do poder de Deus por meio de sinais e prodígios. Diante disso, cada pessoa era tomada por um profundo senso de reverência, compreendendo que não estavam diante de algo comum, mas de uma obra divina.

Além disso, o texto destaca que muitos prodígios e sinais eram realizados por meio dos apóstolos. Esses milagres não tinham como objetivo exaltar homens, mas confirmar a mensagem do evangelho e revelar o poder de Deus. Eram evidências claras de que o Senhor estava presente, agindo e sustentando a sua igreja.

Nos dias de hoje, essa realidade continua sendo um desafio e um convite. O temor do Senhor precisa voltar a ocupar o centro da vida da Igreja. Quando há verdadeira reverência, há transformação, comunhão genuína e manifestação do poder de Deus. Onde há reverência, há também obediência; onde há obediência, nasce a dependência; e onde há dependência de Deus, há espaço para que Ele opere de maneira viva e poderosa no meio do seu povo.

                                                             III

Há uma  outra marca essencial da Igreja primitiva: “Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum.” (v.44). Essa afirmação expressa uma profunda unidade que ia além da simples convivência — era uma comunhão genuína, fruto da transformação operada pelo Espírito de Deus. Estar “juntos” não se limitava à proximidade física, mas envolvia um compromisso real com a vida uns dos outros. Isto significa que eles compartilhavam alegrias e dificuldades, caminhavam lado a lado e viviam como uma verdadeira família espiritual: “tinham tudo em comum”. Essa expressão revela uma das características mais belas da Igreja primitiva: uma comunidade marcada pelo amor prático e pela unidade verdadeira. O fato de terem “tudo em comum” demonstra um coração desapegado e generoso. O que cada um possuía deixava de ser visto apenas como algo exclusivamente seu e passava a ser entendido como um meio de servir ao próximo.

Dessa forma, quando surgia alguma necessidade, havia prontidão em ajudar, e ninguém era deixado para trás. Havia uma disposição sincera de repartir, suprindo as necessidades dos irmãos e garantindo que ninguém passasse necessidade. Esse estilo de vida demonstrava que o evangelho havia transformado não apenas as palavras, mas também as atitudes. O amor não era teórico, mas visível em gestos concretos de generosidade e cuidado. Havia desprendimento dos bens materiais e valorização das pessoas, refletindo o caráter de Cristo no meio da comunidade.

Nos dias de hoje, “tudo em comum” continua sendo um chamado à Igreja — não necessariamente para repetir a forma exata, mas para viver o mesmo princípio: um coração disposto a compartilhar, servir e cuidar. Quando há esse espírito, a Igreja se torna um lugar de acolhimento, provisão e graça, onde a fé se expressa através do amor e ninguém caminha sozinho.

 Lucas aprofunda ainda mais a prática da comunhão na Igreja primitiva: “Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade ”(v.45). Esse versículo nos mostra um dos aspectos mais marcantes da Igreja primitiva: a prática da generosidade. Eles não estavam presos ao que possuíam, mas viam tudo como um meio de abençoar outras pessoas. O foco não era acumular, mas cuidar. Quando percebiam a necessidade de um irmão, estavam dispostos até mesmo a abrir mão de suas propriedades para suprir essa carência. Isso não era uma imposição, mas uma atitude voluntária, nascida de um coração transformado pelo amor de Cristo.

Isso não significa que todos precisavam vender tudo, mas revela um princípio poderoso: o coração deles não estava nas coisas, e sim em Deus e nas pessoas. Havia sensibilidade às necessidades ao redor e uma disposição real para ajudar.A distribuição era feita “à medida que alguém tinha necessidade”, o que demonstra sensibilidade, equilíbrio e cuidado. Não se tratava de uma igualdade forçada, mas de uma justiça movida pelo amor — ninguém ficava desamparado, porque todos se responsabilizavam uns pelos outros.

Para a Igreja de hoje, esse ensino continua desafiador. Somos chamados a viver uma fé que se expressa em cuidado prático, na disposição de repartir e na atenção às necessidades do próximo. Talvez não sejamos chamados a vender propriedades, mas certamente somos chamados a viver com o mesmo espírito.Generosidade não é apenas dar o que sobra, mas estar atento e disposto a compartilhar o que temos — seja tempo, recursos ou cuidado. Quando entendemos que tudo o que temos vem de Deus, passamos a usar tudo com mais propósito. A generosidade deixa de ser um peso e se torna um privilégio. Portanto, olhe ao seu redor hoje: há alguém que precisa de ajuda, atenção ou apoio? Pequenas atitudes podem fazer uma grande diferença.

                                                               IV

O autor continua ampliando ainda mais o retrato da vida da Igreja primitiva. Ele destaca o estilo de vida como algo constante e profundamente relacional. Ele afirma: “Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam o pão de casa em casa e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração”(v.46). Aqui vemos uma comunidade marcada pela constância, pela unidade e pela simplicidade. Eles perseveravam “diariamente”, o que revela regularidade e compromisso.  Eles não se reuniam ocasionalmente, mas com frequência e propósito, buscando juntos a Deus em adoração e ensino.Além disso, estavam “unânimes no templo”, ou seja, havia harmonia, propósito comum e um mesmo coração voltado para Deus.A vida espiritual dessa comunidade se expressava tanto no templo quanto nas casas.

No templo, havia o ensino, a adoração coletiva e a comunhão mais ampla. Nas casas, a fé se tornava ainda mais próxima e prática, por meio do partir do pão e das refeições compartilhadas.Isso mostra que a vida cristã não se limita a um espaço, mas se estende a todos os ambientes Revela também a dimensão mais íntima da comunhão,pois não era apenas uma fé pública, mas também vivida no ambiente familiar. Compartilhavam a vida, fortaleciam vínculos e cultivavam relacionamentos sinceros.Outro aspecto marcante é a forma como viviam: com alegria e singeleza de coração. A alegria era resultado da ação de Deus em suas vidas, enquanto a singeleza revela um coração simples, sincero e sem duplicidade.

Viver os princípios da Igreja primitiva hoje é entender que a nossa fé não pode ficar limitada a um sistema ou apenas ao domingo. Quando a Bíblia fala em perseverar diariamente, ela nos ensina a incluir Deus em toda a nossa rotina: no café da manhã, no trabalho e até nos momentos de descanso. Muitas vezes, corremos o risco de viver uma fé limitada a momentos específicos, esquecendo que Deus deseja caminhar conosco em cada detalhe. Por isso, precisamos viver a fé de forma constante e profunda — tanto no templo quanto nas casas, tanto nos momentos espirituais quanto nas atividades do dia a dia. Isso nos mostra que Ele não quer participar apenas de um fragmento da nossa vida, mas da totalidade dela.Quando trazemos Deus para o cotidiano, nossa vida ganha sentido, direção e paz. Hoje, procure incluir o Senhor nas coisas simples: converse com Ele durante o dia, agradeça pelas pequenas bênçãos e busque agir de forma que reflita sua fé em cada atitude.

O texto termina destacando duas dimensões essenciais da vida da Igreja: sua relação com Deus e seu impacto diante das pessoas: “louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos” (v.47).De um lado, vemos uma Igreja que vivia louvando a Deus. Isso mostra que a comunidade estava centrada no Senhor. Eles viviam em constante adoração, reconhecendo Sua bondade, graça e poder. O louvor não era apenas um momento específico, mas um estilo de vida. Era uma demonstração de um testemunho verdadeiro, coerente com amor, unidade, generosidade e integridade. Isso se refletia naturalmente na forma como eram percebidos pelas pessoas.

Como resultado, a Igreja era bem vista pelo povo. Seu testemunho era autêntico, suas atitudes revelavam o amor de Cristo, e isso gerava respeito. Eles não viviam para agradar aos homens, mas, ao fazerem o que era certo, impactavam naturalmente todos ao seu redor.Como consequência, a Igreja crescia. O texto é claro ao mostrar que, “enquanto” a Igreja vivia em comunhão, oração, generosidade e louvor, Deus estava agindo. Ou seja, havia uma conexão direta entre a vida espiritual da comunidade e a ação divina. Era o Senhor quem acrescentava, dia após dia, os que iam sendo salvos. Isso revela que não eram estratégias humanas que produziam crescimento; não era fruto de técnicas ou métodos, mas do próprio Deus trazendo pessoas para a salvação. A igreja fazia sua parte, vivendo o evangelho; Deus realizava aquilo que somente Ele pode fazer. O texto mostra que esse crescimento era contínuo (dia a dia), fruto de uma vida igualmente constante com Deus. Tratava-se de vidas transformadas — pessoas que iam sendo salvas.

