segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

 TEXTO: SL 24

TEMA: A VINDA DO REI DA GLÓRIA

 O salmo 24 é um dos hinos mais majestoso e imponente de todo o Saltério para este tempo de Advento. É um cântico litúrgico e profético escrito provavelmente por ocasião da chegada da Arca do Senhor até a tenda, preparada para ela no monte Sião (2Sm 6.1-15). Ele reflete o período que estamos vivendo, período maravilhoso que antecede o Natal. Por isso, é tempo de alegria, de espera, no qual nos orientamos nas promessas bíblicas da vinda do Rei da Glória. O Rei da Glória é o Criador de tudo. Ele tem poder de dominar sobre o universo e veio à terra como homem para realizar a obra de salvação (João 1.1 e 14). Ele veio através de Seu Filho. Jesus nasceu e morreu como homem por todos os nossos pecados, e triunfou sobre a morte. A morte não pôde detê-lo. Mas um dia o Rei da Glória, o Senhor forte e poderoso, voltará sobre as nuvens para o julgamento e o estabelecimento definitivo do seu reino. (Mt 25.31). Neste momento todos os anjos estarão com Ele e sua glória brilhará sobre tudo (Mateus 24.30).

É tempo de viver na expectativa da vinda iminente do Rei da Glória. Mas de que forma vamos receber o Rei da Glória? Abrindo as portas da nossa igreja, do nosso lar, dos nossos corações, da nossa existência, e deixar o Rei da Glória entrar.  Vamos buscar Deus com a intensidade de Jacó. Com as mãos limpas, com o coração marcado pela pureza, com uma alma que só se curva diante do Senhor e comprometido com a verdade. Vamos recebê-lo colocando todo o nosso trabalho à sua disposição, e servindo o Rei da Glória com alegria.

O salmista inicia seu cântico confirmando a declaração de domínio do Senhor sobre o mundo e seus habitantes. Ele é enfático ao declarar: “Ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam.” (vv.1 e 2). De fato, tudo pertence a Deus, pois tudo foi criado por Ele, e por Ele tudo subsiste. Nele, portanto, devem estar todas as nossas expectativas. Afinal, só ele cria, mantém, faz, conduz e preserva a vida e todas as coisas, pois Ele é o Rei da Glória, o criador de tudo. Por isso, tem o direito de exercer a autoridade absoluta sobre todas as coisas. O direito de governar suas criaturas e delas dispor como lhe apraz, autoridade diante de todos os seus habitantes. Este é o Deus todo poderoso, o Deus de Jacó, o Deus da Salvação. O Deus que nos abriu caminho para subirmos ao monte. Sendo assim, diante do poder e majestade de Deus, Davi faz uma pergunta que nos leva a uma profunda reflexão: “Quem subirá ao monte do Senhor? Quem há de permanecer no seu santo lugar?” (v.3).

Vamos entender estas duas perguntas! Partimos do princípio que Jerusalém era o lugar onde estava o tabernáculo. Onde Davi erigiu para trazer a arca da aliança de seu exílio, desde os dias do sumo sacerdote Eli (1Sm 4). Jerusalém também era chamado de monte Sião, lugar onde o povo expressava seu louvor e adoração. Sendo assim, subir ao monte do Senhor e permanecer no seu santo lugar, exigia-se algo dos que o adorariam. Mas quem seria digno de entrar, ou quem seria merecedor de habitar na presença de Deus? A pergunta do salmista é importantíssima. Ela mostra que não é qualquer pessoa, de qualquer forma, sem critério nenhum, que será admitida na casa de Deus, como hóspede, sob seu teto e desfrutando da comunhão com Ele. 

Penso que este é um momento para refletirmos sobre esta pergunta, pois há muitas pessoas querendo habitar na Casa do Senhor, mas só há interesse numa religião exterior, de aparência. Apenas ocupam espaço no templo de Deus. Muitos se denominam "povo de Deus", mas nunca foram de verdade conhecidos por Deus (Mt 7.23). Cantam, pregam, oram, se reúnem, mas não possuem relacionamento com Deus. Nunca viveram a dimensão pessoal da fé. Nunca consideraram a Deus de verdade; a opinião de Deus sobre suas vidas e atitudes, sobre seus caminhos e modos de viver, sobre a forma com que se relacionam uns com os outros e com o próprio Deus.

No entanto, Davi dá-nos uma dimensão da grandeza e santidade do nosso Deus, e apresenta quatro características daquele que subirá ao monte, que pertence ao Senhor, e que permanecerá no santo lugar. Vejamos a primeira característica: “O que é limpo de mãos” (v.4a). Você já observou as suas mãos? Certamente, você conhece a importância das mãos na rotina e nas tarefas diárias. Elas são responsáveis por várias funções em nosso dia a dia. Elas expressam os mais variados sentimentos: mãos que aplaudem, acariciam, abraçam, curam, sinalizam, escrevem, abençoam. Como se observa, as nossas mãos são instrumentos de ação. Num sentido espiritual, limpar as mãos equivalia a apresentar uma vida limpa diante de Deus. Um dos requisitos cerimoniais judaicos era ter as mãos limpas. Os sacerdotes eram obrigados a lavar as mãos antes de entrarem na presença de Deus no tabernáculo e no templo (Êxodo 30.19-21). Era preciso passar por um processo de limpeza e ter uma vida limpa se quisesse estar perto do Senhor.

David nos mostra que não podemos entrar na presença de Deus com mãos impuras. O Senhor requer mãos limpas. Ter mão limpas significa não se contaminar com as várias formas de corrupção. É manter as mãos consagradas à vontade de Deus. Lembre-se que as mãos que tocam no altar do Senhor, devem estar sempre limpas quando trazemos as nossas ofertas. O seu altar nunca deve ser profanado por mãos sujas, nem por ofertas que não representem a grandeza de Deus, ou que são trazidas de uma forma descuidada. Tiago disse: “Limpe suas mãos. . . e purificai os vossos corações.” (4.8). O apóstolo Paulo falou para Timóteo: “O desejo de Deus é que todos os varões levantem as suas mãos santas, sem ira, sem mácula, sem animosidade”. (I Tm 2.8). As suas mãos estão limpas diante de Deus? Deus nos convida a lavar, purificar as nossas mãos de todo o pecado. O sangue de Jesus Cristo nos lava e nos purifica de todo o pecado (I João 1.7-9)!

Davi apresenta a segunda característica: “ser puro de coração” (v.4b). O termo לֵבָב (coração) abrange todos os aspectos humano, tanto mental quanto emocional, como pensamentos e desejos. Este coração, que Deus havia criado à sua própria imagem, em perfeição, santidade e retidão foi dilacerado e corrompido pelo pecado. Petrificou e tornou-se frio. Quando Davi passou a olhar para o seu coração, cheio de adultério, de traição, de crime que ele havia cometido, aprendeu que não era de qualquer forma que se entra na Casa do Senhor, na presença do Deus Altíssimo. Era preciso ser puro, limpo, sincero, sem pretensões de vantagens próprias, não segundo nossa própria vontade e desígnio. Por isso, mãos limpas e coração puro são características essenciais para alguém que almeja entrar Casa do Senhor,

Mas como podemos ter um coração puro, um coração que agrade ao Senhor, mesmo tendo nossos pecados, nossos defeitos, nossas fraquezas? Na verdade, precisamos buscar aquele que pode tirar o coração de carne e substituí-lo por um coração temente a Deus. Recorrer a Cristo com a súplica: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pobre pecador. Deixar-se purificar pelo sangue do Salvador. Orar diariamente e fervorosamente, como fez Davi no salmo 51: “Ó Deus, lava-me completamente da minha iniquidade, e purifica-me do meu pecado; cria em mim, ó Deus, um coração puro, e renova dentro em mim um espírito inabalável”.

O salmista apresenta a terceira característica: “que não entrega a sua alma à falsidade”. (v.4c). O termo נֶפֶשׁ (alma) significa racionalidade, pensamento, personalidade, caráter. Entregar a alma significa desejar, apegar-se. Já o termo שָׁוְא (falsidade) significa mentira, vaidade, inutilidade. Em resumo é uma atitude que não é verdadeira, ou uma atitude em que há mentira. Esta triste realidade está presente na atual sociedade, que se encontra mergulhada na mentira e na falsidade em todas as áreas dos nossos relacionamentos. Falsidade na política, na justiça, na mídia em geral com tantas notícias e propagandas enganosas, na economia, em nosso local de trabalho, muitas vezes, até em nossos relacionamentos familiares e dentro das igrejas.

