quarta-feira, 13 de setembro de 2023

         TEXTO: MT. 18.21-35 

         TEMA: SAIBAMOS PERDOR NOSSO IRMÃO

No contexto anterior da parábola, Jesus havia ensinado sobre como tratar os irmãos que pecam contra nós, ou seja, o tratamento que deve ser dispensado a um irmão culpado (18.15-20).O objetivo era conscientizar os discípulos sobre o dever de perdoar os irmãos com amor e misericórdia, buscando a reconciliação e o perdão. Diante disso, o apóstolo Pedro perguntou a Jesus sobre quantas vezes se deve perdoar a um irmão culpado. Foi nesse ponto que Jesus introduziu a Parábola do Credor Incompassivo. Portanto é um parábola que revela a importância da misericórdia e do perdão.

Baseado neste assunto, o seguinte tema serve como base da nossa meditação: “Saibamos perdoar nosso irmão.” E como estrutura deste tema, vamos refletir sobre dois pontos: primeiro, porque Deus perdoou a nossa dívida, quando enviou seu Filho que morreu na cruz por nós. Ele não apenas perdoou, mas também oferece o perdão a todos nós, independentemente, de nossas transgressões. Seu exemplo nos ensina que não importa o quão grande sejam nossos erros, seu amor é maior e seu perdão está sempre disponível para aqueles que buscam verdadeiramente.  Segundo, porque  movido pelo amor que Deus demonstrou através de Cristo na cruz, um perdão pleno, gratuito e eterno, oferecido a todos quantos se arrependerem e creem no evangelho, os cristãos devem perdoar o seu irmão.  Não deve retribuir, pagando em dobro a ofensa. Ele deve perdoar não sete vezes, nem uma única vez, mas sempre.

                                                      I

Em conformidade com o ensinamento de Jesus sobre a disciplina na igreja, Pedro aproximou-se de Jesus e perguntou: “Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes?” (v.21). Podemos observar, claramente, que existia uma dúvida no coração de Pedro em relação ao perdão para com o próximo. No seu entender  o perdão era condicional, ou seja, pensava que devia colocar condições para perdoar. Esta dúvida de Pedro surge no seguimento do que Jesus tinha dito anteriormente. Ele ouviu sobre a ovelha reencontrada e sobre a necessidade de os irmãos se reconciliarem. Diante de todos estes assuntos ,ficou em dúvida e perguntou a  Jesus: Senhor, quantas vezes devo perdoar a meu irmão, se ele continuar me ofendendo?  Devo perdoar sete vezes? Devo dar sete oportunidades?

Jesus, então, responde: "Não te digo que perdoes até sete vezes, mas até setenta vezes sete”. (v.22) Jesus fez uma conta interessante ao usar o número sete como símbolo da perfeição. Esse número aparece 300 vezes nas Escrituras. O maior número de ocorrências são registradas em Apocalipse. Mas qual o significado que Jesus queria transmitir a Pedro? Vamos analisar o contexto histórica da questão. Os rabinos tinham uma concepção de que se uma pessoa pecasse contra alguém uma vez, deveria perdoar. Se ela pecasse  duas vezes, também deveria perdoar . Se ela pecasse três vezes, ainda assim deveria perdoar. Se ela pecasse  quatro vezes, retribua-lhe na mesma moeda. Eles achavam suficiente perdoar uma pessoa três vezes. Depois disso, a justiça exigia retribuição. Ora, Pedro, não diz três, ele vai mais longe: ele pergunta se são sete vezes suficientes para podermos julgar o nosso irmão.  Pedro pensava que perdoar a um irmão sete vezes era ficar muito próximo da perfeição divina, pois o sete era o número da perfeição. Seria o numero perfeito de vezes a perdoar alguém. Na verdade, ele levou o perdão muito além da limitada ideia dos fariseus. Para o apóstolo Pedro, sete, era mais que o dobro das vezes que os rabinos estavam dispostos a perdoar.

Jesus adiciona uma multiplicação ao número sete para demonstrar a Pedro que precisaria ir muito mais além no exercício do perdão. Ele não estabelece um limite para perdoar. A expressão setenta vezes sete proferida por Jesus significa tantas vezes quantas forem necessárias. Quem perdoa de fato não conta. O que devemos fazer é perdoar e esquecer sem guardar qualquer ressentimento e sem qualquer tentativa de vingança contra nossos ofensores. Pedro precisava entender esta verdade vital: o perdão não é medido pelo número de vezes que alguém nos ofende. Jesus. em outras palavras. estava tentando mostrar a ele que o perdão deve ser incondicional e infinito. Ao ouvir aquelas palavras, ministradas por Jesus, sentiu a importância da necessidade de se perdoar e pedir perdão.

