sexta-feira, 6 de novembro de 2026

 TEXTO: SL 90

TEMA:  A  ETERNIDADE DE DEUS E A   BREVIDADE DA VIDA

O livro de Salmos está dividido em cinco seções principais, sendo que o Salmo 90 é a introdução ao Livro IV. Este livro é composto dos Salmos 90 ao 106. É o mais breve dos cinco livros identificados nos Salmos. Podemos comparar o Livro IV com o livro de Números, pois também relata  a jornada do povo de Deus pelo deserto de maneira especial. O Salmo 90 é o único mencionado no Saltério, escrito por Moisés. Consequentemente, é também o salmo mais antigo. É bem possível que Moisés tenha escrito este salmo no final da sua jornada no deserto.

Quanto ao conteúdo ,o salmo nos oferece uma reflexão profunda sobre a eternidade de Deus e a brevidade da vida. Moisés testificou este assunto em sua oração. Ele inicia o Salmo com uma declaração e o conclui com uma súplica. Primeiro, ele fala sobre a eternidade, deixando evidente que Deus é eterno: “de eternidade a eternidade, tu és Deus” (v.2). Isto significa que nenhuma outra coisa ou pessoa possui o atributo da eternidade. Ela ,propriamente, pertence só a Deus. Ele  é o mesmo no passado, no presente e no futuro.  Antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, ele é Deus.  Como Deus é eterno, para ele mil anos é como o dia que se foi e como a vigília da noite.

Em contraste com à eternidade de Deus, o homem é mortal. A sua vida é breve,  frágil, vunerável, efêmera e passageira.Também está sujeita ao cansaço e  muitas aflições neste mundo.   Portanto, o homem não é eterno. O homem nasce, cresce, vive e morre. E durante este tempo, seus dias são turbulentos e breves como um sono, seus anos acabam-se como um breve pensamento. Seu vigor é passageiro como uma flor que de madrugada viceja e floresce, mas à tarde murcha e seca.  Mas o homem não é apenas vulnerável e mortal. É também pecador. Os seus pecados causam o furor e  a ira de Deus. Ele é um afronto a Deus.   As suas iniquidades são expostas diante de Deus e até mesmo seus pecados ocultos são manifestados aos seus olhos.     

Diante do que foi exposto, o homem  carece de sabedoria para contar os seus dias e alcançar um coração sábio diante da sua mortalidade e pecaminosidade. Ele está convencido do contraste existente entre a eternidade de Deus e a fragilidade humana. Sendo assim, ele suplica ao Senhor por misericordia divina. Sente necessidade de ser saciado a cada manhã com a benignidade de Deus, a fim de cantar de júbilo ao Senhor e alegrar-se durante seus breves dias sobre a terra.  Anseia pela alegria na mesma medida que suportou a adversidade. Suplica, ainda, que as obras de Deus apareçam a seus servos e a glória de Deus apareça aos seus filhos. Somente o Deus eterno é a nossa habitação. Ele atende o nosso clamor. Nele está a nossa esperança. O Salmo 90 trata deste assunto.Então,vejamos!

                                                                       I

Moisés inicia o salmo falando da proteção divina: “Senhor, tu tens sido o nosso refúgio.” (v.1a). O termo Senhor aqui é  אֲדֹנָי ,  não é o nome próprio de Deus (Êx 3.14, 15). O nome próprio é  אהיה  traduzido nas bíblias em português como SENHOR (letra maiúscula) . O termo אֲדֹנָי  era o nome de Deus usado no Antigo Testamento em vez do nome divino ( אהיה), devido o respeito ao SENHOR, o povo não pronumciavam este nome. Mas o salmista reconhece a  majestade, a autoridade ,a soberania, a superioridade do nome אֲדֹנָי. Reconhce a grandeza divino de Deus, como o Senhor dos Senhores. Já o termo  מָעוֹן significa moradia, habitação. Aqui, o salmista usa esta imagem para descrever o lugar  de onde vinha a proteção e abrigo.  Para o salmista, o Criador do mundo  era a sua habitação.  Era seu único refúgio e de seu povo. Dito de outro modo: Moisés faz do Senhor, o Deus Eterno e Criador de todas as coisas, a morada de seu coração, sua habitação inabalável, seu refúgio eterno, de geração em geração.

Deus sempre foi a habitação de seu povo em diferentes épocas e lugares. Ele nunca deixou de consolar e trazer esperança para o seu povo. Nós também podemos afirmar que Deus é a nossa habitação, nosso abrigo, nosso refúgio. Para onde iremos se não estivermos sob a guarda e o olhar de nosso Deus ? Onde estaríamos após os inúmeros ataques dos dardos inflamados do maligno, se o Senhor não fosse a nossa habitação?  Onde estarão futuramente nossos filhos, se Deus não nos guardar hoje em dia? Será que o Senhor tem sido a nossa habitação?  A habitação do nossa familia?  Dos nossos filhos?

Contudo, ao que parece, a intenção do escritor é enfatizar não apenas o efeito da ação de Deus, mas sua durabilidade: “de geração em geração.” (v.1b). A duplicidade de palavras significa que Ele sempre é. Ou seja, as ações divinas não são circunstanciais. Elas são ações contínuas na vida do ser humano. Prova disso, as gerações passadas  do povo de Deus, desde das peregrinações nos desertos, à permanência no cativeiro e na terra que o Senhor concedeu ao seu povo, Ele sempre os protegeu.  Ocorre que o Senhor sempre se mostrara ser a habitação de descanso, refúgio de seu povo ( Sl 91.9; Sl 71.3).

Mas quem é este Deus? Ele é o Deus criador de todas as coisas, nos céus e na terra. Ele é eterno: “Antes que os montes nascessem, antes que formasses a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus.” (v.2). A palavra hebraica para “eternidade” usada aqui é   עוֹלָם   que pode se referir tanto ao passado infinito quanto ao futuro infinito. Esta é a eternidade de Deus. O Deus das gerações é o Deus eterno. E a eternidade pertence só a Deus. Sendo assim, é muito difícil alcançar o conceito da eternidade como um todo. Neste sentido, o salmista faz questão de declarar que o Deus eterno, que existe antes dos montes, antes de tudo é o refúgio de seu povo.  O fato de haver um Deus eterno e imutável dá ao homem a única e ao mesmo tempo toda estabilidade em um mundo em mudanças.

Em contraste com à eternidade de Deus, Moisés mostra o quanto o homem é frágil. É  tão pequeno, tem uma vida humana efêmera e passageira.Também está sujeita ao cansaço e sobre muitas aflições neste mundo. E, se isso não bastasse, ainda, o homem é mortal : “Tu reduzes o homem ao pó e dizes.” (v.3a). O termo שׁוּב (reduzir) significa voltar, retornar. Já o termo דַּכָּא (pó) significa contrito, destruido,(literalmente) em pó. “Tu reduzes o homem à destruição.” Moisés tinha visto o julgamento de Deus ao transformar o homem em destruição. Ele pronunciou a sentença de morte, de destruição ao seu povo por causa do pecado. Mas também dirá: “Voltem, ó filhos dos homens”. (v.3b)  Aqui o salmista usa o mesmo verbo da frase anterior. A maioria das versões e comentários considera essa expressão uma explicação da frase anterior, de que o homem é ordenado a voltar ao pó, de onde seu corpo veio. No entanto,outros consideram uma determinação para voltar a Deus em arrependimento: "Trazes o homem a um estado de contrição, dizendo: 'Arrependa-se, descendente do homem' (Harrison).

Da mesma forma, Deus não pode ser limitado pelo tempo. Deus enxerga o tempo de uma forma bem diferente do nosso tempo. Enquanto, o homem  se preocupa com o tempo. Sabe que à medida que envelhece, o tempo passou.  E não pode recuperar os minutos que se passaram, Deus  não tem esta preocupação. O tempo não limita a Deus. Sendo assim, “Moisés nos lembra que mil anos são como um dia de ontem que se foi  e como a vigília da noite.” (v.4a). O que são mil anos? Para o ser humano são muitos anos. Parece que o tempo é imenso, longo. Mas para Deus é breve periodo, como um dia , ou até mesmo quatro horas para um homem que está dormindo. Isto nos mostra que Deus é eterno e esta acima do tempo humano. Sabe tudo o que aconteceu e o que pode acontecer. Ele sempre existiu e sempre existirá.

No entanto, Moisés descreve através de metáforas, o quanto o homem possui um vida tão breve. Passa tão rápido, em comparação com Deus, que é eterno. Vejamos as três metáforas: primeiro, “Tu os arrastas na torrente.”(v.5a). O verbo זָרַם significa  derramar, inundar, despejar. Traz a ideia de uma correnteza que arrasta os homens. Como  se a nossa vida fosse levada embora, sem levar em conta a ordem, posição, idade ou condição. Portanto, a morte não faz discriminação. Isto ocorre todos os dias. São pessoas que são arrastadas  e enviadas para a sepultura – como se fosse uma inundação violenta que varrasse estas pessoas.