Dessa forma, aprendemos que uma Igreja que glorifica a Deus, vive de maneira coerente e permanece fiel aos princípios do evangelho experimenta um crescimento eficaz. A fidelidade aos princípios do evangelho — como amor, comunhão, generosidade e perseverança — cria um ambiente onde o agir de Deus se torna evidente. Quando isso acontece, o crescimento vem como consequência — e é Deus quem o realiza. Esse crescimento não é apenas numérico, mas, antes de tudo, espiritual: vidas são transformadas, relacionamentos são restaurados e a fé se torna visível no dia a dia.

Concluindo, o texto nos apresenta um retrato vivo e desafiador da Igreja primitiva. Não se trata apenas de uma descrição histórica, mas de um modelo espiritual para a igreja de todas as épocas. Aquela comunidade perseverava na doutrina, vivia em comunhão, partia o pão com alegria e mantinha uma vida constante de oração. Como resultado, experimentava o temor do Senhor, manifestava generosidade, vivia em unidade e testemunhava o agir poderoso de Deus.Eles compreenderam que a fé cristã não se limita a palavras, mas se expressa em práticas diárias, em relacionamentos transformados e em uma dependência contínua do Senhor.

Hoje, somos chamados a refletir esse mesmo padrão, especialmente diante do individualismo e da superficialidade presentes em muitas igrejas. Sendo assim, Deus nos convida a retornar ao essencial: uma vida firmada na Palavra, marcada pela comunhão, fortalecida na oração e centrada em Cristo. Não se trata de fazer mais, mas de viver de forma mais profunda e verdadeira. É isso que Deus deseja.Diante disso, fica o desafio: estamos vivendo como aquela igreja?Lembre-se: o crescimento espiritual não acontece por acaso, mas é fruto de uma caminhada contínua com Deus.

Que possamos, como Igreja, resgatar esses princípios e viver uma fé autêntica, que glorifica a Deus, edifica vidas e alcança o mundo — confiando que, assim como no princípio, o Senhor continuará acrescentando, dia após dia, aqueles que hão de ser salvos.Amém!

 

sexta-feira, 17 de abril de 2026

TEXTO: 1 Pe 2.19-25

TEMA: CHAMADOS PARA SOFRER COM CRISTO

Durante o seu ministério, Jesus deixou claro aos discípulos que aqueles que desejassem segui-lo deveriam tomar sua cruz diariamente.Deveriam entender que seguir a Cristo não significava a ausência de dor, mas a disposição de participar também dos Seus sofrimentos. Não se tratava de um sofrimento vazio ou sem sentido, mas de uma experiência que os fortalecia na fé e os aproximava do Senhor.Pedro estava consciente dessa realidade, pois esteve com Jesus e presenciou todo o sofrimento que Ele viveu. Agora, ele convida os irmãos que estavam sendo perseguidos a sofrer com Cristo, mesmo que isso implicasse dor e aflição.

Em um mundo que valoriza o conforto e evita o sofrimento a qualquer custo, o texto nos apresenta um chamado diferente — um chamado à fidelidade, mesmo quando isso implica renúncia, perseguição e provações. Ao sofrermos por causa de Cristo, somos lembrados de que Ele mesmo sofreu antes de nós, e seu exemplo nos encoraja a perseverar. Assim, refletir sobre esse tema é compreender que o sofrimento, quando vivido em Cristo, ganha propósito, transforma o coração e revela a autenticidade da nossa fé. É sobre isso que refletiremos nesta mensagem, estruturada em três pontos, sob o tema: Chamados para sofrer com Cristo.

Primeiro, porque isto é grato a Deus. (vv.19-20).  Pedro ensina que há um tipo de sofrimento que possui valor espiritual: aquele que não é consequência do erro, mas resultado da fidelidade. Quando o cristão escolhe permanecer íntegro, mesmo sendo prejudicado, demonstra uma fé autêntica, firmada em Deus e não nas circunstâncias. Esse comportamento reflete a própria graça divina, pois revela um coração moldado pelo caráter de Cristo.Quem pratica o bem esperando recompensa não age por amor, mas por interesse. Pedro nos chama a examinar não apenas o que sofremos, mas por que sofremos e como reagimos. O sofrimento por causa do bem, suportado com paciência, torna-se uma expressão prática da graça de Deus operando na vida do cristão.

Segundo, porque fomos  chamados para seguir o exemplo de Cristo (vv.21-23).O apóstolo vai além e afirma que fomos chamados para seguir o exemplo de Cristo.  Isso muda completamente a perspectiva do sofrimento. O cristão não apenas enfrenta dificuldades — ele é chamado a viver de tal forma que, mesmo sofrendo injustamente, reflita o caráter de Cristo.   A palavra “exemplo” ((ὑπογραμμός) era usada para um modelo de escrita que o aluno copiava. Ou seja, Jesus não é apenas alguém a ser admirado, mas alguém a ser imitado cuidadosamente. Ele ainda destaca a pureza absoluta de Cristo:  “não cometeu pecado, nem dolo algum se achou em sua boca. quando ultrajado, não revidava com ultraje, quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente”.Isso enfatiza a injustiça do seu sofrimento. Diferente de nós, que muitas vezes sofremos por nossas próprias falhas, Cristo sofreu sendo totalmente inocente.

Terceiro, somos chamados a compreender o propósito do sofrimento de Cristo (vv. 24–25).Cristo carregou aquilo que era nosso e assumiu a nossa culpa, pois "éramos como ovelhas desgarradas" — perdidos, afastados e sem direção. Quando nos lembramos de onde Deus nos tirou, encontramos força para continuar, mesmo em meio às tribulações.Também somos chamados a confiar na justiça de Deus. Pedro declara que Jesus, ao sofrer, "entregava-se àquele que julga com justiça". Ele não revidou nem se defendeu, mas confiou plenamente. Isso nos ensina que sofrer com Cristo também significa abrir mão de querer resolver tudo com as próprias mãos. Nem toda injustiça será resolvida agora, mas nenhuma ficará sem resposta diante de Deus.

                                                              I

No contexto imediato, Pedro se dirige especialmente aos servos que viviam sob a autoridade de senhores, muitos dos quais eram injustos (v.18). Esses servos, inseridos em uma estrutura social rígida do mundo antigo, frequentemente enfrentavam tratamento severo, abusos e decisões arbitrárias, sem possibilidade de defesa ou mudança de condição.É justamente nesse cenário que a exortação de Pedro ganha força. Ele não ignora a realidade da injustiça, nem a minimiza, mas orienta os cristãos a responderem a essa situação de maneira distinta: com submissão consciente e fidelidade a Deus. Ele ensina que, mesmo diante de senhores — “não somente aos bons e cordatos, mas também aos perversos” —, o servo cristão é chamado a manter uma postura íntegra. Isso não significa passividade , mas uma atitude moldada pela consciência de que sua vida está diante de Deus, e não apenas sob autoridade humana.

Assim, o sofrimento desses servos deixa de ser apenas uma experiência dolorosa e passa a se tornar o pano de fundo para um princípio espiritual mais profundo e universal: quando alguém suporta injustiças por fidelidade a Deus, sua atitude adquire valor eterno diante d’Ele. Pedro revela que, mesmo em meio a uma realidade, muitas vezes, desumana, é possível responder de forma que honre a Deus.Aquilo que, à primeira vista, parece perda e injustiça, transforma-se em uma  forma de testemunho. O cristão que permanece firme, sem revidar, sem abandonar o bem e sem negociar sua fé, proclama, com sua própria vida, que Deus é maior do que qualquer circunstância adversa. Sua postura se torna uma mensagem viva, visível até mesmo para aqueles que não conhecem a Deus.

Esse ensino rompe as barreiras do contexto histórico dos servos do primeiro século e se estende a todos os cristãos, em todas as épocas. Hoje, ele se aplica a quem enfrenta injustiças no trabalho, na família, na sociedade ou até mesmo dentro de relacionamentos difíceis. Em qualquer ambiente onde haja dor, oposição ou tratamento injusto, existe também a oportunidade de refletir o caráter de Cristo. Dessa forma, Pedro nos conduz a uma reflexão inevitável: não podemos controlar todas as situações que enfrentamos, mas podemos escolher como responder a elas. E essa resposta revela profundamente a quem pertencemos. Quando reagimos com fé, paciência e integridade, demonstramos que nossa identidade não está nas circunstâncias, mas em Deus.

Pedro destaca que há valor diante de Deus quando alguém suporta o sofrimento injusto não por obrigação social, mas por uma decisão consciente de permanecer fiel ao Senhor.Ele revela uma verdade profunda: “Porque isto é grato,que alguém suporte tristeza,sofrendo injustamente,por motivo de sua consciência para com Deus” (v,19). Pedro explica o motivo porque os servos deveriam ser submissos com todo o temor diante do seu senhor: “isto é grato a Deus.”A expressão “isto é grato” indica que tal atitude encontra favor diante de Deus.No original grego, o autor utiliza o termo χάρις (graça) não para tratar da doutrina da salvação, como é comum nas epístolas paulinas, mas para descrever algo que é louvável e admirável a Deus.

