TEXTO: 1 Pe 1.17-25
TEMA: VIVENDO EM SANTIDADE DIANTE DE DEUS
No trecho anterior, Pedro expõe a respeito da salvação — uma obra de Deus firmada na ressurreição de Cristo. Agora, ele muda o foco para demonstrar aos leitores as implicações práticas que essa salvação deve produzir em suas vidas. O apóstolo enfatiza essas práticas por meio do senso de comunhão, acolhimento, amor fraternal e proteção mútua.
Diante disso, uma pergunta se impõe ao nosso coração: como viver essa santidade? É a essa pergunta que o texto responde — e é sobre isso que refletiremos nesta mensagem, estruturada em quatro pontos, sob o tema: Vivendo em santidade diante de Deus.
Primeiro,vivendo com temor durante a peregrinação (v.17).O que é esse temor? Não se trata de um medo paralisante, mas de uma reverência profunda da santidade de Deus. A santidade começa ao reconhecermos quem Ele é: um Pai amoroso, um Juiz justo que não faz acepção de pessoas. Por isso, nossa caminhada deve refletir essa consciência, sendo pautada pela responsabilidade e pela retidão diante d’Ele durante todo o tempo da nossa jornada terrena.
Segundo, lembrando constantemente do preço da redenção (vv.18-21). Fomos comprados por um preço altíssimo. Essa obra foi um plano eterno de Deus, selado pela morte e ressurreição de Cristo.Por isso, nossa vida agora possui um novo propósito: viver em santidade. Para ilustrar essa realidade, o apóstolo Pedro estabelece um contraste entre as riquezas terrenas e o valor celestial. Ele nos lembra que fomos resgatados de uma vida vazia não por meio de prata ou ouro — elementos que, apesar de valiosos para o mundo, são passageiros e corruptíveis —, mas pelo precioso sangue de Cristo.Portanto, se fomos resgatados por um preço tão alto, é impossível continuarmos vivendo de forma fútil ou superficial. Nossa existência diária deve ser um reflexo vivo do valor do sangue de Cristo, honrando com integridade e gratidão o que foi feito em nosso favor.
Terceiro, vivendo em amor sincero (v.22) Pedro nos ensina que a santidade requer o abandono dos desejos antigos, das práticas obsoletas e da mentalidade que ignora a Deus. A vida nova em Cristo exige uma transformação que começa na mente e se manifesta nas atitudes. Como o apóstolo exorta: "...amai-vos ardentemente uns aos outros, com um coração puro". O novo nascimento gera frutos concretos: o amor genuíno pelos irmãos. Ao utilizar a expressão "ardentemente", Pedro aponta para um amor que vai além do sentimento superficial; ele fala de um amor intenso, constante e sacrificial.Em última análise, a prova da nossa santidade está na qualidade dos nossos relacionamentos. Não existe cristianismo verdadeiro sem amor verdadeiro.
Quarto,alimentando-se continuamente da Palavra de Deus (vv.23-23).Pedro encerra mostrando a base de tudo. A Palavra de Deus é viva, permanente e incorruptível. Para enfatizar isso, o apóstolo estabelece um contraste marcante: enquanto a carne é como a erva que murcha e passa, a Palavra do Senhor permanece para sempre.Tudo neste mundo é passageiro, mas a Palavra é eterna. Quem constrói sua vida sobre esse fundamento permanece firme, pois a Palavra é o instrumento essencial da nossa santificação. Quanto mais nos expomos a ela, mais nossa vida é moldada à imagem de Cristo. Afinal, a santidade não cresce no vazio espiritual; ela floresce à medida que somos nutridos pela verdade que não muda.
No entanto, ao chamar Deus de Pai não é apenas uma expressão de intimidade, mas também um reconhecimento de quem Ele é: um Pai amoroso, mas igualmente um Juiz justo, que “sem acepção de pessoas, julga segundo as obras de cada um”. Em outras palavras, Deus não trata ninguém com parcialidade; todos são avaliados segundo o mesmo critério de santidade e justiça. Ele não se deixa influenciar por aparência, posição ou qualquer mérito humano. Aqui, somos confrontados com a santidade e a justiça de Deus, que não se deixa influenciar por aparência, posição ou privilégios.Seu julgamento é justo e imparcial, baseado na verdade e nas obras de cada um. As obras não são o meio pelo qual alcançamos a salvação. Elas não são a causa, mas o fruto de uma fé viva e verdadeira. Assim como uma árvore saudável produz bons frutos, o cristão que foi transformado pela graça de Deus naturalmente manifesta, em sua vida, atitudes e ações que refletem essa nova realidade. Portanto, Pedro está ensinando que aquilo que fazemos reflete quem somos diante de Deus.Isso nos lembra que a fé que professamos precisa ser evidenciada na maneira como vivemos. Nossas atitudes, escolhas e comportamentos revelam a autenticidade do nosso relacionamento com Deus.