Segunda: “são como um sono.”(v.5b).Quando um homem dorme, ele não tem noção do tempo. Quando acorda, várias horas se passaram sem que ele perceba, e, consequetemente, não realiza nada. Isto demonstra que a vida humana é tão  rápida e fugaz. Temos sonhos e visões, mas não  tornam-se permanente. É tudo em vão, dissolve-se no nada. Assim  é a vida do homem. Terceiro: “como a relva que floresce de madrugada; de madrugada, viceja e floresce; à tarde, murcha e seca.” (vv.5c e 6a). Nesse aspecto, o homem não é diferente da grama: sua vida é curta (Sl 103.15-16; Is 40:6-8; 1Pe 1.24). Nascemos, vivemos a nossa vida com nossas lágrimas e descemos à sepultura. Tudo passa rapidamente e nós voamos.  

A vida não é apenas curta, mas, também, a morte é certa. A morte chega  para todos. Chega, às vezes, sem aviso prévio. A morte é um processo natural, mas não como Deus planejou durante a criação. A Bíblia diz que a morte é uma sentença divina. Deus disse ao homem transgressor: “Porque tu és pó e ao pó tornarás” (Gn 3.19). Diz ainda mais as Escrituras: “Ao homem está ordenado morrer…” (Hb 9.27).A morte veio ao mundo através do pecado. Moisés afirma: “ Pois somos consumidos pela tua ira e pelo teu furor, conturbados.”(v.7). O verbo כָּלָה (consumir) significa realizar, cessar, determinar, acabar. Já o termo  בָּהַל (conturbar) significa perturbar, alarmar, aterrorizar, apressar.

De acordo com Moisés, o povo foi consumido pela ira de Deus em algumas ocasiões. Fato este que ocorreu com o povo de Deus quando andou pelo deserto. Ele, durante a jornada de quarenta anos no deserto, viu muita gente morrer.Foi uma jornada longa e terrível, com várias mortes  que o povo enfrentou a cada dia. Era um sinal de que Deus estava indignado com seu povo. E  como resultado, os israelitas  viveram  oprimidos pela sua ira. Cada morte foi uma demonstração da ira de Deus, pois não suporta o pecado e a maldade do povo. Então, Deus julgou seu povo por causa do pecado. Ele coloca diante do povo a perversidade, depravação, iniquidade, culpa:“Diante de ti puseste as nossas iniquidades e, sob a luz do teu rosto, os nossos pecados ocultos.” (v.8). O Senhor estava vendo todos os pecados mesmos aqueles que estavam ocultos ou escondidos. Nenhum pecado é escondido de Deus. Ele vê todas as nossas ações e pensamentos, revelando a necessidade de arrependimento.

Portanto, por causa do pecado, Deus estava indignado com seu povo. E,por isso,resolveu agir. Moisés afirma que esse agir de Deus trouxe ao seu povo angustia e sofrimento, não foi apenas por um curto período de tempo, mas que foi estendido sem intervalo até a morte :“Pois todos os nossos dias se passam na tua ira; acabam-se os nossos anos como um breve pensamento.”(v.9).A palavra hebraica פָּנָה (passar) significa virar, voltar-se para, afastar-se de. Aqui, traz a ideia de que todos os dias a ira de Deus não quer afastar-se. Ela permanecia na vida do povo.Seria bom que todos os dias de nossa vida passassem na alegria de Deus. Mas os anos passam e a maioria das pessoas passa na ira de Deus . Precisamos entender que os nossos anos são como uma história breve, que acaba numa vida agonizante e fialmente num breve suspiro.  ( הֶגֶה ). E assim termina a vida!  Ela é fugaz, breve e tudo passa, uma verdade que muitos preferem ignorar. E você,como tem lidado com esse tempo transitório? Tem aproveitado o tempo, para andar nos caminhos do nosso Deus?

 De fato,a vida é transitória.Ela passa rapidamente como um suspiro. Davi declarou assim: “O homem é como um sopro; os seus dias, como a sombra que passa.” (Salmos 14.4).Moisés também afirma que a nossa vida é tão breve e insignificante aos olhos do Criador: “Os dias da nossa vida sobem a setenta anos ou, em havendo vigor, a oitenta.” (v.10a). Essas palavras de Moisés nos lembram da inevitável passagem do tempo. Conforme os anos vêm e vão, começamos a ver e a sentir mudanças em nosso corpo. Nosso cabelo fica grisalho ou cai. As dores tornam-se frequentes. Embora as pessoas pudessem viver até os 70 ou 80 anos, a vida  é cheia de trabalho árduo, problemas e frustração. Como afirma o salmista: “neste caso, o melhor deles é canseira e enfado.”(v.10b).  A palavra  עָמָל traduzida por “canseira” signidfica trabalho, labuta. A ideia aqui é que o trabalho árduo torna-se  pesado, e o corpo é oprimido e logo fica cansado e exausto. Já o termo אָוֶן significa sofrimento, problema,incômodo. Estes termos mostram o quanto a vida do homem é cansativa e sofrida; e causa distanciamento do Senhor e infelicidade. Além disso, ela “passa rapidamente e nós voamos.”(v.10c). Significa  que a vida logo passa,  como se fosse levada pelo vento para longe; impelido para a frente como palha. Assim é a vida!

Diante o que foi exposto, o salmista faz o seguinte questionamento antes de continuar com a seção final da sua oração. Tira a lição e a conclusão do que viu de Deus. Isso contém uma lição importante para nós, que antes de orarmos de acordo com a vontade de Deus, devemos primeiro conhecê-lo: “Quem conhece o poder da tua ira? E a tua cólera, segundo o temor que te é devido?” (v.11).No Antigo Testamento, a ira de Deus é uma resposta divina à desobediência e pecado do homem,principalmente, em relação  à idolatria. Ela revela a sua aversão ao pecado e conduz às pessoas ao arrependimento. A verdade é que os  homens  deixam Deus de lado e não levam em conta a severidade de Deus (Rm 11.22). Sobre eles permanecem a ira de Deus. Ela se revela do céu contra toda impiedade e perversão dos homens que detêm a verdade pela injustiça. Mas quem conhece a força  ira de Deus?  Quem “entende o poder” da “ira e… fúria” de Deus na  vida das pessoas, sejam elas fortes ou fracas, solitárias ou numerosas, pobres ou ricas ? Quem pode compreender o que é isso? Nenhum homem entende isso. A mesma resposta se aplica à questão de saber se alguém entende “o temor que é devido” a Deus.

Só é possivel entender  quando o homem reflete sobre a sua futilidade e o vazio existente em sua vida.  Saber que a ira de Deus deve ser temida, porque todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus (Romanos 3.23). Saber que a ira de Deus é justa. Ele age com justiça. Somente aqueles que foram cobertos pelo sangue de Cristo, derramado por nós na cruz, podem estar seguros de que a ira de Deus nunca cairá sobre eles: "Por causa de Cristo, Deus pode justamente declarar que pecadores estão justificados (Romanos 3.26). O amor de Deus e a sua ira frequentemente andam juntos (Num 14:18; Rom 11:22; Heb 12:5) e verdadeiramente é uma expressão do seu amor (Sal 136.14-21). Este o caminho da compreensão da ira de Deus. E aí está o princípio da sabedoria (Pv 1.7; Pv 9.10), uma sabedoria que se curva à justa ira e fúria de Deus sobre o pecado.

                                                               II

Tudo o que salmista relatou, constitui algo muito importante para que ocorra uma avaliação pessoal e a busca de uma solução sábia. Sendo assim, ele suplica em sua oração para que o Senhor possa ensina-lo. Na verdade, ele entendeu que as lições divinas extrapolam a inteligência humana. Por isso, Moisés ora: “Ensina-nos a contar os nossos dias.” (v.12a). Penso que cada um de nós já usou esta expressão alguma vez: “Estou contando os dias... para que isto ou aquilo aconteça.” A tendência do ser humanos é contar os dias, acompanhar o calendário até a chegada do dia tão esperado. Por exemplo, o casal de namorados conta os dias para poder se ver de novo. Ou ainda, a criança que conta nos dedos quantos dias faltam para seu aniversário. É isto que a vida  ensina para muitos:  investir para receber mais benefícios financeiros, que são invejáveis. Privilégios neste mundo globalizado que promove e enriquece às pessoas.

 Mas não é exatamente isto  que o salmista nos ensina.   Ele  nos ensina a contar nossos dias  de tal maneira que alcancemos um coração sábio. Por que contar os dias? No próprio texto, o salmista apresenta às razões: porque a vida do ser humano é como a erva que brota de manhã, de madrugada viceja e floresce, mas à tarde murcha e seca; porque  todos os nossos dias se passam na tua ira; acabam-se os nossos anos como um breve pensamento; porque os dias da nossa vida sobem a setenta anos ou, em havendo vigor, a oitenta; neste caso, o melhor deles é canseira e enfado; porque tudo passa rapidamente, e nós voamos. Portanto, alcançar “coração sábio,” (v.12) deve  ser  o objetivo do povo de Deus.  Paulo disse que, se recebermos sabedoria e entendimento espiritual, devemos viver (...) de modo digno do Senhor, para o seu inteiro agrado (Cl 1,10). Da  mesma forma, precisamos buscar  um coração sábio vindo de Deus e a valorização do tempo que o Senhor nos concedeu. Sabedoria para nos prepararmos para o que está por vir. Corramos em direção ao Eterno, fonte preciosa e inesgotável da verdadeira sabedoria e felicidade.

