TEXTO: RM 13.1-10
TEMA: O CRISTÃO VIVE EM AMOR E RESPONSABILIDADE
No capítulo 12, Paulo ensinou que o cristão deve oferecer sua vida a Deus como um sacrifício vivo, santo e agradável. Ele também apresentou diversos ensinamentos sobre o amor cristão, o serviço ao próximo, a humildade, a prática do bem e a necessidade de viver em paz com todos, tanto quanto depender de nós.
Agora, no capítulo 13, Paulo apresenta importantes orientações para a vida cristã diária. Ele mostra que a fé recebida pela graça de Deus produz frutos visíveis. O amor a Deus se manifesta no amor ao próximo; a submissão ao Senhor se reflete também no respeito à ordem estabelecida; e a nova vida em Cristo conduz o cristão a viver com responsabilidade diante das pessoas e da sociedade. Assim, somos chamados a compreender que o cristão vive neste mundo como alguém transformado pela graça de Deus, demonstrando sua fé por meio do amor e da responsabilidade em sua vida diária.
Por isso, Romanos 13.1-10 destaca duas áreas importantes da vida cristã: a responsabilidade diante das autoridades e o amor para com o próximo. O cristão respeita as autoridades, cumpre seus deveres e, acima de tudo, reconhece que existe uma dívida que nunca termina: a dívida do amor.
A partir deste texto, veremos três verdades: primeiro, o cristão deve respeitar as autoridades; segundo, o cristão não deve viver em dívida com o próximo; e, terceiro, o amor é o cumprimento da Lei.
Primeiro, o cristão deve respeitar as autoridades (vv 1-7). Paulo ensina que Deus estabeleceu as autoridades para promover a ordem e a organização da sociedade. Por isso, o cristão é chamado a respeitar as autoridades constituídas e cumprir seus deveres como cidadão. Isso não significa concordar com tudo o que uma autoridade faz, pois toda autoridade humana também está sujeita à Palavra de Deus. Paulo destaca o pagamento de impostos e tributos, mostrando que o cristão deve ser responsável e honesto em seus compromissos. Também deve demonstrar respeito e honra àqueles que exercem funções de autoridade. A obediência às autoridades, porém, nunca pode estar acima da obediência a Deus. Assim, o cristão procura viver de maneira correta, responsável e pacífica na sociedade.
Segundo, o cristão não deve viver em dívida com o próximo ( v.8). O cristão deve procurar cumprir suas obrigações e honrar seus compromissos, especialmente aqueles relacionados ao próximo. Entretanto, existe uma dívida que nunca termina: a dívida do amor. Nunca podemos pensar que já amamos suficientemente as pessoas ao nosso redor, pois o amor deve acompanhar continuamente a vida cristã. Amar significa servir, ajudar, perdoar, suportar e procurar o bem do próximo. Esse amor não depende apenas de sentimentos ou de receber algo em troca, mas nasce da vontade de Deus. O cristão ama, porque foi primeiro amado por Deus. Portanto, enquanto estivermos neste mundo, continuaremos tendo a oportunidade e a responsabilidade de demonstrar o amor de Cristo às pessoas.
Terceiro, o amor é o cumprimento da lei (vv 9-10). Paulo afirma que “quem ama o próximo tem cumprido a lei”. O verdadeiro amor impede que pratiquemos o mal contra aqueles que estão ao nosso redor. Quem ama não mata, não adultera, não furta e não cobiça, porque deseja preservar e fazer o bem ao próximo. Dessa maneira, o amor não elimina os mandamentos de Deus, mas demonstra sua aplicação concreta na vida. O amor cristão não é apenas uma palavra ou um sentimento, mas uma atitude que procura o bem do outro. Quando amamos, respeitamos, servimos, perdoamos e cuidamos das pessoas. Esse amor tem sua origem no próprio Deus, que nos amou e enviou Cristo para nossa salvação. Por isso, aquele que foi alcançado pelo amor e pelo perdão de Cristo é chamado a viver esse mesmo amor em seus relacionamentos.