Diante dessa realidade, o apóstolo exorta: “portai-vos com temor durante o tempo da vossa peregrinação”. Pedro usa aqui o verbo ἀναστράφητε no grego que está no imperativo aoristo passivo que significa literalmente "virar de um lado para o outro", "revirar","movimentar-se" dentro de um espaço.É uma vida em movimento. No Novo Testamento, o termo evoluiu para designar a conduta de vida ou o comportamento prático. Portanto,o portar-se sugere uma postura contínua, uma maneira de carregar a si mesmo diante do mundo. Interessante notar que o comando para "portar-se" geralmente vem acompanhado de uma condição, como no exemplo: "portai-vos com temor". Não é um pavor que afasta. Não é um medo paralisante, mas uma reverência profunda, um respeito constante diante da presença de Deus. Trata-se de viver com cuidado, zelo espiritual e um sincero desejo de agradá-Lo em tudo, reconhecendo que cada atitude, decisão e comportamento estão diante d’Ele.
No entanto, o portar-se está ligado à peregrinação (παροικίας). Este é o termo mais rico da passagem para a compreensão da identidade do destinatário. Na época, um πάροικος (peregrino) vivia em uma cidade sem plenos direitos de cidadania. Peregrino,literalmente, é aquele que mora ao lado da casa, mas não dentro dela como um membro pleno. É o "vizinho estrangeiro".Alguém que residia em um lugar que não é sua pátria definitiva. Ele pagava impostos e contribuía para a economia, mas permanecia legalmente um "estrangeiro". Ele estava na cidade, mas não era da cidade. Enfim, ser também um πάροικος implicava não se moldar totalmente aos costumes, vícios ou à cultura local se estes conflitarem com os valores de sua "pátria de origem". Pedro utiliza essa metáfora para enfatizar que a existência terrena é transitória e que o cristão deve manter uma "distância crítica" dos costumes locais que conflitam com sua identidade espiritual.Isso nos ensina que, mesmo sendo passageiros neste mundo, peregrino não é um turista descuidado; ele é alguém que, ciente da transitoriedade da vida, escolhe cada passo com precisão, sabendo que sua conduta é o seu maior testemunho.
Quando entendemos que nossa vida aqui é temporária, passamos a valorizar o que é eterno e a viver de maneira mais alinhada com a vontade de Deus. Dessa forma, aprendemos que, como filhos de um Pai santo e justo, devemos viver com reverência, responsabilidade, permitindo que nossa vida reflita, de forma prática, a realidade do nosso relacionamento com Ele. Pedro fundamenta esse chamado: “Pois vocês sabem que não foi por meio de coisas perecíveis, como prata ou ouro, que vocês foram redimidos " (v.18a). No mundo antigo, como hoje, a prata e o ouro eram o ápice da segurança e do poder. Aquilo que o mundo antigo — e o moderno — considera como o ápice da segurança e do poder é classificado como algo que se corrompe e que é insuficiente para comprar a liberdade da alma.A verdade é que muitas vezes, medimos o valor das coisas pela durabilidade ou pelo preço de mercado.
O apóstolo Pedro chama esses metais de "perecíveis".A expressão traduzida como “coisas perecíveis” vem do grego: φθαρτοῖς .Esse termo deriva do verbo φθείρω , que significa corromper, destruir, deteriorar. Carrega a ideia de algo que: é corruptível, está sujeito à decadência, pode estragar, envelhecer ou desaparecer. Sendo assim, Pedro faz um contraste entre as coisas perecíveis (φθαρτοῖς) → materiais, temporais, limitadas e a Redenção em Cristo → eterna, incorruptível, de valor infinito.Ou seja, a nossa salvação não foi comprada com riquezas humanas, que são temporárias e limitadas. O valor da nossa redenção é infinitamente maior. Fomos comprados por um preço altíssimo. Essa obra foi um plano eterno de Deus, selado pela morte e ressurreição de Cristo.Por isso, é impossível continuarmos vivendo de forma fútil ou superficial. Nossa existência diária deve ser um reflexo vivo do valor do sangue de Cristo, honrando com integridade e gratidão o que foi feito em nosso favor.
