TEXTO: JO 1.29-42a
TEMA: EIS O CORDEIRO DE DEUS!
Estamos no 2º Domingo após Epifania. As leituras de hoje formam uma unidade temática: a identidade de Cristo e a nossa resposta ao seu chamado.Tudo começa com a promessa profética em Isaías 49, onde aprendemos que o Messias não viria apenas para um grupo restrito, mas seria a "luz para as nações", estendendo a salvação a todos os povos. Este plano divino se concretiza no Evangelho de João 1, quando João Batista identifica Jesus como o cumprimento dessa promessa, exclamando: "Eis o Cordeiro de Deus!". Esse reconhecimento da identidade de Cristo é o que transforma a nossa realidade, como lemos no Salmo 40; ao sermos resgatados pelo Senhor de um "poço de perdição", nossa resposta deixa de ser baseada em rituais vazios e passa a ser uma entrega de coração que diz: "Agrada-me fazer a tua vontade".Essa transformação não é um esforço solitário, mas, como reforça 1 Coríntios 1, é sustentada pela fidelidade de Deus, que nos santifica e nos enriquece com Seus dons.
Assim, o Evangelho coroa as leituras ao narrar o momento crucial em que João Batista aponta para Jesus e proclama: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!". Este testemunho público é a essência de Epifania: a manifestação da identidade divina de Jesus como o sacrifício perfeito prometido por Deus. Ao ouvirem essa revelação, os primeiros discípulos, como André, são movidos a seguir o Mestre e, imediatamente, tornam-se testemunhas, convidando outros com o chamado "Vinde e vede". Dois discípulos passam a seguir Jesus, iniciando uma relação pessoal com Ele. André, após encontrá-lo, anuncia aos outros: “Encontramos o Messias”.
Para aprofundar a mensagem de hoje, aqui está o desenvolvimento de cinco tópicos fundamentais, conectando com a temática:
Primeiro, Jesus,o Cordeiro de Deus que cumpriu as Escrituras.Jesus é o Cordeiro de Deus prometido nas Escrituras desde o Antigo Testamento. Sua vinda, morte e sacrifício foram o cumprimento do plano divino anunciado pelos profetas. O cordeiro pascal, as profecias de Isaías e os Salmos apontavam para Cristo, que entregou Sua vida para trazer redenção. Em Jesus, as Escrituras se cumprem plenamente, confirmando que a salvação faz parte do propósito eterno de Deus
Segundo,Jesus, o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.João Batista declara que Jesus não cobre o pecado, mas o remove. Diferente dos sacrifícios repetidos da Lei, o sacrifício de Cristo é perfeito e definitivo. Ele não trata apenas das consequências do pecado, mas da sua raiz, reconciliando o ser humano com Deus.
Terceiro, Jesus, o Cordeiro de Deus que se entregou voluntariamente. Jesus não foi forçado ao sacrifício; Ele escolheu obedecer ao Pai. Sua entrega foi um ato de amor supremo. Na cruz, vemos não apenas sofrimento, mas obediência, humildade e amor sacrificial em favor dos pecadores.
Quarto, Jesus, o Cordeiro de Deus que inaugurou a Nova Aliança.Com Seu sangue, Jesus estabeleceu uma nova aliança entre Deus e os homens. Agora, não somos justificados por rituais ou sacrifícios animais, mas pela fé no sacrifício único de Cristo. Essa aliança traz perdão, acesso direto a Deus e vida eterna.
Quinto, Jesus, o Cordeiro de Deus que reina eternamente.O Cordeiro que foi morto é o mesmo que reina em glória. Em Apocalipse, Jesus aparece como o Cordeiro exaltado, digno de honra, louvor e adoração. Aquele que sofreu é agora o Rei eterno, vencedor sobre o pecado, a morte e o mal.
João nega categoricamente todas as três opções. Ele não queria a glória para si.Quando pressionado a dar uma resposta para os que o enviaram, João recorre às Escrituras (Isaías 40.3) e se define como:"Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor" . Os fariseus, então, questionam ainda a autoridade de João: "Por que batizas, então, se não és o Cristo?". João responde que o seu batismo é apenas com água (um rito externo de arrependimento), mas revela algo impactante: o Messias já está entre eles, mas eles não O conhecem. João finaliza afirmando que não é digno sequer de desamarrar as correias das sandálias d'Ele — que era considerado o trabalho mais humilde de um escravo na época.