Não devemos nos entregar a falsidade, esta é a recomendação do salmista. Como cristãos devemos ter cuidado com as “vaidades da vida”. Não devemos gastar nosso tempo, ou ser dominado por aquilo que é vão, fútil e não edifica espiritualmente. Como cristãos devemos permanecer na verdade, pois a libertação de todas as falsidades vem pelo conhecimento da verdade (João 8.32). Lemos em Efésios 4.25 que devemos falar a verdade. Isto porque a falsidade destrói, mas a verdade edifica. Se formos verdadeiros, teremos relacionamentos agradáveis com Deus e o nosso próximo. Deus é único e verdadeiro, é por essa razão que nos receberá no seu santuário. Mas somente quem não entrega a sua alma à falsidade, que não é vaidoso, que não se dedica à adoração de um ídolo, ou não deseja as coisas vãs desta vida, como honra, riquezas, prazeres.

O salmista apresenta a quarta característica: “nem jura dolosamente” (v.4d). O termo מִרְמָה (dolosamente) significa traição, engano. Isto significa que “jurar dolosamente” é uma forma enganosa, mentirosa, dolosa contra as pessoas. É uma conduta que leva as pessoas a viverem, fazendo falsas promessas e falando leviandades, sem medir as consequências. Por isso, subirá ao monte aquele que não jura enganosamente, que não precisa de juramento para confirmar a exatidão de suas palavras, pessoas em quem podemos confiar, que fala sempre a verdade. Precisamos estar comprometidos com a verdade. O apostolo Pedro afirma: "...Refreie a sua língua... Evite que os seus lábios falem dolosamente" (1 Pe 3.10)

Aqueles que agirem em conformidade com estes pré-requisitos, ou seja, vivem uma vida consagrada a Deus, “subirá ao monte e permanecerá no seu santo lugar.” No entanto, precisamos compreender que, entrar e permanecer na presença de Deus, não nos é assegurada por causa das nossas boas obras, não porque somos bons, não pela nossa força. Mas única e exclusivamente por causa do sangue de Cristo que foi vertido na cruz, que nos liberta, nos livra do poder e domínio do pecado, e que nos assegura o direito de entrar na presença de Deus. Sendo assim, quem permanecer na presença do Senhor, receberá algo maravilhoso do nosso Deus: בְּרָכָה (bênção) e צְדָקָה (justiça). (v 5). Deus derrama graça de forma abundante sobre nós e nos abençoa de forma transbordante, para que possamos repartir aquilo que recebemos do nosso Deus. Ele também nos concede justiça, porque é justo, fiel, reto e não comete erros (Êxodo 9.27; Deuteronômio 32.4). O próprio Deus fala sobre Sua justiça: “... Eu sou o Senhor, que falo a justiça e anuncio coisas retas” (Isaías 45.19). Portanto, aquele que não recebe o Senhor com falsidade, mentira, etc., mas recebe com verdade, sinceridade, arrependimento, fé, este receberá: bênção e justiça (misericórdia) da salvação do Senhor.

Esta é a ação de um Deus fiel para com aqueles que buscam a sua face. A expressão face no hebraico é פָּנִים, se refere a presença de Deus, ou seja, buscar a presença de Deus na mesma intensidade que Jacó. (v.6). Na verdade, o que Deus requer é uma geração de pessoas comprometidas com o verdadeiro louvor a Deus, um louvor puro e sincero, uma consagração constante, uma santificação e separação do pecado. Enfim, quem vai estar, de fato, na presença de Deus é quem O está buscando na mesma intensidade de Jacó. Lembrando da luta de Jacó com o Anjo do Senhor em Peniel para receber uma bênção do Senhor (Gênesis 32.24-32).

Há uma transição repentina, uma nova cena introduzida a partir do versículo 7. Podemos imaginar que o cortejo tenha agora alcançado às portas da cidade. Davi ao conduzir a Arca da Aliança, prestes a entrar, clama: “Levantai, ó portas as vossas cabeças; levantai-vos, ó portais eternos, para que entre o Rei da Glória” (v.7). O verbo hebraico נָשָׂא (levantar) significa um sinal de respeito. É uma forma de reconhecimento de que àquele que adentrou é digno de reverência. É uma convocação para que todos os que estão nas portas se levantem em sinal de reverência devido à chegada do Rei da Glória. E o termo שַׁעַר (porta) lembra os tempos antigos quando as cidades fortificadas possuíam portas. Eram portais grandes, colocados em pontos estratégicos nos muros que rodeavam a cidade. Em caso de ataque inimigo, as portas eram fechadas, e das muralhas as sentinelas protegiam a cidade. Já a expressão רֹאשׁ no hebraico é usada com frequência nas Escrituras com referência a palavra cabeça, mas também significa chefe ou líderes.

Quando o texto afirma “Levantai, ó portas, as vossas cabeças”, está conclamando todos os líderes, a se colocarem de pé para adorar e reverenciar Aquele que está chegando. Deus resolveu fazer morada na cidade de Davi. Não foram as portas da cidade simplesmente que foram abertas para receber o Rei da Glória, mas os portais eternos permitiram que Deus entrasse naquela cidade. O texto propõe que as portas se abram porque o Rei está vindo e não será impedido. Ele é forte e poderoso e nenhuma porta pode resistir a sua chegada. Ele vence todas as batalhas. Ele é poderoso e tomou a decisão de que fazer morada naquela cidade. Sendo assim, o salmista anuncia um acontecimento glorioso. Enquanto, se alegrava ao conduzir a arca, ele gritava: "Quem é o Rei da glória?” A resposta do povo: “O Senhor, forte e poderoso, o Senhor, poderoso nas batalhas “(v.8). O Senhor dos exércitos, ele é o Rei da glória". (v 10). 

Estimados irmãos! Estamos na época de advento, e no próximo domingo vamos comemorar o Natal. Vamos celebrar a vinda do Messias. O Messias que vem para reinar, a quem Davi aguardava. Ele será diferente dos reis da época em que os servos honravam, respeitavam reverenciavam. Ele é o verdadeiro Rei, o verdadeiro Senhor de Israel e de Jerusalém. É Ele quem dá à vida, a percepção mais profunda do que realmente importa: viver para a glória de Deus.

Mas como vamos receber o Rei da Glória? Vamos abrir não só as portas da nossa igreja e do nosso lar, mas principalmente as portas de nossos corações. Abrir as portas da nossa existência e deixar o Rei da Glória entrar. Ele quer reinar em nossas vidas, em nosso lar. Vamos buscar Deus com a intensidade de Jacó. Com as mãos limpas de culpa, com o coração marcado pela pureza, com uma alma que só se curva diante do Senhor e comprometido com a verdade. Vamos recebê-lo colocando todo o nosso trabalho à sua disposição, e servindo Rei da Glória com alegria. Amém.

 TEXTO: MT 1.18-25

TEMA: DEUS ESTÁ CONOSCO!

Hoje, estamos comemorando o quarto Domingo no Advento. Foram quatro semanas de preparação para celebrarmos a vinda do Messias, ou seja, é o momento quando a Igreja se prepara para o nascimento de Jesus Cristo, partilhando a fé e a esperança nas promessas de Deus, e ao mesmo tempo aguardando o Seu retorno. Logo mais, vamos celebrar o Natal. E a mensagem para este quarto Domingo no Advento são as palavras do evangelho de Mateus 1.18-24, que nos assegura que a promessa fora cumprida.

O natal está se aproximando e certamente concordamos que estamos vivendo numa época de cidades enfeitadas com luzinhas de todas as cores. De lojas enfeitadas, de propagandas de produtos nos jornais, nos rádios e nas televisões, de intenso comércio, de bebedeiras e comilanças. Mas alguém pergunta: isso tudo por um acaso não representa, não recorda, não lembra o natal? Sim, lembra e pode até representar, mas não é o natal! E por quê? Porque o verdadeiro Natal é uma algo bem diferente, mais bonito, mais sublime e importante. O verdadeiro Natal significa e deve significar que Deus está conosco: no seu Filho que Ele nos deu e no seu Filho que nos leva a Ele.

