TEXTO: Sl 119.57-64
TEMA: O SENHOR É A MINHA HERANÇA
Queridos irmãos em Cristo!Vivemos em um mundo que valoriza muito as heranças e os bens materiais. Muitas pessoas dedicam grande parte de suas vidas à busca de segurança financeira, patrimônio e estabilidade para o futuro. Depositam sua confiança no tamanho da conta bancária, no cargo que ocupam, nos bens que possuem ou no status social. Afinal, possuir uma boa herança parece garantir tranquilidade e proteção diante das incertezas da vida.
No entanto, a realidade nos mostra que todas as riquezas deste mundo são temporárias. Bens podem ser perdidos, economias podem desaparecer, e tudo aquilo que consideramos seguro pode mudar de um momento para outro. Por isso, surge uma pergunta importante: Onde está a nossa verdadeira segurança? Qual é a herança que jamais poderá ser tirada de nós?
O salmista nos apresenta uma fonte de segurança completamente diferente. Ele responde a essa pergunta com uma bela confissão de fé: "O SENHOR é a minha porção" (v. 57). Com essas palavras, declara que sua maior riqueza não está nas coisas deste mundo, mas no próprio Deus. O SENHOR é o seu tesouro, a sua segurança e a sua esperança.
Essa mesma verdade continua sendo fonte de consolo e fortalecimento para nós hoje. Em Cristo, Deus se tornou a nossa herança eterna, o bem mais precioso que possuímos. Por isso, à luz de Salmo 119.57-64, queremos refletir sobre o tema: O SENHOR é a minha herança.
A partir dessa confissão de fé, o salmista nos apresenta quatro características daquele que reconhece o SENHOR como a sua verdadeira herança.
Primeiro lugar, a resolução de obedecer (vv. 57-58). Ao declarar: “O SENHOR é a minha porção”, o salmista reconhece que Deus é o seu maior tesouro e, por isso, toma uma firme decisão: obedecer à sua Palavra. Sua obediência não nasce do medo ou da obrigação, mas da gratidão e da confiança no SENHOR. Ele busca viver de acordo com os mandamentos divinos porque sabe que neles encontra direção e vida. Em seguida, o salmista afirma que suplica de todo o coração pelo favor de Deus, demonstrando que depende inteiramente da sua graça. Sua confiança não está em seus próprios méritos, mas na misericórdia do SENHOR, conforme a promessa da sua Palavra. Assim, quem tem Deus como herança deseja viver em obediência, sustentado pela graça e guiado pela vontade do SENHOR.
Em segundo lugar, o salmista apressa-se em praticar a Palavra de Deus. (vv. 59-60).O salmista examina cuidadosamente os seus caminhos e, ao reconhecer a vontade de Deus, volta os seus passos para os seus testemunhos. Esse arrependimento é acompanhado de uma decisão prática e imediata. Por isso, ele afirma: “Apresso-me e não me detenho em guardar os teus mandamentos.” Não há espaço para desculpas nem para adiamentos quando a Palavra revela o caminho correto. A verdadeira fé produz prontidão para obedecer ao SENHOR. Também nós somos chamados a ouvir a voz de Deus, abandonar o pecado e seguir a sua vontade sem demora. Quem reconhece o SENHOR como sua herança responde com alegria e diligência ao chamado da sua Palavra.
Terceiro lugar, a firmeza em meio às crises (vv. 61-62). O salmista reconhece que enfrenta oposição e sofrimento ao afirmar: “Laços de perversos me enleiam; contudo, não me esqueço da tua lei.” Mesmo cercado por dificuldades e pela maldade dos ímpios, ele permanece fiel à Palavra de Deus. As provações não enfraquecem sua confiança, mas o levam a depender ainda mais do SENHOR. Em vez de ceder ao desânimo ou ao medo, ele se levanta à meia-noite para louvar a Deus por causa dos seus justos juízos. Assim, a adoração torna-se expressão de uma fé perseverante. Também nós encontramos força para enfrentar as crises quando permanecemos firmados na Palavra e confiamos na fidelidade do SENHOR.