No dia seguinte, o suspense termina. João vê Jesus caminhando em sua direção e afirma: “Eis o Cordeiro de Deus”.A interjeição grega Ἴδε — "Eis" ou "Vede" — não é apenas uma expressão comum; é um imperativo que serve para desviar a atenção de quem fala para quem está chegando. João está dizendo: "Parem de olhar para mim e foquem n’Ele". Ao usar esse título, João conecta o ministério de Jesus a toda a expectativa do Antigo Testamento, especialmente ao sistema sacrificial. Ele apresenta Jesus não como um líder político ou um mestre comum, mas como o “Cordeiro de Deus”. Sobre este “Cordeiro de Deus” o profeta Isaías predisse que o Messias seria levado à morte, “sem abrir a boca, como um cordeiro conduzido ao matadouro” ( Is 53,7). Assim, Jesus é comparado a este animal que, certamente, não se caracteriza pela força; não é agressivo, mas dócil e pacífico. Não mostra as garras nem os dentes diante de qualquer ataque.
Jesus é semelhante a um cordeiro. Para os ouvintes da época, essa imagem remetia a dois eventos centrais: primeiro, a Páscoa Judaica, em que o sangue do cordeiro nos umbrais das portas livrou os hebreus da morte no Egito; segundo, ao Servo Sofredor da profecia de Isaías 53, que descreve o Messias como um 'cordeiro levado ao matadouro' para assumir as transgressões do povo. E Jesus manifestou as características do Servo do Senhor ao ponto de morrer na cruz. Ele é o verdadeiro Cordeiro Pascal, que mergulha no rio dos nossos pecados para nos purificar. É também o Cordeiro imolado de que nos fala o Livro do Apocalipse: 'Digno é o Cordeiro imolado de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a força, a glória, a honra e o louvor' (Ap 5,12). Em sua entrega ao Pai, Jesus assume a condição de Cordeiro Salvador do mundo, entregando-se voluntariamente pelos nossos pecados (Gl 1.4).João Batista apresentou Jesus como o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. (v.29).
A realidade do pecado se faz presente entre nós e dentro de cada um nós. Basta lançar um olhar ao redor para percebermos que o pecado prevalece na sociedade, no ambiente de trabalho, na família e no plano pessoal. Convivemos com estruturas que induzem as pessoas ao mal, basta acompanhar os fatos anunciados e as conversas.Ele é uma realidade universal que afeta toda a humanidade desde a queda no Éden. Por meio do pecado, a morte entrou no mundo, e todos os homens, sem exceção, tornaram-se separados da glória e da presença de Deus. Ele alcança pessoas de todas as raças, tempos e lugares, sendo a raiz das tragédias humanas como violência, ódio, injustiça, idolatria e corrupção moral.O pecado é profundamente maligno, porque rompe a comunhão entre o homem e Deus, gera sofrimento e conduz à morte. Prometendo prazer, liberdade e vida, na verdade escraviza, decepciona e destrói.
No entanto, o Cordeiro de Deus é revelado como aquele que remove o pecado, inaugura a nova aliança e chama todos a reconhecê-lo como o Salvador prometido. João Batista afirma: “É este a favor de quem eu disse: após mim vem um varão que tem a primazia, porque já existia antes de mim” (v. 30).João Batista reconhece Jesus como o Cordeiro de Deus. Ele o identifica como aquele sobre quem já vinha dando testemunho. Não se trata de uma declaração genérica, mas do cumprimento explícito do que havia anunciado anteriormente: “É este a favor de quem eu disse”. E o que ele disse foi: “após mim vem um varão que tem a primazia”. Embora venha depois no tempo, Jesus é superior em dignidade, autoridade e missão. Ele ocupa o primeiro lugar — é o principal.Já existia antes de nós. Ele ocupa o lugar que Lhe pertence por direito.João Batista, ao afirmar isso, proclama a preexistência de Jesus. Mesmo tendo nascido depois de João — como mostra Lucas 1 —, Jesus já existia anteriormente, numa referência clara à sua natureza divina.
Jesus, o Cordeiro de Deus que tem a primazia, é aquele que remove o pecado, inaugura a nova aliança e chama todos a reconhecê-lo como o Salvador prometido. Ele cumpre aquilo que os sacrifícios do Antigo Testamento apenas simbolizavam.O sangue dos cordeiros não removia definitivamente os pecados, mas apontava para Jesus, o sacrifício perfeito e definitivo.Cristo ofereceu a si mesmo na cruz: sendo Deus, seu sacrifício tem valor infinito; sendo homem, pôde nos substituir. Ele foi ao mesmo tempo sacerdote e sacrifício, levando sobre si nossos pecados, pagando nossa dívida e satisfazendo plenamente a justiça divina.Por sua morte e ressurreição, somos perdoados, justificados e reconciliados com Deus. Somente em Jesus há redenção, salvação e vida eterna.Você reconhece Jesus apenas como alguém importante ou como o Salvador que tira o seu pecado?Jesus é o Cordeiro que tira o pecado do mundo — não apenas pecados individuais, mas tudo aquilo que fere a relação entre Deus e a humanidade: injustiça, orgulho, violência, indiferença. Ele não ignora o pecado, mas o assume sobre si para nos libertar. Isso nos lembra que a salvação não é algo que conquistamos sozinhos; é dom, é graça.