No entanto, Pedro deixa evidente que não foi por meio de coisas perecíveis, como prata ou ouro, que fomos redimidos (v.18b). A expressão “fostes redimidos” carrega um significado profundo e transformador. No grego, o termo utilizado é ἐλυτρώθητε, derivado do verbo λυτρόω, que significa resgatar, libertar mediante o pagamento de um preço. Essa palavra era frequentemente usada no contexto da libertação de escravos ou do resgate de prisioneiros, indicando que alguém só podia ser livre quando um valor fosse pago por sua libertação. Ao afirmar isso, o apóstolo destaca que a nossa redenção não pode ser comprada nem alcançada por meios humanos, materiais ou temporários. Tudo aquilo que o homem valoriza neste mundo — riquezas, méritos ou esforços próprios — é incapaz de libertá-lo da escravidão do pecado. Pelo contrário, Pedro aponta para algo infinitamente superior e eterno: fomos resgatados pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem defeito e sem mácula.
Portanto, a redenção cristã não está fundamentada em valores passageiros, mas em uma obra perfeita e eterna. Essa redenção diz respeito à libertação de uma “maneira vazia de viver” (v.18c). Antes, a vida era guiada por valores passageiros e sem sentido espiritual; agora, por meio da redenção, há uma nova realidade, uma nova direção e um novo propósito.Aqueles que foram redimidos já não pertencem à antiga vida, mas vivem sob uma nova realidade, pertencendo a Deus e sendo chamados a refletir essa nova condição em sua maneira de viver. Isso significa que fomos comprados por um preço tão alto que não precisamos mais permanecer presos às limitações ou à falta de propósito das gerações que nos precederam.
Enquanto os metais preciosos são descritos como perecíveis e corrosíveis, o sacrifício de Cristo é apresentado como eterno e de valor intrínseco infinito: “mas pelo precioso sangue, como de um cordeiro sem defeito e sem mácula,o sangue de Cristo"(v.19). Pedro utiliza o adjetivo "precioso" (τίμιος) para descrever o sangue de Cristo, elevando-o a uma categoria de valor que o ouro e a prata jamais poderiam alcançar. Esta "preciosidade" não é apenas estética ou sentimental; é uma declaração de que somente o que é perfeito pode pagar a dívida do imperfeito.Para fundamentar essa afirmação, Pedro recorre à rica simbologia do Antigo Testamento ao identificar Cristo como um "cordeiro sem defeito e sem mancha". Esta é uma referência direta às exigências do sistema sacrificial levítico e, mais especificamente, ao cordeiro da Páscoa (Êxodo 12). Na tradição judaica, o animal oferecido em sacrifício deveria ser examinado minuciosamente; qualquer imperfeição física o tornaria inválido. Ao aplicar esses termos (ἀμώμου e ἀσπίλου) a Jesus, Pedro está afirmando que Cristo era perfeito e totalmente sem pecado. Ele não foi apenas alguém que morreu por uma causa, como um mártir, mas a oferta perfeita diante de Deus. Sua vida não carregava a marca do pecado nem qualquer falha de desobediência, sendo o único plenamente puro e santo, apto para realizar a redenção.
O fato de Pedro mencionar o “sangue de Cristo” traz um sentido teológico profundo na revelação biblica.Não se trata meramente de um elemento físico ou simbólico isolado, mas da entrega consciente, voluntária e sacrificial de Cristo. Nesse sentido, a morte de Cristo não pode ser reduzida a um sofrimento corporal, por mais intenso que tenha sido. Trata-se de um ato de amor redentor, no qual a justiça de Deus é satisfeita e a graça é plenamente manifestada. Quem é redimido pelo sangue de Cristo passa a viver em liberdade diante de Deus, reconciliado, restaurado e agora capacitado a viver para Ele. É uma mudança de posição e de identidade: de escravo da futilidade para filho amado, de condenado para justificado.Portanto, o sangue de Cristo deve ser compreendido como o centro da obra redentora: é vida entregue, é preço pago, é justiça satisfeita e é liberdade conquistada. Nele, vemos não apenas o custo da redenção, mas também a profundidade do amor divino que se doa completamente para resgatar o ser humano e conduzi-lo a uma nova vida.
