TEXTO: Rm 14.1-12
TEMA: ACOLHAMOS O NOSSO IRMÃO SEM JULGÁ-LO
A carta aos Romanos nos ensina que a vida cristã não é vivida de maneira isolada. Deus nos chamou para vivermos como irmãos, unidos pela mesma fé e pela mesma graça de Cristo. No entanto,onde existem pessoas, também podemos pensar de maneira diferente sobre costumes, práticas, dias, alimentos sobre determinadas questões da vida cristã.
Era exatamente essa situação que Paulo enfrentava na igreja de Roma. Alguns irmãos tinham determinadas convicções quanto à alimentação e à observância de certos dias, enquanto outros entendiam essas questões de maneira diferente. O problema, porém, não estava simplesmente nas diferenças, mas na maneira como os irmãos tratavam uns aos outros. Alguns desprezavam aqueles que pensavam diferente, enquanto outros julgavam e condenavam seus irmãos.
Essa também é uma realidade presente em nossos dias. Quantas vezes permitimos que diferenças secundárias se transformem em motivo de divisão! Quantas vezes julgamos as intenções, a fé e a vida do nosso irmão apenas porque ele não pensa ou não age exatamente como nós! Em vez de acolher, afastamos; em vez de compreender, condenamos; em vez de amar, julgamos.
Paulo, então, mostra que a unidade da Igreja não depende de todos pensarem exatamente da mesma maneira em questões secundárias. O fundamento da unidade cristã está em Cristo. Por isso, Paulo ensina: “Acolhei ao que é débil na fé, não, porém, para discutir opiniões” (v.1).
Diante disso, meditemos na Palavra de Deus sob o tema: Acolhamos o nosso irmão sem julgá-lo, baseado em três tópicos:
Primeiro, acolhamos mesmo quando ele pensa diferente (vv.1-4).Paulo começa ensinando que devemos acolher aquele que é débil na fé, sem transformar diferenças de opinião em motivo para discussões e divisões. Na igreja de Roma, alguns comiam de tudo, enquanto outros comiam apenas legumes. Essas diferenças eram questões secundárias e não deveriam destruir a comunhão cristã. Por isso, Paulo adverte o que come a não desprezar o que não come, e o que não come a não julgar o que come. A razão é clara: Deus acolheu ambos pela sua graça. Não devemos fazer de nossas preferências pessoais uma medida para julgar a fé do irmão. Cada cristão pertence ao Senhor e vive diante dele. Portanto, somos chamados a acolher, respeitar e amar o irmão, mesmo quando pensamos diferente.
Segundo,vivamos para o Senhor, e não para nós mesmos (vv.5-9). Paulo mostra que os cristãos podem ter opiniões diferentes sobre determinadas questões, como a consideração de certos dias e o uso de determinados alimentos. Porém, cada um deve agir com convicção diante de Deus, procurando honrar o Senhor em suas decisões. O mais importante não é apenas aquilo que fazemos, mas que nossas atitudes sejam realizadas para o Senhor. Nossa vida não pertence exclusivamente a nós, pois somos do Senhor. Se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Em todas as circunstâncias, pertencemos a Cristo. Portanto, vivamos para o Senhor em todas as coisas, colocando nossa vida, nossas escolhas e nossos relacionamentos sob o senhorio de Cristo.
Terceiro, não o julguemos pois todos compareceremos diante de Deus (vv.10-12).Paulo pergunta: “Tu, porém, por que julgas teu irmão? E tu, por que desprezas teu irmão?” Essas perguntas nos lembram que não devemos assumir o lugar de Deus para condenar o nosso irmão. Todos nós compareceremos diante do tribunal de Deus e cada um dará contas de si mesmo ao Senhor. O julgamento final pertence ao Senhor, e não a nós. Devemos abandonar o espírito de julgamento e desprezo, tratando nossos irmãos com amor, humildade e respeito. Em vez de condenar quem pensa diferente, somos chamados a acolhê-lo e reconhecer que todos dependemos da mesma graça de Deus. No último dia, cada um dará contas de si mesmo diante do Senhor.
