TEXTO: JO 3.1-17
TEMA: IMPORTA-VOS NASCER DE NOVO
No entanto, apesar de todas as suas qualidades e méritos religiosos, Nicodemos era um homem perdido, que não tinha ainda alcançado a verdadeira salvação. Precisava nascer de novo. Sendo assim, foi em busca de maior entendimento do que Jesus falava sobre “nascer de novo”. Jesus conversa com Nicodemos. Jesus o corrige, mostra a necessidade de “nascer de novo”, e com amor o explicou e lhe deu o entendimento do verdadeiro sentido.
Mas, afinal, em que consiste este “nascer de novo?” Seria “voltar ao ventre materno?” Como ironicamente perguntou Nicodemos! Não! “Nascer de novo”, é um afogar do velho homem e um nascer do novo homem. É uma renúncia ao pecado e um despertar para Deus. É ter uma fé inabalável em Cristo como único Redentor. E isto é possível pela água e pelo Espírito Santo. Pelo batismo e pela palavra de Deus, por ambos o Espírito Santo realiza o novo nascimento. Jesus apresenta a Nicodemos às necessidades deste novo nascimento: Em primeiro lugar, porque o que é nascido da carne é carne. E carne não pode herdar o reino dos céus. Em segundo lugar, porque sem o renascer, não podemos ver o reino de Deus. Enfim, porque renascido para Deus temos vida em Cristo.
Os últimos acontecimentos ocorridos na cidade de Jerusalém causaram um verdadeiro alvoroço, especialmente, na vida dos fariseus. Jesus havia realizado o seu primeiro milagre em Caná da Galileia e com autoridade expulsou os que vendiam animais no templo, bem como os cambistas que estavam se aproveitando do ambiente para fazerem negócios. Além disso, a forma como Jesus ensinava, chamando às pessoas ao arrependimento e fé, abalou a religião dos fariseus e seus alicerces, pois sua religião consistia no cumprir cerimônias eclesiásticas e na disciplina pessoal. Em outras palavras, consistia em praticar as boas obras.
Mas os fariseus que viram Jesus expulsando os mercadores do templo, não queria realmente sua presença, e ainda questionam, dizendo: Quem é este? Porque procede desta maneira? Com que autoridade? Ferido em seu orgulho, os fariseus agrupavam-se para formarem oposição a Jesus. No entanto, um homem, de nome Nicodemos, tomou outro caminho. Não conseguia suportar a dúvida, pois sentia uma sensação de vazio e de incerteza em seu coração. Sendo assim, certo dia, durante a noite procura Jesus no silêncio da noite, às escondidas, querendo evitar a crítica dos demais membros do Sinédrio, para saber a verdade. Impressionado com as palavras de Jesus, ele reconhece o valor profético dos sinais realizados pelo Senhor: Rabi, sabemos que vens da parte de Deus como um mestre, pois ninguém pode fazer os sinais que fazes se Deus não estiver com ele. (v.2b) Nicodemos reconhece que Jesus é mestre e tem autoridade divina. A palavra Rabi significa “professor, mestre” ou literalmente "grande". O termo é utilizado dentro do judaísmo para definir rabinos de grande importância em uma determinada área de atuação, servindo como um título que significa "mestre" ou "aquele que detém grande conhecimento”. Jesus era mais que um Rabi. Era o Messias, porém isso Nicodemos ainda não admitia.
Na verdade, Nicodemos quando chama Jesus de mestre, a sua expectativa era aprender de Jesus o necessário para viver melhor. Mas Jesus, surpreendentemente, não lhe ensina esse algo mais que ele procurava. Para o mestre de Nazaré a questão não é melhorar nesse ou naquele ponto, mas mudar completamente o rumo de sua vida. Ao contrário do que Nicodemos pensava, Jesus fala do poder de sua cruz e de um novo nascimento no Espírito Santo. Jesus disse: Em verdade, em verdade te digo que se alguém não nascer de novo, (ανουεν) não pode ver (ιδειν) o Reino de Deus. (v.3). A duplicação inicial das palavras de Jesus, que significa amém, mostra que suas palavras são verdadeiras. É uma afirmação enfática. Mostra que ninguém pode ver, conhecer, identificar o reino de Deus sem o “nascer de novo”. Mostra a Nicodemos que se trata de um assunto da mais alta importância: a sua salvação.
