segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

TEXTO: MT 3.13-17

TEMA: SOMOS REVESTIDOS EM CRISTO PELO BATISMO

Estamos na época de Epifania. A palavra significa manifestação. É a solenidade da manifestação de Deus para toda à humanidade. Deus escolheu um povo para nascer, para se manifestar e na Epifania Ele se revela.Fato este que ocorreu em várias ocasiões.O primeiros foi a visita dos magos,representantes dos pagãos e que viviam fora do mundo judaico. Jesus se revela como luz, como estrela-guia aqueles magos. Ele também se revela em Caná da Galiléia, iniciando com seu primeiro milagre a manifestação de seu ministério público.

Hoje, vamos refletir sobre outro momento em que Jesus se manifestou, conforme Mateus 3.13-17: o Seu Batismo. Refletir sobre este assunto é de suma importância para a nossa vida cristã. Quanta alegria e quantas bênçãos recebemos ao sermos batizados! No entanto, essa alegria e essas bênçãos não existiriam se não tivesse ocorrido o Batismo de Jesus.Sem o batismo, o Filho de Deus, como verdadeiro homem, não teria inaugurado Sua caminhada de humilhação, sofrimento e morte de cruz em nosso favor. Sem Ele, estaríamos mortos em nossas transgressões e pecados, pois todos nos encontrávamos afastados de Deus e sem qualquer possibilidade de salvação. As Escrituras afirmam que o ser humano vivia no pecado e estava morto para Deus (Jo 5.25-26; Rm 5.12-17; Ef 2.1-5).

No entanto, Ele nos deu vida ao morrer na cruz. Agora, através do batismo em nome de Jesus Cristo, somos sepultados e ressuscitamos com Ele (Rm 6.3-11), passando da morte para a vida (Jo 5.24; Ef 2.1-6; 1Jo 3.14). Nele, somos santificados e purificados (Ef 5.26). Nossos pecados são lavados e fomos revestidos de Cristo (Gl 3.27).Enfim, nascemos de novo da água e do Espírito, e uma nova vida espiritual é operada em nós: a fé (Jo 3.5). Como bem afirma Lutero no Catecismo Menor: 'O Batismo opera a remissão dos pecados, livra da morte e do diabo e dá a salvação eterna a todos quantos creem no que dizem as palavras e promessas de Deus'.

Contudo, o batismo de Jesus nos ajuda a refletir sobre o nosso próprio batismo. Ele não é apenas um momento especial na vida cristã; representa uma transformação profunda e não pode ser considerado um ato meramente do passado, pontual, ou um simples evento social e de tradição familiar.Ao sermos batizados, declaramos publicamente que nossa antiga vida ficou para trás e que agora pertencemos a Cristo. Fomos revestidos d’Ele. Revestir-se de Cristo é permitir que Ele cubra nossas atitudes, pensamentos e escolhas. Ser revestido em Jesus significa que não somos mais definidos pelo passado, pelos erros ou pelo pecado. Agora, nossa identidade está em Cristo: somos filhos de Deus. Somos perdoados e pertencemos a Ele. Como afirma o apóstolo Paulo: 'Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo' (2 Coríntios 5.17).

Assim, na dimensão do novo nascimento, o batismo é vivido diariamente. O revestimento em Cristo renova-se todos os dias quando escolhemos viver segundo o Espírito, e não segundo a velha natureza. O apóstolo Paulo afirma: 'Quanto ao trato passado, vos despojeis do velho homem, que se corrompe segundo as concupiscências do engano, e vos renoveis no espírito do vosso entendimento, e vos revistais do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade' (Efésios 4.22-24).Reforçando esse ensino, temos as palavras de Lutero no Catecismo Menor: o batismo é um viver diário em que 'a velha criatura deve ser afogada e morrer com todos os pecados e maus desejos, e, por sua vez, sair e ressurgir nova criatura, que viva em justiça e pureza diante de Deus para sempre'. Esse 'novo homem' com o qual devemos nos revestir é Jesus. Quando isso acontece? Paulo escreve em Gálatas 3.27, acontece quando somos batizados. O que ocorre, então, no batismo? Somos revestidos de Cristo. Revestir-se é tomar Cristo como nossa 'veste' permanente."