Paulo inicia o capítulo com uma orientação pastoral muito importante: “Acolhei ao que é débil na fé, não, porém, para discutir opiniões” (v.1). O apóstolo está tratando de diferenças existentes entre os cristãos da igreja de Roma. Alguns tinham uma compreensão mais firme sobre determinadas questões, enquanto outros ainda possuíam uma consciência mais sensível e limitada em assuntos que não eram essenciais para a fé cristã. Paulo ao usar o verbo “acolher”, que significa receber, aceitar e tratar o irmão com amor, reconhecendo-o como parte do povo de Deus, ele não está dizendo que devemos concordar com tudo o que o irmão pensa, mas que devemos recebê-lo como irmão em Cristo, mesmo quando existem diferenças de entendimento. A comunhão cristã não depende de todos terem exatamente as mesmas opiniões sobre questões secundárias.
É nesse contexto que precisamos entender a expressão “débil na fé”.A expressão “débil na fé” não significa que essa pessoa seja incrédula ou que não pertença a Cristo. Paulo está falando de um irmão que possui fé verdadeira, mas que ainda apresenta limitações em sua compreensão sobre determinadas questões da vida cristã. Sua fraqueza aparece principalmente em assuntos secundários, como alimentos, dias e costumes. Por isso, Paulo não manda a Igreja rejeitá-lo ou desprezá-lo, mas acolhê-lo com amor e paciência. Aquele que possui maior compreensão da liberdade cristã não deve usar seu conhecimento para desprezar ou humilhar o irmão que ainda tem dificuldades para compreender plenamente essa liberdade.Enfim, nossa comunhão não depende de pensarmos da mesma maneira em todas as coisas, mas de pertencermos ao mesmo Senhor. Deus acolheu esse irmão e, por isso, nós também devemos acolhê-lo.
Paulo ainda acrescenta: “não, porém, para discutir opiniões”. Com isso, ele mostra que acolher o irmão não significa recebê-lo para depois discutir, condenar ou tentar convencê-lo a pensar como nós. Existem questões que não estão no centro do Evangelho e que não devem se tornar motivo de brigas e divisões entre os cristãos. Podemos pensar diferente em algumas coisas e, mesmo assim, continuar vivendo em amor e comunhão. O mais importante é lembrarmos que nossa união não está nas opiniões ou nos costumes, mas em Cristo, no seu Evangelho e na graça de Deus.
Paulo continua explicando as diferenças existentes entre os cristãos: “Um crê que pode comer de tudo; outro, sendo fraco, come legumes” (v.2). Aqui, ele apresenta uma situação concreta que estava acontecendo entre os irmãos de Roma. Alguns cristãos entendiam que tinham liberdade para comer qualquer alimento, enquanto outros, por causa de sua consciência, preferiam comer somente legumes.A questão não era simplesmente o que estava no prato, mas a maneira como cada cristão entendia sua liberdade diante de Deus. Aquele que comia de tudo tinha consciência de que os alimentos não o tornavam mais ou menos aceitável diante do Senhor. Já aquele que comia apenas legumes fazia isso por uma questão de consciência. Paulo chama este último de “fraco” ou “débil”, não porque não tivesse fé verdadeira, mas porque ainda não compreendia plenamente sua liberdade cristã nessa questão.
É importante perceber que Paulo não transforma a questão dos alimentos em uma questão de salvação. Ele não diz que um grupo estava salvo e o outro perdido. Ambos pertenciam a Cristo, e a diferença estava em uma questão secundária da vida cristã. Por isso, nenhum dos dois deveria desprezar ou julgar o outro. Isso nos ensina que ter liberdade cristã não significa que podemos desprezar o entendimento do nosso irmão. Da mesma forma, possuir um entendimento diferente não nos dá o direito de condenar aquele que exerce uma liberdade permitida pela Bíblia. O amor deve estar acima das nossas preferências pessoais. Sendo assim, somos chamados a reconhecer que nem todos os cristãos terão a mesma compreensão sobre questões secundárias. Podemos pensar diferente e, ainda assim, continuar unidos em Cristo. O mais importante não é que todos comam as mesmas coisas ou tenham os mesmos costumes, mas que todos vivam pela fé no mesmo Senhor e procurem preservar a comunhão da Igreja.
Paulo continua tratando das diferenças entre os irmãos e afirma: “O que come não despreze o que não come; e o que não come não julgue o que come, porque Deus o acolheu” (v.3).O apóstolo apresenta aqui duas atitudes que precisam ser evitadas. Primeiro, aquele que come de tudo não deve desprezar o irmão que não come. Ele não deve pensar: “Minha fé é mais forte que a dele” ou “Ele não entende a liberdade cristã”. Segundo, aquele que não come não deve julgar aquele que come. Ele não deve concluir que seu irmão está pecando simplesmente porque possui uma compreensão diferente sobre aquela questão.Paulo mostra que tanto o desprezo quanto o julgamento prejudicam a comunhão da Igreja, pois colocam nossas opiniões acima do nosso irmão.
