TEXTO: RM 8.18-27
TEMA: A GLÓRIA QUE NOS ESPERA
A vida cristã não é isenta de sofrimento. Desde a queda em pecado, toda a criação experimenta as consequências da rebelião contra Deus. Por isso, os cristãos também enfrentam enfermidades, lutas familiares, dificuldades financeiras, perseguições por causa da fé, decepções, perdas e inúmeras outras aflições. Em muitos momentos, o peso dessas circunstâncias parece grande demais, levando-nos ao desânimo e até mesmo à pergunta: "Vale a pena permanecer firme na fé?"
Foi justamente para fortalecer os cristãos em meio às tribulações que o apóstolo Paulo escreveu estas palavras. Em vez de concentrar nossa atenção apenas nas dificuldades do presente, ele dirige nosso olhar para aquilo que Deus prometeu aos que pertencem a Cristo. O sofrimento não é a palavra final da história do povo de Deus. Há uma glória eterna reservada para os filhos do Senhor, uma glória tão extraordinária que supera infinitamente todas as dores desta vida.
Por isso, Paulo afirma com convicção: “Porque para mim tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória a ser revelada em nós” (v.18). O apóstolo não está minimizando a realidade do sofrimento. Ele mesmo conheceu prisões, açoites, perseguições, fome, perigos e muitas angústias. Ainda assim, declara que todas essas aflições são passageiras quando colocadas diante da glória eterna que Deus preparou para os que foram justificados pela fé em Cristo.
Essa é a esperança cristã. Nossa confiança não está na ausência de sofrimento, mas na certeza de que Cristo venceu o pecado, a morte e o diabo por meio de sua morte e ressurreição. Unidos a ele pela fé, sabemos que as tribulações deste mundo têm prazo determinado, enquanto a herança que nos espera é eterna e incorruptível.
Neste texto, o apóstolo Paulo nos apresenta três verdades que sustentam e fortalecem a esperança do cristão em meio às tribulações. Elas nos ensinam que o sofrimento é temporário, que toda a criação aguarda a consumação da obra de Deus e que o próprio Espírito Santo nos fortalece enquanto aguardamos, com perseverança, a glória eterna prometida em Cristo. Então vejamos:
Primeiro os sofrimentos presentes não se comparam à glória futura (v.18).Depois de refletir sobre a obra de Cristo e as promessas divinas, Paulo conclui que existe uma enorme diferença entre as aflições atuais e a glória futura. Ele agora inicia este texto com uma declaração de profunda convicção: “Porque para mim tenho por certo” (v.18a). A expressão demonstra que essa não é uma opinião passageira, mas uma certeza fundamentada na obra salvadora de Cristo e nas promessas de Deus. Paulo usa aqui o verbo grego λογίζομαι que significa "considerar", "calcular", "chegar a uma conclusão", para demonstrar que não se trata de um sentimento ou de um simples otimismo. Ele afirma uma convicção baseada na revelação de Deus.
Em seguida, ele menciona "os sofrimentos do tempo presente" (v.18b). o termo grego παθήματα refere-se a toda espécie de sofrimento: perseguições por causa da fé, enfermidades, perdas, lutas contra o pecado, dores emocionais e todas as consequências da queda. Ao usar a expressão "tempo presente", Paulo lembra que esses sofrimentos pertencem apenas à realidade deste mundo. Eles são reais, mas temporários.O καιρός (tempo) não indica apenas tempo cronológico, mas uma época específica da história da salvação: o período entre a primeira e a segunda vinda de Cristo. É o tempo em que a Igreja vive sob a cruz, aguardando a consumação do Reino.
É importante lembrar que o apóstolo não está negando a realidade do sofrimento. As dores desta vida são verdadeiras e, muitas vezes, intensas. Há enfermidades que debilitam o corpo, perdas que ferem profundamente o coração, crises familiares que trazem lágrimas e dificuldades financeiras que geram insegurança. O cristão não está imune a essas provações. Entretanto, Paulo nos convida a olhar além do presente. Os sofrimentos pertencem ao "tempo presente"; eles são passageiros. A glória prometida por Deus, porém, pertence à eternidade e jamais terá fim.