Diante do Cordeiro de Deus, João Batista revela sua total submissão e ao declara: “Eu mesmo não o conhecia, mas, a fim de que ele fosse manifestado a Israel, vim, por isso, batizando com água” (v. 31). À primeira vista, essa afirmação pode parecer contraditória, pois indica que João, por si só, não possuía pleno conhecimento da identidade messiânica de Jesus. Contudo, isso não sugere uma ignorância absoluta, mas sim a ausência de uma confirmação clara e pública até o momento da revelação divina. A expressão “a fim de que ele fosse manifestado a Israel” explicita um propósito bem definido: o objetivo do ministério de João não era fundar uma nova religião, nem angariar seguidores para si mesmo. Seu ministério não nasceu de uma iniciativa pessoal, mas de um chamado celestial com a missão específica de manifestar o Messias à sua nação.
Neste sentido, João também estabelece com clareza a função do seu batismo. Embora tivesse, primordialmente, um caráter de arrependimento, o rito possuía uma finalidade secundária e crucial: servir como meio de identificação. Ao batizar as multidões, João preparava o cenário espiritual para o surgimento da 'Luz'. Fica evidente, portanto, que a essência de sua missão era apontar, não ocupar o centro; era preparar o caminho, e não ser o próprio caminho. Por meio de sua obediência, o ambiente foi devidamente preparado para que a revelação do Messias ocorresse de forma plena e soberana.
Ele viu também o Espirito “repousar” sobre Jesus.O verbo traduzido por “repousar” é ἐμείνεν, forma aorista do verbo μένω, um termo carregado de profundo significado no Evangelho de João. Seu campo semântico vai muito além da ideia de uma permanência física ou momentânea. Este verbo expressa habitar, permanecer, estabelecer-se de modo contínuo e relacional.Diferentemente das manifestações temporárias do Espírito no Antigo Testamento No contexto do testemunho de João Batista, o uso de ἐμείνεν indica que o Espírito não apenas desceu sobre Jesus, mas fixou residência n’Ele.Enquanto no Antigo Testamento o Espírito vinha sobre os profetas e reis para missões específicas e temporárias, em Jesus a presença do Espírito é constante, estável e definitiva. Ele é o portador permanente do Espírito, o que O qualifica não apenas como um ungido, mas como Aquele que possui a plenitude da vida divina para comunicá-la à humanidade. Portanto, ἐμείνεν não descreve apenas um fato histórico no batismo de Jesus, mas comunica uma realidade teológica profunda: em Jesus, o Espírito permanece; e onde o Espírito permanece, ali está a vida, a autoridade e a revelação plena de Deus.
João Batista evidencia, de modo ainda mais claro, que seu testemunho não nasce de uma percepção humana, mas apoia-se estritamente na revelação divina: “Eu mesmo não o conhecia; mas o que me enviou a batizar com água me disse: Aquele sobre quem vires descer e permanecer o Espírito, esse é o que batiza com o Espírito Santo” (v.33). Pela segunda vez, João afirma: “eu mesmo não o conhecia”, reforçando que sua identificação do Messias não se apoiava em vínculos familiares, intuição pessoal ou tradição religiosa, mas exclusivamente na revelação divina. Seu ministério está totalmente subordinado à iniciativa de Deus.
E afirma ainda que Aquele que “o enviou a batizar com água”é o próprio Deus — não apenas o comissiona, mas também lhe concede um sinal claro e verificável: “ a descida e permanecia do Espirito Santo.” O critério messiânico não seria aparência, linhagem ou eloquência, mas a ação visível do Espírito: “descer e permanecer”. Novamente o termo μένω.Ele é decisivo na teologia joanina. Ele vai muito além de um simples "ficar" ou "estar"; ele carrega a ideia de permanência, perseverança e habitação mútua. Isto demonstra que somente o Cordeiro teria o Espírito permanentemente. Há um outro detalhe importante. As palavras finais culminam com uma revelação cristológica: “esse é o que batiza com o Espírito Santo”. João estabelece um contraste direto entre seu próprio ministério e o de Jesus. João batiza com água — um rito externo de arrependimento e preparação. Jesus, porém, batiza com o Espírito Santo — uma obra interna, transformadora e definitiva.