Quarto lugar, a escolha das companhias e o olhar de fé (vv. 63-64).O salmista declara: “Companheiro sou de todos os que te temem e dos que guardam os teus preceitos.” Essa afirmação revela que a fé também influencia nossas amizades e relacionamentos. Aqueles que amam a Deus fortalecem uns aos outros na caminhada cristã e encorajam a perseverança na Palavra. Em seguida, o salmista amplia o seu olhar ao reconhecer que “a terra está cheia da bondade do SENHOR”. Mesmo em um mundo marcado pelo pecado, ele contempla os sinais da graça e da fidelidade divinas. Por isso, pede que Deus continue a ensiná-lo os seus estatutos. Quem tem o SENHOR como herança busca a comunhão dos irmãos na fé e aprende a enxergar a vida à luz da bondade de Deus.
O coração humano busca segurança nas coisas passageiras.Desde a queda em pecado, o ser humano procura segurança em si mesmo e nas coisas deste mundo. Depositamos nossa esperança em nossas capacidades, em nossa inteligência, em nossos recursos financeiros, em nossa saúde, em nossa família ou em nossos planos para o futuro. Quando tudo parece estar sob controle, sentimo-nos seguros. Porém, quando surgem enfermidades, dificuldades financeiras, crises familiares ou incertezas quanto ao amanhã, percebemos quão frágeis são os fundamentos nos quais frequentemente apoiamos nossa vida.
A Palavra de Deus nos ensina que tudo neste mundo é passageiro. As riquezas podem desaparecer, a saúde pode falhar, os projetos podem não se realizar e até mesmo as pessoas que amamos podem ser tiradas de nosso convívio. No entanto, apesar de sabermos disso, continuamos buscando segurança naquilo que é temporário, em vez de confiar plenamente no SENHOR.Deixamos de ouvir seus mandamentos, conhecemos sua vontade, mas frequentemente seguimos nossos próprios caminhos. Em vez de permitir que a Palavra dirija nossa vida, queremos conduzir nossa própria existência. Confiamos mais em nossa razão do que na sabedoria divina e mais em nossas decisões do que nas promessas do SENHOR.
O salmista reconhece essa realidade quando declara: "O SENHOR é a minha porção; eu resolvi guardar as tuas palavras" (v. 57). No Antigo Testamento, a palavra "porção" era usada para indicar a herança que uma pessoa recebia. Enquanto as tribos de Israel receberam terras como herança, os levitas receberam algo ainda maior. O próprio SENHOR lhes disse: "Eu sou a tua porção e a tua herança" (Nm 18.20). O salmista aplica essa verdade à sua própria vida. Ele reconhece que Deus é o seu maior tesouro, a sua verdadeira riqueza e a sua segurança.
Quando alguém compreende essa verdade, de que Deus é a sua maior herança, sua vida muda completamente. Por isso, logo após declarar que o SENHOR é a sua porção, o salmista afirma: "Eu resolvi guardar as tuas palavras." A expressão "guardar as tuas palavras" vai muito além de simplesmente conhecer ou memorizar os mandamentos de Deus. No contexto bíblico, guardar significa preservar, valorizar e colocar em prática aquilo que o SENHOR revelou. É acolher a Palavra no coração e permitir que ela dirija os pensamentos, as decisões e as atitudes da vida. Quem guarda a Palavra não apenas a ouve aos domingos, mas procura vivê-la diariamente. Essa obediência, porém, não nasce do medo do castigo nem da tentativa de conquistar o favor de Deus. Ela é fruto da fé e da gratidão daquele que reconhece a graça recebida em Cristo. Assim, guardar a Palavra é permanecer firme na vontade do SENHOR, confiando em suas promessas e buscando, com o auxílio do Espírito Santo, viver de modo que honre a Deus.