Moisés percebeu a importância de se alcançar sabedoria. Durante quarenta anos foi instruído em tudo o que havia de melhor da sabedoria que vem do Senhor. Ele sabia que a sua vida era cheio de dificuldades, dissabores e dores, pois  vivenciou todos estes problemas ao conduzir os israelistas pelo deserto, que eram obstinados e desobedientes a Deus.  Por mais que se esforçasse para ter uma saída, não conseguia enxergar um raio de luz. Então, nesse momento o salmista irrompe em seu desespero e suplica a Deus que  mostrasse sua majestade ou esplendor a seus servos : “Volta-te, Senhor! Até quando? Tem compaixão dos teus servos.” (v.13). Até quando? Por quanto tempo isso vai continuar? Por quanto tempo a tua ira se enfurecerá? Por quanto tempo o povo ainda ficará sob as tuas mãos? A pergunta “até quando?” é comum no Antigo Testamento, geralmente indicativa o desespero do homem longe da proteção divina. Isto demonstra o quanto o salmista sofria. Ele realmente não aguentava mais continuar naquela situação. O seu desejo era que Deus o livrasse daquela situação que lhe causava tanta sofrimento.Há momentos em que a nossa fé vacila, a paciência chega ao limite, o nosso ânimo decai. Sentimos inseguros, com medo, vacilantes; frágeis e aparentemente, tudo vai “desabar” sobre nós. Então,  perguntamos: “Até quando?”

Moisés,então, suplica por misericordia ao Senhor. Tem compaixão – isto é, retire os teus julgamentos e seja misericordioso para com os teus servos. Roga que Deus aja com Israel assim como se lhe estivesse servindo um banquete que lhe saciasse a fome: “Sacia-nos de manhã com a tua benignidade.” (v.14a). O termo שָׂבַע  (saciar)  significa estar satisfeito, estar farto, estar cheio. É a vontade de Deus que os cristãos vivam com corações profundamente satisfeitos. Ele não quer que nossos corações estejam continuamente inquietos, temerosos ou sem alegria. Portanto estar satisfeito significa desfrutar de paz, contentamento, confiança em Deus. O salmista ainda afirma que devemos  saciar-nos de manhã com a “benignidade do Senhor”.  É justamente,pela manhã quando levantamos, constatamos um dia de problemas — problemas que, muitas vezes, não podemos resolve-los. Neste momento  nos sentimos fracos e debilitados.Então, clamamos a Deus pela  sua benignidade para nos satisfazer, fazer felizes e nos alegrar, e assim cantemos de júbilo e nos alegremos todos os nossos dias.” (v.14b). E interessante que o salmista afirma  que será “todos os nossos dias” — não apenas nos dias ensolarados, nos dias felizes.

O salmista suplica , porque entende que durante muitos anos o povo de Deus enfretou muitas aflições. Foram dia e anos sofrendo no deserto, um lugar seco e quente, sem muita vida, difícil de suportar.  Agora, Moisés suplica ao Senhor  que mude esta situação para momento de alegria: “Alegra-nos por tantos dias quantos nos tens afligido, por tantos anos quantos suportamos a adversidade.” (v.15). Ele pede tantos anos de alegria renovada para os israelistas, da mesma forma que os anos de aflição e angústia que eles tinham visto. Eles já haviam visto seu poder, demonstrado em obras de julgamento. Mas agora ele pede que o Senhor mostre o outro lado de seu semblante, isto é, atos de graça. Na nossa caminhada também enfretamos muitas aflições, São dias e anos cansativos.Somente Deus dá sentido para nossa vida e nos sustenta, mesmo nas horas mais difíceis. Quando centramos toda nossa vida em Jesus, encontramos paz e contentamento em todas as circunstâncias. Por isso,peçamos a Deus que transforme a nossas tristezas que se abatem sobre nós,  em alegrias

Moisés ainda clama pela manifestação dos feitos divinos aos servos e seus filhos. Ele reconhece a fragilidade da existência humana e a sua dependência do Criador. Sabe que os feitos divinos são incompreensíveis para a mente humana e que só podem ser revelados por meio da graça de Deus. Por isso,suplica ao Senhor: “Aos teus servos apareçam as tuas obras, e a seus filhos, a tua glória.”(v.16). Moisés  pede que os servos de Deus sejam agraciados com a manifestação dos feitos divinos para que possam crescer em fé e louvar o nome do Senhor. Pede  também que os filhos dos servos de Deus também possam contemplar a glória divina, para que eles possam crescer em conhecimento e amor a Deus. Esse pedido é uma expressão de amor, de humildade   e reconhecimento da grandeza de Deus.

O salmista finaliza o Salmo solicitando a bondade  do Senhor, pedindo que esta bondade esteja presente na vida de seu povo: “Seja sobre nós a graça do Senhor, nosso Deus.” (v.17a). O termo usado aqui no original é  נֹעַם que significa bondade, favor.  A Bíblia nos fala que a bondade de Deus é uma de suas principais qualidades ou atributos. Faz parte da essência de Deus ser bom e generoso. Essa bondade pode ser vista nas obras que Ele fez e no amor que tem manifestado pela humanidade, ao criar, sustentar e oferecer reconciliação em Jesus Cristo.

 Mas não é apenas isso. Ele também pede que a obra de nossas mãos seja consolidada:  “confirma sobre nós as obras das nossas mãos, sim, confirma a obra das nossas mãos.” (v.17b). Moisés aqui representa a voz de todo o povo de Deus, o que é evidente pelo uso das palavras “nosso” e “nós”. Mas o que isso significa? Significa que o salmista sabia que a obra de suas mãos, a liderança do povo de Israel, eram importante e que precisava ser consolidada. Sendo assim, ele queria que seu trabalho tivesse um impacto duradouro e que fosse lembrado pelas gerações futuras.

Também podemos pedir que o Senhor esteja sobre nós. Consolide a obra de nossas mãos e que estas obras teanham um impacto positivo na vida das pessoas, e que sejam lembradas por gerações futuras. Então, podemos ter a certeza de que, com fé e perseverança, podemos alcançar nossos objetivos e deixar um legado duradouro para as gerações futuras.

Podemos aprender com o salmista durante o nosso tempo neste mundo. Ele  teve muitos desafios e enfrentou muitas dificuldades. Ele viu seu povo sofrer, enfrentou a ira de Deus e teve que lidar com a rebeldia de seu próprio povo. Mas, apesar de tudo isso, ele nunca perdeu a fé e continuou a orar pela bondade e proteção de Deus. A verdade é que ele inspirou muitas pessoas ao longo dos séculos e continua sendo uma fonte de conforto e esperança para aqueles que buscam a bondade e a proteção de Deus durante a vida passageira neste mundo. Por isso, precisamos reconhecer a brevidade da vida e buscar sabedoria divina para viver de forma justa e significativa. Enfim,Senhor, ensina-nos a contar os nossos dias! Amém!

 

 

TEXTO: MT 25.14-30

TEMA: NÃO ENTERREMOS O NOSSO TALENTO!

Jesus prossegue o seu sermão profético. Anteriormente, ouvimos sobre a Parábola das Dez Virgens. Agora, Jesus conta a Parábola dos Talentos. Nesta parábola, Cristo fala sobre a sua vinda para julgar o mundo, bem como sobre a atitude com que os discípulos deveriam esperar e preparar-se para essa vinda. Fala ainda a respeito da prestação de contas. Contas que teremos de prestar sobre todos os talentos que recebemos, para o uso no ministério e na vida da Igreja. Por isso, aqueles que investirem o seu talento, tem a recompensa, mas quem não investir, por medo ou por preguiça de agir para o bem de si e dos outros, não vai receber nada, e ainda ficará fora do Reino definitivo prometido por Deus.                                              

Diante desta constatação, perguntamos: O que temos feito com os talentos que Deus tem nos dado? Investimos ou enterramos? São questionamentos que requer respostas. E é justamente o que pretendemos fazer em nossa mensagem, baseado em dois pontos, conforme o tema: NÃO ENTERREMOS O NOSSO TALENTO! Por quê? Primeiro, porque devemos trabalhar com diligência e responsabilidade, investindo bem a vida e os talentos que Deus nos deu. Investir os talentos significa que devemos desenvolver essas competências em prol do Reino de Deus. Segundo, porque um dia, todos teremos de prestar contas a Jesus quando Ele voltar, ou seja, no dia do Julgamento.

Jesus ilustra a história de um homem que, ao ausentar-se do país, chamou os seus servos e entregou-lhes os seus bens para que administrassem, enquanto estivesse ausente. Os bens distribuídos eram de um grande valor, uma quantia considerável que ele deu aos   três servos. Ao primeiro deu cinco talentos, ao segundo dois e ao terceiro um. Cada um recebeu uma quantidade de acordo com suas capacidades. (v.15). O termo grego δυναμις traduzido por capacidade tem o sentido de poder, força, habilidade, ou seja, uma força herdada que reside em alguém pela virtude de sua natureza. Isto significa que cada um recebeu a quantidade de talentos que estava preparada para lidar, em função de suas características pessoais, de sua força, habilidade e dinamismo. 