Não se trata de mérito humano, mas de algo que agrada ao Senhor, pois revela um coração transformado pela graça. Mas é grato  somente para aquele que “suporta tristeza, sofrendo injustamente.” A expressão sugere o ato de carregar um peso esmagador sem se deixar abater por ele, enquanto o advérbio "injustamente" (ἀδίκως), qualifica a natureza do sofrimento que o cristão é chamado a suportar. A tese apresentada é que todo cristão foi chamado a enfrentar, em algum momento, o sofrimento injusto. Isso não significa buscar o sofrimento, mas reconhecer que, ao viver de forma correta e fiel a Deus, muitas vezes, surgirão situações de oposição, rejeição ou injustiça.

No entanto, quando o cristão sofre injustamente, ele não apenas atravessa uma provação, mas ele olha para o exemplo de Cristo que, sendo perfeitamente justo, aceitou sofrer em favor dos injustos. A trajetória terrena do Messias foi marcada por uma entrega absoluta: Ele veio para servir, curou enfermos, ofereceu consolo aos desesperados e amou a humanidade de forma incondicional. Contudo, a resposta do mundo à Sua bondade foi a humilhação de uma coroa de espinhos e o suplício da cruz.

Dessa forma, ao suportar a injustiça com paciência e recusar-se a revidar, o cristão manifesta uma transformação profunda em seu ser. Essa atitude demonstra um caráter moldado à semelhança de Cristo, provando que a lealdade a Deus é capaz de superar os instintos mais básicos de vingança e autodefesa. Ao agir assim, o cristão não apenas imita Cristo, mas torna-se um sinal visível do Reino de Deus, onde a mansidão e a integridade prevalecem sobre a força e a opressão.

Relacionar o sofrimento injusto do cristão com a “consciência para com Deus” é exatamente o ponto central do ensino de Pedro.Em outras palavras, Pedro está ensinando que o cristão suporta injustiças não por fraqueza ou passividade, mas por causa da sua consciência diante de Deus — ou seja, porque deseja agradá-Lo, obedecê-Lo e manter-se fiel, mesmo quando é tratado de forma errada.

Pedro ensina também que, quando o sofrimento é suportado por causa de uma “consciência voltada para Deus”, ele ganha um novo significado. Ele afirma que isso é “agradável a Deus”. E por quê? Porque, nessa condição, a pessoa escolhe fazer o bem mesmo sendo ferida,  Ela permanece íntegra mesmo sendo prejudicada e não retribui mal com mal.  Além disso, permite ao cristão desviar o olhar da dimensão horizontal — o tratamento injusto recebido dos homens — e focar na dimensão vertical — seu relacionamento e dever diante de Deus. Dessa forma, o senso de dever e o desejo de agradar a Deus tornam-se mais fortes do que  autodefesa ou vingança. Significa não agir apenas com base nos sentimentos ou na opinião dos outros, mas à luz daquilo que se sabe ser a vontade de Deus.Sem essa consciência, o sofrimento tende a produzir amargura, desejo de vingança ou até desistência.

Pedro aprofunda o entendimento do sofrimento ao redefinir o seu valor na vida cristã. Ele estabelece um princípio fundamental: o apóstolo Pedro estabelece uma distinção crucial entre o sofrimento como consequência e o sofrimento como testemunho. Enquanto a primeira parte de sua exortação desmascara a falsa virtude daqueles que apenas aceitam a punição por seus próprios erros, a segunda parte revela onde reside, de fato, a glória cristã: na paciência diante da injustiça. Na primeira parte, seu argumento é construído por meio de um contraste claro, iniciado com uma pergunta retórica: “Pois que glória há, se, pecando e sendo esbofeteados,  por isso,o suportais com paciência?” (v.20a). A palavra grega para "glória" aqui é κλέος  , que remete a renome, fama ou crédito. Ao empregar a ideia de “glória”, Pedro enfatiza que não há reconhecimento espiritual nesse tipo de situação.O termo “pecando” aponta para uma conduta que se afasta da vontade de Deus, enquanto “sendo esbofeteados” descreve uma forma de punição física e humilhante, comum no contexto da época. Assim, o sofrimento mencionado não é injusto, mas merecido — resultado direto das próprias ações. Nesse caso, a paciência não é virtude digna de louvor, mas apenas uma aceitação passiva de uma disciplina justa.

Suportar as consequências do pecado não eleva o indivíduo diante de Deus, pois não há nisso uma expressão de fidelidade, mas apenas o desdobramento natural de uma escolha errada. Quando alguém age de forma equivocada e sofre por isso — seja por disciplina, correção ou rejeição — esse sofrimento não possui um valor espiritual especial. Não se trata de um sinal de fidelidade, mas do resultado direto de suas próprias ações.Em outras palavras, não há mérito em suportar a dor que a própria pessoa causou. Esse tipo de sofrimento deve conduzir ao arrependimento, e não à autopercepção de virtude. Com isso, o apóstolo deixa evidente que não há honra em sofrer as consequências dos próprios erros; Pedro desfaz, assim, qualquer tentativa de atribuir valor espiritual ao sofrimento merecido.

No entanto, existe o sofrimento por fazer o bem. Ele  apresenta uma verdade profunda e desafiadora:  “Se,entretanto, quando praticais o bem,sois igualmente afligidos e o suportais com paciência, isto é agradável a Deus”(v.20b).Pedro utiliza um particípio que indica uma ação contínua. Não se trata de um ato isolado de bondade, mas de um estilo de vida caracterizado pela retidão e pela benevolência, mesmo em um ambiente hostil. É o "fazer o bem" que nasce da nova natureza em Cristo.Esse é o ponto central de Pedro. Aqui, ele não está falando de qualquer tipo de sofrimento, mas daquele que vem justamente por praticar o bem.  O cenário aqui é o mais desafiador possível: o indivíduo está agindo corretamente, cumprindo seus deveres e manifestando o caráter de Cristo, mas, em vez de recompensa, recebe a aflição. É neste ponto que a ética cristã se descola de qualquer filosofia humana de mérito ou retribuição.

Nesse caso, a expressão “suportar com paciência”  ganha um valor completamente diferente.A paciência não é passividade ou fraqueza, mas uma firmeza interior que se apoia na certeza de que Deus vê todas as coisas. É a capacidade de suportar a dor sem perder a fé, sem retribuir o mal com o mal e sem abandonar o caminho da justiça. Essa postura revela um coração transformado e alinhado com a vontade de Deus. É exatamente esse tipo de sofrimento que “é agradável a Deus”. O original grego nos oferece a expressão τοῦτο χάρις παρὰ θεῷ — literalmente, "isto é graça diante de Deus". Isso significa que: a capacidade de sofrer o dano sem retribuir o mal não nasce da força de vontade, mas é a própria graça de Deus operando através do homem. Deus se alegra quando seus filhos permanecem firmes, mesmo em meio às aflições. Isso nos lembra que o valor de nossas ações não está apenas no que fazemos, mas também em como reagimos diante das dificuldades.

Portanto, Pedro não apenas orienta seus leitores a suportarem o sofrimento, mas redefine completamente seu significado, mostrando que, quando ligado à prática do bem e à fidelidade a Deus, o sofrimento se torna expressão de graça e participação na vida de Cristo. Somos encorajados também a perseverar no bem, mesmo quando isso traz sofrimento. Em vez de desanimar ou questionar a Deus, sabendo que Ele honra aqueles que permanecem fiéis. Sofrer por fazer o bem, suportando com paciência, não é em vão — é um testemunho vivo da graça de Deus em nós.

                                                              II

Pedro agora estabelece o fundamento teológico de tudo o que vem ensinando sobre o sofrimento injusto, Ele não apenas explica,mas reinterpreta completamente à luz de Cristo. Ele afirma: “Porquanto para isto mesmo fostes chamados, pois que também Cristo sofreu em vosso lugar, deixando-vos exemplo, para seguirdes os seus passos” (v.21). A expressão inicial, “porquanto para isto mesmo fostes chamados”, conecta-se diretamente ao versículo anterior. O “isto” refere-se ao sofrimento por fazer o bem. Pedro afirma que esse tipo de sofrimento não é acidental na vida cristã, mas faz parte do próprio chamado. Ou seja, seguir a Cristo inclui, a possibilidade de sofrer injustamente. Envolve uma vida prática de obediência, ainda que isso implique sofrimento. Essa verdade ecoa nos ensinos de Jesus,conforme Mateus 5.11-12 Isto significa que, quando alguém sofre por fazer o que é certo diante de Deus,  mostra que essa pessoa realmente pertence ao Reino de Deus.  É uma evidência de que a pessoa está seguindo a Cristo e vivendo segundo os valores do céu, mesmo que isso traga dificuldades.Ou seja, seguir a Jesus é aprender com Ele e procurar refletir seu caráter em cada detalhe da vida, com dedicação e fidelidade.