A razão apresentada por Paulo é muito importante: “porque Deus o acolheu”. Essa é a base para a maneira como devemos tratar o nosso irmão. Se Deus o recebeu pela sua graça, não temos o direito de rejeitá-lo por causa de uma questão secundária. Deus não nos acolheu porque somos perfeitos ou porque pensamos da mesma maneira em todas as coisas, mas por causa de Cristo. Por isso, devemos aprender a olhar para o nosso irmão da mesma maneira: não colocando nossas opiniões acima dele, mas tratando-o com amor, respeito e paciência. O acolhimento que recebemos de Deus também deve marcar a nossa maneira de acolher aqueles que fazem parte da família da fé.
Paulo continua sua argumentação agora com uma pergunta muito direta: “Quem és tu que julgas o servo alheio? Para o seu próprio senhor está em pé ou cai; mas estará em pé, porque o Senhor é poderoso para o suster” (v.4).Quando Paulo pergunta “Quem és tu que julgas o servo alheio?”, ele está confrontando nossa tendência de olhar para a vida do outro e considerá-lo inferior porque pensa ou age de maneira diferente. Precisamos reconhecer que não somos donos da fé do nosso irmão. Ele é servo de Cristo, e é diante de Cristo que ele prestará contas.Assim como um servo responde ao seu próprio senhor, cada cristão responde diante de Deus pela maneira como vive. Por isso, não cabe a nós assumir o lugar de Deus e condenar o irmão por questões que não são essenciais à fé.
É nesse contexto que Paulo afirma: “Para o seu próprio senhor está em pé ou cai”.A expressão “está em pé ou cai” significa permanecer firme ou tropeçar na caminhada da fé. Paulo usa essa expressão para mostrar que não cabe a nós decidir definitivamente se o nosso irmão está certo ou errado diante de Deus. Ele é servo de Cristo e responde ao seu próprio Senhor.Ele mostra que o julgamento final pertence ao Senhor. Nem sempre aquilo que pensamos estar certo ou errado corresponde àquilo que Deus deseja. Por isso, devemos sempre olhar para a Palavra de Deus e não fazer das nossas opiniões pessoais uma regra para a vida dos outros. Cada cristão deve viver diante do seu próprio Senhor, confiando que ele é quem julga e sustenta os seus filhos.
Paulo termina com uma palavra de esperança: “mas estará em pé, porque o Senhor é poderoso para o suster”.A expressão “estará em pé” aponta para a ideia de permanecer firme, continuar de pé na caminhada da fé. Já “o Senhor é poderoso para o suster” mostra que essa permanência depende da ação de Deus. É o Senhor quem fortalece, sustenta e preserva aquele que lhe pertence.Mesmo sendo fraco, tendo limitações e podendo tropeçar, o cristão pertence a Deus, e Deus tem poder para sustentar os seus filhos e os mantém firmes na fé. Por isso, não devemos ocupar o lugar de Deus para julgar ou condenar o nosso irmão. Não precisamos desprezar o irmão nem viver julgando sua caminhada. Cada um de nós depende diariamente do Senhor, que nos sustenta e nos conduz em sua graça.
Paulo continua tratando das diferenças entre os cristãos. Ele agora apresenta outra questão que estava causando diferenças entre os irmãos: “Um faz diferença entre dia e dia; outro julga iguais todos os dias. Cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente” (v.5).Alguns cristãos entendiam que certos dias deveriam ser considerados especiais, enquanto outros entendiam que todos os dias eram iguais. Assim como aconteceu com os alimentos, Paulo não permite que essa diferença se transforme em motivo de julgamento ou divisão.Quando ele diz “cada um tenha opinião bem definida em sua própria mente”, está ensinando que o cristão deve agir com convicção diante de Deus. Não devemos simplesmente fazer algo porque os outros fazem, nem abandonar uma prática apenas para agradar às pessoas. Cada um deve examinar a questão à luz da Palavra de Deus e agir de acordo com aquilo que entende ser correto diante do Senhor.