O que recebera cinco talentos, foi. imediatamente. negociar com eles e ganhou outros cinco; do mesmo modo o que recebera dois, ganhou outros dois. (vv.16 e 17). Mas o que tinha recebido um, enterrou o talento do seu senhor. Depois de muito tempo, retorna o senhor e chama os seus servos para que estes prestassem conta do que fizeram com os bens que receberam de seu senhor. É o momento de acerto de contas. (v.19). O texto grego diz, literalmente: "Ele se reuniu com eles para fazer as contas", isto é, ele "acertou as contas" com eles. O primeiro servo se apresenta e com simplicidade devolve ao seu senhor os cinco talentos recebidos e mais cinco que conseguiu negociando-os com outras pessoas: “Senhor, confiaste-me cinco talentos; eis aqui outros cinco talentos que ganhei” (v.20). O segundo servo se apresenta igualmente diante do senhor e lhe devolve os dois talentos confiados, adicionados de outros dois.

Diante desta atitude, os dois servos foram elogiados. Eles eram diferentes quanto aos talentos recebidos, mas idênticos quanto à obediência, diligência e fidelidade ao seu senhor; por serem bons e fiéis, e não por serem capazes e inteligentes: “Muito bem, servo bom e fiel.” (v.21a). Dois termos gregos que o senhor usou para elogiar aqueles servos: ἀγαθὲ que significa de boa constituição ou natureza, bom, amável, honesto, honrado e πιστός que significa alguém que manteve fiel com a qual se comprometeu, digno de confiança. De forma geral, significa alguém que agradou ao seu senhor, porque fez o melhor com prazer e amor.

No entanto, não só os qualificou como “bom e fiel, “mas também receberam uma recompensa idêntica.  O senhor faz uma promessa de confiar-lhe tarefas maiores, e ainda os convida para participar do banquete em condições de igualdade com o próprio senhor: “foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.” (v.21b). De fato, o servo havia recebido pouco em comparação com a riqueza de seu senhor. Mas haveria de receber uma grande quantidade em função da fidelidade ao senhor: “muito te colocarei.” E ainda, o senhor promete: “entra no gozo do teu senhor.” O termo grego Χαρά, traduzido por gozo, significa alegria, satisfação, jubilo. Podemos imaginar a imensa alegria que sentiram aqueles dois servos quando receberam o convite: venham e participem da alegria do seu senhor!

Estas palavras são cheias de conforto para aqueles que são “bons e fiéis ao Senhor. São atitudes que Deus requer de qualquer pessoa. O servo bom é aquele que tem habilidade no que faz, utiliza seus recursos e talentos, e é capaz de realizar um trabalho bem-feito ao Senhor. Já o servo fiel é aquele que tem bom caráter e obedece à cada ordem do Seu Senhor. Ele é fiel no serviço. O problema é que, infelizmente, muitos “servos bons” são infiéis ao Senhor. Isto acontece quando deixam de servi-lo, deixam de colocar as suas habilidade, recursos pela causa do Senhor, e esperaram reconhecimentos, elogios e promoções pessoais pelo seu trabalho. Sejamos fiéis. Conservemos nosso caráter de verdadeiros homens do Senhor, andemos em Espírito e trabalhemos sem esperar que sejamos reconhecidos, elogiados e nem promovidos.

No entanto, aquele terceiro servo sabia que o seu senhor voltaria, e poderia, perfeitamente, aumentar o seu investimento com o tempo. Mas não fez! Ele apresenta a sua justificativa: “Senhor, sabendo que és homem severo.” (v.24a). Ele descreve o senhor como severo. Este termo no grego é σκληρός, significa duro, difícil, bruto, rígido. Diante desta atitude do servo, Jesus nos faz entender como era a sua visão em relação ação do senhor, e condicionado por essa percepção, o servo enche-se de fobia, medo. Isto demonstra que, para aquele servo, o senhor era um homem muito severo (duro). Fica muito clara sua incompreensão, quando acusa o senhor ao dizer que “ceifas onde não semeaste e ajuntas onde não espalhaste.” (v.24b). Tendo esta reação, enterrou o seu talento: “receoso, escondi na terra o teu talento; aqui tens o que é teu.” (v.25). Fato que ocorria em tempos de guerra para que o dinheiro não caísse nas mãos do inimigo. Talvez, o servo tenha pensado, como era pouco que havia recebido do senhor, sua responsabilidade era menor. Portanto, não tinha nada para fazer com o talento recebido, preferiu enterrá-lo. Assim, ficaria em segurança o seu talento

O que temos feito com os talentos que Deus tem nos dado? Será que investimos ou enterramos? Ao responder estes questionamentos, nos coloquemos no lugar daquele homem, pois representa muitos cristãos de hoje, os quais têm todos os privilégios de investir os seus talentos no reino de Deus, mas nunca o fazem. Enterram cada talento que possuem. Uns trabalham para o crescimento do reino e apresentaram relatórios elogiáveis e recebem um prêmio pelo que fizeram. No entanto, outros enterraram seus talentos. Ficam meditando na severidade de Deus e param no tempo sem nada fazer para o crescimento do reino. Esconder o talento é considerado um descaso no trato de algo tão valioso que recebemos do Senhor. E aqueles que enterram o talento, não prejudicam apenas a si mesmo, mas afeta todo o trabalho da Igreja. Portanto, não inutilize seus talentos, pois o descaso traz consequências ruins.

O senhor condenou aquele servo egoísta, que não tinha feito nada, dizendo que ele era mau e negligente. Assim, em vez do elogio, fez a dura repreensão. Ele foi severo com ele: “Servo mau e negligente... (v.26a). E ainda questiona o servo: “sabias que ceifo onde não semeei e ajunto onde não espalhei?” (v.26b). E ainda o senhor julga o servo com base na sua justificativa para lhe mostrar a falta de dignidade na sua atitude. E uma vez que não investiu o seu talento, ao entregar aos banqueiros, para receber lucros (v.27), teve graves consequências: “Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez...” (v.28). O talento foi tirado desse servo preguiçoso e rebelde e foi dado àquele que era mais capaz e hábil de usá-lo com proveito. O senhor justifica ou explica a sua atitude: “Porque a todo aquele que tem será dado mais, e terá em abundância, mas daquele que não tem, até o que tem lhe será tirado (v. 29).

Deus é generoso e dá cada vez mais a qualquer um que investe naquilo que tem recebido, e aquele que “tem” e aproveita o que já recebeu de Deus, terá em abundância. É preciso ter consciência permanente que recebemos algo tão valioso em nossa vida. Quem compreende isso se enche de entusiasmo. Mas é preciso lançar-se à ação, para que os talentos frutifiquem e cresçam. Precisamos investir para não os perder.  Infelizmente, poucos aproveitam esta generosidade do Senhor. Tem, mas não investem. Sendo assim, são considerados infiéis, indolentes malvados, preguiçosos. Por isso, serão tirados o que tem e punidos. Deus espera que seus filhos exponham seus talentos para a sua glória e louvor! Ele espera que possamos negociar, multiplicar, aumentar. Enfim, produzir frutos para que possamos ouvir as palavras: “Servo bom e fiel receba a recompensa porque foste fiel no pouco”. Será para estes que o Senhor dirá: “Entra no gozo do teu Senhor”.

A punição para aquele servo, ficou evidente: “Lançai-o para fora nas trevas; ali haverá choro e ranger de dentes.” (v 30). Este foi o resultado para o servo inútil. E será também para quem rejeita a Jesus, o Messias e Salvador. Choro e ranger de dentes, faz alusão as tristezas e os terrores do juízo de Deus, ou seja, a exclusão do indivíduo para fora do reino de Deus, e lançado no inferno junto com satanás e seus demônios. O choro ocorrerá porque a pessoa teve a oportunidade de seguir a Cristo e não o fez. A expressão “para fora nas trevas” aparece ao menos três vezes no Evangelho de Mateus e significa a condenação eterna. O pecador condenado ficará, por assim dizer, mergulhado em trevas. Já não haverá como recorrer a Deus, pois estará abandonado.

Jesus deixa cloro nesta parábola que no do dia julgamento, teremos que prestar contas dos nossos talentos. Neste dia, Jesus fará uma pergunta: que fizeste com os talentos que você recebeu? Investiu ou escondeu? E não adianta inventarmos desculpas, quem não investir receberá castigo e punição, como aconteceu o terceiro servo. Na verdade, haverá decepção horrível para quem passou a existência de sua vida sem nunca se preocupar em fazer algo útil. Viveu apenas pensando em si próprio e sempre tirando vantagens apenas para si. Sendo assim, ouvirá esta terrível repreensão: “Servo mau e negligente.   Tu bem sabias que, um dia, deverias prestar contas de tua vida. Que fizeste de bom com os talentos recebidos?” (v.26). E para esse não haverá a recompensa da felicidade eterna, mas o lamento e a condenação eterna. Mas haverá muita felicidade para aqueles que investirem. Ouvirão do próprio Jesus: “Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.” (v.21).  A recompensa de Deus será grande, por termos dedicado a nossa vida, servindo a Deus e ao próximo.