No entanto, salmista reconhece que não consegue viver essa obediência por suas próprias forças. Sabe que essa obediência não nasce de sua própria força. Por isso recorre à graça: “Imploro de todo coração a tua graça; compadece-te de mim,segundo a tua palavra.”(v.58). O verbo no Hebraico חלה, no Piel, significa: suplicar intensamente; rogar humildemente. Ele descreve alguém que reconhece sua total necessidade e busca desesperadamente o favor de outra pessoa. Observe que o salmista implora "de todo o coração". Sua oração não é fria, mecânica ou apenas uma formalidade religiosa. Ela brota de um coração que conhece sua necessidade espiritual. Aqui, encontramos uma profunda humildade. Ele reconhece sua incapacidade. Sabe que seu coração é fraco e que, sozinho, não permanecerá fiel. Por isso, suplica pela misericórdia de Deus.
Além disso, sua súplica está fundamentada na promessa de Deus: "segundo a tua palavra." Essa pequena expressão revela o verdadeiro fundamento da fé do salmista. Ele sabe que não pode apresentar-se diante de Deus confiando em si mesmo. Não tenta convencer o SENHOR apontando suas virtudes, sua dedicação ou sua fidelidade. Sua oração não está baseada em seus méritos, mas na Palavra que Deus falou. Ele sabe que o SENHOR é fiel ao que diz. Se Deus prometeu perdoar, Ele perdoa. Se prometeu sustentar os seus filhos, Ele os sustenta. Se prometeu ouvir aqueles que o invocam, Ele inclina seus ouvidos para eles. A confiança do salmista repousa inteiramente no caráter imutável de Deus, que jamais deixa de cumprir aquilo que prometeu.
Essa é a essência da fé bíblica. A fé não se apoia na intensidade dos nossos sentimentos, nem na qualidade da nossa obediência, mas na firmeza da Palavra de Deus. Enquanto nossos sentimentos mudam e nossas obras são imperfeitas, as promessas do SENHOR permanecem inabaláveis. Como declara o profeta Isaías: "Seca-se a erva, e cai a sua flor, mas a palavra de nosso Deus permanece eternamente" (Is 40.8).Essa verdade encontra seu pleno cumprimento em Jesus Cristo. Todas as promessas de Deus encontram nele o seu "sim" e o seu "amém" (2Co 1.20). Em Cristo, Deus cumpriu sua promessa de enviar o Salvador, de perdoar os pecados e de reconciliar consigo os pecadores. Por isso, quando nos aproximamos de Deus em oração, também não apresentamos nossos méritos. Aproximamo-nos confiando unicamente na promessa do Evangelho: que, por causa da vida, morte e ressurreição de Cristo, nossos pecados foram perdoados e temos livre acesso ao Pai.
Assim, o salmista nos ensina que a verdadeira oração nasce da fé nas promessas divinas. O cristão não bate à porta de Deus esperando encontrar um juiz impiedoso, mas um Pai misericordioso que permanece fiel à sua Palavra. Por isso, mesmo conscientes de nossa indignidade, podemos orar com confiança: "SENHOR, compadece-te de mim, segundo a tua Palavra." Nossa esperança não está naquilo que fazemos por Deus, mas naquilo que Deus prometeu e realizou por nós em Cristo.
Depois de declarar que o SENHOR é a sua porção e renovar seu compromisso de guardar a Palavra de Deus, o salmista descreve como essa decisão se manifesta na prática. A verdadeira fé não permanece apenas nas palavras; ela produz mudança de vida. Por isso, ele escreve: "Considero os meus caminhos e volto os meus passos para os teus testemunhos" (v.59). O salmista, antes de voltar-se para Deus, ele examinou sua própria vida. Olhou para seus caminhos, reconheceu seus desvios e compreendeu sua necessidade de retornar à Palavra do SENHOR.Ele afirma: "Considerei os meus caminhos." O verbo utilizado aqui transmite a ideia de refletir cuidadosamente, fazer um exame sincero da própria caminhada. Antes de apontar os erros dos outros, ele olha para si mesmo. Ele compara sua vida não com os padrões da sociedade, mas com a Palavra de Deus.