Para melhor esclarecimento a respeito do perdão, Jesus conta uma parábola que certamente iria de uma vez por todas, esclarecer as possíveis dúvidas existentes em seu coração. Jesus fala que o reino dos céus pode ser comparado a um rei que  possuía muita terra, e alguns administradores com a tarefa de cuidar de seus bens. Um destes administradores ficou muito endividado com o rei. Ele resolveu “acertar contas” com o servo. No entanto, o servo não tinha as mínimas condições para prestar contas. Sua dívida é de “dez mil talentos”. Talento era uma unidade de peso usado para designar grandes quantidades de ouro ou prata. O talento usado nos tempos do Novo Testamento pesava 58,9 kg.  Este servo devia 10 mil talentos, era um débito impossível de ser pago, o que exigia um perdão do rei.

O rei muito severo ordenou que o devedor e sua família fossem vendidos para pagar a dívida. Assim diz o texto: “Não tendo ele, porém com que pagar”, (v.25) o rei exigiu o pagamento de acordo com as circunstâncias do indivíduo. Por isso, deveria vender a sua família, como escravos para pagamento das divididas. (Amós 2.6; 8.6 e Neemias 5.4,5.). Mas o servo, “prostrando-se reverente, rogou: “Sê paciente comigo e tudo te pagarei”. (v.26). A expressão “sê paciente” apresenta a ideia de um pedido de prazo referente a sua dívida. Às vezes, o vocábulo também significa simplesmente uma paciência prolongada, longanimidade. 

Depois de ouvir as súplicas por misericórdia, o rei, movido de íntima compaixão pelo devedor, decide libera-lo em paz, perdoando toda a dívida:” O senhor daquele servo compadecendo-se, mandou-o embora  e perdoou-lhe a divida”.(v.27).O verbo σπλαγχνίζομαι no grego significa ser movido pelas entranhas, pois se achava que as entranhas eram considerados como sede das emoções. Neste sentido as pessoas eram movidas  pela compaixão e misericórdia. Já o verbo ἀφίημι ,traduzido como perdoar. traz um conotação judicial, que tem o sentido de: soltar, libertar, fazer alguém livre. O termo δάνειον significa literalmente "empréstimo". Isto significa que aquele senhor teve  misericórdia e  perdoo seu empréstimo. Este empréstimo foi imensamente acrescido de juros, os quais eram enormes em muitas culturas do oriente. que era impagável. Fato do empréstimo não poder ser pago foi o fator que levou o rei a usar de misericórdia e perdoar. Foi beneficiado através do perdão dado pelo rei: ele e a sua família ficaram livres de ser vendidos como escravos. O rei não se ressentiu pelo prejuízo assumido, nem ameaçou vingança em ocasião oportuna.

A nossa dívida espiritual também era enorme e altíssima. Ela atingia a casa dos dez mil talentos, ou seja, é incalculável. Nossa dívida foi tão grande que não podíamos pagá-la, mesmo que tivéssemos que usar todos os nossos recursos, poderes e obras, nós não teríamos condições para pagar a nossa divida. Somente pela graça de Deus, através de seu Filho Jesus, que conquistou na cruz, é que recebemos o perdão de todas as nossas faltas, dívidas, transgressões e pecados.  Sendo assim, o sacrifício de Cristo não apenas nos garantiu o perdão de Deus, mas Ele continua nos perdoado. Portanto, peça perdão, arrependa-se  perante ao único que pode apagar os seus pecados. A Bíblia nos orienta a confessarmos o nosso erro a Deus: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.” (1 João 1.9)

                                                              II

O servo saiu da presença do rei e foi ter com um de seu conservo que lhe devia um pouco, apenas cem dentários. Dentário era um sistema monetário que circulava durante o Império Romano. Era o valor que recebia um trabalhador por um dia de trabalho na época, no tempo de Jesus (Mateus 20.2,13).  Na taxa de câmbio daquele tempo seriam necessários 6.000 dentários para igualar a apenas um talento. O homem levaria 19 a 20 anos para ganhar somente um talento. Simplesmente não havia meio para que essa dívida jamais fosse paga.