Ao relatar o nascimento de Jesus, Mateus conta que José esteve preocupado com sua esposa, quando percebeu que ela estava grávida e que o filho esperado não era seu. Foi um momento dramático em sua vida. Respaldado pela lei judaica, conforme Deuteronômio 24.1, ele poderia divorciar-se formalmente de Maria, alegando a infidelidade dela, uma vez que eles já tinham feito uma aliança matrimonial. Embora ainda não tivessem consumado o casamento, ele poderia ter tomado público o divórcio, ou ter feito isso de uma forma mais discreta na presença de testemunhas.

No entanto, José não teve este procedimento. Ele era justo e piedoso. Em toda a narração bíblica, ele é visto como alguém submisso, tranquilo, diligente em silêncio, fazendo a sua parte com dedicação e eficiência.  Esta sua característica humilde e discreta está registrada, conforme lemos no versículo 19: “E como José, seu esposo, era justo, e não a queria infamar, intentou deixá-la secretamente.” Ele não quis expor ou prejudicar Maria, por isso, preferiu deixá-la.  Resolveu deixá-la para que não fosse acusada de adultério. Ele entendia que aquela mulher era muito especial. Portanto, soube discernir a situação e a tomou como esposa.

Enquanto refletia sobres estas questões, José foi avisado em sonho, sobre o que estava lhe perturbando: Assim diz o anjo do Senhor: “José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e lhe porás o nome de Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles.” (vv. 20 e 21). A ordem do anjo do Senhor é para que ele entendesse que a profecia do Messias se cumpria na sua vida e na vida de sua esposa: “Ora, tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo Senhor por intermédio do profeta: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de Emanuel (que quer dizer: Deus conosco).” (vv.22 e 23).

Esta profecia fora dita pelo profeta Isaías cerca de 700 anos. E Deus prometera e a promessa se cumpriu no dia de Natal. Ele nos amou tanto que nos deu Seu único Filho! Mas por que veio? Para que veio?  Antes de Deus nos visitar, entrar e ficar conosco, nós não podíamos chegar até Deus e estar com Ele. Havia uma barreira intransponível. Uma ponte quebrada. O homem pecou e se afastou de Deus. Separou-se de Deus. Andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele a iniquidade de nós todos (Is. 53.6). Estávamos trilhando o caminho errado. O caminho da perdição. Se não fosse o próprio Deus intervir em sua graciosa obra redentora em Cristo, jamais poderíamos qualquer dia de nossa vida, chegar a Deus. Não existiria o natal. Não estaríamos hoje aqui reunidos para orar, louvar e cantar ao nosso Deus.

As Escrituras nos revelam o motivo da sua vinda. O evangelista João responde com incrível clareza: “porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porquanto Deus enviou seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para o mundo fosse salvo por Ele. Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado...” (Jo 3.16-18). Eis a resposta: Ele veio para nos salvar, para nos redimir, para nos libertar dos nossos pecados. Ele veio para nos reconciliar com Deus e nos dar a vida eterna. Portanto, na presença de Jesus, as cadeias que nos prendem são despedaçadas, os grilhões quebrados, toda dominação das trevas cai por terra, toda arma forjada contra nós não prospera. Na presença de Jesus nossa iniquidade é arrancada de dentro e nossas transgressões são transformadas em novas bênçãos. Quem está em Cristo é definitivamente uma nova criação.

Esta é a grande mensagem do Natal. Mas uma visita que o homem não valorizou e nem valoriza hoje. Os homens procuram por todos os meios esquecer, negligenciar, deturpar a visita de Deus e o seu profundo significado.  Procuram esquecer em festejos materiais. Em afirmar que Deus “morreu”. Em construir o céu aqui na terra. Aonde chegará o homem com tudo isso? Por isso, hoje somente há Natal nos corações de quem totalmente creem que Deus está conosco, pois o “verbo se fez carne, e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai”.

 De fato, o Deus conosco habitou entre nós. Ele chegou a este mundo. Neste mesmo lugar em que moramos, plantamos, construímos nossas casas e esta Igreja. Ele esteve presente entre nós, encarnado na natureza humana através de seu Filho. Nele Deus se revelou como aquele mesmo Deus fiel que acompanhou Abraão, Isaque e Jacó: um Deus solidário, que foi ao encontro das necessidades dos seus para lhes tirar as amarras do medo, da opressão, da escravidão e para conduzi-los nos caminhos da liberdade. Ele veio e cumpriu com sua missão. Agora, por meio de Jesus temos acesso a Deus.

Bíblia nos ensina que não há outro caminho que nos leva ao Pai, a não ser através de Cristo. Jesus diz em João 14.6: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim.” Jesus é o único caminho para se chegar a Deus. Somente através de Jesus Cristo alguém consegue ter um encontro com o Pai. Portanto, Cristo é o caminho para Deus. Não nasceu nem nascerá outro redentor. Ele é a única esperança. Ele mesmo diz: Sem mim nada podeis fazer. (João 15.5). E é o próprio Cristo que testificou esta verdade em João 12.44-46: E Jesus chamou dizendo: “Quem crê em mim, crê não em mim, mas naquele que me enviou. Eu vim como luz para todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas.”

Deus está conosco. Em sua companhia podemos caminhar confiantes e esperançosos, ainda que as muitas circunstâncias da vida queiram nos obrigar a desanimar e desistir do caminho que nos conduz à sua presença. Ele está conosco no seu Filho que nos leva a Ele. Esta é a verdadeira mensagem que devemos proclamar. Deve ser o nosso Natal. O Natal não deve apenas representar para nós uma bela história, mas também um momento para refletirmos acerca da nossa comunhão com o Deus conosco, pois Deus é o centro de toda a nossa vida. Sendo assim, celebrar o Natal é celebrar que Deus está conosco, na pessoa de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. Esta deve ser a nossa verdadeira alegria, pois o anjo disse aos pastores em Belém: Não temais: “Eis aqui vos trago boa nova de grande alegria, que o será para todo o povo.” (Lc 2.10).

Portanto, deixemos de lado as celebrações materiais e louvemos neste Natal e em todos os momentos da nossa vida, o Emanuel, o Deus conosco, o Deus Salvador. Que possamos nos alegrar mais uma vez com o nascimento de Jesus e a salvação que ele trouxe e oferece ao mundo para todas as pessoas. Que possamos recebê-lo em nossas vidas, aceitando a proximidade do Deus Conosco que virá com todo esplendor. Amém

sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

TEXTO: IS 11.1-10

TEMA:  A ESPERANÇA DA SALVAÇÃO ATRAVÉS DO MESSIAS

 O profeta Isaías, ao descrever o futuro de Israel, apresenta inicialmente um cenário de pura desolação — sombrio e devastador. Naquele momento, o povo olhava para a história da casa de Davi e via apenas um tronco cortado, aparentemente sem esperança.Esse tronco não oferecia sombra, não produzia frutos e parecia já não ter vida alguma. Mas é justamente neste cenário que o profeta Isaías levanta Sua voz e diz: “Do tronco de Jessé sairá um rebento; das suas raízes um renovo frutificará.”

Esta imagem que o profeta apresenta de um ramo verde brotando de um tronco de Jessé, é  a esperança da salvação através do Messias. Ele será cheio do Espírito do SENHOR. Seu governo não será de aparências ou injustiças, mas com justiça e  fidelidade. Elas serão as marcas de seu governo, que será caracterizado pela paz e retidão.Essa realidade começou com a vinda humilde de Jesus em uma manjedoura. Como Cordeiro de Deus, Ele inaugurou a redenção e a nova criação através de sua morte e ressurreição.