A profundidade da redenção descrita por Pedro atinge seu ápice no versículo 20.Ela é conhecida na eternidade como um plano estabelecido antes mesmo da fundação do mundo, conforme o apóstolo afirma : "conhecido, com efeito, antes da fundação do mundo, porém manifestado no fim dos tempos por amor de vós." O termo grego traduzido por “conhecido” é προγινώσκω. Embora sua tradução literal seja 'conhecer de antemão', o sentido semântico no Novo Testamento é muito mais profundo do que a simples presciência intelectual: significa que antes mesmo que do universo fosse criado, o "Cordeiro" já estava destinado ao sacrifício.Isso mostra que a redenção não foi algo improvisado, mas um plano de amor de Deus, decidido desde a eternidade. O propósito de nos salvar já existia antes mesmo da criação do mundo. Esse plano atravessou o tempo e se cumpriu quando Cristo veio ao mundo, sendo revelado no fim dos tempos e dando início à fase final da história da salvação.
O plano que atravessou os séculos e o sacrifício que custou o “sangue precioso” tinham um destinatário específico: “por amor de vós”. Pedro deseja que seus leitores — que viviam como estrangeiros e exilados, muitas vezes se sentindo pequenos, deslocados e sem importância diante do poder do Império Romano — compreendessem o seu verdadeiro valor diante de Deus. Eles não eram esquecidos, nem insignificantes. Ao contrário, eram o alvo de um amor eterno, cuidadosamente incluídos em um plano traçado antes mesmo da criação do mundo. Isso significa que suas vidas não eram determinadas pelas circunstâncias difíceis que enfrentavam, mas pelo propósito soberano de Deus que os havia escolhido e amado desde a eternidade.Essa verdade traz consolo e identidade: eles não pertenciam, em última instância, àquele mundo hostil, mas ao Deus que os resgatou por meio do sacrifício de Cristo. Assim, Pedro fortalece seus leitores, lembrando-os de que são profundamente amados e eternamente seguros nas mãos de Deus.
Pedro encerra este ciclo teológico sobre a redenção, conectando o sacrifício de Cristo à nossa capacidade de crer e esperar em Deus:"Por meio dele vocês creem em Deus, que o ressuscitou dos mortos e o glorificou, de modo que a fé e a esperança de vocês estejam em Deus." (v.21).. Ao declarar que é "por meio de Cristo" que cremos em Deus, o apóstolo posiciona Jesus como o mediador indispensável, aquele que não apenas revela o Pai, mas viabiliza a própria capacidade humana de exercer fé. Essa fé, entretanto, não repousa sobre um Cristo derrotado ou apenas sobre uma memória histórica, mas sobre o Cristo que Deus "ressuscitou dos mortos e glorificou". A ressurreição funciona aqui como a validação divina do sacrifício vicário descrito nos versículos anteriores; é a prova de que o preço do resgate foi aceito e que a morte foi vencida.
O resultado de tudo isso é uma transformação completa na vida do cristão: “a fé e a esperança passam a estar em Deus”. Isso quer dizer que o centro da vida muda. Antes, a confiança estava em si mesmo, nas circunstâncias, nos bens ou nas pessoas; a segurança se apoiava em coisas passageiras e em heranças temporais. Agora, porém, a confiança está em Deus. A fé deixa de ser algo superficial e passa a ser uma confiança verdadeira e constante no Senhor no dia a dia. Da mesma forma, a esperança cristã deixa de ser um desejo incerto e se torna uma certeza firme, baseada na vitória de Cristo e na fidelidade de Deus em cumprir suas promessas.
Consciente do alto preço que foi pago e do plano eterno realizado em seu favor, o peregrino passa a viver com uma nova identidade. Sua confiança já não está no que possui ou no que recebeu de seus antepassados, mas naquele que o chamou das trevas para a sua maravilhosa luz.Essa transformação se reflete na maneira de viver: o peregrino enfrenta as dificuldades com mais paz, pois sabe que Deus está no controle. Suas decisões passam a ser guiadas pela vontade de Deus, e não apenas pelos próprios interesses. O coração encontra descanso, porque já não depende de coisas passageiras. Assim, viver com a fé e a esperança em Deus é viver com segurança e direção.Em resumo, todo o processo da redenção — o sacrifício de Cristo, o plano eterno e sua revelação — tem um objetivo claro: levar o ser humano a colocar sua fé e sua esperança não em coisas que passam, mas firmemente em Deus.