I
Paulo inicia este texto ensinando sobre a maneira como o cristão deve viver em relação às autoridades constituídas. Ele mostra que o cristão é chamado a viver de maneira responsável, respeitosa e consciente diante das autoridades. Por isso, afirma: “Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores” (v.1a). A expressão “todo homem” mostra que essa orientação não é dirigida apenas a algumas pessoas, mas a todos. Nenhum cristão está excluído desse ensinamento. Todos somos chamados a reconhecer e respeitar as autoridades estabelecidas na sociedade.
Entretanto, ao falar em sujeição às autoridades, Paulo não está ensinando uma submissão sem limites, mas uma atitude de respeito e responsabilidade dentro da ordem estabelecida por Deus. Por isso, a palavra “sujeito” não significa que o cristão deva considerar toda autoridade humana perfeita ou concordar com tudo o que ela faz. Também não significa uma obediência cega e absoluta. As autoridades humanas são exercidas por pessoas pecadoras e, portanto, podem cometer erros, praticar injustiças e até ordenar coisas contrárias à vontade de Deus. Quando uma autoridade exige que o cristão desobedeça claramente à Palavra de Deus, permanece o princípio ensinado pelos apóstolos: “Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29).
É justamente nesse ponto que Paulo nos conduz a olhar para além das autoridades humanas e a reconhecer Deus, que está acima de todas elas. O cristão sabe que existe um Deus soberano e que, mesmo em um mundo marcado pelo pecado, Ele continua sendo o Senhor sobre todas as coisas. Tudo tem sua origem e existência debaixo da soberania de Deus, inclusive as estruturas de autoridade. A Palavra de Deus nos lembra essa verdade quando Paulo afirma: “não há autoridade que não proceda de Deus” (v. 1b). Nenhuma autoridade existe fora do conhecimento, do controle e da permissão de Deus. Isso não significa que Deus aprove todas as atitudes ou decisões daqueles que exercem o poder, mas significa que nenhuma autoridade humana está acima de sua soberania. Por isso, nossa segurança definitiva não está em quem ocupa uma posição de poder, mas naquele que possui todo poder e toda autoridade. Governantes passam, governos mudam e autoridades falham, mas Deus permanece soberano e continua no controle de todas as coisas.
Depois de ensinar que todo cristão deve estar sujeito às autoridades superiores e afirmar que não existe autoridade que não proceda de Deus, o apóstolo conclui apresentando uma verdade fundamental: “as autoridades que existem foram por Deus instituídas” (v.1c). Essa afirmação mostra que a autoridade, como princípio e estrutura de governo, faz parte da ordem que Deus estabeleceu para a vida humana. Quando Paulo afirma que as autoridades foram instituídas por Deus significa, primeiramente, que Deus permite e estabelece estruturas de autoridade para a organização da sociedade. Deus criou o ser humano para viver em comunidade, mas, com a entrada do pecado no mundo, a convivência humana passou a ser marcada pelo egoísmo, pela violência, pela injustiça e pela busca de poder. Por isso, Deus utiliza as autoridades para organizar a sociedade, estabelecer limites, proteger as pessoas e conter o avanço do mal.
Paulo continua seu ensinamento dizendo: “De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação” (v.2). Agora, o apóstolo apresenta a consequência para aqueles que deliberadamente se colocam contra a ordem estabelecida. Paulo não está defendendo uma obediência cega a qualquer governante, nem afirmando que tudo o que uma autoridade faz é aprovado por Deus. Ele está ensinando que o cristão não deve cultivar uma atitude permanente de rebeldia, desprezo ou desrespeito contra as autoridades constituídas.
O problema não é simplesmente discordar de uma autoridade. O cidadão pode discordar de uma lei, questionar uma decisão ou manifestar sua opinião diante de uma injustiça. O problema está em rejeitar a própria autoridade e agir deliberadamente contra a ordem e as leis que organizam a sociedade. Quando alguém se coloca contra a autoridade simplesmente, porque não aceita qualquer limite para sua liberdade, acaba contribuindo para a desordem e para o enfraquecimento da convivência social.
Paulo deixa evidente que “aquele que se opõe à autoridade”, consequentemente, “resiste à ordenação de Deus”. Essa afirmação precisa ser compreendida corretamente. Deus estabeleceu a autoridade como instrumento para preservar a ordem e conter o mal em uma sociedade marcada pelo pecado. Portanto, desprezar toda e qualquer autoridade significa rejeitar uma estrutura que Deus permite para o bem da vida em sociedade. O cristão não deve ser conhecido por sua rebeldia, mas por sua responsabilidade, respeito e disposição para contribuir para o bem comum.