Precisamos olhar para a história da salvação com profundidade e esperança nesta época de Advento. O Advento não é apenas um período litúrgico, mas um momento espiritual que abraça o passado, o presente e o futuro — e nos convida a caminhar dentro dessa promessa divina, lembrando  que Deus fez renascer a esperança da salvação através do Messias. O texto apresenta três momentos para entendermos a temática. Então, vejamos:

Primeiro, porque Deus faz nascer vida onde só havia tronco seco (v.1). Há momentos em que nos sentimos como um tronco seco: sem frutos, sem força, sem sinais de vida.  Um casamento ferido,— uma porta que nunca se abre, — uma dor que insiste em permanece. Assim estava a linhagem de Davi: sem glória, sem rei, sem esperança.Mas Deus promete levantar um Renovo, alguém que surge pequeno, humilde, quase impercetível — e ainda assim carregado de poder, esperança e restauração.

Segundo, porque o  renovo governará com o Espírito, justiça e verdade (v. 2–5). O Renovo é Cristo, e Ele governará não pela força humana, mas pelo Espírito do SENHOR. Onde Seu Espírito está, nasce justiça, verdade e vida. Ele agirá diferente dos reinos deste mundo: não com opressão, mas com sabedoria; não com violência, mas com paz; não com mentiras, mas com verdade.

Terceiro, o Reino do Messias traz paz plena e restauração total (v. 6–10).Tudo aquilo que o pecado destruiu, Cristo restaura.Tudo o que foi quebrado, Ele recompõe.Toda criação é renovada debaixo do Seu governo.Agora,Ele trará paz,plenitude e harmonia.O Messias não será apenas Rei de Israel, mas Rei de todos.

                                                                I

O povo de Israel sofria a ameaça do Império Assírio, e a dinastia davídica, antes gloriosa, encontrava-se enfraquecida, politicamente instável e espiritualmente decadente. No entanto, diante desse cenário, Isaías levanta a sua voz e diz: “Do tronco de Jessé sairá um rebento; das suas raízes um renovo frutificará” (v.1).Isaías fala, portanto, sobre o tronco de Jessé. Ele faz uma referência à casa real de Davi que seria humilhada, perderia seu poder e glória, como algo que foi cortado, reduzido e aparentemente sem vida. Mesmo sendo um tronco “morto”, brota um rebento — algo novo, vivo e inesperado.Há momentos em que a vida parece reduzida a um tronco seco — sem brilho, sem força, sem sinais de futuro. Aquilo que um dia floresceu parece ter sido cortado, e o que resta é apenas a lembrança do que já foi. Mas é justamente nesse cenário que Deus age. Ele faz nascer vida onde só vemos morte.Ele faz brotar esperança onde enxergamos escuridão. Ele traz renovo quando nossas forças já se foram.

No entanto, quando tudo parecia perdido, Deus está preparando algo novo na vida do povo. Ele faz brotar vida onde havia morte, enviando um rebento, um começo, um renovo. Isaías descreve a plenitude e a perfeição desse “Rebento” ou “Renovo” (Messias). Ele afirma que o Espírito Santo repousará sobre esse que “Rebento” que brotará do tronco de Jessé. O ato de "repousar" não implica apenas uma visita temporária ou uma manifestação ocasional de poder (como muitas vezes ocorria com os juízes ou profetas no Antigo Testamento). Sugere, sim, uma permanência, uma estabilidade, uma habitação constante e ininterrupta do Espírito.Isso diferencia o Messias de todos os seus antecessores, incluindo os reis davídicos, que tinham o Espírito de forma limitada ou condicional. Ele é o único perfeitamente ungido e qualificado para a Sua missão.

                                                                 II

Além do "Espírito do SENHOR" (o Espírito Santo em Si), Isaias lista seis atributos,  que  qualificarão o Messias para o Seu reinado de justiça e paz, como nenhum rei humano antes. Primeiro tributo: “o espírito de sabedoria.” (v.2a).É  a capacidade de julgar bem, de aplicar o conhecimento de Deus na prática da vida e do governo. É a visão correta das coisas. Segundo tributo: “espirito de entendimento.” (v.2b). É a habilidade de discernir as questões, compreender profundamente a natureza de um problema ou a vontade de Deus.Terceiro tributo: “Espírito de Conselho” (v.2c). É   aptidão para traçar planos e estratégias eficazes. Quarto atributo: “Espírito de Fortaleza” (v.2d). É o poder, a coragem e a força moral necessários para executar as decisões tomadas e defender a justiça. Quinto tributo: “Espírito de conhecimento.” (v.2e). É um profundo e íntimo conhecimento de Deus, não apenas teórico, mas experimental e pessoal. Sexto tributo: “de temor do Senhor."(v.2f).  Neste contexto “temor” (יִרְאָה)  carrega o sentido de uma reverência profunda, respeito e admiração pela majestade, poder, santidade e bondade de Deus. Isto significa que Messias será caracterizado por sua perfeita devoção e obediência à vontade de Deus, garantindo que todas as Suas decisões (sabedoria, conselho, etc.) sejam perfeitamente alinhadas com o caráter divino.

No entanto, o Messias  não apenas possuiria o “temor do Senhor” , mas Ele teria o seu deleite em viver sob a reverência e submissão total a Deus Pai: “Deleitar-se-á no temor do SENHOR.” (v.3a).A tradução literal é: "E Ele o fará cheirar (ou respirar, ou se deleitar) no temor do SENHOR. No Antigo Testamento frequentemente o verbo é usado para descrever o ato de cheirar um sacrifício agradável a Deus, como em Gênesis 8.21, onde Deus "cheirou o aroma suave".  A expressão"cheirar" pode ser uma metáfora para discernir ou perceber a essência oculta das coisas.Este uso reflete a ideia de que o "cheiro" de algo é uma fonte de prazer ou apreciação. Isto significa que o Messias encontrará a sua satisfação mais profunda (seu "cheiro agradável") na submissão e reverência total a Deus.Terá grande prazer em viver e julgar de acordo com a vontade e a natureza de Deus. O "temor do SENHOR" será o seu impulso e a sua direção em tudo o que faz.É a Sua soberania e santidade, que gera em nós uma reverência amorosa e o desejo de obedecer e agradar a Ele em todas as áreas da nossa vida, sendo este o ponto mais alto da verdadeira adoração e sabedoria.

Essa submissão e reverência total a Deus O capacita para um julgamento perfeitamente justo, que transcende as limitações e os enganos dos sentidos humanos, conforme declarado:“Não julgará segundo a vista dos seus olhos, nem repreenderá segundo o ouvir dos seus ouvidos.” (v.3b). O julgamento humano, limitado e influenciado pelos sentidos, tende a ser distorcido por aparências externas ("a vista dos seus olhos") ou por rumores e testemunhos incompletos ("o ouvir dos seus ouvidos").Essa tendência de julgar as pessoas pela aparência é severamente criticada pelo apóstolo Tiago, que repreende a comunidade por fazer distinção de pessoas, oferecendo lugar de honra ao rico (por sua vestimenta e prestígio) e desprezando o pobre. Ele adverte: "Fazeis distinção em vós mesmos, e vos tornais juízes com maus pensamentos" (Tiago 2.1-4).O Messias, no entanto, não será enganado por disfarces, prestígio social, riqueza ou pela persuasão superficial das palavras. Ele possui um discernimento completo que não se baseia em impressões superficiais, posição social, ou qualquer preconceito visual.

Somos chamados a buscar um juízo e discernimento que vão além das aparências (aparência física, riqueza, status). Devemos nos abster de condenar ou repreender com base em fofocas, rumores ou primeiras impressões. Em vez disso, é fundamental buscar a verdade e agir com sabedoria, bom conselho e entendimento.O próprio Jesus ensinou em João 7.24: "Não julgueis segundo a aparência, mas julgai segundo a reta justiça." O padrão para o julgamento é a justiça de Deus, e não as nossas preferências ou preconceitos.Peçamos a Ele a capacidade de ver além do que é externo, seguindo o exemplo do julgamento perfeito do Messias.

Isaías detalha como o Messias usará seu discernimento divino para estabelecer a justiça social e executar o juízo final. Seu juízo será justo e equitativo, manifestando-se em defesa dos mais vulneráveis e oprimidos ("os pobres" e "os mansos da terra"), que muitas vezes eram prejudicados pelo julgamento humano corrupto ou precipitado: “Mas julgará com justiça os pobres, e decidirá com equidade a favor dos mansos da terra"(v.4a). O Messias reverte o padrão humano de julgamento, que frequentemente oprimia os pobres e favorecia os poderosos. Seu julgamento é caracterizado pela imparcialidade absoluta (justiça - צֶדֶק)  e pela retidão (equidade -מִשְׁפָּט). Justiça/retidão são termos que descreve a ordem ética e moral do universo conforme estabelecida por Deus. E a expressão "os pobres" e "os mansos da terra"  refere-se não apenas aos destituídos financeiramente, mas aos humildes, oprimidos e indefesos que eram marginalizados pelos tribunais humanos. O Messias se levanta como o Advogado e Juiz que garante seus direitos.