Pedro fundamenta essa realidade na própria obra de Cristo: “pois também Cristo sofreu por vós”. Aqui, ele destaca o caráter vicário do sofrimento de Jesus — Ele sofreu não por si mesmo, mas em favor dos pecadores. Contudo, Pedro vai além do aspecto redentor e enfatiza também o aspecto exemplar da cruz. Cristo não apenas morreu em nosso lugar para nos salvar, mas também viveu e sofreu de modo a nos deixar um padrão a ser seguido. Assim, duas verdades se unem: a cruz é redenção, mas também é exemplo de vida. A palavra “exemplo” (ὑπογραμμός) reforça ainda mais essa ideia, pois era usada para descrever um modelo de escrita que o aluno deveria copiar cuidadosamente, traço por traço. Isso indica que Jesus não é apenas alguém a ser admirado, mas alguém a ser imitado com atenção e fidelidade em cada detalhe da vida.Aplicando isso à vida cristã, Pedro está dizendo que Jesus não é apenas alguém para admirar de longe, mas alguém que devemos imitar de perto. .

Por fim, ao dizer “para que sigais os seus passos”, Pedro utiliza a imagem de alguém caminhando sobre pegadas já marcadas. Seguir a Cristo é trilhar o mesmo caminho que Ele percorreu — um caminho que inclui sofrimento, mas também obediência, mansidão e confiança em Deus. Não se trata apenas de sofrer, mas de como se sofre: sem pecado, sem vingança, sem perder a fé.Desse modo, Cristo não apenas abriu o caminho da salvação, mas também deixou marcas claras para orientar a caminhada de seus discípulos. O sofrimento, quando vivido à semelhança de Cristo, deixa de ser apenas dor e passa a ser expressão de fidelidade, testemunho e comunhão com o próprio Senhor.

                                                            III

Seguir o exemplo de Cristo começa com o ato de crer no que Ele realizou por nós. Pedro é enfático ao dizer: “Ele mesmo levou em seu corpo os nossos pecados sobre o madeiro” (v.24a). Ao afirmar isso, o apóstolo revela, de forma profunda, a obra redentora de Cristo. Ele destaca que foi o próprio Jesus — e não outro — quem tomou sobre si o peso dos nossos pecados. O pecado não foi apenas “cancelado” de forma abstrata; ele foi carregado, suportado e pago no corpo físico de Jesus, na cruz. Isso aponta para a dimensão sacrificial da sua morte, na qual Ele assume aquilo que era nosso por direito — a culpa e a condenação.  Cristo não apenas morreu na cruz, mas tomou sobre si a maldição que o pecado trouxe, sendo tratado como culpado em nosso lugar.

Pedro também apresenta o propósito dessa obra: “para que, mortos para os pecados, vivamos para a justiça” (v.24b). Ou seja, a morte de Cristo não apenas nos livra da culpa, mas também transforma a nossa maneira de viver. Quem foi alcançado por esse sacrifício é chamado a romper com o pecado e a viver uma nova vida, orientada pela justiça de Deus. É nesse contexto de transformação que a expressão “pelas suas feridas” (v.24c) revela a profundidade e a eficácia do seu sofrimento em favor do pecador. A palavra “feridas” aponta para marcas visíveis de sofrimento — golpes, hematomas, ferimentos causados por violência. No contexto da cruz, isso inclui tudo o que Jesus Cristo suportou: açoites, coroação de espinhos, crucificação e humilhação. Mas não se trata apenas de dor física, mas também de sofrimento espiritual e emocional. Ele carregou o peso do pecado, experimentando abandono e angústia. Há aqui uma troca: Ele recebe aquilo que merecíamos (juízo, dor, condenação), e nós recebemos aquilo que não merecíamos (perdão, restauração, vida).

Quando o apóstolo Pedro afirma  “ fostes sarados”, (v.24d), ele emprega uma expressão de profundo significado teológico. O verbo “fostes sarados” está no passado, indicando uma ação já realizada e plenamente eficaz. Trata-se de uma obra concluída, não de um processo ainda em aberto. A cura mencionada por Pedro não aponta, em primeiro lugar, para uma restauração física, mas para uma realidade espiritual: a libertação do pecado e a restauração da comunhão com Deus.Essa linguagem remete diretamente à profecia de Isaías 53, onde o Servo sofredor é descrito como aquele que levaria sobre si as dores e iniquidades do povo. Ao aplicar esse texto a Jesus Cristo, Pedro deixa claro que a promessa foi cumprida na cruz. As “feridas” de Cristo — isto é, seu sofrimento, sua entrega e sua morte — são o meio pelo qual a cura foi efetivada.Assim, a declaração de Pedro não apenas aponta para o que Cristo fez, mas também define a identidade e a experiência do cristão: alguém que já foi alcançado pela graça, restaurado interiormente e chamado a viver à luz dessa cura que, em Cristo, já se tornou realidade.

Essa obra redentora conduz, então, a uma nova realidade, que Pedro descreve ao afirmar: “Porque estáveis desgarradas como ovelhas” (v.25a). No contexto bíblico, a ovelha é um animal dependente, vulnerável e sem senso de direção quando está sozinha. Ao dizer “estáveis desgarradas”, o apóstolo Pedro descreve um estado contínuo no passado: uma condição de afastamento, confusão e perigo espiritual.O verbo “desgarrar” traz a ideia de se desviar do caminho, afastar-se do pastor e perder o rumo. Não se trata apenas de um erro pontual, mas de uma condição existencial: o ser humano, longe de Deus, vive sem direção segura, exposto ao pecado e incapaz de, por si mesmo, retornar ao caminho correto.Essa linguagem ecoa diretamente a profecia de Isaías 53.6: “Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho”. Pedro, ao utilizar essa imagem, reforça que a situação anterior dos cristãos era de alienação espiritual — cada um seguindo sua própria vontade, distante da vontade de Deus.O contraste aparece na continuação do versículo: “mas agora tendes voltado ao Pastor e Bispo das vossas almas”(v.25b). Ou seja, a obra de Cristo não apenas cura, mas também restaura o relacionamento. Aquele que estava perdido agora foi reconduzido, não por mérito próprio, mas pela ação graciosa de Deus.

Diante de tudo o que ouvimos, somos levados a compreender que o chamado cristão não é apenas para momentos de alegria, mas também para enfrentar o sofrimento — inclusive o injusto — com fé e perseverança. Pedro nos mostra que há valor espiritual quando suportamos a dor por causa da nossa consciência diante de Deus. Não é qualquer sofrimento que agrada ao Senhor, mas aquele que é vivido com integridade, paciência e confiança nEle.

Cristo é o nosso maior exemplo. Ele sofreu sem pecado, foi injuriado e não revidou, entregou-se completamente à vontade do Pai. Seu sofrimento não foi em vão — foi redentor. Ele levou sobre si os nossos pecados, para que hoje pudéssemos viver uma nova vida, marcada pela justiça. Pelas suas feridas, fomos sarados. Isso significa que nossa cura espiritual já foi conquistada, e agora vivemos os frutos dessa obra.Por isso, não podemos mais viver como ovelhas desgarradas. Fomos alcançados, resgatados e conduzidos de volta ao Pastor e Bispo das nossas almas. Há direção, há cuidado e há propósito para aqueles que pertencem a Cristo.

Assim, a conclusão é clara: somos chamados a seguir os passos de Jesus. Isso envolve confiar em Deus mesmo quando somos injustiçados, viver de forma santa mesmo em meio às dificuldades e lembrar que nosso sofrimento nunca é em vão quando está nas mãos do Senhor.

Que possamos sair daqui decididos a viver como Cristo viveu — com obediência, mansidão e fé — certos de que, assim como Ele foi exaltado, também participaremos da sua glória. Amém!

 

 

 

quinta-feira, 16 de abril de 2026

TEXTO: JO 10.1-10

TEMA:  JESUS É A PORTA DAS OVELHAS!

Diariamente passamos por muitas portas que se encontram nas casas, igrejas, escolas, hospitais. A porta é um instrumento de passagem que abre e fecha, impedindo ou permitindo o acesso a determinado lugar. Ela dá uma sensação de segurança e proteção dos perigos exteriores. Ela pode ser larga, estreita, grande, pequena, baixa, alta. Nos tempos antigos , não somente as casas tinham portas, como também as cidades fortificadas. As portas permitiam o acesso às fortificações, e junto a estas portas realizavam as trocas comerciais. Eram os lugares de maior afluência do povo, para conversas, passatempos ou negócios. Em caso de ataque de inimigos, as portas eram fechadas, e das muralhas as sentinelas protegiam a cidade.