Isso não significa que cada pessoa pode criar sua própria verdade ou ignorar a Palavra de Deus. A liberdade cristã nunca está acima das Escrituras. Paulo está falando de questões secundárias, nas quais a Bíblia não estabelece uma obrigação para todos da mesma maneira.O ensino principal de Paulo é que podemos ter opiniões diferentes em questões secundárias sem deixar de viver em comunhão. O importante é que nossas escolhas sejam feitas com fé e para a glória de Deus. Por isso, não devemos impor nossas preferências aos outros nem julgar o irmão que pensa diferente.
Paulo continua desenvolvendo o ensino do versículo anterior: “Quem distingue entre dia e dia, para o Senhor o faz; e quem come, para o Senhor come, porque dá graças a Deus; e quem não come, para o Senhor não come e dá graças a Deus” (v.6). Havia diferenças entre os cristãos quanto à observância de determinados dias. Alguns entendiam que certos dias deveriam receber uma atenção especial, enquanto outros entendiam que todos os dias eram iguais.Mas Paulo afirma que a pessoa que considera determinado dia especial deve fazê-lo “para o Senhor”.Isso significa que sua intenção é honrar e agradar a Deus.Não devemos praticar algo simplesmente para agradar pessoas, seguir costumes ou demonstrar superioridade espiritual. O cristão deve procurar viver diante do Senhor.
O apóstolo passa agora para a questão dos alimentos. O cristão que come de tudo também deve fazê-lo “para o Senhor”. Ele reconhece que recebeu de Deus liberdade para comer e, por isso, não deve agir com arrogância. Sua liberdade não deve ser usada para desprezar aquele que pensa diferente. Ele afirma também “porque dá graças a Deus.”Essa pequena expressão é muito importante. O cristão que come reconhece que o alimento é uma dádiva de Deus e, por isso, agradece ao Senhor.A gratidão mostra que aquilo que ele faz não está centrado simplesmente em si mesmo. Ele reconhece Deus como aquele que provê todas as coisas.Isso nos ensina que até mesmo as coisas comuns da vida devem ser recebidas com fé e gratidão.
Ele agora apresenta o outro lado: “e quem não come para o Senhor não come.” O cristão que decide não comer determinado alimento também não deve ser desprezado.Ele pode ter uma compreensão diferente sobre aquela questão e, por isso, prefere não comer. O importante é que sua decisão seja tomada diante de Deus, e não como uma maneira de condenar os outros.Paulo está mostrando que tanto quem come quanto quem não come pode agir de maneira correta diante do Senhor quando sua atitude nasce da fé.Mais uma vez aparece a expressão “para o Senhor”.Isso mostra que até mesmo a decisão de não fazer alguma coisa deve estar relacionada ao desejo de honrar a Deus. O cristão não deve simplesmente seguir regras humanas, mas procurar viver de acordo com sua fé e com aquilo que entende diante da Palavra de Deus.
Enfim, Paulo termina repetindo a ideia da gratidão. Tanto aquele que come quanto aquele que não come “dá graças a Deus”.Isso é muito significativo: eles são diferentes em sua prática, mas podem estar unidos na mesma atitude de fé e gratidão.Portanto, a diferença externa não precisa destruir a comunhão. Eles podem não fazer a mesma coisa, mas ambos podem reconhecer que pertencem ao mesmo Senhor.
Paulo agora amplia o ensino dos versículos anteriores. Depois de falar sobre dias e alimentos, ele mostra que a questão é muito mais profunda:“Porque nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para si.” (v.7).A palavra “porque” liga este versículo ao que Paulo acabou de ensinar. Ele está apresentando a razão pela qual devemos respeitar o irmão nas questões secundárias: nenhum cristão vive isolado ou apenas para si mesmo. E assim, ele expressa que . “Nenhum de nós vive para si mesmo.” Isso inclui todos os cristãos. O cristão recebeu sua vida de Deus e pertence ao Senhor. Mesmo tendo liberdade para fazer determinadas coisas, não devemos usar essa liberdade de maneira egoísta, prejudicando a fé ou a comunhão de outro irmão.Por isso, nossas escolhas, palavras e atitudes devem considerar a vontade de Deus e também o bem do nosso irmão.
Ele vai ainda mais longe. Não apenas a nossa vida pertence ao Senhor, mas também a nossa morte: “nem morre para si.” A morte não significa o fim da nossa relação com Deus. O cristão continua pertencendo ao Senhor mesmo diante da morte.E é justamente para explicar essa verdade que Paulo continua o seu pensamento no versículo 8. Depois de afirmar que “nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para si”, ele mostra agora para quem o cristão vive: “Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor” (v.8).