O Messias também agirá com poder irresistível  para executar a sentença final: "e ferirá a terra com a vara de sua boca e com o sopro dos seus lábios matará o perverso."(v.4b). A palavra hebraica traduzida como "vara" é שֵׁבֶט. A vara era um objeto longo e resistente usado por líderes e reis.Ela tornou-se sinônimo de poder e realeza, representando a autoridade de governo. Em última análise, o sentido da "vara" é sempre uma manifestação ou um símbolo do poder soberano, exercido para guiar, corrigir, proteger, ou reinar. Em vez de uma espada física ou um cetro de madeira, o Messias utiliza um instrumento muito mais poderoso. Já a boca indica que a fonte desse poder é a Palavra (o decreto, o mandamento) do Messias. O julgamento e a punição são realizados verbalmente, sem a necessidade de armas ou força física. E assim julgará de forma severa,atingindo  toda a ordem injusta e a rebeldia presente no mundo, estabelecendo uma nova ordem: "e com o sopro dos seus lábios matará o perverso."(v.4c). O sopro  ou alento dos seus lábios é uma metáfora para a facilidade e a eficácia com que o Messias destruirá a iniquidade. É uma ação imediata e definitiva.A ação do Messias é, portanto, dupla: Salvação para os mansos e condenação para os ímpios, garantindo que a justiça e a paz  sejam estabelecidas por completo, não apenas de forma ética, mas também escatológica.

                                                              III

Isaías emprega imagens vívidas e poéticas da natureza para retratar a transformação profunda que acompanhará o governo do Messias. Tudo aquilo que o pecado destruiu, Cristo vai restaurar. Ele trará paz, plenitude e harmonia, abundância e vida renovada. Dessa forma, a própria natureza — que sofreu a maldição do Éden após a Queda — se transforma no cenário da intervenção divina. Isso indica que o reinado do Messias não se limita a trazer justiça entre os seres humanos, mas também abrange a renovação completa de toda a criação. Ele afirma que o lobo habitará com o cordeiro, e o leopardo se deitará junto ao cabrito; o bezerro, o leão novo e o animal cevado andarão juntos, e um pequenino os guiará."(v.6).Os animais, que são predadores naturais (símbolos da agressão e da inimizade), viverão em completa harmonia com suas presas. Isto demonstra que a desconfiança e a violência serão eliminadas. O fato de serem guiados por um "pequenino" enfatiza a segurança absoluta desse novo mundo, onde a força bruta não será mais necessária para liderar ou proteger.

Ele também afirma que “ a vaca e a ursa pastarão juntas, e seus filhos se deitarão juntos; e o leão comerá palha como o boi."(v.7).Vaca e ursa / leão e boi são inimigos naturais ou predadores e presas. A convivência pacífica e a mudança na dieta do leão (comer palha como o boi, ou seja, tornar-se herbívoro) representam a eliminação da agressão, da violência e do medo no mundo. Simboliza a paz universal que será estabelecida entre as nações, onde a inimizade e a guerra (simbolizadas pelo predador) não mais existirão.O detalhe de que "seus filhos se deitarão juntos" reforça a ideia de uma segurança absoluta. E ainda:"A criança de peito brincará junto à toca da áspide, e o já desmamado meterá a mão na cova do basilisco." (v.8).O ponto central desta imagem é que a natureza nociva e letal (simbolizada pela áspide e pelo basilisco/víbora) será totalmente neutralizada. O ambiente se torna tão seguro que a criatura mais vulnerável – a criança (de peito ou desmamada) – não corre risco algum ao interagir com o que antes era um perigo fatal.O veneno existe, mas não atua. A serpente está presente, mas não domina. A sombra do Éden não tem mais força quando a luz do Messias chega.

Há momentos na vida em que tudo ao nosso redor parece hostil: pessoas que reagem como predadores, circunstâncias que nos amedrontam, situações que carregam o “veneno” do inesperado. Mas Isaías nos revela uma visão tão surpreendente que só pode vir de Deus: um mundo onde até o que é naturalmente perigoso se torna seguro sob o governo de Cristo.O que antes ameaçava deixa de ferir; o que antes dividia agora convive em paz; o que antes assustava já não traz medo.Talvez hoje você esteja diante de “lobos”, “ursas”, “leões” ou até “serpentes”: pessoas difíceis, conflitos inesperados, riscos reais ou feridas profundas. Mas o Senhor te diz: "No Meu reino, o mal perde o poder."Quando Cristo governa, a ansiedade é neutralizada, o medo é desarmado, a alma encontra repouso, e até aquilo que parecia mortal perde o veneno. A mesma mão que guia animais ferozes com a paz de uma criança é a mão que guia você hoje: firme, mansa e segura.

Depois de descrever uma criação transformada (vv. 6–8), Isaías apresenta a causa dessa transformação: “Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte, porque a terra se encherá do conhecimento do SENHOR, como as águas cobrem o mar."(v.9).O local onde Deus estabelece Sua residência e governo torna-se intrinsecamente seguro e inviolável. Onde há santidade (a presença de Deus), o mal não pode habitar.Visto que a causa dessa transformação é o conhecimento do SENHOR enchendo a terra de maneira total e profunda e saturante — como as águas enchem o mar.Em outras palavras: a paz universal; a harmonia entre todas as criaturas; a ausência total de mal e dano; a restauração da criação. Tudo isso acontece porque o conhecimento do Senhor — isto é, Sua verdade, Sua presença, Sua vontade, Seu caráter — preenche toda a terra de forma plena e absoluta. Não é: a mudança política, o esforço humano, a evolução natural, ou a capacidade moral das pessoas, mas a presença revelada de Deus conhecida e acolhida por toda a criação.

O texto termina com uma profecia messiânica que fala sobre o descendente de Jessé, que será levantado como um estandarte (bandeira) para as nações: “Naquele dia recorrerão as nações à raiz de Jessé, que estará posta por estandarte dos povos; a glória lhe será para sempre.”(v.10). “ Naquele dia” indica um tempo escatológico — o tempo da manifestação plena do reino do Messias.Não é um dia literal, mas uma  época do reinado do Messias, que trará justiça e paz. É interessante que “naquele dia” as nações recorrerão à raiz de Jessé. A raiz de Jessé é não somente um descendente de Jessé (pai de Davi), mas também a fonte e origem da restauração davídica.  Ele será um ponto de reunião, um sinal visível de esperança e autoridade, não apenas para o povo de Israel, mas para todas as nações (gentios). Ele atrairá pessoas de todas as partes do mundo para Si, estabelecendo Seu reino universal.E onde Ele habita, a glória de Deus permanece, não é temporária.

Estimados irmãos! Em um mundo marcado por injustiças, corrupção e desordem, a conclusão deste texto nos lembra que o nosso futuro está solidamente no Rebento de Jessé: Jesus Cristo. Ele é o único governante cuja justiça é perfeita e cuja sabedoria é inerrante. Não precisamos temer as falhas dos líderes humanos ou a confusão dos tempos; a nossa confiança inabalável deve estar apenas n’Ele. Ele não julga pela aparência ou pelo rumor, mas com verdadeira equidade e retidão. O Seu caráter é a nossa segurança eterna.Por fim, somos lembrados que Ele é o Estandarte (bandeira) para todos os povos (v. 10). 

Portanto, sendo seguidores d’Ele, somos chamados a viver de tal maneira que também apontemos para esse Estandarte, convidando todas as pessoas a encontrarem n’Ele o seu “lugar de descanso glorioso”. A nossa vida devocional e as nossas ações devem ser o reflexo prático da justiça e da paz que Ele já estabeleceu em nós, para que o mundo veja e procure a Raiz de Jessé. Amém!

 

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

 TEXTO: TG 5.7-11

TEMASEJAMOS PACIENTES ATÉ A VINDA DE JESUS!