No entanto, a porta mais importante que podemos atravessar é através de Jesus Cristo. Ele disse: “Eu sou a porta das ovelhas.” Vamos refletir sobre três significados das palavras de Jesus! Primeiro porque Jesus é a porta da salvação. Ele é a porta pela qual todos devem entrar na vida eterna. Não existe outra! Não há outro caminho!  Não há outra via de acesso. Por isso, é necessário entrar por ele. Segundo, quem entrar por esta porta achará pastagem. Encontramos vida com abundância. O amor que recebemos de Deus e a fé que norteará cada um de nossos passos, nos encherá de confiança e poderemos descansar tranquilos em Jesus. Terceiro, hoje a porta está aberta, esperando os pecadores arrependidos. Um dia, porém, essa porta vai se fechar. Por isso, enquanto a porta da graça se encontra aberta, possamos entrar por ela e encontrar em Jesus a solução para os nossos problemas.

                                                                  I

 Jesus inicia seu discurso, contando uma parábola. Ele usa diferentes exemplos neste texto que os judeus estavam familiarizados. Tipo de linguagem que era fácil de ser entendido por todos. Ele fala do aprisco, sobre a porta, o pastor, ladrão, o salteador e os mercenários. É justamente neste contexto que Jesus dirigi às suas palavras.  Primeiramente, Ele fala sobre o “aprisco das ovelhas.” Era um local cercado por muros, feito ,principalmente, de pedras, onde havia uma grande porta. Durante à noite os pastores traziam as suas ovelhas para o aprisco e cuidavam do rebanho. A porta era a única entrada onde ficava o porteiro. Embora, havendo um porteiro, os roubos de ovelhas eram constantes.  Os ladrões saltavam pelo cercado e roubavam as ovelhas sem passar pela porta. Por isso, Jesus afirma: “o que não entra pela porta no aprisco das ovelhas, mas sobe por outra parte, esse é ladrão e salteador.” ( v.1).

Essas palavras foram ditas contra os fariseus. Eles não entravam pela porta do aprisco ,que é Cristo, mas  faziam “buracos” no aprisco onde desejavam entrar  com arrogância, hipocrisia, falsidade e ganância. Por isso, eram considerados “ladrão e salteador.” (v.1b).Jesus ainda disse: “O ladrão vem somente para matar e destruir.”(v.10a). Esse fora o caráter geral dos fariseus e escribas. Eles fingiam ser pastores e guia do povo. Buscavam riqueza, cargo, facilidade às custas do povo, e alegavam ser instrutores, cujo único objetivo era se engrandecer e oprimir o povo. Portanto, mereciam ser chamados de ladrões e salteadores. Lemos em Jeremias 23.1:“Ai dos pastores que destroem e dispersam as ovelhas do meu pasto.” E Jeremias ainda disse que os pastores, " não buscaram ao Senhor; por isso, não prosperaram, e todos os seus rebanhos se acham dispersos" (Jeremias 10.21).

No entanto, o verdadeiro pastor de ovelhas, não precisa escalar a cerca, fazer abertura nas paredes para entrar no aprisco. O verdadeiro pastor entra pela porta que é aberta pelo porteiro. Jesus disse, esse que entra “ é o pastor das ovelhas”.(v.2). A este o porteiro abre a porta, chama pelo nome às suas ovelhas, elas ouvem a sua voz e as traz para fora. E, quando tira para fora as suas ovelhas, vai adiante delas, e as ovelhas o seguem. (vv.3 e 4). Ocorre que existe um ótimo relacionamento entre o pastor e as suas ovelhas, ou seja na sua voz, no seu conhecimento , na sua liderança e na sua orientação. Agindo desta forma, diz Jesus que “de modo nenhum seguirão um estranho, antes elas fugirão por não reconhecer a sua voz” (v.5).

No entanto, os fariseus “não compreenderam” o que Jesus que lhes dizia (v.6).Eles também não queriam admitir o recente milagre da cura de um cego de nascença ( Jo.1-41).E diante desta incredulidade, Jesus explica novamente a respeito de si mesmo: “Em verdade, em verdade vos digo: eu sou a porta das ovelha”.(v.7).A porta é um objeto muito importante. Ela está bem presente em nossas vidas, pois é uma via de acesso que nos permite entrar e sair dos mais diversos lugares. Ela dá uma sensação de segurança e proteção dos perigos exteriores. Ela pode ser larga, estreita, grande, pequena, baixa, alta. Sem ela, nossas vidas seriam difíceis e limitadas.

Nas Escrituras encontramos diversas passagens que falam sobre a porta: Ló estava sentado a porta da cidade de Sodoma. (Gn 19.1). O Tabernáculo tinha portas que dava passagem para outros compartimentos do santuário móvel dos hebreus no período da peregrinação. (Êx 29.32; 33.9). A reconstrução dos muros de Jerusalém, no livro de Neemias, menciona as doze portas da cidade com os seus primitivos nomes. A porta foi também fechada para as néscias, da Parábola das Dez Virgens. Elas batem à porta e pedem para entrar: “Senhor, senhor, abre-nos a porta!” (Mateus 25.11). Mas a porta foi fechada e não abriu mais para aquelas mulheres, que não se prepararam para receber o noivo. Em Gênesis 6.16, Deus pediu que Noé construísse uma arca e colocasse uma porta na lateral. Após a construção da arca Noé e sua família, bem como todo o animal, conforme a sua espécie entraram na arca, e “o Senhor fechou a porta". (7.16).

Num outro momento Jesus faz uma referência à porta das ovelhas. Ele lembra a história do homem paralítico que ficava à beira de um tanque de água, aguardando a cura para sua doença. Um detalhe na história diz que o tanque de água ficava ao lado do Portão das ovelhas em Jerusalém.( João 5.2), lugar por onde as ovelhas eram introduzidas para os sacrifícios por ocasião da Páscoa judaica. No entanto, esta história mudou quando Jesus veio ao mundo, morreu e ressuscitou para nos salvar. Jesus, agora, é a porta das ovelhas. Quando Ele diz “eu sou a porta das ovelha,” às suas palavras são enfáticas.  Assim como Jesus disse em outras ocasiões: “ Eu sou a luz do mundo”, ”Eu sou o caminho”. Observem um detalhe importante: Jesus não diz ser uma porta, ou uma das portas, mas  “Eu sou a porta”, o único acesso a Deus. Cristo é o único caminho para a segurança do aprisco de Deus.

                                                                    II

Jesus também afirma que Ele é a porta da salvação: “Se alguém entrar por mim, será salvo. (v.9a). A palavra “salvo” dentro do texto, vem do termo grego   oσώζω, cujo sentido é: “salvar do perigo ou da destruição”. Mas quando falamos da salvação do homem em Cristo Jesus, torna-se necessário lembrarmos o seu estado pecaminoso. Em Rm 3.23 temos: “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”. Nesta condição, o homem caminha para a perdição eterna, uma vez que o “salário do pecado é a morte…”.( Rm 6.23.3). A única solução para a questão do pecado na vida do homem perdido, é Jesus. Quando deixou o seu lar na glória para habitar entre os homens, Jesus tinha como objetivo principal “buscar e salvar os perdidos”. “Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que se havia perdido”. (Lc 19.10).Agora, aquele que coloca toda a sua esperança  sobre o Redentor crucificado, será salvo. Portanto, Jesus é a porta pela qual todos devem entrar na vida eterna. Não existe outra!  Não há outro caminho!  Não há outra via de acesso. Por isso, é necessário entrar por ele. Ele é a porta que retrata a vida — a salvação, a segurança, o sustento.

Olhando com atenção para este versículo, nos deparamos com dois verbos: “entrará, e sairá…”.(v.9b).Estes verbos significam que as ovelhas entram no aprisco para terem segurança e saem para a pastagem sob os cuidados de seu pastor. Em Jesus, as ovelhas que entram não permanecem lá dentro para serem sacrificadas, mas saem para se alimentar do pasto, pois “achará pastagem.” A expressão “achará pastagem”, tem a ver com o alimento das ovelhas. Sabemos que uma das funções do pastor de ovelhas nos tempos bíblicos era providenciar alimento ao rebanho, o que se tornava uma tarefa árdua, em virtude do clima desértico da Palestina. Os pastos verdes eram raros, escassos, e ,muitas vezes, para procurá-los, o pastor empreendia juntamente com o rebanho, longas viagens. Tornava-se cansativa a peregrinação em busca de pastos verdes. Uma vez encontrando o alimento para o rebanho, as ovelhas tinham descanso e tranquilidade, pois pastos “verdejantes” e “águas tranquilas” são tudo o que uma ovelha necessita.