Portanto, sejamos fiéis no cuidado e na administração dos talentos que Jesus Cristo nos concedeu, não permitindo enterrá-los, seja por insolência, por comodismo, pela busca de prazeres efêmeros ou mesmo por medo da seara não ser suficientemente frutífera como esperávamos. Confiemos no Senhor, sejamos perseverantes e abundantes de fé. Amém!

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

 TEXTO: MT 25.1-13

TEMA: VIGIAI, POIS NÃO SABEIS QUANDO VIRÁ O SENHOR!

O fim do ano se aproxima. Um período de celebrações, reuniões e planejamento, mas também uma época de fazer balanços – tanto da vida pessoal como profissional. Da mesma forma, o fim do ano eclesiástico também se aproxima e nos lembra o fim do mundo e a volta do Senhor para levar os seus. Este período nos convida à vigilância, isto é, a andar com as nossas lâmpadas acesas, a fim de não sermos surpreendidos quando o Senhor chegar para nos chamar. Mas quem pensa desta forma? Quem conta com a vinda de Cristo? Infelizmente, a vinda de Cristo tornou-se para muitas pessoas, um assunto sem importância e sem valor. Muitos falsos mestres negam que Jesus voltará. Outros tentam enganar as pessoas marcando datas da vinda de Cristo. E têm aqueles que dizem crer na segunda vinda de Cristo, mas vivem como se Ele jamais fosse voltar.

A vinda de Cristo é certa, mas não sabemos o dia nem a hora. Pode ser a qualquer momento, quando soar o grito: “o noivo está chegando!” Como cristãos, devemos ser lembrados disso diariamente, para não acontecer que durmamos por causa da sua demora, ou venham nossos corações a ficar sobrecarregados com as coisas desse mundo. E a melhor maneira de nos prepararmos para este glorioso evento é vigiando e orando. A vigilância e a oração são essenciais para permanecermos firmes na fé e perseverarmos até o final. Isto só pode acontecer no momento em que vivermos em comunhão com Deus diariamente através de sua palavra e pelos sacramentos.  

É bom ter isso em mente, quando estudamos a história das dez virgens. Mas o que significa o número dez? Dez é um número que denota plenitude, totalidade, o conjunto, a soma de tudo o que existe de alguma coisa.  O contexto da parábola mostra que é uma história sobre a segunda vinda de Jesus. Nela encontramos o noivo que é Jesus. A noiva é a Igreja de Cristo. A lâmpada é símbolo da esperança. O azeite é símbolo da caridade e a chama é símbolo da fé. Mas quem eram as néscias e as prudentes? Qual o critério para distinguir umas das outras? Por que somente as prudentes participaram do casamento? O que elas representam? Por que havia a necessidade de se preparar para receber o noivo?

Essa parábola contada por Jesus está inserida em um contexto importante a ser considerado. Jesus está respondendo um dúvida dos discípulos, quando se encontravam no monte das Oliveiras. Eles se aproximaram de Jesus, e lhe pediram: “Dize-nos quando sucederão estas coisas e que sinal haverá da tua vinda e da consumação do século”. (Mateus 24.3). Esta dúvida estava relacionado com as palavras que Jesus havia proferido anteriormente: “Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derribada”. (Mateus 24.2). Jesus não deu uma resposta diretamente. Mas respondeu através algumas parábolas, nas quais Ele fala a respeito da sua segunda vinda. Fala sobre o princípio das dores, sobre a grande tribulação e sobre como acontecerá a sua segunda vinda propriamente dita.

Jesus exemplificou a respeito de sua vinda, ao contar a parábola das dez virgens. Assim, como em todas as parábolas, Jesus também ilustra nesta parábola algo relacionado com o cotidiano. Ele usa o exemplo de um casamento para falar de sua volta. Em sua época, entre o povo judeu, o casamento era um momento muito especial, todos os rituais eram bem ensaiados preparados com antecedência. Existia um ritual muito interessante e alegre para o acompanhamento que conduzia a noiva. O noivo buscava a noiva na casa dela, antes de ir para a festa de casamento propriamente dito, que acontecia na casa dele. Eles se encontravam na rua. Depois, a noiva acompanhava o noivo até a casa dele. Ela não precisava trazer presentes, mas trazer uma lâmpada, porque isso era muito importante para a festa. Especialmente naquela época. Não havia eletricidade, iluminação.

Jesus apresenta estes detalhes sobre o casamento, quando afirma que “as dez virgens, tomando suas lâmpadas, saíram a encontrar-se com o noivo” (v.1). Providas de lâmpadas, todas saíram para se encontrar com o noivo. Mas é importante destacar que havia uma diferença entre elas, cinco eram prudentes e cinco eram néscias. (v.2). Mas qual o critério para distinguir umas das outras? Inicialmente é difícil perceber quem são as prudentes e quem são as néscias, mas há um momento em que essa diferença se torna duramente visível: as néscias, ao tomarem as suas lâmpadas, não levaram azeite reserva consigo (v.3). O azeite a mais para deixar as lâmpadas acesas era fundamental.  Não levar azeite foi uma atitude pessoal das virgens imprudentes. Talvez, entenderam que não havida necessidade, mas trouxe sérias consequências: o noivo se atrasou e todas caíram no sono, e consequentemente, as tochas começaram a se apagar, e ainda havia outro problema: não havia óleo reserva. Era preciso estar preparadas para receber o noivo.

Analisando atitude das néscias, como seria o comportamento dessas delas na atualidade? As cinco virgens néscias representam aquela categoria de pessoas que possuem uma forma cristã ou religiosa, nas quais falta a graça de Deus e a presença do Espírito Santo. As néscias dos dias de hoje são aquelas que sempre apresentam desculpas, quando faltam aos cultos. São aquelas que, mesmo participando do cultos, não se envolvem com as atividades da igreja para não se comprometerem. São aqueles que não mantém uma vida de oração constante a Deus. São aquelas abandonam a comunhão com os irmãos, e vivem no individualismo. São aquelas que são convocadas para ajudar, mas não ajudam e, muitas vezes, atrapalham quem quer trabalhar. Enfim, gostam de culpar o outros, mas são incapazes de reconhecer seus

Ao contrário das néscias, as virgens prudentes, além das lâmpadas, levaram azeite de reserva para não correrem riscos de suas lâmpadas apagarem e perderem o casamento, pois, o Senhor nos afirmou que ninguém sabe quando é chegada a sua hora (v.4). Na verdade, demonstraram vigilância e souberam esperar pela vinda do noivo. Elas simbolizam aqueles que amam ao Senhor Jesus, guardando sua Palavra, e amando ao seu próxima também. Aqueles que não se envergonha do evangelho. Aqueles que vivem neste mundo de forma vivendo neste mundo de forma “sensata, justa e piedosamente.” (Tito 2.12-13). Aqueles que levam a cruz de Cristo e o segue. Aqueles que não se satisfaz com os costumes, erros e maneiras de pensar e viver deste mundo. É desta forma que o cristão deve viver em constante vigilância e aguardando a vida de Cristo. Vivendo desta maneira não permite que as coisas deste mundo e desta vida o desvie do seu alvo.

No entanto, “à meia-noite ouviu-se um grito: Eis o noivo!” (v.6). Naquele momento tanto as néscias como as prudentes, foram tomados de surpresa. Estavam dormindo. Apesar de ser um horário pouco usual (à meia-noite), todas prepararam as suas lâmpadas e saíram ao encontro do noivo. Mas somente as cinco prudentes, com suas lâmpadas acesas, acompanham o noivo para a festa de casamento. As outras cinco imprudentes não são recebidas pelo noivo, pois não conseguiram manter suas lâmpadas acessas. Não tinham mais óleo. Na verdade, as néscias não se prepararam para manter um encontro com o noivo. Não permaneceram vigilantes. Adormeceram. Faltou óleo. As lâmpadas apagaram. E, por isso, não puderam participar do casamento. Não tendo outra alternativa, as néscias suplicam às prudentes: “Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas estão apagadas.” (v.8).Mas as prudentes responderam: “Não podemos, pois assim faltará tanto para nós quanto para vós outras! Ide, portanto, aos que o vendem e comprai-o”. (v.9).Eles, então, saíram à pressas  à procura do um vendedor de óleo.

Nesse meio tempo, veio o noivo e entrou com as cinco prudentes no salão de festas, e a porta foi fechada. Quando as néscias retornam, batem à porta e pedem para entrar: “Senhor, senhor, abre-nos a porta!” (v.11).A porta foi fechada para aquelas mulheres que não se prepararam para receber o noivo. A porta fechou e não abriu mais. Porta fechada nos causa desespero, nos dá insegurança, medo. Gostamos de portas abertas. Jesus é a porta. A porta através da qual nós temos que entrar para sermos salvos. É Ele mesmo quem diz: "Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, salvar-se-á.” O que nos garante uma feliz entrada pela porta é a fé, este maravilhoso presente de Deus dado a cada um pelos meios da graça.