Paulo começa falando sobre a vida. O cristão não deve viver apenas para satisfazer seus próprios desejos e interesses. Nossa vida pertence ao Senhor; por isso, devemos procurar honrá-lo em tudo o que fazemos. Isso inclui nossas escolhas, nosso trabalho, nossa família, nosso serviço na Igreja e também a maneira como tratamos os nossos irmãos. Mesmo em questões secundárias, devemos perguntar: “Como posso fazer isso para a glória do Senhor?” Paulo não fala apenas sobre a maneira como vivemos. Ele também dirige o nosso olhar para aquilo que, humanamente falando, representa o fim da nossa caminhada terrena: a morte. Para o cristão, porém, a morte não significa deixar de pertencer a Deus. Mesmo diante dela, continuamos nas mãos do Senhor. Essa afirmação traz grande consolo, porque a nossa relação com Deus não termina quando a nossa vida terrena chega ao fim. O Senhor continua sendo o nosso Deus e Salvador.
Assim, depois de falar tanto da vida como da morte, Paulo resume toda a existência humana em uma única declaração: “Quer, pois, vivamos ou morramos.” Vida e morte estão debaixo do senhorio de Deus. Não existe momento em que deixamos de pertencer ao Senhor. Portanto, não devemos viver de maneira egoísta, como se nossa vida fosse exclusivamente nossa. Somos chamados a viver cada dia diante de Deus, confiando nele e procurando servi-lo.
Mas surge então uma pergunta importante: por que podemos afirmar com tanta segurança que pertencemos ao Senhor? De onde vem essa certeza? Paulo responde a essa pergunta no versículo 9. Ele apresenta a razão maior pela qual pertencemos ao Senhor e mostra que isso é possível por causa da obra de Cristo: “Foi precisamente para esse fim que Cristo morreu e ressuscitou e tornou a viver, para ser Senhor tanto de mortos como de vivos” (v.9).
Paulo está apontando para o propósito da obra de Cristo. Jesus não morreu e ressuscitou apenas para nos dar uma nova maneira de viver, mas para nos tornar seus. Ele nos resgatou do pecado e nos colocou debaixo do seu senhorio. Portanto, nossa vida não pertence mais a nós mesmos. Fomos alcançados pela graça de Cristo e agora vivemos sob o seu cuidado.E essa verdade tem uma consequência muito importante para o assunto que Paulo está tratando neste capítulo. Se Cristo morreu por aquele irmão, não devemos desprezá-lo por causa de uma questão secundária. Não temos o direito de tratar com desprezo alguém por quem Cristo entregou a própria vida.
Portanto, quer vivamos ou quer morramos, pertencemos ao Senhor. E se todos pertencemos ao mesmo Cristo, devemos aprender a olhar para os nossos irmãos não a partir de nossas diferenças, costumes ou opiniões pessoais, mas a partir daquilo que temos em comum: todos fomos alcançados pela graça de Cristo e pertencemos ao mesmo Senhor. Por isso, em vez de desprezar ou julgar o nosso irmão, somos chamados a acolhê-lo com amor, reconhecendo que Cristo morreu e ressuscitou também por ele.
Paulo agora faz duas perguntas diretas aos cristãos: “Tu, porém, por que julgas teu irmão? E tu, por que desprezas teu irmão? Pois todos compareceremos diante do tribunal de Deus.” (v.10). Ele retoma os dois problemas que já havia apresentado nos versiculos anteriores: o julgamento e o desprezo. Alguns cristãos estavam julgando aqueles que tinham uma prática diferente, enquanto outros desprezavam os que consideravam mais fracos na fé.
Vejamos, a primeira pergunta que Paulo faz: “Por que julgas teu irmão?” Paulo questiona aquele que se coloca na posição de juiz do seu irmão. Julgar aqui não significa simplesmente avaliar se algo é certo ou errado à luz da Palavra de Deus, mas condenar o irmão por questões secundárias, assumindo uma posição que pertence ao próprio Deus.Paulo chama essa pessoa de “teu irmão”. Isso é importante. Mesmo pensando diferente, aquele que está sendo julgado continua sendo nosso irmão em Cristo. Portanto, nossas diferenças não devem destruir o amor e a comunhão.