Vivemos numa sociedade imediatista, ou seja, as pessoas esperam que eventos ou informações, como notícias, ocorram de forma imediata. E quando não conseguem atingir os seus objetivos, ficam aflitas, e, muitas vezes, acabam perdendo a paciência. São momentos quando as pessoas não encontram um emprego, quando o carro não funciona, quando encontram um trânsito congestionado, quando sentem uma dor física insuportável, etc. São tantas adversidades que, às vezes, as pessoas não conseguem controlar a sua paciência.  Então, podemos concluir que o ser humano de hoje são imediatistas e não possuem muita paciência para esperarem o tempo de determinadas coisas.

Diante destas situações, que geram tanto sofrimento, vamos entender o que é paciência. Paciência é a virtude de permanecer firme diante da dificuldade. É esperar, suportar, manter o ânimo otimista em meio ao colapso. É ter disposição que não se abater nem mesmo diante das piores catástrofes da vida. Suportar com paciência, esta é a recomendação de Tiago! Mas até quando? Por quanto tempo? Ele responde: até a vinda do Senhor! O que Tiago está dizendo é que a vinda do Senhor porá um fim a tudo isso. Já que Deus irá intervir para trazer solução às injustiças sofridas pelos justos. Sendo assim, ao sofredor cabe a prática da paciência. Ele deve exercer a paciência sem desanimar, isto é, não importa o quanto a situação perdure, deve ter paciência até a vinda do Senhor.

No entanto, já se passaram muitos anos depois que a vinda do Senhor foi anunciada. E diante desta demora alguns duvidam da validade das palavras de Jesus acerca de sua volta. Mas qual deve ser a atitude do cristão com respeito a esta demora? Tiago nos alerta a não desanimarmos, vivendo sempre na expectativa de que o Senhor irá se manifestar a qualquer momento. Enquanto aguardamos, devemos fortalecer o nosso coração. Perseverar na fé em Cristo em toda e qualquer situação. Por isso, sejamos pacientes até a vinda de Jesus!

                                                               I

Tiago exorta seus irmãos a terem paciência diante dos sofrimentos, humilhações injustiças e opressões impostas pelos ricos que os maltratavam. (Tg 5.1-6). Ele afirma: “Sede, pois, pacientes, até a vinda do Senhor.” (v.7a). Neste versículo, Tiago usa o termo grego μακροθυμέω para definir sobre a paciência. Significa esperar, suportar, manter o ânimo otimista em meio ao colapso. É ter disposição, não se abater nem mesmo diante das piores catástrofes da vida. Essa é uma virtude que todos aqueles que se declaram cristãos verdadeiros, devem manifestar em suas vidas. O apóstolo Paulo repetidamente ordenou aos cristãos a terem paciência uns para com os outros. Ele instruiu os cristãos de Éfeso a que andassem de modo “digno da vocação com que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade (paciência), suportando-vos uns aos outros em amor, procurando diligentemente guardar a unidade do Espírito no vínculo da paz.” (Ef 4.1-3). Escrevendo a Timóteo, Paulo mostrou o exemplo: “e ao servo do Senhor não convém contender, mas sim ser brando para com todos, apto para ensinar, paciente; corrigindo com mansidão os que resistem”. (2Tm 2.24,25).

Tiago exorta os cristãos a serem pacientes. Ao analisarmos o contexto, ele está reprovando aqueles ricos, provavelmente, são descrentes que estavam adquirindo suas riquezas por meio de fraude. Eles estavam se enriquecendo de uma maneira ilícita. Diante desta situação, alguns fiéis começaram a duvidar da volta do Senhor. Ficaram impacientes ao esperar esta vinda, pois para eles, parecia uma eternidade. É evidente que isto não deveria servir de desculpas para possíveis desesperanças, uma vez que Cristo está às portas para julgá-los. (v.9b). Por isso, deveriam se preocupar com a vinda do Senhor. Ela é o momento mais esperado pelos cristãos de todas as partes do mundo. Todos os crentes fiéis desejam muito que o Senhor Jesus Cristo volte logo e os leve para o lar Celestial, a morada de Deus.

Enquanto aguardamos a volta do Senhor, Tiago admoesta os cristãos a manterem uma atitude de paciência. Ele nos ensina que a demora no aparecimento de Cristo, pode levar os homens a duvidarem, e que Jesus jamais voltará. Por isso, o apóstolo Pedro sentiu a necessidade de escrever aos crentes a respeito deste assunto. Ele diz na sua segunda carta 3.8: “Há, todavia, uma coisa, amados, que não deveis esquecer: que, para o Senhor, um dia é como mil anos, e mil anos, como um dia”. Pedro exorta os fiéis a entenderem os caminhos de Deus são diferentes dos caminhos dos homens. E afirma que mil anos para Deus é como um dia. Para nós talvez possa parecer muito demorada a volta de Cristo.

Diante da admoestação de manter uma atitude de paciência, Tiago escreve para aqueles fiéis a não desanimar, não perder as esperanças na volta do Senhor. Para exemplificar esta paciência, Tiago se utiliza de uma figura bastante comum em sua época, o lavrador: “Eis que o lavrador aguarda com paciência o precioso fruto da terra, até receber as primeiras e as últimas chuvas.” (v.7b). O que o lavrador faz em seu trabalho? Ele prepara a terra para o plantio. Há todo um preparo e um esforço por parte do lavrador. Depois de lavrar a terra, ele começa a semeá-la. Então, ele fica esperando com paciência que a terra produza o precioso fruto do qual depende a sua vida aqui na terra. Ele espera as primeiras e as últimas chuvas. As primeiras chuvas eram ansiosamente aguardadas para fazer germinar as sementes plantadas. As últimas chuvas serviam para amadurecer o fruto precioso.

Para o lavrador, era o seu trabalho um momento de paciência ao receber o precioso fruto da terra. Ele aguardava, pacientemente, e não se deixava desanimar. É através desta paciência que Tiago compara a nossa espera pela vinda de Cristo. Mas de que forma? Tiago afirma: “Sede vós também pacientes e fortalecei o vosso coração, pois a vinda do Senhor está próxima.” (v.8). Ele recomenda que devemos nos manter firmes, sermos pacientes e aguardarmos com calma a sua vinda, pois Ele não tardará, voltará, e tudo será transformado. Enquanto, aguardamos, é preciso aprender a esperar e a perseverar em fé. Por isso, devemos fortalecer o nosso coração. O termo στηρίζω (fortalecer) no grego significa tornar firme, estável, apoiar, permanecer. Isso significa que a paciência é aperfeiçoada numa vida que se fortalece. E como ocorre isto? Colocando o coração nas mãos do Senhor. E Ele quem fortalece a nossa vida para suportarmos as batalhas. O Escritor aos Hebreus diz: “É bom que o nosso coração seja fortalecido pela graça” (Hb. 13.9).

                                                               II

Após ter falado sobre a paciência, Tiago agora exorta os irmãos, aqueles pobres que sofriam a extorsão por parte dos ricos. Eles estavam se queixando dos mesmos. Tiago já havia falado sobre este assunto, no verso 11 do capítulo 4. Ele agora, fala novamente: “Irmãos, não vos queixeis uns dos outros…”. (v.9a)”. O verbo queixar, no grego, carrega o sentido de gemer, suspirar, lamentar e murmurar. Desta forma, a frase “não vos queixeis”, indica um momento quando se perde a paciência, e começam as queixas e murmurações contra o irmão. Mas, por que   não devemos nos queixar uns dos outros, perguntariam os justos a Tiago? Tiago responde no mesmo verso 9b: “para não serdes julgados.” Sendo assim, quem se queixa, julga as atitudes de outros. Neste sentido, Tiago assevera que tal pessoa não pode esperar outra coisa senão o juízo, haja vista ter assumido a condição de juiz.

Portanto, o ato de viver murmurando. queixando, reclamando, contra os nossos irmãos, também pode nos condenar. E para que não sejamos julgados e condenados na volta de Cristo, preparemo-nos! De que forma? Examinando o nosso comportamento, pois Cristo está se aproximando.  Como se Ele estivesse em frente da porta de uma casa, preste a bater: “Eis que o juiz está às portas.” (v.9c). Este  versículo expressa o sentido de chegada a qualquer momento. E aqui se refere a Jesus, a quem, pela vontade do Pai, foi constituído como único Juiz (João 5.22). De fato, Cristo está se aproximando.