Ao mesmo tempo, precisamos lembrar que a autoridade humana não é absoluta. Quando uma autoridade exige aquilo que claramente contradiz a Palavra de Deus, o cristão não pode obedecer. Os apóstolos nos deixaram esse princípio: “Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5.29). Assim,Paulo não elimina a responsabilidade de discernimento do cristão. Pelo contrário, ensina que devemos respeitar a autoridade sem jamais colocá-la acima do próprio Deus.
Paulo conclui dizendo que aqueles que resistem “trarão sobre si mesmos condenação”. Aqui encontramos também a realidade das consequências. Quem desobedece às leis e desafia deliberadamente as autoridades pode sofrer as penalidades estabelecidas pela própria sociedade. A autoridade possui justamente a função de estabelecer limites e aplicar consequências quando esses limites são violados. Dessa maneira, o cidadão que age de forma irresponsável não pode simplesmente ignorar as consequências de seus atos.
Como cidadãos deste mundo e, ao mesmo tempo, cidadãos do reino de Deus, devemos cumprir nossos deveres, respeitar as autoridades, obedecer às leis justas, pagar aquilo que é devido e buscar a paz e o bem da sociedade. Mesmo quando discordamos de quem governa, somos chamados a agir com respeito e equilíbrio.A grande questão para o cristão não é apenas: “O que o governo está fazendo?”; mas também: “Como eu estou vivendo como cristão dentro desta sociedade?” Nossa conduta deve demonstrar que pertencemos a Cristo. Podemos discordar sem odiar, questionar sem promover violência, defender a justiça sem abandonar o amor e exercer nossa cidadania sem perder de vista nossa cidadania celestial.
Paulo continua seus ensinamentos. Ele agora explica uma das principais funções da autoridade: promover a ordem, combater o mal e reconhecer aqueles que praticam o bem: “Porque os magistrados não são para temor, quando se faz o bem, e sim quando se faz o mal. Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela” (v.3). A primeira parte do versículo apresenta uma realidade muito simples: quem pratica o bem não precisa viver com medo da autoridade. O cidadão que respeita as leis, cumpre seus deveres e procura viver corretamente não deve ter como objetivo fugir das autoridades ou temê-las constantemente. A autoridade existe justamente para preservar a ordem e proteger a sociedade daqueles que praticam o mal.
Paulo faz uma distinção entre quem pratica o bem e quem pratica o mal. O temor da autoridade está relacionado principalmente àquele que viola as leis e prejudica o próximo. O criminoso teme a autoridade, porque sabe que seus atos podem trazer consequências. Já aquele que procura viver corretamente pode ter uma relação tranquila com as autoridades. Isso demonstra que a autoridade possui uma função importante: estabelecer limites para o mal e favorecer uma sociedade organizada. Quando ele afirma: “faze o bem e terás louvor dela”, ele mostra que o propósito da autoridade não é simplesmente punir. A autoridade também deve reconhecer e favorecer aqueles que fazem o que é correto. O governo ideal deve criar condições para que o cidadão possa viver com segurança, liberdade e dignidade. Dessa forma, a autoridade cumpre uma função positiva na sociedade, e não apenas repressiva.
Esse princípio também traz uma aplicação importante para a vida cristã. O cristão não deve ser conhecido como alguém que vive em conflito permanente com as autoridades. Pelo contrário, sua maneira de viver deve demonstrar honestidade, responsabilidade e respeito. O cidadão cristão procura cumprir suas obrigações, respeitar as leis e fazer o bem ao próximo. Sua vida deve ser um testemunho da fé que professa , diante de muitas autoridades que nem sempre cumprem perfeitamente sua função. Existem governos injustos e autoridades que podem agir de maneira incorreta.
Portanto, Paulo nos chama a refletir sobre nossa própria conduta. Antes de reclamar das autoridades, precisamos perguntar: Estou fazendo o bem? Estou cumprindo minhas responsabilidades? Minha vida contribui para a ordem e para o bem da sociedade? O cristão não deve apenas exigir direitos; deve também assumir responsabilidades.
