segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

TEXTO: Sl 2.6-12

TEMA: O REI REVELADO EM GLÓRIA E O CHAMADO À OBEDIÊNCIA

Estimados irmãos, que a paz do nosso Senhor Jesus Cristo esteja com cada um de vocês! Hoje, a Igreja celebra com alegria a festa da Transfiguração do Senhor. Esta celebração, que remonta ao século V no Oriente, percorreu a história da cristandade em diferentes datas até que o Papa Calisto III a elevasse à dignidade de festa da Igreja Cristã.  Por isso, convido todos a abrirem suas Bíblias no Salmo 2, versículos de 6 a 12. Vamos refletir sobre um tema central para nossa caminhada de fé: o Rei revelado em glória e o chamado à obediência.

O Salmo nos ajuda a compreender a profundidade da promessa sobre a vinda do Ungido, uma promessa que não ficou retida nas páginas do Antigo Testamento, mas que se manifestou de forma resplandecente e viva no monte da Transfiguração. O que o salmista proclamou — “Tu és meu Filho” — é visivelmente confirmado quando a glória velada de Cristo irrompe, antecipando o Reino que virá em plenitude. Assim, a Transfiguração não é um evento isolado, mas o cumprimento  revelador da promessa do Salmo, unindo profecia e realização, esperança e certeza, expectativa e manifestação.

Muitos séculos depois da escrita deste Salmo, Jesus conduz Seus discípulos para longe da agitação de Jerusalém, subindo a um 'alto monte'. Ali, em um território isolado e sagrado, a glória celestial desce. Quando dizemos que a glória celestial desce, estamos afirmando que o próprio esplendor de Deus — aquele que os olhos humanos, por si só, não poderiam suportar — repousou sobre Cristo. Não foi Jesus quem subiu para alcançar a glória; foi a glória do Pai que desceu para abraçar o Filho, revelando que n’Ele habita, corporalmente, toda a plenitude da divindade.

No alto deste novo monte — não mais o Sião geográfico, mas o da Transfiguração — Deus novamente fala. Agora, Suas palavras não descrevem apenas um rei futuro, mas revelam o Filho presente. Nesse momento, Cristo antecipou a Sua glória àqueles que Ele havia escolhido para continuar Sua missão salvífica. Ao manifestar-se dessa forma, Ele provou aos discípulos que não era apenas um mestre, mas verdadeiramente o Filho de Deus, enviado pelo Pai e coroado com a luz da eternidade. Por isso, Ele lhes mostra a glória antes da agonia. Permite ver o Rei coroado de luz para que, quando O vissem coroado de espinhos, pudessem recordar que o sofrimento era um passo necessário para a Sua exaltação final.

A temática de hoje nos apresenta quatro pontos fundamentais que aprofundam nossa reflexão sobre a glória e o sacrifício do Rei:

Primeiro , o Rei é estabelecido por Deus em glória (v.6).A autoridade de Cristo não depende de homens, mas do decreto inabalável do Pai, que o estabeleceu sobre o seu santo monte. Essa soberania traz consolo, pois revela que o mundo e nossas vidas não estão à mercê do caos, mas sob o governo d’Aquele que foi coroado em glória. Reconhecer esse reinado divino é o fundamento da nossa adoração. Somente ao contemplarmos a sua majestade somos movidos à entrega total ao seu domínio.

Segundo, o  Rei é revelado como Filho e herdeiro.( vv. 7–9).Jesus é o Filho eterno, cuja divindade foi ratificada pelo Pai no Salmo 2 e na Transfiguração. Ao apresentá-lo como herdeiro de toda a realidade, Deus confirma que seu governo supera a Lei e os Profetas, exercendo uma autoridade justa e inabalável sobre as nações. Diante de tamanha glória, Cristo não pede apenas admiração, mas exige total lealdade. Ele é o único digno de governar soberanamente tanto o destino dos povos quanto os nossos corações.