Esse exame também precisa acontecer em nossa vida. Quantas vezes nossos pensamentos se afastam de Deus? Quantas vezes nossas palavras ferem o próximo? Quantas vezes nossas ações revelam que confiamos mais em nós mesmos do que no SENHOR? Quantas vezes permitimos que o trabalho, o dinheiro, os prazeres ou as preocupações ocupem o lugar que pertence somente a Deus? A Lei nos chama ao arrependimento porque revela que falhamos justamente no primeiro e maior mandamento: amar e confiar em Deus acima de todas as coisas. Ela nos mostra que não possuímos, por nós mesmos, a confiança perfeita que Deus exige. Diante dele, somos pecadores necessitados de misericórdia.Por isso, a Lei fecha toda porta para a autoconfiança e nos conduz a buscar socorro não em nós mesmos, mas unicamente naquele que pode salvar: nosso Senhor Jesus Cristo. É justamente aqui que o Evangelho começa a brilhar para os pecadores arrependidos.
Ao examinar seu coração, o salmista percebeu que precisava mudar. Por isso declara:"Voltei os meus passos para os teus testemunhos."Aqui encontramos a linguagem do arrependimento. Arrepender-se significa justamente mudar de direção. É abandonar o caminho do pecado para retornar ao caminho de Deus. Não basta reconhecer o erro; é necessário dar meia-volta e seguir novamente os caminhos do SENHOR. Essa mudança de direção não aconteceu lentamente nem foi adiada. O versículo seguinte enfatiza:"Apresso-me e não me detenho em guardar os teus mandamentos" (v.60). Essa é uma das maiores demonstrações de sinceridade espiritual. O salmista não disse: "Quando tiver mais tempo...", "Depois eu resolvo isso...", ou "Um dia vou mudar." Ele compreendeu que a obediência não admite adiamentos.
Foi diferente com Zaqueu, que recebeu Jesus imediatamente em sua casa; com os discípulos, que deixaram suas redes para seguir Cristo; e com o filho pródigo, que, ao reconhecer sua miséria, levantou-se e voltou para o pai. Todos entenderam que, quando Deus chama, a resposta deve ser imediata. Essa prontidão encontra seu fundamento em Cristo. O Senhor Jesus nunca adiou a vontade do Pai. Desde o início do seu ministério até a cruz, sua vida foi marcada pela perfeita obediência. Ele pôde dizer: "A minha comida consiste em fazer a vontade daquele que me enviou" (Jo 4.34). E foi justamente essa obediência perfeita que o levou à cruz, onde pagou pelos nossos pecados. Pelo seu perdão somos restaurados, e pelo poder do Espírito Santo recebemos um novo coração, disposto a caminhar nos seus caminhos.
Quem encontrou em Cristo sua verdadeira herança não deseja permanecer no pecado, mas volta-se imediatamente para o Senhor, confiando não em suas próprias forças, mas na graça daquele que perdoa, restaura e fortalece para uma nova vida de obediência.Essa é a dinâmica da vida cristã. Deus nos chama à obediência, mas nunca nos deixa entregues às nossas próprias forças. Pela ação do Espírito Santo, ele fortalece nossa fé, renova nossa vontade e nos capacita a perseverar em seus caminhos. A obediência cristã, portanto, não é fruto do esforço humano isolado, mas da graça de Deus operando continuamente em nós.
Todos nós precisamos fazer a mesma pergunta que o salmista fez a si mesmo: Como estão os meus caminhos diante de Deus? Há alguma área da minha vida que precisa ser corrigida? Algum pecado que continuo alimentando? Alguma reconciliação que estou adiando? Algum mandamento que conheço, mas ainda não tenho colocado em prática?
Depois de falar sobre sua decisão de obedecer e sua prontidão em praticar a Palavra, o salmista descreve as dificuldades que enfrentava:"Laços de perversos me enleiam; contudo, não me esqueço da tua lei."(v.61). A palavra "laços" retrata cordas, armadilhas ou redes usadas para prender uma presa. A imagem é a de um caçador que estende redes para prender sua presa. O salmista afirma ainda que “laços de perversos me enleiam". O termo “enleiam” significa cercar; envolver; prender. Isto significa que o salmista estava cercado por pessoas que desejavam fazê-lo cair, abandonando sua fé ou comprometendo sua fidelidade ao SENHOR.Essas armadilhas podem assumir diversas formas: falsas acusações, injustiças, perseguições, tentações, intimidações ou qualquer influência que procure afastá-lo da vontade do SENHOR.