Paulo continua explicando a função das autoridades e afirma: “Visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal” (v.4). Paulo apresenta uma verdade ainda mais profunda: a autoridade é “ministro de Deus”. A palavra “ministro” mostra que a autoridade não existe simplesmente para exercer poder ou satisfazer os interesses de quem governa. Ela possui uma função e uma responsabilidade diante de Deus. Mesmo quando aquele que ocupa o cargo não reconhece o Senhor, sua função de autoridade continua debaixo da soberania divina. Quando Paulo afirma que a autoridade é “ministro de Deus para teu bem”, ele destaca o propósito positivo do governo. A autoridade deve trabalhar para o bem da sociedade, protegendo a vida, promovendo a ordem, defendendo os direitos e criando condições para que as pessoas possam viver em segurança. Portanto, exercer autoridade não é apenas possuir poder sobre outras pessoas; é receber uma responsabilidade em benefício do próximo.
Paulo ainda acrescenta: “Entretanto, se fizeres o mal, teme”. Aqui, aparece novamente a função da autoridade de combater o mal. O governo possui a responsabilidade de estabelecer limites e aplicar consequências àqueles que violam as leis e prejudicam o próximo. Isso não significa que toda punição humana seja perfeita, mas que a existência de mecanismos de justiça é necessária em uma sociedade marcada pelo pecado. Paulo aponta para o poder que a autoridade possui para punir o mal: “não é sem motivo que ela traz a espada”. A “espada” representa o poder coercitivo da autoridade civil, isto é, sua capacidade de aplicar sanções e proteger a sociedade. Paulo não está incentivando a violência, mas reconhecendo que uma autoridade que não possui meios para impedir ou punir o mal teria dificuldade para cumprir sua função de preservar a ordem.
É importante perceber, porém, que a autoridade não recebe a espada para agir de maneira arbitrária. Ela deve utilizá-la para combater o mal e promover a justiça. Quando a autoridade pune o inocente, protege o criminoso ou utiliza seu poder para interesses pessoais, ela está abusando da responsabilidade que recebeu. Mas há também uma aplicação muito importante para nós. Se a autoridade é “ministro de Deus para teu bem”, o cristão deve compreender que obedecer às leis justas e respeitar as autoridades faz parte de sua responsabilidade como cidadão. Não devemos procurar constantemente maneiras de escapar de nossas obrigações. Somos chamados a viver honestamente, cumprir nossos deveres e contribuir para o bem da sociedade.
Depois de explicar que as autoridades existem dentro da ordem estabelecida por Deus e que possuem a responsabilidade de promover o bem e combater o mal, Paulo mostra que a relação do cristão com as autoridades não deve ser baseada somente no medo das consequências. Ele afirma: “É necessário que lhe estejais sujeitos, não somente por causa do temor da punição, mas também por dever de consciência” (v.5). O cristão não deve obedecer às leis simplesmente, porque teme receber uma multa, ser punido ou sofrer alguma consequência. A motivação é mais profunda: “por dever de consciência”. Isso significa que o cristão reconhece diante de Deus que viver de maneira responsável e respeitosa na sociedade faz parte de sua vocação. A consciência cristã sabe que Deus deseja ordem, responsabilidade e respeito nas relações humanas. Por isso, o cristão procura cumprir suas obrigações não apenas, porque existe uma lei que o obriga, mas porque deseja viver de maneira agradável a Deus.
É importante lembrar que a verdadeira obediência cristã não nasce apenas do medo da punição, mas de uma consciência orientada pela vontade de Deus. O cristão cumpre seus deveres, porque deseja honrar ao Senhor também por meio de sua vida pública e de sua cidadania. Diante desta constatação, podemos perguntar: Como tenho exercido minha cidadania? Sou conhecido como alguém responsável, honesto e respeitador? Cumpro meus deveres ou procuro sempre encontrar maneiras de fugir deles? Respeito as autoridades mesmo quando discordo delas? Sei apresentar minha discordância de maneira respeitosa e responsável?
Paulo continua dizendo: “Por esse motivo também pagais tributos, porque são ministros de Deus, atendendo constantemente a este serviço” (v.6). Ele apresenta uma aplicação concreta dessa verdade: o pagamento dos tributos. Primeiro, ele aponta para tudo o que acabou de ensinar: “por esse motivo.” A expressão significa por esta razão, por causa disso ou em consequência do que foi dito anteriormente.Paulo está afirmando, por causa de toda essa responsabilidade e reconhecimento da função da autoridade, o cristão também deve cumprir suas obrigações civis, entre elas o pagamento de tributos. Enfim, o cristão deve respeitar as autoridade por dever de consciência e também deve cumprir corretamente suas obrigações civis. Entre essas obrigações está o pagamento dos impostos e tributos estabelecidos pelas autoridades.