Após estabelecer a base teológica da redenção (o preço, o plano e a ressurreição), Pedro agora aponta para a consequência ética imediata: a pureza e o amor fraternal.Ele afirma: "Agora que vocês purificaram as suas vidas pela obediência à verdade, visando ao amor fraternal sincero, amem-se profundamente uns aos outros, de todo o coração." (v.22).A expressão “Agora que vocês purificaram as suas vidas pela obediência à verdade” destaca uma transformação espiritual profunda que já ocorreu na vida dos cristãos. O verbo “purificar” indica um processo de limpeza interior, não apenas externa ou ritual, mas moral e espiritual. Trata-se de uma purificação que alcança o coração, os pensamentos e as intenções.Essa purificação está diretamente ligada à “obediência à verdade”. Aqui, a verdade não é apenas um conceito abstrato, mas a própria mensagem do evangelho — a revelação de Deus em Cristo. Obedecer à verdade significa mais do que conhecê-la intelectualmente; implica acolhê-la com fé e viver de acordo com ela. É uma resposta prática à Palavra de Deus, que conduz à transformação do caráter.
O apóstolo Pedro ensina que a verdadeira vida cristã tem início quando a pessoa se submete à verdade revelada por Deus. À medida que o crente se entrega à Palavra, o Espírito Santo realiza uma transformação interior, purificando o coração e formando um caráter que expressa a santidade divina.O objetivo prático e imediato dessa transformação interior é o amor fraternal .A expressão “visando ao amor fraternal sincero” coroa esse ensinamento, indicando que o amor cristão deve ser exercido com intensidade e resiliência. O termo “fraternal” aponta para um amor de família, marcado por vínculo, cuidado e compromisso, enquanto “sincero” indica ausência de hipocrisia — um amor verdadeiro, sem máscaras ou interesses ocultos.
Quando o texto ordena: “amem-se profundamente uns aos outros”, ele intensifica ainda mais essa ideia. O uso do termo ἐκτενῶς (profundamente) sugere um amor que se estica para alcançar o outro, suportando as tensões e os desafios da convivência comunitária. É um advérbio de intensidade derivado do adjetivo ἐκτενής, que literalmente significa "esticado" ou "estendido".Frequentemente traduzido em Português como "ardentemente", "fervorosamente", "zelosamente" ou "com toda a força". Pedro, sugere um amor que não é passivo, mas que exige esforço e expansão da própria capacidade de entrega; um amor constante, perseverante e até sacrificial. Não se trata de um sentimento superficial ou condicionado às circunstâncias, mas de uma decisão firme de buscar o bem do outro, mesmo quando isso exige renúncia.Por fim, a expressão “de todo o coração” reforça a totalidade desse amor. Não pode ser parcial, frio ou meramente formal; deve brotar do interior, de um coração transformado por Deus. É um amor que envolve vontade, emoções e atitudes, refletindo a obra do Espírito na vida do cristão.Assim, o apóstolo mostra que a marca visível de uma vida purificada pela verdade é o amor genuíno e intenso entre os irmãos. Onde há obediência ao evangelho, haverá também um amor vivo, profundo e sincero.
Pedro fecha o raciocínio mostrando a obra completa de Deus em nós: fomos resgatados de um passado vazio (v. 18), comprados por um preço altíssimo (v. 19), conhecidos desde a eternidade (v. 20) e alcançados pela nova esperança por meio da ressurreição (v. 21). Tudo isso tem um propósito claro: transformar a nossa maneira de viver. O resultado dessa obra é uma vida marcada pelo amor verdadeiro, um amor que se doa e reflete o próprio caráter de Deus. Assim, a evidência prática de que alguém entendeu, de fato, o significado da cruz não está apenas no que diz, mas na forma como vive. É na sinceridade e na intensidade do amor pelos irmãos que se revela a profundidade dessa compreensão.
Pedro explica de onde vem essa nova capacidade de amar e viver com pureza. Ele liga a mudança de vida à origem dessa nova existência: “Pois vocês foram regenerados, não de uma semente perecível, mas imperecível, por meio da palavra de Deus, viva e permanente” (v.23).Ao usar a ideia de “regenerados”, Pedro fala de um novo nascimento, uma obra do próprio Deus que dá uma nova vida ao ser humano. Não se trata apenas de uma melhora de comportamento, mas de uma transformação profunda, que começa no interior.Ele também deixa claro que esse novo nascimento não vem da origem humana, nem de esforço pessoal ou mérito próprio. Não nasce daquilo que é passageiro. Por isso ele, diz que não é de “semente perecível”.Essa “semente perecível” representa tudo o que pertence a este mundo — aquilo que é limitado, sujeito ao tempo, à corrupção e ao fim.