João Batista eleva agora o patamar da revelação sobre Jesus. Se antes o apresentou como o 'Cordeiro' (v. 29) — Aquele que Se entrega à morte —, agora o proclama como 'Filho' — Aquele que reina e compartilha a mesma natureza do Pai. No contexto joanino, 'Filho de Deus' transcende um título messiânico real; é uma afirmação da própria divindade de Cristo. João Batista confirma que o homem que submeteu-se ao batismo é, em essência, o próprio Deus manifestado. Ele é o Ungido que encarna plenamente a presença divina, Aquele sobre quem o Espírito repousa de forma definitiva e que traz a salvação definitiva ao mundo.
O texto a seguir, marca o início da formação da comunidade cristã e revela a eficácia do testemunho de João. O texto afirma que no dia seguinte, dois discípulos de João passam a seguir Jesus. (v.35). E vendo Jesus passar, disse:"Eis o Cordeiro de Deus".(v.36).O texto menciona que Jesus "passava". Ele não parou para interromper a conversa de João com seus discípulos. Ele simplesmente caminhava. Isso destaca a soberania de Cristo e a liberdade humana: Jesus passa, e cabe à testemunha apontá-Lo e aos ouvintes decidirem segui-Lo. Observem que segunda vez em dois dias, João repete a frase: "Eis o Cordeiro de Deus".Na primeira vez (v. 29), ele apresentou a missão de Jesus (tirar o pecado do mundo). Agora, ele apresenta a pessoa de Jesus aos seus discípulos mais íntimos. O texto enfatiza que os discípulos "ouviram-no dizer isto,seguiram a Jesus.”(v.37).Há uma conexão direta entre o testemunho fiel de João e a ação dos discípulos. Isso estabelece o princípio bíblico de que "a fé vem pelo ouvir" (Romanos 10.17). A palavra de João não foi apenas informativa; ela foi transformadora. No momento em que ouviram a designação "Cordeiro de Deus", o coração deles foi despertado para uma lealdade maior: “seguiram a Jesus.” O termo ἀκολούθησαν é a forma verbal (aoristo) de ἀκολουθέω, que significa "seguir". No Evangelho de João, este verbo carrega um peso muito maior do que o simples ato físico de caminhar atrás de alguém; ele descreve o início do discipulado.
Ao seguirem o 'Cordeiro de Deus', os discípulos deram o primeiro passo, mas é Jesus quem interrompe o silêncio dos discipulos: “E Jesus, voltando-se e vendo que eles o seguiam, disse-lhes: Que buscais? E eles disseram: Rabi (que, traduzido, quer dizer Mestre), onde moras?” (v.38). Jesus não pergunta 'Quem buscais?', mas 'Que buscais?'. Esta é uma pergunta de motivação profunda, pela qual Jesus convida os discípulos a examinarem suas verdadeiras intenções. O que eles esperavam encontrar n'Ele? Talvez buscassem um libertador político para as aflições de Israel, ou um milagreiro que resolvesse suas necessidades imediatas. Ou estariam eles, de fato, buscando o Cordeiro que tira o pecado do mundo? Ao questionar o 'quê', Jesus confronta o desejo do coração antes de revelar plenamente o 'Quem' Ele é. Não é uma imposição, mas uma resposta a um anseio profundo dos discipulos.
Jesus faz a pergunta fundamental de todo ser humano: “Quem buscais?” A pergunta de Jesus atravessa o tempo e chega até nós hoje.Muitas vezes buscamos respostas rápidas, soluções imediatas, conforto ou reconhecimento. Outras vezes, buscamos a Deus, mas misturamos essa busca com nossos próprios interesses, medos ou expectativas.Se hoje o Senhor lhe fizesse essa pergunta, o que você responderia? Se a sua busca for por Ele — e apenas por Ele — a promessa é clara: "Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração" (Jeremias 29.13).Quando paramos de buscar apenas benefícios e passamos a desejar a presença do Criador, a promessa se cumpre e finalmente alcançamos o descanso da nossa alma.De que maneira a pergunta de Jesus — "Quem buscais?" — muda a minha perspectiva sobre o que é ser um discípulo?O que você está buscando em Jesus? Apenas uma bênção ou a presença do Mestre?