É justamente nesse sentido que Paulo acrescenta a expressão: “atendendo constantemente a este serviço”. Com essas palavras, ele mostra que as autoridades exercem continuamente a função que lhes foi confiada. Elas não foram estabelecidas apenas para ocupar uma posição de poder, mas para realizar um serviço em favor da organização e da preservação da sociedade. Paulo destaca, portanto, que a autoridade possui uma responsabilidade permanente. Por exercer continuamente esse serviço, o cristão também é chamado a reconhecer suas obrigações como cidadão e a contribuir honestamente para a manutenção dos serviços necessários à vida em sociedade. Ele deve pagar aquilo que é legitimamente devido, respeitar as leis e contribuir para o bem comum. Não deve ser conhecido pela desonestidade, pela sonegação, pela corrupção ou pela tentativa de obter vantagens indevidas.
Paulo ainda afirma: “Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra” (v.7). O apóstolo amplia sua orientação e mostra que o cristão deve procurar dar a cada pessoa aquilo que lhe é devido. Aqui, encontramos um princípio importante para a vida cristã: o cristão deve agir com responsabilidade, honestidade, respeito e honra em seus relacionamentos. Quando Paulo diz “pagai a todos o que lhes é devido”, ele está ensinando que existem obrigações que precisam ser cumpridas. Aquilo que é devido deve ser entregue. Aquilo que precisa ser cumprido deve ser cumprido. Essa orientação alcança tanto as obrigações financeiras como também as relações sociais e o respeito devido às pessoas.
Paulo menciona primeiro: “a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto”. Ele reforça aquilo que já havia ensinado no versículo anterior. O cristão deve cumprir honestamente suas obrigações financeiras para com o Estado. Não deve procurar meios desonestos para escapar daquilo que legitimamente deve. A fé cristã não elimina nossas responsabilidades civis; pelo contrário, ensina-nos a cumpri-las de maneira correta.
Em seguida, Paulo acrescenta algo que vai além do dinheiro: “a quem respeito, respeito”. O respeito é uma atitude que reconhece a posição e a responsabilidade que uma pessoa exerce. Isso não significa considerar uma autoridade infalível, nem concordar com todas as suas decisões. Podemos discordar de uma autoridade e, ao mesmo tempo, tratá-la com respeito. Discordar não significa necessariamente desrespeitar. O cristão pode questionar uma decisão, denunciar uma injustiça e defender aquilo que é correto, mas deve fazê-lo de maneira responsável e respeitosa.
Depois, Paulo afirma: “a quem honra, honra”. Honrar significa reconhecer aquilo que é digno de reconhecimento. A autoridade deve ser tratada com honra por causa da função que exerce. Isso não significa colocar o governante no lugar de Deus, muito menos transformar uma autoridade humana em objeto de idolatria. Significa reconhecer que Deus estabeleceu estruturas de autoridade para a organização da sociedade e que aqueles que ocupam essas funções carregam uma responsabilidade que deve ser respeitada.
No entanto, muitas vezes, pensamos primeiro nos nossos direitos e somente depois nas nossas responsabilidades. Queremos ser respeitados, mas nem sempre respeitamos. Queremos receber, mas nem sempre estamos dispostos a dar. Queremos que os outros cumpram suas obrigações, mas podemos negligenciar as nossas. Precisamos examinar nossa maneira de viver: Estamos cumprindo aquilo que devemos? Somos honestos em nossas obrigações? Tratamos as autoridades com respeito, mesmo quando discordamos delas? Honramos aqueles que merecem honra? Temos sido pessoas responsáveis em nossos relacionamentos?