Terceiro,  o chamado à obediência é urgente (vv. 10–11).A glória de Cristo exige a sabedoria da submissão, unindo o temor reverente à santidade com a alegria de tê-lo como Salvador. Ser sábio, portanto, não é apenas acumular conhecimento, mas alinhar a própria vontade à ordem do Pai: “A ele ouvi”. Assim como os discípulos desceram do monte para a missão, nossa conduta deve ser transformada pela luz que contemplamos. Refugiar-se na autoridade do Filho é o ato supremo de quem compreende que o Rei glorioso é o único SENHOR do seu destino.

Quarto, a decisão final diante do Rei. (v.12). O imperativo “Beijai o Filho” sela uma aliança de honra e reconhece Jesus como soberano absoluto, não apenas como um mestre. Diante d’Ele, há apenas duas respostas: a ruína para os rebeldes ou a bem-aventurança para aqueles que n’Ele se refugiam. A Transfiguração revela que a mesma glória que intimida a rebeldia é a que protege o coração do crente. Ao nos submetermos a Cristo, transformamos o temor do juízo na segurança de estarmos sob o cuidado do Rei vitorioso.

Estimados irmãso! Durante séculos, Israel viveu sob a expectativa de um libertador militar. O cenário era de opressão. Diante desta triste realidade, o povo esperava um novo Davi — um guerreiro que marcharia sobre Sião para restaurar a soberania nacional e expulsar os inimigos pela força.

No entanto, o projeto puramente político não alcançou seu objetivo, pois Deus tinha outros planos. Não seria um rei político a governar Jerusalém. Ele seria diferente dos monarcas eleitos pelo povo ou através de sucessão. Deus não enviou um general para conquistar territórios, mas um Rei para conquistar a eternidade. Para corrigir essa visão limitada, o SENHOR conduziu o Seu povo a um alto monte, revelando que o Rei de Sião é Aquele que ilumina as trevas e governa sobre a própria eternidade: “Eu, porém, constituí o meu Rei sobre Sião, o meu santo monte” (v.6).  Ele haveria de נָסַךְ (constituir), ou seja, derramar, consagrar solenemente o Messias, como Rei.  Governaria “sobre o meu santo Monte em Sião”, diz o SENHOR. Sião é outro nome para Jerusalém, ou seja, o SENHOR colocaria seu Rei em seu trono na “colina sagrada de Sião” (Jerusalém). Sede da teocracia, ou a residência de Deus, o lugar onde o povo deveria adorá-lo. (Jo 4.20).

No topo daquele monte,  o salmista descreve sobre um decreto profético que torna-se uma realidade: “Proclamarei o decreto do Senhor.” (v.7a). O verbo סָפַר (proclamar) significa contar, declarar, relatar. Este verbo traz uma declaração que o Ungido proclama a razão pela qual  o SENHOR havia decidido estabelecer o seu Filho como rei em  Sião. E o termo חֹק (decreto) significa apropriadamente algo decretado, prescrito, nomeado, estatuto. Este termo carrega um significado importante na cultura hebraica. Trata-se de um dos sinônimos de Torah: o ensino por excelência. Assim, o decreto estabelece que o Ungido viria ao mundo para que todos os povos e nações fossem salvos e reconciliados com Deus, e que voltará para estabelecer o Seu reino por toda a eternidade.

O fundamento dessa autoridade reside no relacionamento íntimo entre o Pai e o Filho: "Tu és meu Filho, eu hoje te gerei" (v.7b).A expressão "Tu és meu Filho" traz uma declaração que implica eternidade e perfeição. Representa, também, Sua posição de autoridade e poder manifestada por Sua ressurreição (At 13.30-33) e ascensão. A autoridade de Jesus não provém de força política ou conquista militar, mas de Sua identidade eterna. Quando o mundo parece mergulhado no caos e as "nações se enfurecem", nossa paz reside no fato de que o Rei do Universo é o Filho amado do Pai. Esse "Filho gerado" e "Ungido" é Aquele que possui a autoridade, a força e a legitimidade para governar o mundo. Deus "gerou" Jesus no sentido de que o Filho foi coroado Rei  e estabelecido acima de todos. É a declaração da identidade eterna de Cristo, manifestada plenamente em Sua ressurreição e ascensão. Ele é o esplendor da glória do Senhor, o herdeiro legítimo que possui a força e a santidade necessárias para governar o mundo.