Essa realidade alcança seu ápice em Jesus Cristo. Durante todo o seu ministério, Ele foi cercado pelos "laços dos perversos". Os líderes religiosos tramaram contra Ele, falsas testemunhas foram levantadas, Judas o traiu e seus inimigos conspiraram para levá-lo à cruz. Contudo, em nenhum momento Cristo abandonou a vontade do Pai. Permaneceu perfeitamente obediente até a morte, cumprindo toda a Lei em nosso lugar. Por causa de sua fidelidade, hoje temos perdão para nossas falhas e força para permanecer firmes quando também enfrentamos as armadilhas do mundo.
Isso não significa que os problemas do salmista desapareceram. Os inimigos continuavam existindo. As armadilhas permaneciam ao seu redor. Ainda assim, sua adoração não dependia das circunstâncias, mas do caráter de Deus e da certeza de que seus juízos são retos e perfeitos.
Depois de afirmar que os laços dos ímpios o cercavam (v. 61), o salmista surpreende o leitor ao declarar que, em vez de ceder ao medo ou ao desânimo, levanta-se durante a noite para louvar ao SENHOR. Isto significa que sua comunhão com Deus era mais forte do que as dificuldades que enfrentava. Ele afirma: “Levanto-me à meia noite para te dar graças,por causa dos teus retos juízos” (v.62).A expressão "à meia-noite" não deve ser entendida apenas como uma referência cronológica. Na Bíblia, a meia-noite frequentemente simboliza o momento mais profundo da escuridão, quando o silêncio domina, o corpo está cansado e as preocupações costumam pesar mais intensamente sobre o coração. É justamente nesse cenário que o salmista decide interromper seu descanso para adorar a Deus.
Todos nós enfrentaremos momentos de "meia-noite" em nossa caminhada. Haverá dias marcados por enfermidades, perdas, perseguições, crises familiares, dificuldades financeiras, decepções e profundas angústias espirituais. Ninguém está isento dessas experiências, pois vivemos em um mundo marcado pelo pecado e suas consequências. Jesus mesmo nos advertiu: "No mundo tereis aflições" (Jo 16.33).Nessas horas, a grande questão não é se haverá sofrimento, mas onde estará o nosso coração. Estaremos consumidos pelo desespero e pela murmuração, ou voltados para Deus em confiança? É justamente nas horas mais escuras que a fé é provada e fortalecida. Quando tudo parece desmoronar, o cristão é chamado a lembrar-se das promessas do Senhor, que permanece fiel mesmo quando as circunstâncias parecem dizer o contrário.
O salmista nos ensina que, em meio à aflição, a Palavra de Deus continua sendo o seu consolo e a sua esperança. Em vez de permitir que a dor o afastasse do SENHOR, ela o conduziu ainda mais para perto dele. Assim também acontece com aqueles que confiam em Cristo. A "meia-noite" da vida não é o fim da história. O SENHOR continua presente, sustentando os seus filhos, fortalecendo-lhes a fé e conduzindo-os com segurança até o amanhecer da sua graça. Mesmo quando as lágrimas permanecem por uma noite, a alegria vem pela manhã, porque Deus jamais abandona aqueles que nele esperam.
Essa atitude encontra seu exemplo perfeito em Jesus Cristo. Na noite em que foi traído, sabendo que enfrentaria a cruz, Jesus permaneceu em comunhão com o Pai. No Getsêmani, orou com profunda angústia, mas também com total submissão: "Não seja como eu quero, e sim como tu queres." Sua confiança não foi destruída pela escuridão daquela noite. Pela sua obediência até a morte e por sua ressurreição, Cristo transformou nossas noites de medo em esperança.