Portanto a porta da salvação está aberta. Mas chegará o tempo quando ela será fechada para sempre. Quem estiver do lado de fora vai bater e terá a resposta: “Em verdade vos digo que não vos conheço”. (v.12). Quando o Senhor Jesus disse que não conhecia aquelas virgens néscias, será que Ele estava dizendo que não sabia quem eram elas? Claro que não, porque Deus conhece todo mundo. Ele é Onisciente, conhecedor de todas as coisas. O conhecer deste contexto é diferente de um simples conhecer; é algo mais intenso, mais profundo, mais íntimo. E ainda Lucas traz mais detalhes: “Não sei donde vós sois; apartai-vos de mim todos os que praticais iniquidades” (13.27).

Jesus finaliza a parábola das dez virgens não respondendo de forma precisa ao que os discípulos queriam saber. Os discípulos queriam saber o “quando” seria a vinda de Cristo e o final dos tempos. Jesus preferiu mostrar que Ele viria, que Sua vinda era certa, e. por isso. havia a necessidade de se preparar.  Jesus deixou muito claro que o dia e a hora de seu retorno são desconhecidos. Por esse motivo Ele exige que seus seguidores estejam sempre preparados. Sendo assim, alertou: “Vigiai, pois, porque não sabeis o dia nem a hora”. (v13). Vigiai é uma ordem que significa que o povo de Deus deve estar sempre atento.  Preparado para o grande dia da volta do Senhor Jesus. Isto é possível, vivendo uma vida devota no presente e esperar ansiosamente a vinda de Cristo. Paulo afirma: “Aguardando a bendita esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus”, “vivendo neste mundo de forma “sensata, justa e piedosamente.” (Tito 2.12-13).

Contudo, precisamos ter clareza de que, para sermos vencedores, não basta apenas que a nossa lâmpada esteja acesa. É preciso ter azeite sobrando na vasilha Precisamos escolher em que grupo queremos estar: no das néscias, que não levaram a sério sua vida religiosa, que não se prepararam para receber o noivo, e, por isso, receberão a sentença: “Lançai, pois, o servo inútil nas trevas; ali haverá pranto e ranger de dentes.” (Mateus 25.30). Ou das prudentes que em todo tempo conservaram suas lâmpadas cheias e ainda proveram reservas para si. Então, o Senhor lhe dirá: “Servo bom e fiel. Sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu Senhor.” (Mateus 25.21).     

Portanto, sejamos sábios e prudentes e preparemo-nos enquanto há tempo, vigiando e orando. Amém!


domingo, 25 de outubro de 2026

 

TEXTO: Rm 3.19-28

TEMA: JUSTIFICADOS PELA FÉ, VIVEMOS NA GRAÇA DE DEUS! (Como?)

No dia 31 de outubro, celebramos a Reforma Luterana, um acontecimento marcante na história da Igreja Cristã. Em 1517, Martinho Lutero tornou públicas suas 95 teses, dando início a um movimento que trouxe à tona uma questão fundamental: como o ser humano pode ser justo diante de Deus e receber a salvação?

Ao estudar a Palavra de Deus, Lutero compreendeu que a salvação não é conquistada por méritos pessoais, boas obras ou esforços humanos. Ela é um presente da graça de Deus, recebido pela fé em Jesus Cristo. Essa verdade trouxe consolo à sua consciência e transformou sua compreensão do Evangelho.

O texto de Romanos 3.19–28 apresenta justamente essa mensagem. O apóstolo Paulo mostra que todos somos pecadores, que ninguém pode ser justificado diante de Deus por suas próprias obras e que a salvação nos é concedida gratuitamente, por meio da redenção realizada por Cristo Jesus. Por isso, a Reforma não nos conduz à exaltação de um ser humano, mas nos leva de volta à Palavra de Deus e ao centro da mensagem cristã: Jesus Cristo, nosso único Salvador.

A pergunta “Como somos justificados pela fé e vivemos na graça de Deus?” pode ser respondida a partir de três verdades apresentadas pelo apóstolo Paulo.

Primeiro, reconhecendo que somos pecadores diante de Deus (vv. 19–20). Lei de Deus revela nossos pecados e mostra que não podemos conquistar a salvação por nossos próprios méritos. Todos nós falhamos diante da vontade divina e precisamos reconhecer nossa culpa. Quando a Lei nos mostra que somos pecadores, ela nos conduz ao arrependimento e nos faz reconhecer nossa necessidade de um Salvador.

Segundo, confiando na graça de Deus revelada em Jesus Cristo (vv. 21–26). Paulo ensina que somos “justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus” (v. 24). Isso significa que Deus nos declara justos não por causa de nossas obras, mas por causa de Jesus, que morreu na cruz para pagar pelos nossos pecados e ressuscitou para nos dar vida. Pela fé, recebemos o perdão e a salvação que Deus nos oferece gratuitamente em Cristo.

Terceiro, vivendo pela fé, sem confiar em nossos próprios méritos (vv. 27–28). Se somos salvos pela graça, não temos motivos para nos orgulhar diante de Deus. Nossa confiança está em Jesus, e não em nossas realizações. Por isso, vivemos agradecidos pelo amor que recebemos, praticamos boas obras como frutos da fé e anunciamos o Evangelho ao nosso próximo. Não fazemos boas obras para conquistar a salvação, mas porque fomos alcançados pelo amor de Deus.

                                                                 I

 Paulo mostra que a Lei de Deus revela a verdadeira condição do ser humano diante do Senhor. A Lei apresenta a vontade divina e nos mostra o que Deus espera de nós: “Ora, sabemos que tudo o que a lei diz aos que vivem na lei o diz para que se cale toda boca, e todo o mundo seja culpável perante Deus” (v.19). Entretanto, quando examinamos nossa vida à luz dessa vontade, percebemos que somos pecadores e que não conseguimos cumprir perfeitamente os mandamentos de Deus. Por isso, ninguém pode apresentar suas próprias obras como justificativa diante dele. O apóstolo Paulo afirma que, diante de Deus, “toda boca se cala” e o mundo inteiro fica sujeito ao seu juízo. A expressão significa que ninguém tem argumentos para se declarar inocente diante de Deus com base em seus próprios méritos. Não podemos comparar nossa vida com a de outras pessoas, destacar nossas boas ações ou apresentar nossa religiosidade como pagamento pelos nossos pecados. Diante da santidade de Deus, todos somos culpados e necessitamos de sua misericórdia.                  

Paulo também afirma que “todo o mundo seja culpável perante Deus”. Isso significa que ninguém está excluído dessa realidade: todos pecaram e precisam da salvação. A Lei, portanto, não é um caminho pelo qual conquistamos a vida eterna, mas revela nosso pecado e nossa necessidade de um Salvador. Ela nos conduz ao reconhecimento de nossa culpa e prepara o caminho para ouvirmos a boa notícia do Evangelho.

Paulo também apresenta uma verdade fundamental para compreendermos a salvação: ninguém pode ser declarado justo diante de Deus por cumprir as obras da Lei: “Visto que ninguém será justificado diante dele por obras da lei, em razão de que pela lei vem o pleno conhecimento do pecado.” (v.20). A Lei de Deus é santa e revela sua vontade para a nossa vida. Entretanto, por causa do pecado, não conseguimos cumprir perfeitamente aquilo que Deus exige. Por mais que nos esforcemos para praticar o bem, nossas obras não podem apagar nossos pecados nem conquistar a salvação.

Ele ainda afirma que “pela lei vem o pleno conhecimento do pecado”. Isso significa que a Lei funciona como um espelho, mostrando quem realmente somos diante de Deus. Ela revela nossas atitudes erradas, nossos pensamentos pecaminosos e nossas falhas em cumprir a vontade divina. A Lei não cria o pecado, mas o revela e mostra a gravidade de nossa condição. Quando examinamos nossa vida à luz da Palavra de Deus, percebemos que precisamos de perdão e que não podemos salvar a nós mesmos.

Essa verdade foi decisiva para a Reforma Luterana. Martinho Lutero compreendeu que seus esforços religiosos não poderiam lhe dar a certeza da salvação. Ao estudar as Escrituras, redescobriu que a justiça diante de Deus não é conquistada por méritos humanos, mas recebida pela fé em Jesus Cristo. A Lei revela nossa culpa, mas o Evangelho anuncia que Cristo assumiu nossos pecados e conquistou para nós o perdão e a reconciliação com Deus.

Portanto, não devemos confiar em nossas boas obras como fundamento da salvação. Elas são importantes como frutos da fé e expressões de amor ao próximo, mas não podem nos justificar diante de Deus. Nossa esperança está em Jesus Cristo, que morreu e ressuscitou por nós. Por isso, o tema da Reforma continua atual: somos justificados pela fé e vivemos na graça de Deus, reconhecendo nossos pecados e confiando diariamente no perdão que recebemos por meio de Cristo.