 Para nossa meditação de hoje, destaco quatro pontos fundamentais que o texto nos apresenta. Vejamos:

Primeiro, porque no batismo nos unimos à morte e à ressurreição de Cristo.Quando somos batizados, testemunhamos que nossa velha vida morre e uma nova vida começa em Cristo. Isso significa que já não vivemos para o pecado, mas para Deus. Somos novas criaturas que participam da vitória de Cristo sobre a morte. Como afirma o apóstolo Paulo: 'Fomos, pois, sepultados com ele pelo batismo na morte, para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos, assim também andemos nós em novidade de vida' (Romanos 6.4).

Segundo, porque revestido de Cristo, recebemos uma nova identidade. Ser 'revestido' de Cristo quer dizer assumir Seu caráter, viver segundo Seu exemplo e pertencer a Ele. Assim como uma roupa identifica quem somos, Cristo passa a ser nossa identidade espiritual. O apóstolo Paulo afirma claramente: 'Porque todos quantos fostes batizados em Cristo já vos revestistes de Cristo' (Gálatas 3.27).

Terceiro, porque  o batismo confirma nossa fé e arrependimento.O batismo não é apenas um rito externo; ele está unido ao arrependimento e à fé em Jesus. É uma resposta obediente à graça de Deus. Como lemos nas Escrituras: 'Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos pecados' (Atos 2.38).

Quarto,  porque somos revestidos para viver uma nova vida. Depois do batismo, somos chamados a viver de modo diferente: “Revesti-vos do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e santidade.” (Efésios 4.24).Isso envolve: amor perdão santidade obediência.

Jesus sai da Galileia e vai ao Jordão ao encontro de João para ser batizado. João Batista demonstra uma forte reação diante dessa atitude de Jesus: “Ele, porém, o dissuadia, dizendo: Eu é que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?” (v. 14). No grego, o verbo usado é διεκώλυεν, que está no tempo imperfeito, indicando uma ação de resistência contínua ou insistente. É formado pela preposição διε   (intensivo) + κωλύω  (impedir/estorvar).É um verbo fundamental no Novo Testamento para expressar a ideia de bloqueio ou restrição. Quando João Batista tenta impedir Jesus, o texto usa uma forma intensificada desse verbo através da preposição existente no verbo. Ela funciona como um intensificador que significa "impedir completamente", "opor-se obstinadamente" ou "atravessar-se no caminho de alguém".

João não apenas hesitou momentaneamente, mas procurava impedir Jesus repetidas vezes. Ele tentou impedi-Lo porque entendeu que Jesus não precisava ser batizado, pois sabia quem Ele era: o Cordeiro de Deus. Na mente de João, a ordem das coisas estava invertida: se Jesus é santo e não tem pecado, não necessita de um batismo de arrependimento. Isso demonstra que sua reação foi profunda e convicta diante do batismo do Messias. Então, ele diz expressamente: 'Eu preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?'. Essa pergunta de João Batista é o ponto alto de um encontro de profunda humildade. Ele sabia que era pecador e que precisava de purificação (o batismo por Cristo), mas Jesus não. João entendeu que o ministério de Jesus era infinitamente superior ao seu (Mt 3.11) e que a ordem natural das coisas estava sendo invertida: o Criador estava se submetendo à criatura.