No entanto, Paulo afirma que esses sofrimentos "não podem ser comparados" (v.18c) com a glória futura. Literalmente a expressão significa "não são dignos" (οὐκ ἄξια).O sentido é ainda mais forte do que simplesmente "não podem ser comparados". Isto significa que os sofrimentos atuais são insignificantes quando colocadas diante da glória eterna que aguarda os filhos de Deus.A ideia é de que qualquer comparação se torna impossível, pois a glória é infinitamente superior. Paulo ainda afirma que essa "glória a será revelada em nós" (v.18d). Essa glória inclui a ressurreição do corpo, a completa libertação do pecado, a perfeita comunhão com Deus e a participação na nova criação. Não será apenas uma glória vista pelos cristãos, mas uma glória manifestada neles, transformando-os completamente à imagem de Cristo.
Quando esta glória for revelada, então, todo pecado será removido, toda lágrima será enxugada, a morte será definitivamente vencida e os filhos de Deus viverão para sempre na presença do Senhor. O corpo, hoje sujeito à fraqueza e à corrupção, será ressuscitado em glória. Aquilo que hoje esperamos pela fé será contemplado com os próprios olhos.Essa esperança muda a maneira como enfrentamos as tribulações. O cristão não persevera porque é mais forte do que os outros, mas porque sabe que Cristo já venceu o pecado, a morte e o inferno por sua morte e ressurreição. Por isso, as aflições deste mundo não são o destino final do povo de Deus. Elas são temporárias e estão sob o controle do Senhor, que as utiliza para fortalecer a fé e conduzir seus filhos à herança eterna.
Quando as lutas parecerem pesadas demais, lembremo-nos das palavras do apóstolo: os sofrimentos do tempo presente não podem ser comparados com a glória que Deus revelará aos que pertencem a Cristo. A esperança da vida eterna não elimina a dor de hoje, mas dá ao cristão força para permanecer firme, sabendo que o melhor ainda está por vir.
Segundo, toda a criação aguarda a redenção final (v.19-23). Depois de afirmar que os sofrimentos presentes não se comparam à glória futura, o apóstolo Paulo amplia o horizonte da esperança cristã, e mostra que não apenas os cristãos aguardam a consumação da salvação, mas toda a criação vive em expectativa pelo dia em que Deus restaurará todas as coisas.Ele escreve: “A ardente expectativa da criação aguarda a revelação dos filhos de Deus” (v.19). A expressão "ardente expectativa" transmite a ideia de alguém que observa atentamente o horizonte, aguardando ansiosamente a chegada de algo grandioso. É uma figura de intensa esperança.Assim, toda a criação espera o dia em que Deus consumará sua obra de redenção.
No entanto,Paulo explica que a criação foi sujeita à vaidade e a corrupção não por sua própria vontade, mas por causa do pecado do ser humano: “ Pois a criação está sujeita à vaidade,não voluntariamente,mas por causa daquele que a sujeitou” (v.20). Quando Adão caiu, não apenas a humanidade sofreu as consequências da desobediência, mas toda a criação foi atingida pela maldição divina (Gn 3.17-19). O pecado de Adão não trouxe consequências apenas para o ser humano, mas toda a criação passou a experimentar sofrimento, desordem, morte,deterioração, desastres naturais, doenças, morte e corrupção. A criação sofre porque vive sob os efeitos do pecado.
Entretanto, essa sujeição não é definitiva. Há uma promessa de libertação. Deus submeteu a criação "na esperança" de que ela também será libertada da escravidão da corrupção para participar da liberdade da glória dos filhos de Deus Paulo declara que “na esperança de a própria criação será redimida do cativeiro da corrupção, para a liberdade da glória dos filhos de Deus" (v.21). Isso significa que, quando Cristo voltar em glória, não apenas os cristãos serão plenamente restaurados, mas também toda a criação será renovada. Haverá novos céus e nova terra, onde não existirão mais morte, sofrimento, dor ou corrupção. Enfim, toda a criação refletirá novamente a perfeição do seu Criador.