Em contraste, a nova vida que Deus concede vem de uma “semente imperecível”, ou seja, tem origem divina, é duradoura e não se desfaz com o tempo. Essa “semente imperecível” acontece “por meio da palavra de Deus, viva e permanente”. A Palavra não é estática nem meramente informativa; ela é viva, pois carrega o poder do próprio Deus, e é permanente, pois não está sujeita ao desgaste ou à mudança. Quando essa Palavra é recebida com fé, ela gera vida no interior do ser humano.Assim, a nova vida do cristão é gerada por algo que não se corrompe: a Palavra viva e eterna de Deus. Isso significa que a regeneração não é frágil ou temporária, mas firme e duradoura, sustentada pelo próprio poder de Deus.
Pedro agora deixa a linguagem mais técnica e passa a usar uma imagem poética para mostrar como a vida sem Deus é passageira. Ele cita o Antigo Testamento (Isaías 40.6-8) para reforçar a sua ideia: “Pois toda a humanidade é como a erva, e toda a sua glória como a flor do campo; a erva murcha e a flor cai” (v. 24).Ao comparar as pessoas com a erva e sua glória com a flor, Pedro mostra claramente a diferença entre o que é humano e passageiro e o que vem de Deus é permanente. Tudo aquilo que o homem valoriza — beleza, poder, origem familiar, tradições — é frágil e temporário. Assim como a erva seca e a flor cai, também tudo o que vem desta vida tem fim.Essa imagem não serve apenas para lembrar que a vida é curta, mas também para mostrar a necessidade da redenção. Se tudo o que é humano passa tão rápido, então colocar a esperança nessas coisas é inútil. Por isso, Pedro prepara o cristão para uma verdade maior: enquanto a vida humana e tudo o que ela oferece desaparece, há algo que permanece para sempre. O cristão, então, é chamado a não firmar sua vida nas coisas passageiras, mas naquilo que é eterno — na obra de Deus que o resgatou. Assim, sua esperança deixa de estar nas conquistas deste mundo e passa a estar na herança eterna garantida por Cristo.
Pedro encerra de forma marcante o primeiro capítulo da epístola, reforçando o contraste entre a fragilidade humana e a eternidade de Deus, e trazendo essa verdade para a realidade do leitor: “Mas a palavra do Senhor permanece para sempre. E esta é a palavra que lhes foi anunciada” (v. 25). Com isso, o apóstolo mostra que a Palavra do Senhor é firme e imutável, diferente de tudo o que é passageiro. Depois de afirmar que a glória humana é como a flor que logo desaparece, Pedro apresenta o Evangelho não apenas como uma mensagem religiosa, mas como algo eterno, que permanece acima do tempo, das circunstâncias e até dos impérios.Quando ele diz que essa Palavra “permanece para sempre”, está dando uma garantia: o resgate realizado por Cristo e a nova vida recebida não são algo temporário ou incerto, mas uma realidade segura, baseada no próprio caráter de Deus.
Ao concluir dizendo “esta é a palavra que lhes foi anunciada”, Pedro aproxima essa verdade da vida prática dos seus leitores. Ele mostra que o Evangelho que eles ouviram não é algo comum, mas a própria Palavra eterna de Deus, a mesma que foi anunciada desde os tempos antigos. Sendo assim, tudo se completa: fomos libertos de uma vida vazia, porque agora estamos firmados em algo que nunca passa. A santidade, o amor sincero e a esperança viva deixam de ser apenas ideias e se tornam o resultado natural de uma vida transformada por Deus. O cristão, sabendo que sua herança é eterna e sua esperança é segura, pode viver com confiança, mesmo em meio às incertezas, certo de que sua vida está guardada em Deus.
Portanto, vivamos como quem foi verdadeiramente transformado: com temor diante de Deus, com santidade no viver e com amor no relacionamento. Que a nossa vida revele, de forma clara, que pertencemos a Ele — hoje, durante nossa peregrinação, e por toda a eternidade.Amém.
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