A resistência de João reflete a nossa própria dificuldade em aceitar a graça. Muitas vezes, assim como ele, esperamos que Deus se manifeste com sinais grandiosos, força incontestável e autoridade visível. Criamos, mesmo sem perceber, expectativas sobre como Deus deveria agir. Preferiríamos um Deus distante, previsível e majestoso, porque isso nos manteria no controle. No entanto, Deus, através de Seu Filho, não se impõe pelo medo nem pela ostentação do poder, mas se revela na simplicidade. Ele escolhe outro caminho. Ele nos ensina o caminho oposto: o caminho da humildade e da obediência. A Bíblia nos mostra que Jesus "esvaziou-se a si mesmo" (Filipenses 2.7). Jesus tinha toda a glória, todo o poder e toda a autoridade. Ainda assim, Ele escolheu se esvaziar. Não se esvaziou de quem Ele era, mas abriu mão de seus privilégios para cumprir o plano do Pai. Em vez de se exaltar, Ele se humilhou. Em vez de ser servido, serviu.É justamente o que  veríamos em toda a Sua vida: o Rei que lava os pés dos discípulos e que entra em Jerusalém montado em um jumentinho.

Ao enfrentar a resistência de João Batista, Jesus reafirma a necessidade de cumprir a vontade do Pai em sua plenitude. Ele responde: “Deixa por enquanto, porque, assim, nos convém cumprir toda a justiça. Então, ele o admitiu.” (v.15).Na Bíblia, "justiça" (δικαιοσύνη)  não se refere apenas a um conceito jurídico ou moral, mas à fidelidade aos planos de Deus. Quando Jesus responde a João dizendo que era necessário "cumprir toda a justiça", Ele não se refere apenas ao cumprimento de uma regra ou rito isolado. Ele está afirmando que Sua missão envolve total obediência ao plano de Deus. Independentemente de Sua posição como Filho, Ele estava totalmente alinhado com a vontade do Pai. Ele está dizendo que, para que o plano de salvação avance, Ele precisa seguir cada etapa estabelecida pelo Pai. Sendo assim, cumprir a justiça significa "fazer o que é certo aos olhos de Deus" para aquele momento histórico

No entanto, João Batista — descrito como o "maior entre os nascidos de mulher" — compreendeu que sua obediência a Jesus consistia, naquele instante, em permitir que o Messias cumprisse o plano do Pai. O texto diz: "Então, ele o admitiu". O relato bíblico revela um momento de profundo silêncio e reverência; isso significa que ele calou as suas próprias convicções para dar lugar à vontade de Deus. O ato de admitir Jesus ao batismo não foi um sinal de derrota, mas de obediência. Ele compreendeu que seu ministério não era sobre si mesmo, mas sobre preparar o caminho. Isto demonstra que, na presença de Deus, a nossa lógica deve se curvar. Às vezes, nossa soberba nos impede de deixar que outros nos ajudem ou que Deus nos conduza por caminhos de simplicidade. Precisamos parar de questionar por que Deus nos pede algo e simplesmente "admitir" que os Seus caminhos são maiores.

Porém, um fato extraordinário aconteceu quando Jesus saiu da água. O evangelista deixa clara esta surpreendente realidade: “Batizado Jesus, saiu logo da água, e eis que se lhe abriram os céus” (v.16a). Durante cerca de 400 anos — o período intertestamentário —, não houve profetas em Israel, e o povo sentia que os céus estavam “fechados”. Quando os céus se abrem para Jesus, Deus está rompendo esse silêncio; Ele volta a falar e a agir de forma visível e direta na terra.No Antigo Testamento, o profeta Isaías clamou: “Oh! se fendesses os céus e descesses!” (Isaías 64.1). Jesus é a resposta histórica a esse clamor do povo. No batismo, Deus finalmente "fendeu os céus" e "desceu". Jesus entra nas águas do Jordão em silêncio, sem exigir explicações ou reivindicar privilégios. Ele se coloca entre os pecadores, não por ter pecado, mas porque escolhe caminhar conosco. E é justamente ali que os céus se abrem.  Esse "abrir dos céus” simboliza uma ruptura definitiva com o antigo para dar lugar à novidade plena do Pai. Marca o momento em que Deus deixa de ser uma figura distante para intervir na cronologia humana, identificando-se plenamente com o Seu povo. O que era um desejo desesperado no passado tornou-se realidade em Cristo: Deus rompeu a distância, e agora o acesso a Ele está livre.