                                                                    II

Depois de mostrar a realidade do pecado, Paulo apresenta a maravilhosa notícia do Evangelho: “Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus” (v. 21). A expressão “Mas agora” indica uma mudança importante na argumentação do apóstolo. Nos versículos anteriores, ele mostrou que todos os seres humanos são pecadores e que ninguém pode ser justificado diante de Deus por suas próprias obras. Tanto judeus como gentios estão debaixo do pecado e necessitam da salvação divina.

Agora, Paulo afirma que a justiça de Deus se manifestou “sem lei”, isto é, independentemente das obras da Lei. Isso não significa que a Lei de Deus tenha perdido seu valor ou que possamos viver sem considerar sua vontade. Paulo ensina que a obediência à Lei não é o meio pelo qual conquistamos a justificação diante de Deus. A Lei revela o pecado e mostra que somos incapazes de alcançar a justiça perfeita que Deus exige. Por isso, não podemos confiar em nossas próprias obras para obter a salvação. Precisamos de uma justiça que venha do próprio Deus.

Essa justiça nos é concedida por meio de Jesus Cristo, que cumpriu a vontade do Pai e tomou sobre si os nossos pecados. Somos justificados pela graça, mediante a fé, e não por nossos méritos. Em Cristo, Deus nos concede a justiça que não conseguimos alcançar por nós mesmos. Pela fé, recebemos o perdão dos pecados e somos reconciliados com ele. As boas obras continuam sendo importantes na vida cristã, mas não são o preço da salvação; são frutos da fé e da gratidão a Deus por sua graça.

Paulo, depois de afirmar que a justiça se manifestou independentemente das obras da Lei, o apóstolo declara que ela é recebida mediante a fé em Jesus Cristo. Isso significa que não somos justificados diante de Deus por nossos méritos, por nossas boas obras ou pela capacidade de cumprir perfeitamente os seus mandamentos. A justiça que nos salva vem do próprio Deus e nos é concedida por meio de Cristo. Ele afirma: “Justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos e sobre todos os que creem; porque não há distinção” (v.22). A expressão “mediante a fé em Jesus Cristo” mostra que a fé é o meio pelo qual recebemos a justiça que Deus nos oferece no Evangelho. Não é a fé, considerada como uma realização humana, que nos torna merecedores da salvação. É Jesus Cristo quem conquistou nossa salvação por meio de sua morte e ressurreição. Pela fé, recebemos os benefícios dessa obra salvadora: o perdão dos pecados, a reconciliação com Deus e a promessa da vida eterna. Assim, toda a glória pertence ao Senhor, que nos salva por sua graça.

Paulo acrescenta ainda que essa justiça é oferecida “para todos e sobre todos os que creem”, pois “não há distinção”. Naquele contexto, essa afirmação era especialmente importante porque judeus e gentios não tinham o mesmo passado religioso. Os judeus possuíam a Lei e as promessas de Deus, enquanto os gentios não haviam recebido a Lei da mesma maneira. Entretanto, diante de Deus, ambos necessitavam da salvação, pois todos eram pecadores. E todos recebem a justiça de Deus pelo mesmo meio: a fé em Jesus Cristo. Ninguém pode reivindicar superioridade espiritual com base em sua origem, tradição ou obras.

Esse ensinamento continua sendo fundamental para nós. Não importa nossa história, nossa posição social ou nosso conhecimento bíblico: todos precisamos do perdão de Deus. Nossa esperança não está naquilo que fazemos para Deus, mas naquilo que Deus fez por nós em Jesus Cristo. As boas obras têm seu lugar na vida cristã, mas são frutos da fé e da gratidão, não a causa da nossa justificação.

Depois de afirmar que a justiça de Deus é concedida mediante a fé em Cristo e está disponível a todos os que creem (v. 22), Paulo agora apresenta uma das verdades fundamentais da Bíblia. Ele afirma no versículo 23: “Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus. A expressão “todos pecaram” mostra que ninguém está livre do pecado. Não existe distinção entre judeus e gentios, entre pessoas religiosas e não religiosas, nem entre aquelas que parecem justas aos olhos humanos e aquelas cujas falhas são mais evidentes. Todos estão debaixo do pecado e não conseguem, por seus próprios esforços, alcançar a justiça perfeita que Deus exige. O pecado não se limita a atos exteriores, mas também envolve nossos pensamentos, desejos, palavras e motivações. Por isso, ninguém pode apresentar suas próprias obras como fundamento para exigir a salvação de Deus.

Quando Paulo afirma que todos “carecem da glória de Deus”, ele mostra que o pecado nos coloca numa condição de afastamento da glória e da santidade divinas. Fomos criados para viver em comunhão com Deus e refletir sua vontade em nossa vida, mas o pecado corrompeu essa relação. Não conseguimos, por nós mesmos, restaurar a comunhão perdida nem alcançar a perfeição que Deus deseja. Precisamos que o próprio Deus venha ao nosso encontro e nos conceda sua justiça.

Essa verdade nos leva à humildade. Não podemos olhar para os outros como se fôssemos melhores ou mais merecedores diante de Deus. Todos necessitamos do mesmo perdão. Ao mesmo tempo, esse versículo prepara o caminho para a maravilhosa notícia do Evangelho: embora todos sejam pecadores, Deus não nos abandona à condenação. Por meio de Jesus Cristo, ele oferece gratuitamente a justificação e o perdão dos pecados. Cristo cumpriu aquilo que nós não poderíamos cumprir e entregou sua vida para nos reconciliar com o Pai.

Depois de mostrar que todos pecaram e carecem da glória de Deus, Paulo anuncia a resposta divina para essa condição: “somos justificados gratuitamente pela graça de Deus, mediante a redenção que há em Cristo Jesus” (v.24). O pecado é uma realidade que não podemos vencer por nossas próprias forças, mas a graça de Deus é maior e nos oferece, em Cristo, o perdão e uma nova vida. A expressão “sendo justificados gratuitamente” significa que Deus nos declara justos diante dele, não porque tenhamos realizado obras suficientes para merecer esse reconhecimento, mas porque recebemos pela fé a justiça conquistada por Cristo. A justificação é uma declaração de Deus em nosso favor. Ele perdoa nossos pecados e nos aceita por causa de Jesus. Portanto, não podemos apresentar nossas boas obras como pagamento pela salvação, pois ela nos é concedida gratuitamente.

Paulo acrescenta que somos justificados “por sua graça”. A graça é o favor imerecido de Deus para com os pecadores. Não merecemos o perdão, não conseguimos conquistar o amor divino e não podemos exigir a salvação como recompensa por nossa obediência. Mesmo assim, Deus nos ama e nos oferece o perdão por meio de seu Filho. Essa verdade nos conduz à humildade, pois toda a glória pertence ao Senhor, e nos consola, porque nossa salvação não depende da perfeição de nossas obras, mas da fidelidade de Deus.

O apóstolo explica ainda que essa justificação acontece “mediante a redenção que há em Cristo Jesus”. Redenção significa libertação mediante o pagamento de um preço. Por causa do pecado, estávamos sob a condenação e não podíamos libertar a nós mesmos. Jesus Cristo, porém, entregou sua vida na cruz e derramou seu sangue para nos libertar da culpa e da condenação do pecado. Sua ressurreição confirma a vitória sobre a morte e fundamenta nossa esperança de vida eterna. A salvação, portanto, não é uma conquista humana, mas o resultado da obra completa de Cristo em nosso favor.

Esse versículo expressa uma verdade central da fé cristã luterana: somos justificados somente pela graça, mediante a fé, por causa de Cristo. As boas obras não são a causa da nossa salvação, mas são frutos da fé e da gratidão a Deus. Porque fomos perdoados e recebemos uma nova vida em Cristo, somos chamados a viver em amor, servindo ao próximo e procurando fazer a vontade do Senhor.

Paulo continua explicando como Deus tornou possível a nossa justificação. Ele mostra que a nossa salvação está fundamentada no sacrifício de Jesus na cruz. Deus não ignorou o pecado nem simplesmente declarou que ele não tinha importância. Pelo contrário, em seu amor, providenciou o meio pelo qual a culpa seria tratada e os pecadores poderiam ser reconciliados com ele. Jesus Cristo é o centro do plano de salvação de Deus. Ele afirma: “A quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impunes os pecados anteriormente cometidos” (v.25).A expressão “a quem Deus propôs” mostra que a obra da salvação faz parte do plano misericordioso do próprio Deus. Foi o Senhor quem tomou a iniciativa de nos salvar, enviando seu Filho ao mundo. Não fomos nós que encontramos um caminho para chegar a Deus por nossos próprios méritos; foi Deus quem veio ao nosso encontro em Jesus Cristo. Isso revela a profundidade de seu amor pela humanidade pecadora.

Ele ainda afirma que Cristo foi apresentado “no seu sangue, como propiciação”. A palavra propiciação aponta para o sacrifício pelo qual a justa condenação do pecado é tratada e a reconciliação com Deus se torna possível. No Antigo Testamento, os sacrifícios estavam relacionados à expiação dos pecados. Entretanto, esses sacrifícios apontavam para a obra definitiva que seria realizada por Jesus. Na cruz, Cristo entregou sua vida por nós e derramou seu sangue para obter o perdão dos nossos pecados. Ele tomou sobre si a condenação que nos cabia e satisfez a justiça divina. Assim, Deus permanece justo e, ao mesmo tempo, justifica aqueles que creem em Jesus.