Outro detalhe importante é o verbo usado pelo salmista. Este verbo קוּם, no hebraico, traduzido por "me levanto", indica uma ação deliberada. Ele não espera que o sono passe nem que as circunstâncias melhorem. Levanta-se voluntariamente para buscar ao SENHOR. Sua adoração não é motivada pelas circunstâncias, mas pelo reconhecimento de quem Deus é. O motivo do seu louvor também chama a atenção: "por causa dos teus retos juízos." A palavra hebraica מִשְׁפָּטִים , traduzida por "juízos", refere-se às decisões, ordenanças e atos justos de Deus. O salmista agradece porque sabe que tudo o que o SENHOR faz é perfeito, justo e digno de confiança. Mesmo quando não compreende plenamente seus caminhos, ele descansa na certeza de que Deus governa todas as coisas com justiça.
Para o cristão, este versículo é um convite a cultivar uma vida de oração e gratidão que não dependa das circunstâncias. Quando as noites da vida chegarem — sejam elas de sofrimento, enfermidade, ansiedade ou perseguição — podemos nos lembrar de que Deus continua sendo justo, fiel e soberano. A escuridão pode envolver nossos dias, mas jamais apagará a luz das promessas do SENHOR.
Assim, o salmista nos ensina que o coração que confia na justiça de Deus consegue transformar a noite em um altar de louvor. Quem conhece o SENHOR não apenas ora quando precisa de ajuda, mas também se levanta para agradecer, porque sabe que os juízos do SENHOR são sempre retos e sua misericórdia dura para sempre.
O salmista revela que a fé também influencia nossas amizades e relacionamentos. Aqueles que amam a Deus fortalecem uns aos outros na caminhada cristã e encorajam a perseverança na Palavra. Ele afirma: “Companheiro sou de todos os que te temem e dos que guardam os teus preceitos” (v.63). O termo חָבֵר significa "companheiro", "amigo", "associado". Refere-se a alguém unido por laços de amizade, fidelidade e comunhão.Aqui, o salmista demonstra que escolhe caminhar ao lado daqueles que temem e guardam os preceitos do SENHOR. O verbo יְרֵאוּךָ deriva do verbo יָרֵא que significa "temer". O temor de Deus, na Escritura, não significa pavor, mas reverência, confiança e submissão amorosa ao SENHOR. São pessoas que reconhecem Deus como soberano e desejam viver conforme sua vontade. Já o verbo שֹׁמְרֵי vem do verbo שָׁמַר , "guardar", "observar cuidadosamente", "vigiar". Indica uma obediência constante e zelosa pelos preceitos do SENHOR, isto é, as instruções específicas dadas por Deus para orientar a vida do seu povo.
O salmista declara que escolhe caminhar ao lado daqueles que temem ao SENHOR e guardam os seus preceitos. Essa afirmação revela uma decisão consciente. Ele não permite que qualquer pessoa exerça influência sobre sua vida. Pelo contrário, decide manter comunhão com aqueles que reverenciam a Deus e procuram viver em obediência à sua Palavra.Essa atitude do salmista demonstra que, aqueles que têm o SENHOR como sua porção, também evidenciam essa realidade nos relacionamentos que cultivam e na maneira como enxergam o mundo. A fé transforma não apenas o coração, mas também as amizades, os valores e a perspectiva da vida. As pessoas com quem convivemos mais de perto exercem grande influência sobre nosso caráter, nossas escolhas e nossas atitudes.
As Escrituras reafirmam esse princípio em diversos textos. O sábio declara: "Quem anda com os sábios será sábio, mas o companheiro dos insensatos se tornará mau" (Pv 13.20). Da mesma forma, o apóstolo Paulo adverte: "As más companhias corrompem os bons costumes" (1Co 15.33). Pouco a pouco, passamos a pensar, falar e agir de modo semelhante àqueles com quem convivemos.
No contexto da congregação, os cristãos são fortalecidos pela Palavra, pela oração e pelos Sacramentos. Ali, o SENHOR nos exorta, consola e encoraja, por meio dos irmãos na fé, para permanecermos firmes em Cristo. Em Cristo, encontramos não apenas o Salvador que nos perdoa e nos dá a vida eterna, mas também uma família espiritual: a comunhão dos santos, formada por todos os que temem ao SENHOR e guardam os seus preceitos. Unidos pela mesma fé, somos fortalecidos pela Palavra e pelos Sacramentos, enquanto caminhamos juntos rumo à herança eterna que Deus preparou para os seus filhos.