Em Jesus, o bom Pastor  “acharemos pastagens”. Ele nos oferece “pastos verdejantes” e o “descanso”. Isto significa que o alimento espiritual é o próprio Senhor: “Assim como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim, quem de mim se alimenta, também viverá por mim”. (Jo 6.57). Jesus é o pastor por excelência! Nada descreve melhor o seu amor e cuidado pelas suas ovelhas do que o Salmo 23, que nos versos 1-2, trata de sua provisão de alimentos ao rebanho, Ele nos ensina que não faltará tranquilidade: Ele me faz repousar em pastos verdejantes. Leva-me para junto das águas de descanso. O termo דָּשָׁא  (pasto) no hebraico significa campinas, relva, grama. São pastos caracterizados como "exuberante”, ou seja, rica em vegetação e o termo מְנֻחוֹת  caracteriza a água refrescante; tranquilas, descanso. Debaixo do cuidado do Senhor nossa fome e sede são saciadas! “Nada nos faltará”!

Como é maravilhoso saber que a nossa provisão espiritual é encontrada em Cristo. Ele é o nosso alimento. Ele é o pão e a água da vida. Ele promete paz, descanso, direção, proteção, vitória e companhia eterna. Em Cristo há plenitude de alegria, paz e comunhão com Deus. Isto demonstra que Jesus, o bom Pastor é diferente do ladrão. O ladrão é o falso pastor. Jesus deixou claro no primeiro versículo que "aquele que entra no aprisco das ovelhas, mas sobe por outro lugar sem ser pela porta é ladrão e assaltante". A sua intenção é invadir o aprisco, e, simplesmente, roubar as ovelhas. Ele não mede as consequências, se vai destruir algo ou se alguém pode perder a vida para que ele consiga o que pretende roubar. Ele vem apenas para roubar, matar e destruir.”(v.10).Essa é sua primeira e principal visão: levar a propriedade alheia. Desta forma, entendemos que o objetivo central do ladrão é entrar no meio das ovelhas. Ele quer entrar de todas as formas, menos pela porta. Esse era o caráter geral dos fariseus e escribas. Eles eram ladrões e salteadores que viviam no meio do povo. Eles fingiam ser pastores e guia do povo. Portanto, mereciam ser chamados de ladrões e salteadores.  

Hoje, os ladrões são todos os que não instruem a igreja na doutrina verdadeira do Evangelho. Muitos deles estão conduzindo as suas ovelhas para o abismo, e que não tem nada para agregar em relação ao verdadeiro conhecimento de Cristo descrito nas Escrituras Sagradas. São mercenários pelo qual trabalham para si e em função dos seus próprios interesses. Não pensam em duas vezes em querer abandonar o rebanho.  Quando o inimigo ataca o rebanho, não fazem nada para defendê-lo. Aparentam serem pastores, mas na verdade não cuidam do rebanho, como deviam. Apresentam-se como enviados de Deus, mas que na realidade, são mercenários cujo interesse está apenas em buscar vantagens, honras e glórias pessoais, e na hora das dificuldades, abandonam as ovelhas porque não as amam de verdade e não estão dispostos a sacrificar suas vidas em proveito delas Lemos em Jeremias 23.1:“Ai dos pastores que destroem e dispersam as ovelhas do meu pasto.” E Jeremias ainda disse que os pastores, " não buscaram ao Senhor; por isso, não prosperaram, e todos os seus rebanhos se acham dispersos" (Jeremias 10.21).

                                                                      III

Você já entrou pela porta? Ou está apenas perto dela? A porta está fechada para você? Jesus é a porta certa! Ele está esperando os pecadores arrependidos! Ela sempre está aberta para você! Entre! No entanto, não é fácil entrar pela porta. Jesus disse: “ muitos procurarão entrar e não poderão”(LC 13.24b), isto porque exige renúncia, obediência, fidelidade  e perseverança. Exige que carreguemos a cruz. O caminho que leva a uma vida eterna com Deus passa pela cruz de Cristo. Jesus disse: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me” (Lc 9.23). Exige arrependimento quando pecarmos diante de Deus.(1 Jo 2). E muitas pessoas não querem seguir este caminho. Por isso, preferem passar ao largo desta porta. Desprezam-na. Acreditam poderem encontrar uma mais larga, mais espaçosa. Outras inventam desculpas, pois o amor pelo dinheiro e pelos prazeres do mundo, o desejo de agradar o mundo e as coisas que nele há, a má vontade em abandonar os pecados, que  impedem entrada na porta estreita.

Na verdade,  as pessoas não querem se submeter as exigências que o Senhor requer para segui-lo. Entre abandonar o pecado e abandonar o Senhor, preferem andar pelo caminho largo mesmo que isso signifique ficar sem Deus. Quem não quiser se submeter as práticas espirituais ou se esvaziar das coisas do mundo, jamais passará pela porta. Por isso, é necessário ter uma certa determinação em seguir Jesus diante de um mundo com seus encantos e ofertas, cada vez maiores e constantes. Satanás, fazendo de tudo  para impedir a nossa entrada pela porta. Não se deixe enganar por aqueles que desprezam a porta da graça de Deus em Jesus Cristo. Apesar do desprezo, a porta para o céu está aberta, o tempo da graça ainda opera sobre nós, e assim Jesus ainda pode ser achado. A porta aberta é uma oportunidade que Deus nos dá de ouvir a mensagem do evangelho e crer nele (João 10.7-9).

Lembrem-se que um dia essa porta vai se fechar, assim como no tempo de Noé. (Gênesis 7.16). A Palavra de Deus nos diz que veio o julgamento de Deus em forma de dilúvio e todos que não haviam entrado morreram. No dia do julgamento, que está por vir, a porta se fechará.(Lc. 13.24-27) Quando a porta for fechada, do lado de fora muitos vão dizer: “Senhor, abre-nos a porta”.  quem tiver entrado será salvo, quem ficar de fora, será condenado. Nesse tempo não adiantará bater, nem chorar, muito menos argumentar dizendo: Por que estamos do lado de fora? Nós sempre fizemos o que Deus queria?  Nós não profetizamos em teu nome? E em teu nome não expulsamos nos demónios? E em teu nome não fizemos maravilhas? Além disso, sempre fui a igreja; fui batizado; participava da ceia; dava o dízimo, até orava e lia a Bíblia. Porém a resposta do dono da casa, que é Jesus, é muito simples: “Não sei de onde sois vós”. E ainda  perguntarão a Jesus: Como não nos conhece? “ Comíamos e bebíamos na tua presença, e ensinavas em nossas ruas.” Mas Jesus responderá: “não os conheço, nem sei de onde vocês são. Afastem-se de mim, todos vocês, que praticam o mal,”

Estimados, irmãos! Há muitas portas por onde passamos e construímos a história de nossas vidas. Todos almejam encontrar uma porta aberta para um bom estudo, para um emprego estável e promissor, para o sucesso na vida financeira, para um casamento que lhes garanta a felicidade e muitas outras. No entanto, a porta mais importante que podemos atravessar é a porta da salvação. Jesus Cristo é essa porta. Ele é a única porta, uma porta aberta, uma porta ampla, uma porta segura. Quando entramos por esta Porta  encontramos vida  com abundância. O amor que recebemos de Deus e a fé que norteará cada um de nossos passos, nos encherá de confiança e poderemos descansar tranquilos. Jesus Cristo, a Porta da vida abundante, nos protegerá contra as ciladas do mal e encherá nossos corações de paz mesmo que os perigos estejam ao nosso redor. Por isso, somos  chamados a entrar, agora. Isto significa que a oportunidade de salvação vai terminar.

ORAÇÃO: Querido Pai Celestial, nós te rendemos graças, porque um dia a porta do céu se abriu e o Teu  Filho deixou o céu, abandonou a grandeza celestial, desprezou os palácios de marfim e veio a este mundo morrer pelos pecadores, abrindo a porta da salvação. Hoje a porta está aberta, esperando os pecadores arrependidos. Um dia, porém, essa porta vai se fechar. Enquanto a porta da graça se encontra aberta, possamos entrar por ela e encontrar em Jesus a solução para os nossos problemas. Tudo isto te pedimos em nome e por amor de Teu Filho, Jesus Cristo. Amém!

TEXTO: SL 23

TEMAO SENHOR É O BOM PASTOR!

Composto por Davi, o Salmo 23 tem sido um dos mais famosos textos da Bíblia através dos tempos. Nele encontramos conforto e encorajamento diante das adversidades; crises materiais, medo e angustia; consolo, proteção e orientação. Ao descrever este Salmo, Davi conhecia todas as implicações e realidades do trabalho pastoril. Ele apresenta as realidades que eram vividas no cotidiano de seu trabalho e as aplica ao contexto espiritual. Davi olha para Deus e vê que, assim como lidava e tratava suas ovelhas, era também cuidado e tratado por Deus que era o seu pastor. Ao chamar o SENHOR de pastor, Davi se coloca na posição de ovelha, um animal frágil, limitado e totalmente dependente do pastor para se manter segura e viva.