 E tudo isto ocorreu “mediante a fé, para manifestar a sua justiça”. Esta expressão mostra como recebemos os benefícios desse sacrifício. Não somos salvos porque realizamos boas obras, cumprimos rituais ou apresentamos méritos diante de Deus. Recebemos pela fé aquilo que Cristo conquistou por nós. A fé não é um pagamento oferecido a Deus, mas o meio pelo qual confiamos em sua promessa e recebemos o perdão que ele nos concede no Evangelho.

Paulo também explica que Deus agiu com tolerância em relação aos pecados anteriormente cometidos. Isso não significa que Deus considerava o pecado insignificante ou que simplesmente o deixava sem resposta. Significa que, em sua paciência, ele suportou os pecados humanos e conduziu a história da salvação até o cumprimento de suas promessas em Cristo. Na cruz, Deus manifestou sua justiça e revelou que o perdão oferecido aos pecadores está fundamentado na obra redentora de seu Filho.

Nossa salvação custou a vida de Jesus Cristo. Ao mesmo tempo, esse sacrifício é a maior demonstração do amor de Deus por nós. Quando nossa consciência nos acusa e nos sentimos indignos de nos aproximar do Senhor, podemos confiar no sangue de Cristo, que foi derramado para nossa redenção. Nossa esperança não está em nossos méritos, mas no Salvador que morreu e ressuscitou por nós.

Paulo conclui sua explicação sobre a justiça de Deus e a obra redentora de Jesus Cristo. Nos versículos anteriores, o apóstolo mostrou que todos pecaram e carecem da glória de Deus (v. 23), mas são justificados gratuitamente pela graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus (v. 24).

Agora, ele explica que, por meio do sacrifício de Cristo, Deus manifesta sua justiça e, ao mesmo tempo, concede a justificação aos pecadores que creem em Jesus. Na cruz, Deus revela que é justo e que, por sua graça, justifica aqueles que confiam em Cristo. Ele afirma: “Tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus” (v.26). A expressão “a manifestação da sua justiça no tempo presente” aponta para a obra de salvação realizada por Jesus Cristo. Durante muito tempo, Deus havia demonstrado paciência com a humanidade pecadora, mantendo suas promessas e conduzindo a história da salvação. Agora, por meio da morte e da ressurreição de Cristo, sua justiça é revelada de maneira decisiva. Deus não ignora o pecado nem abandona sua santidade. Em seu amor, ele providencia a solução para a culpa humana por meio do sacrifício de seu Filho.

Paulo afirma que Deus é “justo”. Isso significa que ele permanece fiel à sua santidade e não trata o pecado como algo sem importância. O pecado merece a condenação, pois representa a desobediência à vontade divina e rompe a comunhão com Deus. Entretanto, o Senhor não nos deixa sem esperança. Jesus Cristo tomou sobre si os nossos pecados e sofreu em nosso lugar a condenação que merecíamos. Assim, a justiça de Deus não é anulada, mas manifesta na obra redentora de Cristo.

Ao mesmo tempo, Deus é “o justificador daquele que tem fé em Jesus”. Justificar significa declarar justo diante de Deus. Essa declaração não se fundamenta em nossas boas obras ou em nossos méritos pessoais, mas na justiça conquistada por Cristo em nosso favor. Pela fé, recebemos o perdão dos pecados e somos reconciliados com Deus. A fé não compra a salvação nem constitui um mérito humano; ela recebe a promessa do Evangelho e confia naquilo que Jesus realizou por nós.

Esse ensinamento é central para a fé cristã luterana. Somos justificados somente pela graça, mediante a fé, por causa de Cristo. Não precisamos tentar conquistar a aprovação de Deus por meio de nossos esforços, pois nossa salvação está fundamentada na obra completa de Jesus. As boas obras continuam sendo importantes, mas são frutos da fé e da gratidão, não a causa da nossa justificação.

                                                         III

Paulo apresenta a conclusão de sua argumentação sobre a justificação diante de Deus. Depois de mostrar que todos pecaram e carecem da glória de Deus (v. 23), o apóstolo explicou que somos justificados gratuitamente pela graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus (v. 24). Agora, ele declara claramente que somos justificados pela fé, independentemente das obras da Lei. Essa é uma das verdades centrais do Evangelho e um dos fundamentos da fé cristã luterana: “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei” (27). A expressão “concluímos, pois” indica que Paulo está apresentando o resultado de tudo o que explicou anteriormente. Se todos são pecadores e ninguém consegue alcançar a justiça perfeita diante de Deus por seus próprios esforços, então a justificação não pode depender das obras humanas. A salvação é obra de Deus, realizada por meio de Jesus Cristo e oferecida gratuitamente aos pecadores.

Quando Paulo afirma que o ser humano é “justificado pela fé”, ele ensina que Deus declara justo aquele que confia em Jesus Cristo. Justificação é uma declaração divina: por causa da obra redentora de Cristo, Deus perdoa os pecados e recebe o pecador como justo diante dele. Não se trata de uma recompensa por uma vida moralmente perfeita, mas de um presente concedido pela graça divina. A fé recebe esse presente, confiando na promessa do Evangelho. A expressão “independentemente das obras da lei” não significa que a Lei de Deus seja inútil ou que o cristão possa viver sem considerar seus mandamentos. A Lei continua revelando a vontade de Deus, mostrando nossos pecados e orientando nossa vida. Entretanto, ela não pode nos justificar, pois nenhum de nós consegue cumpri-la perfeitamente. As boas obras têm seu lugar na vida cristã, mas não são a causa da salvação. Elas são frutos da fé e da gratidão por aquilo que Deus fez por nós em Cristo.

Muitas vezes, podemos pensar que seremos aceitos pelo Senhor se fizermos coisas suficientes, se formos melhores do que outras pessoas ou se cumprirmos todas as nossas responsabilidades religiosas. Paulo nos lembra que nossa segurança não está em nossos méritos, mas em Jesus Cristo, que cumpriu a vontade do Pai e entregou sua vida por nós. Assim, Paulo nos ensina que a salvação é recebida pela fé, e não conquistada pelas obras.

O apóstolo Paulo continua desenvolvendo seu ensino sobre a justificação pela fé. Se a salvação é recebida pela fé, independentemente das obras da lei, então ela não está limitada a um único povo. Paulo faz uma pergunta que conduz a uma resposta evidente:  “É, porventura, Deus somente dos judeus? Não o é também dos gentios? Sim, também dos gentios.” (v.29). Os judeus receberam privilégios especiais, pois Deus lhes confiou sua Palavra e estabeleceu com eles suas alianças. Entretanto, esses privilégios não significavam que a salvação fosse exclusiva deles. Desde o Antigo Testamento, Deus revelou seu propósito de abençoar todas as nações. Agora, por meio de Jesus Cristo, essa promessa se manifesta claramente: o Evangelho é anunciado a todos os povos, sem distinção de origem, nacionalidade ou condição social.

Esse ensino está diretamente relacionado ao versículo anterior, no qual Paulo afirma que somos justificados pela fé, independentemente das obras da lei. Se a justificação dependesse da observância da lei mosaica, os gentios estariam em desvantagem. Mas, como a salvação é um presente da graça de Deus, recebido pela fé em Cristo, tanto judeus como gentios podem ser reconciliados com Deus. Todos pecaram e todos necessitam do mesmo Salvador.

Para nós, esse texto ensina que a Igreja não deve fazer distinção entre as pessoas ao anunciar o Evangelho. A salvação não depende da origem familiar, da cultura, da nacionalidade ou dos méritos pessoais. Todos precisam da graça de Deus, e Cristo morreu e ressuscitou para oferecer perdão e vida eterna a todos os que nele creem. Essa verdade também nos motiva a levar a mensagem de Cristo àqueles que ainda não a conhecem.

Estimados irmãos em Cristo! Ao celebrarmos a Reforma Luterana, somos convidados a voltar nossos olhos para a Palavra de Deus e recordar a mensagem central do Evangelho. Romanos 3 nos mostra que todos somos pecadores e não podemos conquistar a salvação por nossos próprios méritos. Entretanto, Deus, em seu grande amor, enviou Jesus Cristo para nos redimir e nos conceder gratuitamente a justiça que não poderíamos alcançar por nós mesmos.

Foi essa verdade que trouxe consolo a Martinho Lutero e que continua sendo o fundamento da nossa esperança. A salvação não depende de nossas obras, mas da graça de Deus, recebida pela fé em Jesus Cristo. As boas obras são importantes, não para comprar o favor divino, mas como frutos da fé e sinais de gratidão ao Senhor.

Por isso, a Reforma continua nos chamando a permanecer firmes nas Escrituras, a anunciar fielmente o Evangelho e a testemunhar o amor de Cristo ao mundo. Não temos outro fundamento para a nossa salvação além de Jesus, que morreu e ressuscitou por nós.

Que Deus nos conserve firmes nessa fé, para que continuemos confessando e anunciando com alegria: somos salvos pela graça, mediante a fé em Jesus Cristo! Amém.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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