Enquanto esse dia não chega, Paulo afirma que "toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora" (v.22). Esses gemidos são percebidos na fragilidade da natureza e em todas as consequências do pecado que afetam o mundo. Contudo, os cristãos também participam desse anseio. "E não somente ela, mas também nós, que temos as primícias do Espírito, igualmente gememos em nosso íntimo, aguardando a adoção de filhos,a redenção do nosso corpo" (v.23). Embora já tenhamos recebido o Espírito Santo, ainda vivemos em um corpo sujeito ao pecado, às enfermidades, ao envelhecimento e à morte. Também nós gememos. Sentimos o peso da luta contra o pecado, da dor, das perdas e das limitações desta vida.Contudo, nosso gemido não é um gemido de desespero. É o gemido da esperança. Esperamos "a adoção de filhos, a redenção do nosso corpo". Em Cristo já somos filhos de Deus pela fé, mas aguardamos o dia em que essa filiação será plenamente manifestada na ressurreição. Na volta de Cristo, nossos corpos serão transformados, incorruptíveis e glorificados. Então não haverá mais lágrimas, sofrimento, enfermidade nem morte.
Essa verdade consola profundamente a Igreja. Vivemos em um mundo marcado pelo pecado, mas não caminhamos sem esperança. Cada dor experimentada nesta vida nos lembra que este mundo não é nosso destino final. Nossa pátria está com Cristo, e aguardamos, pela graça de Deus, o dia em que toda a criação será renovada e nós viveremos para sempre na presença do Senhor.Assim, Paulo nos ensina a olhar além das dificuldades do presente. O Senhor não abandonou sua criação. Em Cristo, Ele já iniciou a restauração de todas as coisas, e essa obra será plenamente revelada quando o Salvador voltar em glória.
Terceiro, o Espírito Santo nos sustenta em nossa fraqueza (v.24-27).Depois de falar da glória futura e da esperança da redenção de toda a criação, Paulo dirige nossa atenção para o auxílio que Deus nos concede enquanto ainda peregrinamos neste mundo. O cristão não caminha sozinho. Em meio às lutas e tribulações, o próprio Espírito Santo habita nos que creem em Cristo e os sustenta diariamente.O apóstolo afirma: "Porque, na esperança, fomos salvos. Ora a esperança que se vê não é esperança;pois o que alguém vê como o espera?” (v.24). A salvação foi conquistada plenamente por Cristo na cruz e recebida pela fé. Já somos filhos de Deus. Porém . ainda não contemplamos a glória eterna nem recebemos o corpo glorificado. Por isso, vivemos pela fé e aguardamos, com perseverança, o cumprimento de todas as promessas de Deus. A esperança cristã não é uma expectativa incerta, mas a firme certeza de que Deus cumprirá aquilo que prometeu.Por isso, a esperança é uma característica essencial da vida cristã. Não esperamos aquilo que já vemos, mas confiamos na promessa fiel daquele que nunca falha.
Paulo continua: "Se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos" (v.25). Essa paciência não significa resignação passiva, mas perseverança confiante. O cristão continua firme mesmo em meio às aflições, porque sabe que Deus está conduzindo a história para o dia da vitória final de Cristo. Nossa esperança não está baseada nas circunstâncias, mas na Palavra do Senhor.
Enquanto aguardamos a glória futura, a nossa caminhada, porém, acontece em meio à fraqueza. Somos limitados, enfrentamos tentações, desânimo, enfermidades e momentos em que nem mesmo sabemos como orar. Nessas ocasiões, Paulo oferece um grande consolo: “Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza;porque não sabemos orar como convém,mas o mesmo Espirito intercede por nós sobremaneira,com gemidos inexprimíveis.” (v.26).
Paulo afirma que O Espirito Santo nos “assiste”.A palavra "assiste" transmite a ideia de alguém que toma uma carga pesada juntamente conosco. Paulo ainda acrescenta: "Porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis." Muitas vezes nossa dor é tão profunda que faltam palavras. Há momentos de enfermidade, luto, angústia ou sofrimento em que nem conseguimos expressar diante de Deus aquilo que sentimos. Nesses momentos, o Espírito Santo intercede por nós. Isso não significa que Ele substitui nossas orações, mas que apresenta diante do Pai nossas necessidades em perfeita harmonia com a vontade divina.