II
Paulo agora apresenta uma nova aplicação para a vida cristã. Depois de falar sobre os deveres que devemos cumprir para com as autoridades e ensinar que devemos dar a cada um aquilo que lhe é devido, ele afirma: “A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto o amor com que vos ameis uns aos outros; pois quem ama o próximo tem cumprido a lei” (v. 8). Quando Paulo diz: “A ninguém fiqueis devendo coisa alguma”, ele está ensinando que o cristão deve agir com responsabilidade e honestidade em seus compromissos. Não deve viver deliberadamente deixando de cumprir aquilo que deve aos outros. Deve procurar honrar seus compromissos, cumprir sua palavra e agir corretamente em suas responsabilidades. A vida cristã não combina com a irresponsabilidade, a desonestidade ou a tentativa de tirar vantagem do próximo.
Mas Paulo imediatamente apresenta uma exceção: “exceto o amor com que vos ameis uns aos outros”. Essa é uma maneira muito bonita de ensinar que o amor cristão nunca chega ao ponto de podermos dizer: “Já fiz tudo o que devia fazer; agora não preciso mais amar”. Pelo contrário, enquanto vivermos neste mundo, sempre haverá oportunidade e necessidade de amar, servir, perdoar, ajudar e fazer o bem ao próximo.A dívida do amor é diferente das demais dívidas. Uma dívida financeira pode ser quitada. Depois que pagamos o que devemos, a obrigação termina. Mas o amor cristão é uma dívida permanente. Nunca chegamos ao ponto de dizer que já amamos suficientemente o nosso próximo. Sempre podemos amar mais, servir mais, perdoar mais e demonstrar maior consideração pelos outros.
No entanto, Paulo não está falando aqui de um sentimento superficial ou simplesmente de simpatia. O amor cristão é uma atitude concreta em favor do próximo. É procurar o bem do outro, ajudá-lo em suas necessidades, perdoá-lo quando nos ofende, falar a verdade, evitar aquilo que pode prejudicá-lo e agir com misericórdia. O amor verdadeiro não permanece apenas nas palavras; ele se manifesta em atitudes. Paulo também corrige uma compreensão equivocada da vida cristã. Não basta cumprir leis, pagar impostos e respeitar autoridades. Tudo isso é importante, mas Deus deseja mais: que o cristão viva em amor para com o próximo. Podemos ser pessoas corretas diante das leis e, ainda assim, ter um coração cheio de rancor, orgulho, inveja e falta de misericórdia. Paulo nos conduz para uma dimensão mais profunda da vida cristã.
Então, ele conclui: “pois quem ama o próximo tem cumprido a lei”. O amor resume a vontade de Deus para os relacionamentos humanos. Quem ama verdadeiramente não deseja matar, roubar, adulterar, mentir ou prejudicar o próximo. O amor leva a pessoa a respeitar, proteger, honrar e buscar o bem do outro. Isso não significa que o amor substitui os mandamentos de Deus. Pelo contrário, o amor é justamente aquilo que dá sentido ao cumprimento dos mandamentos. Quando amamos o próximo, procuramos viver de acordo com aquilo que Deus ordena. O amor não elimina a lei; ele expressa o propósito da lei no relacionamento com o próximo.
Quando olhamos para nós mesmos, percebemos que, muitas vezes, falhamos justamente nesse ponto. Nem sempre amamos como deveríamos. Somos rápidos para julgar, lentos para perdoar, facilmente ofendidos e, muitas vezes, preocupados apenas com nossos próprios interesses. Precisamos amar mais. Antes de tudo, precisamos olhar para aquele que nos amou perfeitamente: Jesus Cristo.Cristo não nos amou porque éramos dignos de seu amor. Ele nos amou quando ainda éramos pecadores. Não esperou que nós pagássemos nossa dívida diante de Deus. Ele tomou sobre si a nossa dívida e a pagou completamente na cruz. O apóstolo Paulo escreve em outro lugar: “havendo riscado o escrito de dívida que era contra nós [...] removeu-o inteiramente, encravando-o na cruz” (Cl 2.14).
Portanto, a vida cristã começa não com aquilo que fazemos por Deus ou pelo próximo, mas com aquilo que Deus fez por nós em Cristo. Fomos amados, perdoados e reconciliados com Deus pela graça. Agora, alcançados por esse amor, somos chamados a amar nosso próximo.