É difícil  de  entender esta situação: um servo que fora perdoado, se recusou a perdoar um dos seus conservos. Ele tratou o seu conservo sem qualquer respeito e amor, como se não fosse pessoa digna de consideração. Assim expressa o texto: “Agarrando-o, o sufocava”. (v.28). O verbo está no imperfeito e indica uma ação contínua, ou seja, o homem persistia em maltratar o outro miseravelmente até que pagasse o divida. Mas, ele caindo-lhe ao pés, implorava: “ Sê paciente comigo, e te pagarei.” (v.29). O tempo imperfeito no grego, traduzido como implorava, indica também uma ação contínua, ou seja, o conservo continuava a implorar diligentemente, mas em vão. Implorava, demonstrava a mesma atitude de humildade, usava as mesmas palavras, tinha a mesma necessidade de misericórdia, e certamente não tinha menor direito ao perdão. Assim diz o texto: “Ele, entretanto, não quis; antes, indo-se, o lançou na prisão, até que saldasse a dívida.”(v.30) Recusou de forma persistente a respeito dos pedidos do conservo. Chegou ao extremo de lançar o conservo na prisão. A sua atitude demonstra que esquecera totalmente do perdão recebido.

O rei ficou sabendo deste acontecimento, através dos amigos do conservo, que narram a história de forma intensiva. Ao saber desta história mandou chamá-lo e lhe disse: “Servo malvado, perdoei-te aquela dívida toda porque me suplicaste; não devias tu, igualmente, compadecer-te do teu conservo, como também eu me compadeci de ti?" (v.32 e 33). “Servo malvado”. Esta é a forma como expressa o rei ao servo ingrato.  Ele se tornou um servo maldoso, egoísta e imoral, não soube compreender o perdão, não soube expressar a sua gratidão. A sua atitude de colocar o conservo no cárcere foi um ato de ingratidão.  Sendo assim, a primeira atitude do rei foi anular tudo que tinha feito em favor do servo, ou seja, invalidou o perdão que havia concedido. Agora, só lhe restou o castigo. O rei ficou indignado com a atitude do servo. Ele desabafou a sua indignação. Desta vez o servo não tinha esperança. Diante de sua atitude foi entregue aos verdugos:  “E, indignado, o seu senhor o entregou aos verdugos, até que pagasse tudo o que lhe devia”.(v.34).Os verdugos eram indivíduos responsáveis por aplicar penas corporais e psicológicas com a finalidade de afligir o torturado e fazer-lhe sofrer pelo crime que cometeu.

As nossas atitudes não são diferentes. Todos nós nos encontramos na situação daquele homem. Temos recebido compaixão de Deus e o seu perdão, através de Cristo. E quais são as nossas atitudes? Queremos receber o perdão quando erramos, mas nem sempre oferecemos o perdão quando requerido de nós. Observa-se que muitas pessoas têm dificuldade em perdoar, guardando mágoa, ressentimento, raiva, por semanas, meses, anos e alguns pela vida toda. Lembrando que o homem que se recusa a perdoar, a ter compaixão para com seus semelhantes, mostra uma ingratidão. Está desconsiderando o perdão de Deus. Quem assim procede, Deus retira seu perdão do qual necessitamos para alcançar a vida eterna. Cristo nos exorta severamente, sob pena de perdermos a graça de Deus. Isto Jesus expressa nas palavras: “Assim também meu Pai celeste vos fará se do íntimo não perdoardes cada um a seu irmão. (v. 35). Cristo ainda afirma: “Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celeste vos perdoará; se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, tampouco vosso Pai vos perdoará as vossas ofensas.” (Mateus 6.14 e15).

Portanto, movido pelo amor que Deus demonstrou através de Cristo na cruz, um perdão pleno, gratuito e eterno, um exemplo de sua infinita graça e amor por nós, oferecido a todos quantos se arrependerem e creem no evangelho, os cristãos devem perdoar o seu irmão. Não devem retribuir, pagando em dobro a ofensa. Não devem perdoar sete vezes, nem uma única vez, mas sempre. O exemplo de Jesus nos mostra que o perdão não é uma tarefa fácil, mas é possível quando permitimos que o amor e a compaixão guiem nossos corações. Ele nos ensina a olhar além dos erros e falhas dos outros, e ver a humanidade em sua essência com todas as suas imperfeições. Enfim, Ele nos convida a estender a mão da misericórdia e do perdão, mesmo quando somos feridos. Seu exemplo nos ensina que não importa o quão grande sejam nossos erros, seu amor é maior e seu perdão está sempre disponível para aqueles que buscam verdadeiramente.    “Antes sede bondosos uns para com os outros, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo.” (Efésios 4.32).