O salmista nos convida a examinar nossas companhias e nossas prioridades. Temos buscado a comunhão daqueles que fortalecem nossa fé? Temos valorizado a participação na vida da igreja, nos cultos,nos departamentos e nas demais oportunidades de ouvir a Palavra de Deus?
Por fim, o salmista reconhece a bondade de Deus em toda a criação: “A terra, SENHOR, está cheia da tua bondade” (v.64a). Essa declaração é surpreendente. Poucos versículos antes, ele havia falado dos laços dos ímpios que o cercavam. Humanamente falando, seria natural concluir que o mundo estava dominado pela maldade. No entanto, ele reconhece que, apesar da presença da maldade, a bondade de Deus continua manifesta em toda a criação. A palavra חֶסֶד é uma das mais importantes do Antigo Testamento. Ela significa o amor leal, a misericórdia, a fidelidade da aliança e a graça constante de Deus. Não se trata apenas de um sentimento de compaixão, mas do amor de Deus que permanece fiel às suas promessas.O verbo מלא significa "encher", "completar", "transbordar". A ideia é que não existe lugar onde a bondade de Deus esteja ausente. Toda a terra revela sua generosidade por meio da criação, da preservação da vida e de suas bênçãos diárias.
Como é bom saber que cada novo amanhecer, temos o alimento sobre a mesa, a preservação da vida, a família, a Igreja, o perdão dos pecados e, acima de tudo, a salvação em Cristo são testemunhos da misericórdia do SENHOR.Isto significa que mesmo cercado por dificuldades, o salmista consegue enxergar os sinais da misericórdia divina. Os dons diários, o sustento, a família, a Igreja, a preservação da vida e, acima de tudo, a salvação em Cristo, testemunham continuamente a bondade do SENHOR.
Tudo isso não é fruto de nossa força, mas da obra do Espírito Santo em nós. O mesmo Deus que nos chamou pelo Evangelho continua nos santificando e preservando na verdadeira fé até o dia em que receberemos plenamente a herança que Cristo conquistou para nós.Enquanto esse dia não chega, vivamos como aqueles que pertencem ao SENHOR, confiando em suas promessas e servindo-o com alegria. Pois o SENHOR é a nossa porção hoje, amanhã e por toda a eternidade.
Por fim, o salmista conclui com uma oração:"Ensina-me os teus decretos." (v.64b). O verbo למד significa "ensinar", "instruir", "treinar". Está no modo imperativo com um sufixo que significa "ensina-me". O salmista continua dependente da instrução divina. Embora reconheça a bondade de Deus na criação, sabe que necessita da Palavra para conhecer corretamente a vontade do SENHOR.É significativo que ele termine dessa maneira. Embora já ame a Palavra, já procura obedecê-la e já experimenta a bondade de Deus, ele sabe que ainda precisa aprender. A vida cristã é uma escola permanente, na qual jamais deixamos de ser discípulos do SENHOR.
Somos chamados a contemplar diariamente a bondade de Deus em toda a criação, reconhecendo que cada bênção procede do SENHOR. Contudo, deve também buscar continuamente o ensino das Escrituras, pois somente a Palavra conduz ao verdadeiro conhecimento de Deus e fortalece a fé em Cristo.
Queridos irmãos, muitas coisas neste mundo passam.As riquezas passam.A saúde passa.As conquistas passam.Mas Deus permanece para sempre.Por isso, quando tudo mais falhar, ainda teremos aquilo que é mais precioso: o próprio SENHOR.Em Cristo, recebemos o perdão dos pecados, a adoção como filhos de Deus e a herança da vida eterna.Que o Espírito Santo fortaleça nossa fé para que possamos dizer diariamente, com a mesma confiança do salmista:"O SENHOR é a minha porção."E que essa certeza nos conduza a uma vida de arrependimento, confiança, obediência e esperança até o dia em que receberemos plenamente a herança eterna preparada por Deus.Amém.
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