A segunda pergunta: “E tu, por que desprezas teu irmão?” Agora, Paulo se dirige ao outro lado. Aquele que possui maior liberdade poderia olhar para o irmão e considerá-lo inferior por causa de suas limitações. Desprezar significa olhar para o outro com menosprezo, como se ele tivesse menos valor.Paulo mostra que tanto o julgamento quanto o desprezo são atitudes erradas. Não devemos condenar o irmão porque ele pensa diferente, nem tratá-lo como inferior porque possui uma compreensão diferente da nossa.
Paulo apresenta a razão para abandonarmos o julgamento e o desprezo: “Pois todos compareceremos diante do tribunal de Deus.” No final, não seremos nós que julgaremos os nossos irmãos. Cada pessoa responderá diante do próprio Senhor.Essa verdade deve produzir humildade em nosso coração. Antes de olhar para os erros ou limitações do outro, precisamos lembrar que também somos pecadores e que dependemos diariamente da graça de Deus. Por isso, em vez de julgar e desprezar o irmão por questões secundárias, devemos lembrar que todos nós dependemos da mesma graça e estaremos diante do mesmo Senhor.
O apóstolo continua sua argumentação dizendo: “Porque está escrito: Por minha vida, diz o Senhor, diante de mim se dobrará todo joelho, e toda língua dará louvores a Deus” (v.11). Ele utiliza uma palavra do Antigo Testamento para lembrar aos cristãos de Roma que Deus é o Senhor de todos e que, no final, todos estarão diante dele. A expressão “por minha vida, diz o Senhor” apresenta uma declaração solene do próprio Deus. É como se o Senhor estivesse dizendo que aquilo que ele anuncia certamente acontecerá. Quando Paulo afirma que “diante de mim se dobrará todo joelho”, ele mostra que ninguém poderá permanecer indiferente diante da autoridade de Deus. Todos reconhecerão que ele é o Senhor e que somente ele possui autoridade para julgar.
É interessante observar a expressão “toda língua dará louvores a Deus”. Ela também aponta para esse momento em que todos reconhecerão a autoridade e a justiça do Senhor. O objetivo de Paulo, porém, não é simplesmente falar sobre o juízo final, mas trazer essa verdade para a maneira como os cristãos tratam uns aos outros. Se todos estaremos diante de Deus, então não devemos assumir o lugar de juiz do nosso irmão. Não somos nós que determinamos definitivamente se o nosso irmão está certo ou errado diante do Senhor em questões secundárias da vida cristã. Cada um responderá diante do seu próprio Senhor. Por isso, Paulo nos chama a abandonar o julgamento do irmão e assumir com humildade a responsabilidade pela nossa própria vida diante de Deus. Em vez de condenar o outro, examinemos a nós mesmos; em vez de desprezar, acolhamos; em vez de julgar, amemos e edifiquemos. “Cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus”(v.12).
Meus irmãos, a Palavra de Deus hoje nos chama a olhar para o nosso próximo com amor, humildade e misericórdia. Somos chamados a acolher o nosso irmão sem julgá-lo por questões que não são essenciais à fé. Isso não significa abandonar a verdade de Deus, mas aprender a conviver com diferenças de entendimento com paciência e respeito. Cristo nos acolheu apesar dos nossos pecados e fraquezas; por isso, também nós somos chamados a acolher aqueles por quem Cristo morreu.
Paulo também nos lembra que vivemos e morremos para o Senhor, pois “somos do Senhor” (v.8). Nossa vida não pertence exclusivamente a nós mesmos, e o nosso irmão também não pertence a nós, mas a Cristo. Por isso, não devemos usar a nossa liberdade cristã para desprezar, humilhar ou condenar aquele que pensa diferente. Se Cristo morreu e ressuscitou para ser Senhor tanto de vivos como de mortos, então devemos olhar para cada irmão como alguém que pertence ao mesmo Senhor e foi alcançado pela mesma graça.
Finalmente, Paulo nos lembra: “Cada um de nós dará contas de si mesmo a Deus” (v.12). Naquele dia, não prestaremos contas da vida do nosso irmão, mas da nossa própria vida. Portanto, em vez de ocuparmos o lugar de juiz, somos chamados a amar; em vez de condenar, devemos acolher; em vez de criar divisões, devemos buscar a paz e a edificação. Que Deus nos conceda um coração humilde para reconhecer nossas próprias fraquezas e cheio de amor para acolher nossos irmãos. Portanto, acolhamos o nosso irmão sem julgá-lo, porque todos pertencemos ao Senhor e todos dependemos da mesma graça de Deus. Amém.