Enquanto aguardamos a volta de Cristo, vamos colocar em prática o nosso relacionamento com os irmãos!   Ao invés de murmurarmos, lamentarmos e de nos queixarmos contra nossos irmãos, devemos suportá-los em amor e ajuda-los a levar a carga uns dos outros, conforme (Gálatas 6.2). Lembre-se que o nosso modo de viver como cristão, em qualquer situação, deve ser sempre aquele que demonstre o amor fraternal, o qual impede a manifestação de queixa contra os irmãos. Se o cristão não vive como Jesus ensinou em sua Palavra, mas vive desprezando o seu irmão, consequentemente, não demonstra o amor de Jesus em sua vida. Por isso, vivamos como filhos de Deus. Aguardando com paciência a volta de nosso Senhor e suportando uns aos outros sem se queixar. Suportando em amor conforme a vontade de Jesus Cristo.

Após esta advertência, Tiago lembra o exemplo dos profetas: “Irmãos, tomai por modelo no sofrimento e na paciência os profetas, os quais falaram em nome do Senhor.” (v.10). Ele nos exorta, nesta caminhada de paciência pela volta do Senhor Jesus Cristo, a olhar para as Escrituras Sagradas. Mais, precisamente, o Antigo Testamento. Ele cita dois exemplos para a nossa vida. O primeiro exemplo são os profetas. Ele diz aos seus irmãos que eles deveriam observar sofrimento e paciência dos profetas. Homens que foram ungidos por Deus para falar ao povo sobre a aliança. Eles enfrentaram os mais diversos tipos de sofrimentos. Profetas, como Elias desenvolveu seu trabalho sob perseguições, sofrimentos, martírio e rejeição. Jeremias foi chicoteado, lançado em uma cisterna. Porém, todos eles têm algo em comum. É que em meio ao sofrimento não abandonaram a sua fé no Senhor. Mas com paciência perseveraram até o fim. Este é o modelo que o Senhor quer que imitemos nos profetas.

Tiago também usa o exemplo de Jó: “Eis que temos por felizes os que perseveraram firmes. Tendes ouvido da paciência de Jó e vistes que fim o Senhor lhe deu; porque o Senhor é cheio de terna misericórdia e compassivo.” (v.11). Jó foi um exemplo de firmeza na tribulação. Mesmo reclamando amargamente do tratamento que Deus lhe dispensava, ele nunca abandonou a sua fé. No meio da incompreensão, ele se apagou em Deus e continuou a esperar. Ele lutou e questionou, e, algumas vezes, até desafiou, mas a chama da fé nunca se apagou em seu coração. A firmeza de Jó foi recompensada. Tiago lembrou seus ouvintes dizendo: “e vistes que fim o Senhor lhe deu.” Aqui o apóstolo lembra a restauração da sua família e fortuna (Jó 42.13). Por trás dos sofrimentos havia um propósito divino (Jó 42.5,6). Da mesma forma que Deus recompensou a fidelidade dos profetas e do próprio Jó, assim, também promete recompensar aqueles que permanecem firmes nas tribulações. Tiago diz que felizes são os perseveram. O objetivo de Tiago é incentivar nos cristãos uma firmeza fiel e paciente na aflição.

Estimados irmãos! Como é bom saber que em Cristo é possível ser paciente. Como é bom saber que Ele fortalece os nossos corações. Como é bom saber que Ele nos dá condições de perseverar. Como é bom saber que o nosso Deus é um Deus cheio de compaixão e de misericórdia! Por isso precisamos aprender a esperar e ser pacientes para vencer cada batalha em nossas vidas. Amém!

 TEXTO: SL 146

TEMA: NOSSA ESPERANÇA ESTÁ NO SENHOR

Muitas pessoas vivem preocupadas, tristes e sem esperança, devido aos inúmeros fatores que assolam os seres humanos. São questões financeiras, familiares, medo ou até mesmo as dúvidas. O Salmos 146 traz um convite para que os homens busquem depositar sua esperança em Deus. Ocorre que, muitas vezes, preferimos colocar a nossa esperança nos valores transitórios deste mundo: no nosso dinheiro, nossa família, nas filosofias, nas ideologias. É mais fácil, colocarmos a nossa confiança nestas coisas do que no Senhor todo-poderoso, a quem não vemos. Cometemos um grande erro, pois não existe salvação nos homens, nos especialistas, no dinheiro, no nosso trabalho. Além disso, a nossa esperança não está príncipes e nobres, meros homens mortais e limitados. Eles não cumprem suas funções para com os necessitados, abatidos e estrangeiros. Lembre-se: “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens.” (1 Coríntios 15.19).

No entanto, a recomendação do salmista é depositar a nossa esperança no Senhor, pois o Senhor é qualificado como o Deus de Jacó, Deus fiel, Criador e soberano sobre todas as coisas. Ele é eterno e reina para sempre. É o único Deus que merece nosso louvor, por causa das grandiosas obras que Ele fez e continua fazendo em nossas vidas! É Ele quem reina como Rei sobre Sião de geração em geração.  Somente o Senhor tem condições de cumprir as promessas, ajuda, auxilio e bem estar que as camadas mais pobres do povo precisam, tornando-se, assim, o nosso único alvo de esperança no qual devemos depositar toda a nossa confiança.

Estes são exatamente os motivos pelos quais devemos louvar ao Senhor. Quem deposita a sua confiança no Senhor é uma pessoa feliz. Nele reside a nossa única esperança neste mundo, em épocas difíceis, quando homens injustos, governantes irresponsáveis e injustiças sociais assolarem nossa vida. Portanto, vamos louvar e depositar a nossa esperança no Senhor!                                                                       

O salmista inicia o salmo com o louvor a Deus: “Louva, ó minha alma, ao Senhor.” (v.1). Contudo, ele ainda afirma que promete louvor ao Senhor por toda a sua vida, enquanto viver – ou então, “até o seu último suspiro”, (v.2) de forma perene e contínua.  Mas o que leva o salmista a louvar ao Senhor? Primeiro, precisamos entender que confiar em príncipes e nos filhos dos homens não é uma boa ajuda em épocas de grande aflição. Não há salvação. (v.3). "Até mesmo os príncipes são mortais, e alguns não têm nem mesmo meios de ajudarem a si próprios ."(Sl 118.9). Isto demonstra que o homem é frágil. Por isso, o salmista aconselha não colocarmos nossa confiança e nossa esperança em pessoas, pois não podemos ficar dependendo delas. Sendo assim, o salmista conclui que a garantia da paz do seu povo não viria de príncipes ou dos filhos dos homens, pois eles também eram mortais e sujeitos às vicissitudes da vida, perecendo como qualquer homem. O homem é pó e tornará ao pó. (v.4). O que adianta colocar nossa esperança num ser mortal, que no dia em que ele morre, todos os seus desígnios perecem?

Em contraste com a fraqueza e mortalidade do homem estão a grandeza de Deus e sua fidelidade: “Bem-aventurado aquele que tem o Deus de Jacó por seu auxílio, cuja esperança está no Senhor, seu Deus, que fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há, e mantém para sempre a sua fidelidade.” (v.5-6). Aquele que tem o Senhor como seu ajudador é uma pessoa feliz. Isto indica um prazer profundo e permanente, uma alegria imensa. É a descrição mais adequada daqueles cujo refúgio e esperança residem no Senhor. O salmista também aponta a razão para que o servo dependente e esperançoso no Senhor seja feliz ao mostrar quem é Deus. Ele deixa claro que Deus deve ser louvado pelos feitos maravilhosos que já fez. Ele fez os céus e a terra. Deus fez e mantem a sua fidelidade, ou seja, Ele sempre cumpre aquilo que se comprometeu a fazer. Já os homens não podem garantir. Por isso, coloque sua esperança no Senhor que criou todas as coisas e que mantém para sempre Sua fidelidade

Os últimos versículos (7- 9), o salmista descreve vários benefícios de Deus, em favor das pessoas mais humildes, sofridas, aflitas, oprimidas, famintas. Em outras palavras, Deus age em favor das pessoas mais vulneráveis – as pessoas que mais precisam de esperança. Primeiro, Deus é bondoso e justo. Ele faz justiça aos oprimidos, (v.7a) uma vez que vivemos num mundo cheio de opressão por causa da injustiça. Somos oprimidos pelo sistema que vivemos. São problemas financeiros, familiares, sentimentais, profissionais. Estes problemas e muitos outros, o Senhor faz justiça às pessoas que vivem oprimidas. Fazer justiça aos oprimidos quer dizer uma lei justa que protege o mais fraco, com o objetivo de buscar o direito do oprimido; de buscar sua identidade. Isto significa o seu direito de lutar, protestar contra a discriminação e encontrar o seu lugar na sociedade. É neste sentido que contamos com ajuda do nosso Deus. Não estamos sozinhos diante desta situação. O Senhor é Justo. Ele está atento a tudo o que se faz contra os seus justos, e sempre se dispõe a intervir. Deus promete fazer justiça aqueles que O buscam.