Isto é especialmente importante para a vida da igreja. A comunidade cristã deve ser um lugar onde o amor de Cristo é visto de maneira concreta. Isso significa que não podemos viver presos a mágoas, disputas, ressentimentos e interesses pessoais.Na igreja, haverá diferenças de opinião, personalidades diferentes e situações que podem gerar conflitos. Porém, o cristão é chamado a olhar para o irmão não como um adversário, mas como alguém por quem Cristo também morreu.
Por isso, podemos perguntar: Que tipo de testemunho estamos dando por meio dos nossos relacionamentos? As pessoas conseguem perceber o amor de Cristo em nossa maneira de tratar umas às outras? Ou nossa maneira de viver demonstra apenas cobrança, julgamento e ressentimento?
III
Depois de afirmar, no versículo anterior, que aquele que ama o próximo cumpre a lei, Paulo agora mostra de maneira prática o que significa esse amor. Ele apresenta alguns dos mandamentos de Deus que regulam diretamente o nosso relacionamento com outras pessoas. Paulo, afirma: “Pois isto: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não cobiçarás, e, se há qualquer outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (v.9a).
Vejamos o que nos diz o primeiro mandamento citado por Paulo: “Não adulterarás”. Deus estabeleceu esse mandamento para proteger o casamento e a família. O amor verdadeiro não destrói o relacionamento conjugal, não invade aquilo que pertence ao outro e não usa outra pessoa para satisfazer desejos egoístas. Pelo contrário, amar o próximo significa respeitar o casamento, a família e a dignidade de cada pessoa. O amor cristão também exige pureza de pensamentos, palavras e atitudes, procurando honrar a Deus e preservar aquilo que Ele estabeleceu.
Em seguida, Paulo afirma: “Não matarás”. O amor não procura destruir a vida do próximo; pelo contrário, procura preservá-la, protegê-la e promover o seu bem. O mandamento não se refere apenas ao ato físico de tirar a vida, mas também nos leva a rejeitar o ódio, a violência, a vingança e toda atitude que possa prejudicar deliberadamente o próximo. O cristão é chamado não somente a evitar o mal, mas também a fazer o bem, cuidando da vida e das necessidades daqueles que Deus coloca em seu caminho.
Depois aparece o mandamento: “Não furtarás”. O amor não toma para si aquilo que pertence ao próximo. Quem ama respeita os bens, o trabalho e os direitos das outras pessoas. A desonestidade, o roubo, a fraude e toda tentativa de obter vantagem em prejuízo do próximo contradizem diretamente o amor cristão. Pelo contrário, o amor leva o cristão a agir com honestidade, contentamento e responsabilidade, procurando o bem do próximo e não aquilo que pode ser obtido às suas custas.
Paulo ainda acrescenta: “Não cobiçarás”. Aqui, o mandamento alcança o coração e os desejos mais profundos do ser humano. É possível que uma pessoa nunca roube aquilo que pertence ao próximo, mas ainda assim deseje de maneira egoísta aquilo que ele possui. A cobiça revela um coração insatisfeito, que olha para os bens, as conquistas ou a situação do outro e pensa: “Eu também quero isso”. O amor cristão, porém, conduz ao contentamento com aquilo que Deus nos concede e nos ensina a alegrar-nos com o bem do próximo, sem inveja, ciúme ou desejo de tomar para nós aquilo que pertence a ele.
Paulo então resume todos esses mandamentos dizendo: “tudo nesta palavra se resume: Amarás o teu próximo como a ti mesmo” . Essa afirmação nos mostra que o amor não é simplesmente mais uma regra entre muitas outras. O amor expressa o propósito dos mandamentos de Deus para os nossos relacionamentos com o próximo. Quem verdadeiramente ama não deseja prejudicar o outro, não procura tirar dele aquilo que lhe pertence, não destrói sua família e não alimenta desejos egoístas contra ele. Pelo contrário, procura respeitar, proteger, ajudar e promover o bem do próximo.
Jesus ensinou esse mesmo princípio quando resumiu a lei nos dois grandes mandamentos: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo (Mt 22.37-40). O amor ao próximo, portanto, não está separado da vontade de Deus, mas é a sua expressão prática nos relacionamentos humanos. Amar significa tratar o outro com o mesmo cuidado e consideração que desejamos receber. Significa olhar para suas necessidades, respeitar seus direitos, preservar sua dignidade e procurar o seu bem.