O SENHOR também é o nosso pastor, diante da nossa jornada. Hoje, vamos aprender quatro características que o Salmo 23 nos ensina sobre o SENHOR é o bom pastor. Primeira, assim como o pastor está ciente das necessidades das suas ovelhas e as conduz aos pastos verdes e águas tranquilas, o SENHOR também está ciente de nossas necessidades. Ele supre  e conhece cada coisa que precisamos e está pronto para entrar em ação em nossa vida. Por isso, não precisamos nos preocupar com nossas necessidades. Segunda, o pastor renova as forças e guia suas ovelhas por caminhos certos. Da mesma forma,  SENHOR também nos guia. Só o SENHOR pode nos mostrar o verdadeiro caminho ,pois Ele é o nosso guia.

Terceira, o pastor é a fonte da segurança. Ele sempre está presente ao lado das suas ovelhas. O SENHOR também está sempre está ao nosso lado. Não precisamos ter medo de nada, porque Deus está conosco. Ele é a nossa segurança. Ainda que eu ande por um vale escuro como a morte, não terei medo de nada. Pois tu, ó Senhor Deus, estás comigo.

Quarta, o pastor cuida das suas ovelhasO SENHOR também cuida e protege as suas ovelhas diariamente. O seu objetivo é fortalecer a nossa fé e um dia habitar na Casa do SENHOR para sempre: “Certamente a bondade e misericórdia me seguirão todos os dias de minha vida, e habitarei na Casa do SENHOR para todo o sempre.” (v.6).

                                                              I

Davi sabia o que era ser pastor, pois exercera esta atividade quando jovem.  Sua tarefa como pastor era conduzir o rebanho de um pasto para outro a fim de providenciar alimento para as ovelhas. Ele sabia dos perigos que as ovelhas haveriam de enfrentar. Baseado neste contexto, Davi inicia o salmo com uma declaração, reconhecendo que o SENHOR é o pastor que supre suas ovelhas em quaisquer circunstâncias. Para descrever estes acontecimentos, ele toma emprestada a figura de um bondoso pastor de ovelhas para falar do SENHOR como sendo O pastor, e compara o cuidado que Deus tem conosco, ao afirmar: “O SENHIOR é o meu Pastor; nada me faltará.” (v.1). O “SENHOR é”. Ele nunca foi, e nunca será. Ele é Deus Ele é nosso Salvador, nosso Redentor, nosso Mestre, nosso Guia, nossa Luz, nosso Pai. Precisamos entender que Deus nunca deixará de ser. Portanto, Ele é o nosso Pastor e, por isso, deve ser respeitado, reverenciado, e, acima de tudo, obedecido!

Ao reconhecer que o SENHOR é seu pastor, Davi deposita toda a sua confiança, pois entendia que o SENHOR supre todas as suas necessidades. Ele afirma: “nada me faltará”. A expressão traduzida como “faltar” ou “faltará”, vem do verbo hebraico  חָסַר  que significa faltar; diminuir; não ter. Junto com a partícula de negação לא, que significa “não, sem, nenhum, nada”, também poder ser traduzido como: “nada sentirei falta”. Mas, afinal, o que Davi tinha em mente ao escrever "nada me faltará"? Tendo o SENHOR como nosso Pastor, porventura não nos faltará nada? Imunes aos problemas da vida? Livres de todos os perigos? Não é isto que Davi está ensinando com as palavras “nada me faltará"? O salmista quer nos transmitir algo muito mais rico, mais profundo e mais sublime do que meros bem materiais  ou status deste mundo. Não são “coisas” efêmeras, passageiras,  transitórias, de curta duração desta vida, mas aquilo que o SENHOR dá graciosamente, por sua bondade e por seu amor. O cristão sabe contentar-se com o que Deus lhe concede por sua infinita bondade (Fp 4.11-13)

Davi sabia que nem o seu poder, nem as suas riquezas, e muito menos suas próprias forças, poderiam suprir suas necessidades. Somente o SENHOR é quem poderia lhe fazer descansar em pastos verdejantes e conduzi-lo às águas tranquilas (v.2).A palavra pasto vem do original דָּשָׁא que significa campinas, relva, grama. São pastos caracterizados como "exuberante”, ou seja, rica em vegetação, e o termo מְנֻחוֹת caracteriza a água refrescante; tranquilas, descanso. Neste contexto, observa-se que o pastor demonstra o cuidado especial, oferecendo “pastos verdejantes” e o “descanso” às ovelhas. A região da Palestina em determinadas épocas do ano carecia de pastos verdejantes e águas cristalinas. Isto obrigava os pastores seguirem em uma cansativa peregrinação em busca de pastos verdes. Uma vez encontrando o alimento para o rebanho, as ovelhas tinham descanso e tranquilidade, pois pastos “verdejantes” e “águas tranquilas” são tudo o que uma ovelha necessita.

O bom pastor conhece melhor as necessidades particulares de  todas as suas ovelhas. Sabe qual é mais forte e a mais fraca. Compreende que os cordeirinhos não podem andar tão depressa com as ovelhas mais velhas, e, por isso, muitas vezes, as toma nos braços porque sabe que algumas necessitam de mais atenção do que outras. Como é maravilhoso saber que o SENHOR, o bom pastor  cuida de cada uma de suas ovelhas e não deixa faltar nada, mesmo em meio aos desertos da vida. Ele nos tira dos campos secos e nos leva em segurança para os pastos verdejantes, onde há mesa farta no deserto. Deste modo podemos suportar as provações e inquietações da vida, com o auxílio e a graça de Deus. Hoje, a principal missão do pastor é cuidar das ovelhas de Cristo, que lhe são confiadas. Cabe a ele, apascentar as ovelhas, dando-lhes o alimento espiritual, através do ensino fundamentado (doutrina) da Palavra de Deus. O verdadeiro pastor cuida bem das ovelhas. Leva as ovelhas de Jesus a alimentar-se do “pasto verde”, que nutre a alma e o espírito, fortalecendo-as, para que cresçam na graça e conhecimento do Senhor Jesus Cristo (2 Pe 3.18).

                                                                   II

O SENHOR é o nosso pastor porque renova as nossas forças e nos guia por caminhos certos, como ele mesmo prometeu. Algumas pessoas acreditam que a sua força vem da família, outras do dinheiro e outras ainda dizem que são fortes por causa de sua personalidade ou do seu temperamento. No entanto, todas essas motivações são limitadas em comparação ao SENHOR,  que é o nosso guia que conhece e ama as suas ovelhas, e que não faltará descanso e justiça aqueles que lhe pertencem: “Refrigera-me a alma, guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome.” (v.3). O verbo שׁוֹבֵב significa restaurar a força, trazer de volta, refrescar, refrigerar. O termo alma נַפְשִׁי, para este caso específico, refere-se a vida, mente, pensamentos e emoções. Este era o trabalho do pastor: restaurar o vigor ,voltar a vida e proporcionar descanso às ovelhas, pois em vários momentos de perigo, o rebanho era atacado por animais ferozes e deixava as ovelhas estressadas e cansadas, Elas precisavam de cuidados e descanso, bem como também o pastor precisava descansar. Por isso, o rebanho é conduzido  aos pastos verdejantes e ao descanso das águas tranquilas.

Outra tarefa era conduzir as ovelhas pelas “veredas da justiça”. A expressão “vereda” significa uma trilha estreita, sinuosa. Então, podemos entender que “veredas da justiça”. refere-se ao que é “aprumado”. Na verdade, o Senhor nos conduz pelo caminho reto, aprumado. Não nos permite andar em caminhos que levam à ruína. Essa certeza de ser guiado por vereda plana, por vereda de justiça, consola nosso coração. Por isso, eu pergunto: Quer andar nos caminhos aprumados? Quer deixar de viver uma vida injusta? Quer andar nos caminhos de integridade, de obediência? Quer fazer a vontade de Deus?  Só existe um caminho: siga o Pastor. Ele jamais nos conduzirá no caminho da injustiça. Jamais será injusto, pois age com retidão, revelando seu amor a todos nós.

O SENHOR é a nossa fonte da segurança neste mundo. Vivemos dias de insegurança em diferentes áreas da vida. O medo da violência, das doenças, de perder o emprego ou de perder alguém que se ama, tem mexido com o emocional de muitas pessoas. Contudo, não é isso que Deus tem para nós. Não precisamos ter medo de nada, porque Deus está conosco. Ele é a nossa segurança. Há uma declaração de absoluta confiança ao andar pelo vale da sobra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo. (v.4a). Esta é a maneira de atravessar o vale sem medo, pois andar pelo vale da sobra da morte era perigoso para o pastor que conduzia as suas ovelhas.