A magnitude desse Rei é revelada no convite do Pai: "Pede-me, e eu te darei as nações por herança" (v.8a). A herança de Jesus é ser rei sobre todas as nações. Ele é ,em primeiro lugar, Rei de Israel, mas também Rei de toda a terra. Todas as nações do mundo pertencem a ele, e é o único digno de governar sobre todas elas. Todas as nações irão honrar e amar Jesus com sua obediência e de maneira prática o servirão para que todos os seus planos para as nações sejam realizados. Ele estabelecerá Seu domínio em todas as esferas da sociedade. A Ele pertencem todas as coisas, as pessoas, a terra e toda sua estrutura natural e material: “e as extremidades da terra por possessão.” (v.8b). Possessão que dizer terra, propriedade.

O Ungindo afirma também que receberá  do SENHOR a missão de governar com força: “Com vara de ferro as regerás e as despedaçaras com um vaso de oleiro.”(v.9). Ele governaria “com vara de ferro.” Esta expressão representa o cetro da realeza, o ferro simboliza a força. Evidentemente, não é o emblema do poder soberano, mas um instrumento de correção e punição. E os verbos רָעַע (reger),  que significa ser ruim, quebrar e נָפַץ (despedaçar) esmagar, quebrar em pedaços, caracterizam bem sua postura de governo. A esta tipologia, deve ser acrescentada ainda os termos usados nos versos 4: “O Senhor ri e zomba deles”. E ainda no verso 5: “A ira e o furor do Senhor.” Portanto,  aqueles que não fizerem a vontade de Deus serão destruídos, pois seu governo será absoluto. Mesmo sabendo que Jesus é o Messias, o Cristo escolhido por Deus, muitas pessoas ainda optam por se rebelar e negar sua autoridade. Isso nos desafia a estarmos sempre vigilantes, para que não caiamos na tentação de rejeitar Jesus como nosso Salvador.

Depois desta visão profética, o salmista retoma à palavra   e exorta os reis da terra e seus súditos a se submeterem a Deus. Ele dá três conselhos. Primeiro: “Agora, ó reis, sede prudentes deixai-vos advertir, juízes da terra.” (v.10). Deus oferece uma oportunidade de mudança  para que voltem à sabedoria, pois seus comportamentos atuais só trarão ira e condenação. Ele ordena que todos os homens sejam sábios e compreendam que Ele é o único Deus verdadeiro e que o seu Filho é o SENHOR e Salvador. Ser prudente é uma pessoa capaz de evitar perigos desnecessários, agindo de modo cauteloso, sensato e com paciência. Via de regra, é ponderado e calmo. Este deveria ser o procedimento dos reis, porque geralmente os reis não se preocupam com prudência diante dos súditos. Até mesmo aqueles que tinham cargos administrativo (juízos) deveriam ser advertidos. Davi orgulhava-se de que seu reino, ainda que despojado por uma multidão de inimigos, seu reino estava protegido pela mão e poder de Deus. Ele ainda acrescenta que seus inimigos viriam o reino do SENHOR se estendendo até os confins da terra. Neste sentido, ele exorta a todos os reis, aos governantes a despirem-se de seu orgulho e a receberem, com mentes submissas, o jugo que Deus impôs.

Segundo conselho: “servi ao SENHOR, com temor” (v.11). Parece ousadia o salmista mandar aquele tipo de gente rebelde, hostil, servir a Deus. Mas independente de seu estado, Deus chama as nações para se curvar diante do seu Filho e proclamar a sua santidade. Deus também nos chama a adorá-lo com temor, reconhecendo sua majestade e santidade, um momento que deve ser realizado num clima de alegria e obediência ao SENHOR.