Os discípulos não apenas seguiram a Jesus; eles O buscaram com uma curiosidade que ia além do intelecto. Ao chamarem Jesus de Rabi — que significa Mestre —, eles reconheceram publicamente Sua autoridade e submeteram-se ao Seu ensino. No entanto, o coração deles ansiava por algo mais profundo do que uma simples aula. Eles queriam saber onde Jesus morava, indagando pelo Seu endereço físico: "Mestre, onde moras?".No Evangelho de João, o verbo "morar/permanecer" tem um peso teológico enorme. Eles não queriam apenas uma resposta rápida no caminho; eles queriam saber onde Jesus "permanecia" para que pudessem permanecer com Ele. Eles buscavam convivência, comunhão e tempo.A resposta de Jesus, contudo, rompe com as expectativas geográficas. Ele não fornece um nome de rua ou uma localização precisa; em vez disso, Ele estende um convite à experiência: "Vinde e vede".
O evangelista faz questão de registrar um detalhe que poderia parecer irrelevante, mas que é carregado de significado: "eram cerca de quatro horas da tarde" — a hora décima no tempo bíblico. Esse detalhe temporal marca o momento exato em que a curiosidade se transformou em comunhão. Aqueles homens não apenas fizeram uma visita de cortesia; eles permaneceram com Ele o resto do dia, permitindo que o tempo cronológico desse lugar ao tempo do encontro. O conhecimento genuíno de Deus não nasce do 'ouvir falar', nem se sustenta por relatos indiretos. Ele é fruto da convivência. Os discípulos entenderam que, para conhecer o Mestre, era necessário mais do que ouvir Suas palavras; era preciso observar Seus gestos, sentir Sua paz e habitar Seu espaço.Eles não se contentaram com a teoria sobre quem Jesus era. Eles aceitaram o desafio de ir e ver. Ao fazerem isso, saíram da posição de espectadores para se tornarem participantes da vida de Cristo. Essa experiência nos ensina que a fé não é um conceito para ser estudado, mas uma Vida para ser compartilhada.
Seu primeiro campo missionário foi o lar. Ao levar seu irmão Simão Pedro a Jesus, André demonstrou que uma vida impactada gera, naturalmente, um movimento em direção ao próximo. Como narra o texto: “Ele achou primeiro o seu próprio irmão, Simão, a quem disse: Achamos o Messias (que quer dizer Cristo)” (v. 41). Ao declarar isso com convicção, ele revela que o verdadeiro encontro com o Cordeiro é impossível de ser guardado para si; assim, a missão cristã nasce através do fervor. A expressão “achou primeiro a seu irmão” revela a urgência de quem encontrou o tesouro mais precioso da história e sente a necessidade imediata de compartilhá-lo. O testemunho de André é curto, mas absoluto: “Achamos o Messias”. Ao identificar Jesus como o Cristo, André demonstra que o tempo de convivência com o Mestre foi suficiente para converter seu entendimento, tornando-se o primeiro missionário do Evangelho e ilustrando que a fé não se sustenta apenas na contemplação individual, mas expande-se pelo amor fraternal.
Ao ser levado por André, Simão é confrontado pelo olhar onisciente de Jesus, que o chama pelo nome e menciona sua filiação. O ápice desse encontro reside na mudança de seu nome para Cefas, ou Pedro. Com esse gesto de autoridade messiânica, Jesus não apenas altera uma nomenclatura, mas profetiza uma transformação profunda de identidade e caráter, agindo como quem redefine o destino de um homem antes mesmo de sua primeira lição como discípulo. Ao renomeá-lo, o Mestre ignora deliberadamente a instabilidade latente do pescador — um homem impulsivo, inconstante e vulnerável às próprias emoções — para afirmar a solidez futura da "rocha" que ainda seria formada pela ação do Espírito Santo.Jesus não descreveu quem Simão era, mas proclamou quem ele se tornaria; Ele enxergou, sob a superfície da fragilidade humana, a estrutura inabalável de um líder que sustentaria os fundamentos da Igreja primitiva. o Criador de extrair firmeza do cascalho e converter a fraqueza em fundamento.
Portanto, ao ouvirmos o anúncio 'Eis o Cordeiro de Deus', somos convidados a levantar os olhos e reconhecer quem está no centro da nossa fé. Não é um símbolo vazio, mas o próprio Cristo, que se oferece em sacrifício para tirar o pecado do mundo. Nele se cumprem as promessas; nele se revela o amor que não recua diante da cruz; nele encontramos a verdadeira libertação. Assim como os primeiros discípulos, somos chamados a deixar o que nos prende e seguir Aquele que venceu o pecado não pela força, mas pela obediência e pela doação total. Que, ao sairmos daqui, nossa vida anuncie, com palavras e atitudes, aquilo que proclamamos com fé: Jesus é o Cordeiro de Deus, e só Nele há salvação, esperança e vida nova. Amém!
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