Entretanto, Nicodemos, admirado pela inesperada e imediata afirmação de Jesus, ele procura defender-se, uma vez que Nicodemos não fez uma pergunta. Jesus havia respondido imediatamente. Por isso, seu coração está inquieto e confuso. Sua voz assume um tom áspero. Ele parece não entender bem a proposta de Jesus e, pensando em termos racionais, lança novos questionamentos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer segunda vez? (v.4). Estas colocações revelam que Nicodemos entendeu “de novo” sem a menor dúvida. Como pode? Eu nascer de novo, para quê? Será que minha conduta moral não está em ordem? Será que me falta conhecimento? Será que sou leviano em questões religiosas? Nascer de novo. Conheço profundamente a Bíblia. Tomo a religião muito a sério. Minha vida é exemplo. Tenho boa fama. O povo ao me eleger para o Sinédrio testemunhou disto. Toda a minha vida, desde a infância consistiu em prestar culto a Deus. Cumpro rigorosamente as cerimônias da igreja e vivi uma vida altamente disciplinada. Não compreendia porque Jesus lhe dizia ser necessário nascer de novo.
Muitos querem entrar no Reino de Deus como Nicodemos. Procuram justificar-se a si mesmo, enumeram: sou batizado, sou confirmado, vou à igreja, participo da Santa Ceia e contribuo. Não sou assassino, nem adúltero, nem ladrão. E como tal, estou em dia com o meu Deus. Vivem com seu coração endurecido, que pensam somente em si, que não conseguem compreender o imenso amor de Deus por nós, e viver uma vida de fidelidade para com o Senhor. O nosso coração precisa de limpeza; precisa ser trocado, pois ele é egoísta, mundano, influenciado pelo pecado, e devido a isso não pode ouvir a voz de Deus, seguir suas orientações e o caminho que ele nos propõe a seguir. Na verdade, precisamos fazer uma análise da nossa vida.
Para Nicodemos não havia necessidade de um “nascer de novo”. Segundo ele, o simples fato de ser descendência de Abraão lhes conferia o Reino de Deus. Era uma concepção totalmente errada. E Jesus derruba tal conceito exigindo como condição, para entrar no Reino de Deus o novo nascimento. Deixa bem claro que no Reino de Deus não se concede por hereditariedade, mas procede de “nascer de novo”. Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus (v.5a). Jesus não retira o que disse. Ao contrário, confirma-o, especificando que o nascimento deve ser através, por meio “de água e de Espirito”.
E ainda reforça a sua colocação. Ele é enfático ao afirmar: o que é nascido da carne é carne; e o é nascido do Espirito é espirito (ἐκ τοῦ πνεύματος πνεῦμά ἐστιν). (v..6). Carne não pode herdar o reino dos céus. Todas as obras da carne, por mais brilhante que sejam, são corrupção. Provém do egoísmo. São inimizade contra Deus. Além disto, a imaginação do coração humano é má desde a sua meninice. Portanto, viver na carne é satisfazer a vontade dela; é estar nos caminhos pecaminosos. É satisfazer o seu próprio desejo de realização. O que é nascida da carne produz frutos da carne. O apóstolo Paulo fala, em Gálatas 5.17-23. Ora, as obras da carne são conhecidas e são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, facções, invejas, bebedices, glutonarias e cousas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos declaro, como já, outrora, vos preveni, que não herdarão o Reino de Deus os que tais cousas praticam.
Somos exortados a andar no Espírito - A nossa vida cristã, em última análise, consiste em sermos guiados pelo Espírito. A meta das nossas vidas é cumprir a obra do Espírito, que é pregar o evangelho da água e do Espírito. Esse é o centro da vida cristã: Deus habita em nós na pessoa do Espírito. Em várias cartas, Paulo chama atenção sobre o perigo de existirem nas igrejas pessoas vivendo conforme as obras da carne. Essas pessoas causam discórdias, atrapalham o crescimento e dão péssimos testemunhos. Sendo assim, ele aconselha: Digo, porém: andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne. Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do vosso querer. Mas, se sois guiados pelo Espírito, não estais sob a lei (Gl 5.16-18).