Terceiro conselho: “Beijai o Filho, para que não se irrite e pereçais no caminho.”(v.12). Neste versículo há a necessidade de analisar alguns termos. Então, vejamos:  a expressão  נָשַׁק בַּר no Hebraico traduzida como “beijai o filho,” é uma palavra diferente   para “Filho” daquela empregada no verso 7. Aqui é usado o termo בַּר que significa filho, herdeiro. E o verbo נָשַׁק (beijar) literalmente significa “tocar levemente”. O uso desse verbo, refere-se a um costume antigo de beijar pés e mãos dos reis como forma de mostrar reverência, uma prestação de homenagem. Nos tempos bíblicos, o ato de beijar — fosse tocar os lábios de outrem (Pv 24.26), a face, ou, em casos excepcionais, até mesmo os pés (Lc 7.37-45) — servia como um profundo sinal de afeto ou respeito. O beijo era um gesto que expressava afeição, amor, lealdade e lamento entre pessoas próximas. Essas demonstrações ocorriam no círculo familiar, na adoração, na devoção religiosa e na intimidade entre cônjuges. Contudo, a história bíblica também revela o uso desse gesto para propósitos sombrios, como o selo de uma traição.

Diante do que foi exposto, entende-se que a expressão “beijai o filho,” significa prestar tributo, prestar homenagem, saudar o rei da maneira costumeira (1 Sam. 10.1). Sendo assim, todos os reis e povos são convidados a prestar homenagem ao Ungido. Mas quando havia certa omissão, isto causava  insulto ao rei, naturalmente o irritava. (Et. 3.5).Também somo convidados a prestar  tributo ao SENHOR por tudo que o Ele tem feito e ainda irá realizar.Tributar por causa da sua grandeza, majestade e glória, porque Ele é o Deus Santo, Imutável, Criador dos céus e da terra e de tudo que nele há (Sl 24).

Neste sentido, o salmista mostra que todos os reis e povos  recebem duas opções:  primeiro uma advertência: “Por que dentro em pouco se lhe inflamará a ira." (v.12a). Literalmente significa: "Porque a sua ira pode se inflamar rapidamente.” Quando reis e governantes não demonstrarem lealdade a Jesus Cristo, o Filho de Deus, a ira do SENHOR se acenderá. A justiça de Deus não deixará a pecaminosidade humana impune. Dentro de pouco tempo a ira do SENHOR se ascenderá  para aqueles que se recusarem a prestar homenagem ao Ungido. Isto será quando o dia do juízo de Deus chegar. Então, ninguém poderá escapar (Apocalipse 6.16,17). Segundo, há uma promessa de bênção para os que optarem em obedecer e submeter ao Filho: “Bem-aventurados todos os que nele se refugiam.”(v.12b). Aqueles que creem no Filho são “bem-aventurados”, porque não serão consumidos  pela  ira  do  Filho,  antes,  Nele  encontrarão refúgio. Refúgio é um ‘abrigo’, um lugar de segurança e  proteção no Ungido. Ele é o  refúgio em quem o salmista confia.

Por fim, o texto destaca que a glória do Rei,  resplandeceu no monte, atingiu o seu ápice na cruz. Foi no madeiro, em meio à dor, à humilhação e ao silêncio, que Sua majestade se revelou: o amor que se entrega, a obediência plena e o poder que triunfa não pela força, mas pelo sacrifício. No Calvário, o Rei foi coroado não com ouro, mas com espinhos; e ali, paradoxalmente, Sua glória resplandeceu para sempre. Ele padeceu para nos conduzir a um Reino onde a Sua luz jamais se apagará.

Que a luz da Transfiguração não seja apenas um registro histórico, mas uma realidade viva que nos guia do altar para o mundo. Caminhamos sob a proteção daquele que venceu a morte e hoje reina soberano. Sejamos, pois, movidos a render toda glória, honra e louvor ao Ungido do Senhor, reconhecendo seu domínio sobre nossas vidas. Amém!


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