Que grande consolo !O Espírito Santo não nos abandona diante das dificuldades; Ele vem ao nosso lado, fortalecendo nossa fé, sustentando nossa esperança e conduzindo-nos na comunhão com Deus. Ele age por meio da Palavra e dos Sacramentos, preservando-nos na verdadeira fé até o fim.O mesmo Espírito que criou a fé em nosso coração continua fortalecendo essa fé por meio da Palavra e dos Sacramentos. Ele nos lembra das promessas de Deus e nos mantém firmes em Cristo.Quando a enfermidade chegar, lembre-se de que ela não terá a última palavra.Quando a tristeza tomar conta do coração, recorde-se de que Cristo venceu a morte.Quando as preocupações parecerem maiores do que suas forças, confie que o Espírito Santo intercede por você.Por isso, permaneçam firmes na Palavra de Deus, perseverem na oração, participem da vida da igreja e apeguem-se às promessas do Senhor.
O apóstolo acrescenta que Deus, que conhece os corações, sabe qual é a intenção do Espírito, porque ele intercede pelos santos de acordo com a vontade divina: “ E aquele que sonda os corações sabe qual é a mente do Espirito,por que segundo a vontade de Deus é que ele intercede pelos santos.” (v.27). Isso significa que nossas orações não dependem da beleza de nossas palavras nem da intensidade de nossas emoções. Nosso consolo está no fato de que o Espírito Santo leva ao Pai aquilo de que realmente necessitamos, sempre em perfeita harmonia com a vontade de Deus.
Essa verdade fortalece o cristão em meio às provações. Quando nos sentimos fracos, Deus não nos abandona. Quando nossa fé vacila, o Espírito Santo continua operando por meio da Palavra e dos Sacramentos, preservando-nos na verdadeira fé. Assim, caminhamos com esperança, certos de que aquele que iniciou a boa obra em nós a completará no dia da volta de Cristo. Até esse dia, o Espírito Santo permanece ao nosso lado, sustentando-nos, consolando-nos e conduzindo-nos com segurança rumo à glória eterna.Essa promessa tem grande aplicação para nossa vida. Quando enfrentamos enfermidades, dificuldades familiares, perdas, perseguições ou incertezas, podemos sentir nossa fraqueza.
Portanto, enquanto aguardamos a volta gloriosa de Cristo, vivamos confiantes. O Espírito Santo continua sustentando a Igreja em meio às tribulações. Ele fortalece os cansados, consola os aflitos, preserva os cristãos na verdadeira fé e aponta continuamente para Jesus Cristo, em quem temos o perdão dos pecados, a vida eterna e a certeza da glória futura.
Queridos irmãos,Paulo nos lembra que a vida cristã é marcada por uma tensão. De um lado, vivemos em um mundo de sofrimento, marcado pelo pecado e pela morte. De outro, possuímos uma esperança que jamais poderá ser destruída, porque está firmada na obra consumada de Jesus Cristo.
Quando as provações vierem, lembremo-nos destas verdades: os sofrimentos do tempo presente são passageiros; toda a criação aguarda o dia da restauração; e o Espírito Santo permanece conosco, sustentando nossa fé e intercedendo por nós em nossa fraqueza. Deus não prometeu uma vida sem lágrimas, mas prometeu estar conosco em cada lágrima até nos conduzir à glória eterna.
Por isso, não olhemos apenas para as dificuldades de hoje. Ergamos os olhos para Cristo, que morreu por nossos pecados, ressuscitou para nossa justificação e reina à direita do Pai. Nele temos o perdão dos pecados, a certeza da adoção como filhos de Deus e a esperança da ressurreição do corpo e da vida eterna.E, quando Cristo voltar em glória, toda dor cessará, toda lágrima será enxugada e viveremos para sempre na presença do Senhor.
Que essa esperança fortaleça nossa fé, renove nossa coragem e encha nosso coração de alegria, até o dia em que veremos o nosso Salvador face a face. Em nome de Jesus. Amém.