Se de nossa parte não queremos perdoar ao nosso irmão, como poderemos esperar o perdão de Deus? Que nós saibamos perdoar o nosso irmão diariamente em nossa vida, assim como Cristo nos perdoa. Amém.

terça-feira, 5 de setembro de 2023

 TEXTO: SL 32

TEMA: É FELIZ AQUELE QUE CONFESSA SEUS PECADOS

O salmo 32 foi escrito após Davi ter cometido grave pecado com Bate-Seba. É um salmo de arrependimento, confissão, perdão, reconciliação. É um testemunho de Davi do perdão que recebeu mediante sua confissão de pecados e dos efeitos que o perdão divino teve sobre sua vida. Ele experimentou a alegria da reconciliação! Tornou-se um homem feliz e abençoado por Deus.

Mas quem é o homem feliz? O homem feliz é o homem que foi perdoado.  Aquele a quem Deus encobre o pecado, não querendo ver, recordar ou conhecê-lo. Ele torna-se feliz porque seus pecados foram apagados e nada mais existe para condená-lo. Ora, se não há mais transgressão, pecado, iniquidade e engano, o homem está liberto e será realmente feliz. Esta é a verdadeira felicidade de que nos fala a Bíblia.

Portanto, todos nós precisamos pedir perdão a Deus pelos nossos pecados e quando o fazemos sentimos a alegria de sermos perdoados e reconciliados! Através de Jesus, temos a certeza de que "se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar..." (I João 1.9). Por isso, a verdadeira felicidade do cristão, a sua maior alegria e consolo é receber de Deus o perdão dos seus pecados.

                                                              I

Davi ressalta que as suas transgressões e os seus pecados foram perdoados e que, portanto, poderia ser feliz. Assim, ele finalmente pôde dizer com toda confiança: “Bem-aventurado aquele cuja iniquidade é perdoada, cujo pecado é coberto. Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não atribui iniquidade, e em cujo espírito não há dolo”. (vv.1e2). Interessante que nestes dois versículos, o salmista apresenta quatro palavras que descrevem a sua situação: a primeira palavra é transgressão, que significa rebelião contra as leis de Deus; a outra palavra pecado, que significa uma ofensa a Deus; a terceira palavra é iniquidade, que quer dizer perversidade, injustiça. E temos a quarta palavra que é dolo, ou engano que significa traição. O estudo dessas palavras reflete a profundidade do seu pecado diante de Deus.

Ao pecar contra Deus, Davi havia cometido rebelião, pois praticou aquilo que lhe era proibido. Ele rompeu com o SENHOR.  Ele pecou, errou o alvo, se desviou do centro da vontade de Deus, deixando de fazer o que lhe era agradável. Mas, agora, ele celebra e partilha com outros a sua alegria. Ele é um homem feliz, pois a sua transgressão foi perdoada. É feliz porque, embora, tenha se rebelado, desobedecido e se afastado de Deus, o SENHOR ainda ofereceu Seu gracioso perdão. Como Deus é rico em perdoar! Aceita o pecador arrependido! Movido por Sua imensa misericórdia, Deus perdoa, apaga, esquece e cancela os nossos pecados.

Mas vamos entender toda a trajetória da vida do salmista! Ela começa quando o salmista confessa a situação que vivia diante do pecado. O texto revela que ele vivia aflito: “Enquanto calei os meus pecados, envelheceram os meus ossos pelos meus constantes gemidos todo o dia” (v.3). Esse silêncio significa ausência de confissão do pecado. Entretanto, se Davi guardou silêncio sobre o pecado, o próprio pecado, por sua vez, gritava em seu interior e o fazia sofrer diariamente. Ele chorava e se lamentava “todos os dias” a ponto de sentir seu corpo fraco e debilitado, diante dos efeitos do seu mau procedimento. Ele descreve, como se seus ossos sofressem um desgaste. É um preço muito alto para esconder a sua iniquidade! Na verdade, Davi estava com a consciência pesada, ele afirma: “Porque a tua mão pesava dia e noite sobre mim; e o meu vigor se tornou em sequidão de estio” (v.4). Sendo assim, já não suportava mais, não conseguia dormir, não conseguia se alimentar, não tinha mais alegria em seu coração.