A Palavra de Deus mostra que não conseguimos cumprir perfeitamente esse mandamento. Nós não amamos o próximo como deveríamos. Muitas vezes, amamos aqueles que nos amam, mas temos dificuldade de amar aqueles que nos ofendem, nos contrariam ou pensam de maneira diferente de nós. Por isso, as palavras de Paulo não deve ser apenas um chamado para “tentar amar mais”. Mas a necessidade de olhar para Cristo.Na cruz, Jesus demonstrou o maior amor possível: entregou sua própria vida para salvar aqueles que estavam perdidos em seus pecados.Cristo cumpriu perfeitamente a lei em nosso lugar. Ele amou a Deus e ao próximo perfeitamente. Sua justiça é oferecida gratuitamente ao pecador que confia nele.Por isso, a vida cristã não começa com a nossa capacidade de amar, mas com o amor que recebemos de Deus em Cristo. “Nós amamos porque ele nos amou primeiro” (1Jo 4.19).
Depois de apresentar vários mandamentos — não adulterar, não matar, não furtar e não cobiçar — Paulo chega a uma conclusão clara: quem verdadeiramente ama o próximo não procura fazer-lhe mal. Por isso, ele afirma: “O amor não pratica o mal contra o próximo”(v. 10a). A primeira afirmação do versículo é muito significativa. Paulo não está dizendo simplesmente que o amor evita alguns pecados específicos. Ele apresenta um princípio abrangente para toda a vida cristã. Quem ama não deseja destruir o casamento do outro, não procura tirar sua vida, não rouba seus bens, não age de maneira desonesta e não alimenta desejos egoístas por aquilo que pertence ao próximo.
Paulo, portanto, mostra que o amor cristão não é apenas um sentimento ou uma palavra bonita. O amor se manifesta em atitudes concretas. Quem ama respeita, protege, serve, perdoa, ajuda e procura fazer o bem. Dessa maneira, o amor cumpre aquilo que os mandamentos de Deus determinam em relação ao próximo. Quando o coração é conduzido pelo amor, o cristão não pergunta apenas o que é permitido ou proibido, mas procura viver de maneira que honre a Deus e beneficie aqueles que estão ao seu redor. É nesse sentido que Paulo afirma: “o cumprimento da lei é o amor.”
Enfim, Paulo conclui o texto dizendo: “de sorte que o cumprimento da lei é o amor” (v. 10b). Isso não significa que o cristão possa abandonar os mandamentos de Deus e simplesmente dizer: “Eu amo”. O amor verdadeiro não é uma alternativa à lei de Deus. Pelo contrário, o verdadeiro amor conduz a pessoa a viver de acordo com aquilo que Deus ordena. Quem ama procura colocar em prática a vontade de Deus em seus relacionamentos com o próximo.Se amamos o nosso próximo, não vamos querer prejudicá-lo. Se amamos nosso cônjuge, procuraremos preservar a fidelidade matrimonial. Se amamos o próximo, não tiraremos aquilo que lhe pertence. Se amamos, não desejaremos sua ruína, mas procuraremos o seu bem. Se amamos, estaremos dispostos a ajudar, servir, perdoar e estender a mão àquele que necessita. Assim, o amor não elimina os mandamentos; ele os coloca em prática no relacionamento com o próximo.
Estimados irmãos!Paulo ensina que o cristão deve viver de maneira responsável diante das autoridades e da sociedade. Deve respeitar as autoridades, cumprir seus deveres, pagar aquilo que é devido e agir com honestidade, sabendo que toda autoridade está debaixo da soberania de Deus.
Acima de todas essas responsabilidades está a dívida do amor. O cristão é chamado a amar o próximo, porque “o cumprimento da lei é o amor” (v. 10). Esse amor se manifesta em atitudes concretas: respeito, serviço, perdão, honestidade e busca pelo bem do próximo.
Contudo, reconhecemos que nem sempre conseguimos viver assim. Por isso, nossa esperança está em Cristo, que cumpriu perfeitamente a lei e nos amou até a cruz. Como pessoas perdoadas pela graça, somos chamados a viver em amor e responsabilidade, honrando a Deus, respeitando as autoridades e servindo ao próximo.
Que nossa vida seja um testemunho de que pertencemos a Cristo: responsáveis diante da sociedade, respeitosos diante das autoridades e, acima de tudo, comprometidos em amar o próximo. Amém.