O diálogo de Nicodemos com Jesus estende-se. Quase num último esforço, diante da incompreensão de Nicodemos, Jesus volta a dizer-lhe. Não te admiras. Você não o poderá compreender. Nem é necessário. Na natureza há também muitas coisas que você não compreende, o vento por exemplo. O vento é uma realidade. Vemos a sua força, sua ação sopra onde quer, ouve-se o seu ruído, mas não se sabe donde vem. Assim acontece com todo aquele que nasceu do Espírito (v.8), afirma Jesus. Nicodemos sente o impacto dessas palavras, que o colocam diante do mistério da liberdade, em cujo limiar os doutores da Lei esbarravam. Mas Jesus não apenas se refere à liberdade, Ele diz ser a verdade da liberdade, pois quem nasce do alto é guiado pela fé e se situa para além do sistema de práticas rituais e prescrições cultuais. No entanto, mesmo diante desta figura que Jesus usa, Nicodemos luta contra as palavras de Jesus. Ele não quer deixar afogar-se. Ele não quer morrer, não quer dar lugar ao Espírito.
Nicodemos necessitava de uma mudança em seu coração, uma transformação espiritual. De fato, a mudança também deve acontecer em nosso interior. É preciso tirar tudo o que está estragado e colocar algo novo em nossa vida. Esta mudança em nosso coração apenas o Espírito Santo é capaz de realizar. “Quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus”. O Espírito Santo é que nos converte, regenera e arranca o nosso “coração de pedra” e coloca um coração cheio de fé, amor, bondade e compaixão. Então, sim, teremos paz com Deus. E tendo paz com Deus, seremos criaturas felizes e alegres, e já nenhuma tribulação, ou angustia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada nos separara do amor de Deus. Com o coração purificado, saberemos amar a Deus e nele permanecer fiéis até a morte. Saberemos andar em seus estatutos, guardar e observar a sua palavra, e poder estar em constante comunhão com o nosso Deus.
Com muito amor Jesus revela o plano da salvação, diante da pergunta que Nicodemos fez: Como pode suceder isso? (v.9). Primeiro Jesus exemplifica que aconteceu no deserto no tempo de Moisés: Assim como Moisés levantou a serpente no deserto, da mesma forma importa que o Filho do homem seja levantado… (v. 14). Esse episódio aponta diretamente para Cristo. A imagem suspensa da serpente de metal faz-nos lembrar do sacrifício de Jesus Cristo realizado na cruz. A imagem da serpente de bronze se reveste de novo colorido, apresentando-se como pré-figura da ação redentora de Jesus Cristo na cruz. E não há outra salvação para os homens senão olhar para a verdadeira serpente de bronze, Nosso Senhor Jesus Cristo crucificado. Qual o objetivo deste sacrifício? Para que todo que nele crê tenha a vida eterna (v.15). Este é o reino de Deus, a vida eterna. Daí a importância de “nascer de novo”.
Em resposta à indagação de Nicodemos, afirmamos que somente por meio da obra salvadora de Jesus Cristo — exaltado e glorificado na cruz — é possível experimentar o novo nascimento e vislumbrar o Reino de Deus. Na cruz, Ele tomou sobre si nossos pecados e fracassos para nos oferecer perdão; entregou-se à morte para que tivéssemos vida plena. É para Ele que devemos voltar o nosso olhar, pois de Cristo emanam o amor, a força e a redenção. Jesus nos assegura que sempre há um lugar reservado para nós no coração do Pai. Não importa a distância, você sempre pode retornar; Deus o acolherá e guiará seus passos pelo caminho da vida. Essa promessa se cumpre na declaração: "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho Unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna" (v.16).Após esta mensagem de Jesus a Nicodemos, Ele,agora, reforça a sua missão salvadora, afirmando que Ele veio ao mundo para salvar, e não para condenar. Não era levar os homens a um julgamento, mas sim à salvação : “Porquanto Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele.” (v.17). Apesar disso, o julgamento, a punição,a sentença é inevitável quando o homem se recusa a aceitar o plano da salvação de Deus.