A vida de Davi foi marcada por uma má escolha que o levou a cair em pecado. O pecado lhe trouxe tanta amargura, tristeza e agonia. Ele entrou em pânico e desespero com receio de ter sido abandonado por Deus. Era a lembrança da culpa que tanto o atormentava, mas que lhe parecia ser a mão de Deus, porque era Deus mesmo que conservava essa memória diante dele. E diante desta situação, perdeu as forças vitais, e se sentiu em sequidão. Mas diante de seu pecado, havia um caminho para Davi: o perdão. E o ponto de partida é o arrependimento. Ele sabe que só Deus pode restaurar a sua vida. Ele sabe que Deus é benigno, misericordioso e perdoador. Davi sabe que Deus não rejeita quem tem o coração quebrantado. Por isso, ele pede perdão a Deus, uma vez que a sua situação chegou ao extremo e se tornou insustentável. No salmo 51, Davi demonstra todo o seu sofrimento. Este salmo é o registro da agonia da alma de Davi, após o seu terrível crime de adultério e assassinato.

                                                                     II

Que situação horrível estava vivendo Davi. Talvez muitos estejam nesta situação neste momento. O que precisamos fazer é chorar pelos nossos pecados. Afinal, todos nós já choramos motivados por alguma coisa ou acontecimento nesta vida. Mas por que devemos chorar continuamente por nossos pecados? Porque ainda somos pecadores e, por isso, a Bíblia nos recomenda a fazê-lo. O apóstolo Tiago encoraja os crentes a chorar por seus pecados dizendo: (Tg 4.8-10).  O próprio Senhor Jesus chorou pelo pecado. Chorou diante do túmulo do seu amigo Lázaro (Jo 11.35). Não simplesmente por seu amigo ter falecido porque ele sabia que estava lá para ressuscitá-lo, mas porque estava diante da terrível consequência do pecado: a morte. Ele também chorou diante da cidade de Jerusalém por causa do sofrimento que viria sobre ela por tê-lo rejeitado como o Cristo (Lc 19.41-44). Este mesmo que chorou pelos pecados, proferiu as seguintes palavras: “Felizes os que choram". E acrescentou a promessa: “... porque eles serão consolados”! Essa é a razão da felicidade dos que choram por seus pecados.

Davi confessa a Deus seu pecado: “Confessei a ti o meu pecado” (v.5a). Diante disso, Deus poderia castigá-lo. Mas Deus demonstrou seu grande amor. Ele foi realmente perdoado. Tão logo confessou o seu pecado ao Senhor, Davi pode dizer: “… tu perdoaste a maldade do meu pecado” (v.5b). A tumultuada vida que vivia, dá lugar a bonança gerada pela certeza do perdão divino. Pelo jeito, não foi apenas a culpa que Deus levou, mas os próprios efeitos dela sobre a vida de Davi, fazendo com que, junto com o perdão, viessem também o alívio e o bem-estar.  Perdoados e justificados pela fé temos paz com Deus, (Rm 5.1). Lemos em Provérbios 28 13: “O que encobre as suas transgressões, nunca prosperará, mas o que as confessa e deixa, alcançará misericórdia” (Pv 28.13).

Quantas vezes, nós não agimos assim? Falhamos, mas não queremos assumir os nossos erros! Muitos tentam encobrir os seus erros e pecados resistindo à voz da sua própria consciência, cauterizando a sua mente, entregando-se ao domínio do pecado. Riem e se divertem com o pecado. Lembrem-se aqueles que não se arrependem, não receberão o consolo de Deus, mas haverão de lamentar e chorar por toda a eternidade no inferno, um lugar de tormentos onde só haverá choro e ranger de dentes. Mas ainda há tempo! Ele nos convida, pois somente em Cristo há consolo e esperança para o pecador arrependido, que chora amargamente por seus pecados. Ele mesmo nos prometeu: “Felizes os que choram, porque serão consolados". Eis o momento oportuno da salvação. Cristo está chamando os pecadores ao arrependimento. Reconheçam seus pecados! Chorem por eles! Abandonem os e venham a mim, pois eu posso dar o perdão, o consolo e a vida eterna, disse Jesus.