Você está passando pelo vale da sombra da morte? Não fique amedrontado. Confie no SENHOR. Ele é contigo por onde quer que andares. Por que temer o vale da sombra da morte? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Quem poderá nos separar do seu amor e da sua presença? Os perigos e males desta vida? Nossas tribulações? O diabo? A morte? Não!  Ninguém poderá separar-nos do amor e da presença do SENHOR.  Não importa quão escuro seja o vale no qual estamos peregrinando, não temeremos mal nenhum, pois o bom Pastor está sempre conosco guiando-nos em nossa caminhada e consolando-nos com Sua Palavra.

Ao atravessar o vale da sombra da morte, e também em outras ocasiões, o pastor leva consigo dois instrumentos : “ o  bordão e o cajado.”(v.4a). A palavra “vara” traduz o hebraico שֵׁבֶט  que nesse contexto significa “bordão”, “cetro” ou “bastão”. Isso quer dizer que na frase o salmista se refere ao bastão usado pelos pastores de rebanhos para combater animais selvagens. Nesse sentido, a vara era o principal instrumento de proteção. Já o termo  מִשׁעֵנָה (cajado) significa “apoio” ou “suporte” e se refere ao cajado usado pelo pastor como auxílio para caminhar e também como instrumento para orientar as ovelhas. É um costume antigo no Oriente Médio, quando o pastor sai para o pasto carrega apenas uma vara e um cajado. Esta é sua “arma” de poder, defesa. força, segurança e autoridade, pois com ela afastava os predadores, e também servia como instrumento para disciplinar e corrigir ovelhas rebeldes que insistiam em se afastar do grupo. Já  o cajado é utilizado para dirigir as ovelhas. Várias vezes o pastor precisava conduzi-la para entrar em um portão ou ao longo de uma estrada, e ele o faz encostando levemente a ponta longa da vara no flanco do animal, e assim guia a ovelha ao caminho que deseja. É uma demonstração de amor e da dedicação do seu pastor por ela.

Este é cuidado que o SENHOR tem para com suas ovelhas. Ele nos protege  com sua vara e nos orienta com  o seu cajado, e acima de tudo nos consola.(v.4c).O verbo נָחַם (consolar) significa confortar, ter compaixão, aliviar, arrependimento. Então, as ovelhas do bom Pastor podem se juntar ao salmista e dizer: “a tua vara e o teu cajado me consolam," Ele  também quer consolar o seu povo do presente século. Apenas Ele pode nos oferecer consolo, pois Ele é um Deus de amor. A sua Palavra garante que Deus está perto de todos os que o invocam, e ouvirá seu clamor por ajuda. Ele busca os aflitos, abatidos, desanimados. Este consolo é plenamente eficaz, renova as nossas esperanças e nos fornece alivio e paz. Este verdadeiro consolo, encontramos somente na Bíblia. Ela nos revela através de inúmeros exemplos de que Deus é o verdadeiro consolador. O maior de todos os consolos, Ele nos deu através de seu Filho, Jesus, que morreu na cruz para nos salvar, oferecendo assim o verdadeiro consolo à humanidade. Sem dúvida podemos dizer que todas essas coisas apontam para Cristo. Ele é o Pastor capaz de nos proteger e nos orientar.  Ele é o Pastor que dá a vida por suas ovelhas (João 10:11-15). Com sua vara Ele afugenta todos os predadores que buscam tragar aqueles que lhe pertencem, de modo que ninguém é capaz de destruir o seu rebanho.

Depois de passar pelo vale da sombra da morte, agora, as ovelhas estão seguras, e já podem fazer uma alimentação sadia e o descanso necessário. Este momento é tão sublime, quando o pastor oferece pastos verdejantes e águas cristalinas para suas ovelhas.  É maravilhoso, quando o pastor prepara uma “mesa de pasto” que sirva de alimento para seu rebanho.  Davi diz que o SENHOR prepara uma mesa para ele na presença de seus inimigos. (v.5a).  A expressão mesa שֻׁלְחָן  é o lugar de intimidade de nossa casa. Nela nos sentamos, reunimos a família , nos alimentamos, conversamos com nossos filhos. Quando gostamos muito de alguém, nós convidamos esta pessoa para nossa casa e a levamos a este lugar de intimidade, que é a nossa mesa. Nós nos alegramos em servi-la, em proporcionar prazer e conforto, e  compartilhar com ela o que temos de melhor, fazendo com que se sinta à vontade em nossa casa.

No entender do salmista Deus fornece o sustento de sua parte, mesmo havendo muitos inimigos se levantando para lhe fazer mal, Deus nunca desiste de fazer o bem para seus servos. Isto não é apenas no sentido espiritual, mas também no sentido físico. Portanto, Ele continua a pôr diante de qualquer que O teme e O ama uma mesa preparada, um banquete. No entanto, para sentar à mesa do Senhor precisamos estar preparados.  Ele quer que os seus sejam bem servidos e sejam bem acomodados à sua mesa. Como poderei eu estar preparado para aproveitar tudo de bom que esta mesa oferece? Como estarei preparado para sentar à mesa do SENHOR e aproveitar das bênçãos maravilhosas que proveem de sua bondade e misericórdia?

O SENHOR não somente prepara, mas também unges-me a cabeça com óleo. (v.5b). A palavra ungir vem do hebraico. דָּשֹׁן  que significa ser gordo, deixar gorduroso, cinzas gordurosas. Na época de Davi os pastores acompanhavam diariamente a saúde de todas as suas ovelhas. Procuravam feridas que infeccionavam e causavam danos maiores. Diante das enfermidades, usavam gordura para tratar das feridas das ovelhas, principalmente na cabeça. Este era o cuidado que pastor demonstrava em relação às suas ovelhas quando estavam enfermas. Da mesma forma, o SENHOR, também cuida das suas ovelhas. Ele chama pelo nome, está disposto a tirar os carrapichos de nossa lã, derrama bálsamo em nossas feridas e nos defende dos lobos com a própria vida. Somos ovelhas do seu rebanho e Nele temos provisão de bom alimento, aconchego e a segurança dos seus braços. Nele temos segurança e paz, carinho e refúgio, alimento e cura. Podemos confiar no consolo da vara e cajado do Senhor. Podemos confiar nas promessas e bênçãos, pois assim diz o Senhor: “O meu cálice transborda.” (v.5c).

                                                          III

 Na cena final deste salmo, vemos que as ovelhas obedientes vão morar com o SENHOR. O  Pastor  promete nos guiar e nos proteger ao longo da nossa vida, para nos levar  e morar com Ele, para sempre. Ele disse: “Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do Senhor para todo o sempre.” (v.6). Esta é a verdadeira situação da ovelha que segue o SENHOR. É uma situação privilegiada. É uma situação onde ela pode estar sempre, perfeitamente, em paz, porque a bondade e misericórdia estarão sempre presentes.

Neste versículo, três coisas merecem nossa ponderação: Primeiro, a expressão “certamente”. A expressão confirma que Davi acreditava em um Deus seguro, que faz promessas seguras e oferece uma base segura. Também confirma a promessa de Deus que será cumprida na terra através da bondade e misericórdia. A sua bondade se manifesta no sustento, na preservação e em várias bênçãos sobre toda a humanidade. Ela é manifestada na misericórdia. A misericórdia jamais acaba não tem fim, ou seja, Deus está sempre disposto a dar uma nova chance, a começar de novo. Ele sempre se renova. A compaixão divina renova a nossa esperança, o nosso ânimo, a nossa disposição no dia a dia da vida. Sua misericórdia manifesta sua grandeza: grande é a tua fidelidade. Temos um Deus fiel. Suas promessas serão cumpridas.

A segunda é a duração do cumprimento da promessa de Deus na terra: “Todos os dias da minha vida”. A terceira é a extensão do cumprimento da promessa de Deus na eternidade: “E habitarei na casa do Senhor para todo o sempre.” Quem entrava nos palácios de um rei estava seguro, a segurança de um palácio era inviolável, esse é o seu lugar! Tendo estas certezas o salmista desejava com muita ansiedade, o prazer de habitar na Casa do SENHOR. Não só nos dias desta vida, mas também depois. A vida aqui não é a nossa casa. Nossa pátria está no céu diz o apóstolo Paulo (Fp. 3.20).

Portanto, depositamos a nossa confiança no SENHOR. Ele é o nosso Pastor, cuida de cada um de maneira pessoal, pois sem seus cuidados, sem sua proteção estaremos vulneráveis aos ataques dos lobos ferozes, sem seu cajado para nos guiar não encontraremos caminho seguro  neste mundo. Ele é o nosso Pastor! Amém.