Contudo, há ainda outro detalhe que o evangelista descreve: o céu se abre para que o Espírito Santo desça. O texto afirma que Jesus 'viu o Espírito de Deus descendo como pomba e vindo sobre Ele' (v. 16b)."Os dois fatos estão interligados: os céus se abrem e o Espírito desce. O Espírito Santo sob forma de pomba, veio e permaneceu sobre Jesus, habitando plenamente e totalmente. Ele desce sobre Jesus não em forma de fogo (como no Pentecostes, para purificar e capacitar pecadores), mas "como pomba"A pomba remete à paz (como na arca de Noé, sinalizando o fim do julgamento). Aquela descida, confortou aqueles que ouviam a mensagem de João Batista. Percebemos a importância do Espírito Santo no batismo de Jesus, pois Ele nos dá a unidade em Cristo Jesus e com o Pai, Deus Uno e Trino. Este mesmo Espírito  desceu sobre os discípulos no dia de Pentecostes, e deu a eles o poder de  anunciar a todos os povos a boa nova de Jesus Cristo. Lembre-se que Espirito Santo não é uma pomba. O Espírito Santo  é a terceira pessoa da  Santíssima Trindade, e tem uma tarefa toda especial: nos converte, regenera e arranca o nosso “coração de pedra” e coloca um coração cheio de fé, amor, bondade . E quando decidirmos por Jesus, o Espírito Santo passa a fazer parte das nossas vidas e ao habitar em nós, Ele nos renova e nos dá direção e discernimento para prosseguirmos na nossa caminhada cristã.

No batismo, há também uma estreita relação entre Jesus e o Pai. Deus fala: “Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo” (v. 17). O termo grego εὐδόκησα, traduzido por “comprazo”, significa “parecer bom para alguém” ou “ser a satisfação de alguém”. Isso significa que a voz dos céus expressa a aprovação total do Pai: é a confirmação de que Jesus é o Filho de Deus.Ali, manifestaram-se o Pai, o Filho e o Espírito Santo — a Santíssima Trindade. Esta é uma manifestação gloriosa do poder do Deus Uno e Trino em torno do ministério de salvação centralizado no Filho, que estava prestes a se iniciar. Mais do que reconhecer a filiação diante dos homens, Deus autenticou publicamente o ministério de Seu Filho. De uma forma ou de outra, é vital ouvirmos a voz do Pai para crescermos na certeza de que também somos filhos amados. Ele cuida do coração de Seus filhos de forma peculiar: “Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus” (1 João 3.1).

Estimados irmãos! O batismo sempre apontará para o fato de que, em Cristo, somos ressuscitados da morte espiritual para uma nova vida. A ligação entre o batismo e a união do crente com Cristo, em Sua morte e ressurreição, é inegável. Nesse sentido, o batismo testemunha que o crente se tornou participante não apenas do sofrimento e da humilhação de Cristo, mas também de Sua exaltação, recebendo o direito de usufruir dos privilégios dessa união.É por isso que momentos como este devem ser de festa e de grande alegria. O batismo significa que pessoas estão crendo no Evangelho, arrependendo-se de seus pecados e recebendo uma nova vida em Cristo Jesus!

Portanto, despojemos do velho homem, que se corrompe segundo a concupiscência do engano, e revistamos  no espírito do novo homem, criado segundo Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade. Deixamos as roupas velhas da nossa vida no passado e nos revestimos de roupas novas.Amém!

 Martim Lutero, quando se sentia desanimado ou amedrontado, dizia para si mesmo ou escrevia em sua mesa: Sou batizado.

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