Davi foi perdoado e purificado pelo sangue do Filho de Deus. Agora, pode enxergava o que jamais via antes na sua incredulidade. Agora, pode se refugiar em Deus como o seu esconderijo diante das tribulações. Agora, Deus continuava a oferecer ao salmista a graça e misericórdia nos momentos de grandes calamidades: “quando transbordarem muitas águas, não o atingirão”. (v.6) Sendo assim, o salmista estava preparado para enfrentar as anormalidades desta vida. Quantas bênçãos maravilhosas recebemos do SENHOR, decorrentes do perdão! Deus promete abrigo seguro, junto àquele que anda em retidão na sua presença. Davi disse: “Tu és o meu esconderijo; tu me preservas da tribulação e me cercas de alegres cantos de livramento.” (v.7). Trata-se de uma atitude de produzir cantos alegres em louvor a Deus por uma obra de libertação. Davi passou da lamúria à exultação. Ele não se sente mais como um servo ingrato e rebelde, mas como um filho amado pelo Pai.

                                                                         III

O salmista Davi apresenta a vida feliz do homem perdoado. Então, vejamos: Primeiro, a vida feliz é uma vida de instrução. “Instruir-te-ei e te ensinarei o caminho que deves seguir; e, sob as minhas vistas, te darei conselho” (v.8). Davi, agora, está pronto para receber instrução do Senhor, pois sabia da dor de estar contaminado pelo pecado e do alivio que veio de Deus, através do arrependimento. E o mais surpreendente nesse processo é que a ação de instruir e guiar, fator fundamental para a santificação da vida do pecador, é uma iniciativa do próprio Deus. Ele é quem, tomando o servo pela mão, o conduz no caminho correto, conforme as Escrituras. Deus também nos diz: “Instruir-te-ei e te ensinarei o caminho que deves seguir!” Os filhos de Deus recebem instrução e orientação do caminho que devem seguir, ou nos adverte dos perigos do caminho errado.

Segundo, a vida feliz é uma vida de obediência: “Não sejais como o cavalo ou a mula, sem entendimento, os quais com freios e cabrestos são dominados; de outra sorte não te obedecem. (v.9). Cavalo e mula. Duas figuras interessantes. Davi nos aconselha que não devemos imitar o comportamento dos animais, que tem muita força, mas só obedecem por causa do freio e cabresto. O cabresto é uma corda com o formato da cara da mula que se coloca na cabeça para puxá-la e o freio é uma peça de metal que vai presa na boca do animal. Só obedecem por meio de força e da dor. A palavra-chave é "obedecem". Os animais obedecem apenas quando são dominados por freios e cabrestos. Davi nos mostra que devemos ser obedientes de coração sem precisar de castigos ou ameaças. Uma pessoa que foi perdoada é feliz obedece voluntariamente, sem constrangimento, sem obrigação. Os cristãos sabem que a Lei de Deus foi dada para ser obedecida e não para ser discutida e negada. Eles obedecem aos mandamentos de Deus. São conduzidos pela voz interior da mente de Cristo que nele habita (1Co 2.13).

Terceiro, a vida feliz é uma vida de confiança. “Muito sofrimento terá de curtir o ímpio, mas o que confia no SENHOR, a misericórdia o assistirá “(v.10). É extremamente confortador saber que, numa época quando as instituições seculares estão fracassando e as promessas humanas falhando cada vez mais, podemos depositar toda a nossa confiança no Deus eterno, pronto a cumprir a sua palavra fielmente. Nossa confiança será depositada no Senhor que é cheio de misericórdia. Essa será o caminho da pessoa que foi perdoada e é feliz: ela viverá sempre confiando em Deus, não importam as circunstâncias. Na alegria, na provação, na dor, sempre pode confiar que Deus o ajudará e nunca será desamparado. A vida do ímpio será de sofrimento sem escape, mas a vida do justo será de confiança, misericórdia e consequentemente gratidão.

Finalmente, a vida feliz é cheia de alegria. “Alegrai-vos no SENHOR e regozijai-vos, ó justos; exultai, vós todos que sois retos de coração” (v. 11).  Há três verbos, que fecham o salmo com chave de ouro: alegrai-vos, regozijai-vos e exultai. Este é o convite, é o imperativo que nos indica como será a vida feliz da pessoa que foi perdoada. Como disse o apóstolo Paulo, repetindo estas palavras: "Alegrai-vos no Senhor, outra vez vos digo: alegrai-vos”. Depois de tudo o que se passou na vida, de como ele foi perdoado e transformado, só pode ser esta a sua vida: alegria, regozijo e felicidade.

Estimados irmãos! Busquem a Deus e confessem seus pecados. Façam como Davi! E sejam feliz! Amém!