Ele dá pão aos têm fome. (v.7b). Isto significa que a justiça de Deus se concretiza no pão aos famintos, aqueles que têm fome e não possuem recursos próprios, mas dependem de alguém que possa sustentá-los. Esta atitude é a primeira condição de justiça. Nenhum plano tem sentido se deixar o povo na fome. O plano de Deus é dar pão aos famintos. Vejamos alguns exemplos: por 40 anos Deus conduziu e sustentou o povo de Israel no deserto, até chegar à terra da promessa, a terra que mana leite e mel. (Ex 16.35) Quando Elias, profeta do Senhor, estava com fome, Deus ordenou aos corvos que o sustentassem (1 Reis 17.4 e 6). Quando a multidão que seguia a Jesus estava com fome, cinco pães e dois peixes foram multiplicados para suprir as necessidades do povo (Mateus 14.19. O Deus que sustentou o seu povo é o mesmo, não mudou. Ele continua nos sustendo. Peça a Deus o que você necessita!

Ele liberta os encarcerados. (v.7c). A opção de Deus pelos oprimidos, famintos, prisioneiros, demonstra claramente a sua justiça. Ele não quer escravos. No êxodo ficou demonstrado como o Senhor rompe as correntes e liberta o povo. De maneira privilegiada esse poder foi confirmado na volta do exílio babilônico. Sem templo, sem rei e sem a terra o pequeno grupo do povo, consegue reorganizar-se para encontrar de novo sua identidade e reconstruir os seus valores. O Senhor liberta seu povo. Como é maravilhoso saber que o Ele é Nosso Libertador. Não há correntes e nem cadeias que possam resistir à força do Seu poder. Ele nos liberta dos vícios, das prisões emocionais relacionadas às mágoas, ressentimentos, dificuldade de perdoar, tristeza ou depressão. Enfim, nada prevalece diante do poder libertador do Senhor.

Ele levanta os abatidos (v.8b). Muitas pessoas estão abatidas devido aos inúmeros fatores. São questões financeiras ou familiares, ou pelo medo ou até mesmo as dúvidas que temos. Diante desta situação, Deus abre um horizonte de esperança para todos os que sofrem sob o peso da opressão e que não podem manter a dignidade de sua postura humana. O salmista nos diz que podemos contar com Deus. Ele irá nos sustentar em suas mãos. Ele irá nos levantar e nos colocar no caminho que devemos trilhar, pois é um Deus de amor, de misericórdia, de bondade, de mansidão e de perdão. Ele nunca nega o pedido de ajuda de qualquer um de seus filhos. Ele é o Deus das nossas esperanças. Ele é poderoso para nos levantar.

 Ele ama os justos. (v.8c). Os justos gozam da atenção constante do Senhor que ouve o seu clamor a qualquer tempo: “Os olhos do Senhor estão sobre os justos; e os seus ouvidos, atentos ao seu clamor.” (Sl 34.15). “Pois tu, Senhor, abençoarás ao justo; circundá-lo-ás da tua benevolência como de um escudo.” (Sl 5.12). Uma das indicações da presença constante do Senhor é, exatamente, o fato de que Ele conhece o caminho dos justos. Não somente conhece, mas participa também dos nossos caminhos, nos acompanha, nos adverte e nos corrige. Ele conhece o caminho do Seu povo porque Ele escolheu para este povo o caminho que ele deve andar. O que o salmista faz é encher o coração dos aflitos de esperança, enquanto enche os injustos de temor, transtornando o seu caminho. (v.9b). Literalmente o hebraico diz “entortar o caminho”, levando os a cair em ruína; morrer. Significa que aqueles que andaram segundo o caminho da sua própria vontade, e não segundo a vontade de Deus, e que viveram para satisfazer a sua carne, seu coração e seus desejos, estes perecerão no último dia. Serão condenados ao sofrimento eterno, separados do Senhor.

Ele protege o peregrino. (v.9a): Israel passou por essa experiência. Permaneceu estrangeiro e escravo no Egito. A marca do exílio babilônico fez Israel amargar a vida como estrangeiro. Os patriarcas também foram estrangeiros em Canaã. Deus tem como objetivo recuperar os estrangeiros em seus valores, e lhes dá um lugar na sociedade. Jesus teve grande carinho para com os estrangeiros marginalizados, como demonstra seu trato com a mulher Cananéia (Mt 15.21-28), com o leproso samaritano ( Lc 17.11-19) ou na proposta a todos os que “virão do Oriente e do Ocidente, do Norte e do Sul, e tomarão lugar à mesa no Reino de Deus” (Lc 13,29).

Ele ampara o órfão e a viúva (v. 9b): órfão e viúva formam quase sempre uma só classe na Bíblia. Estas pessoas se encontravam desprotegidas, excluídas, ignoradas, esquecidas e desamparadas na sociedade da época. Eram pessoas não gratas no conceito judaico, tanto no AT quanto o NT. Eram pessoas que mais necessitavam da bondade de Deus. E Deus sempre se preocupou de forma muito peculiar com a vida destas pessoas. (Dt 26.13). Jesus vai ao encontro delas. Ele apresenta a viúva como uma pessoa necessitada em termos de proteção e sustento, e que deve ser honrada e respeitada. Aquela viúva não só deu oferta ao templo como deu “tudo” o que tinha, tal era a sua confiança em Deus e seu abandono nas mãos daquele que era o seu Senhor. Tiago diz que “a religião pura e imaculada consiste em visitar os órfãos e as viúvas em suas tribulações” (Tg 1.27). Qual é a nossa atitude em relação a estas pessoas, muitas vezes, excluídas da sociedade e até mesmo da própria igreja?

Depois de todo esse panorama, uma demonstração o quanto o Senhor é bom, o salmista encerra, trazendo o último motivo para louvarmos ao Senhor. Ele afirma que o reinado de Deus é duradouro e contínuo: “O Senhor reina para sempre; o teu Deus, ó Sião, reina de geração em geração.” (v.10). Deus reina por todas as gerações e o faz segundo seu poder, fidelidade, bondade e justiça.  Onde você tem colocando a sua esperança? Em você? Nos planos e sonhos do homem? Nas ideologias? Filosofias? Quando Deus é o nosso motivo de louvor sincero e consciente, não temos outros deuses diante de nós; não reverenciamos e não confiamos em nenhum outro ser ou personalidade; não depositamos nossas vidas e esperanças em outras mãos. Acima de tudo, confiamos em Deus, no Seu amor, na Sua fidelidade. Ele é a nossa esperança. Amém!


TEXTO: MT 3.1-12

TEMA: PREPARANDO O CAMINHO PARA O SENHOR

 Nesse texto encontramos um cenário marcante. Surge no deserto um homem simples, vestido de pelos de camelo, alimentando-se de gafanhotos e mel silvestre. Seu nome é João Batista.Ele aparece como alguém que rompe um silêncio de 400 anos — o período entre o Antigo e o Novo Testamento, quando não havia profetas em Israel. João surge como um arauto, um mensageiro enviado por Deus para preparar o povo para a chegada do Messias. Ele não apontava para si mesmo, mas para Aquele que viria depois dele (Jesus Cristo). Ele era o precursor. A sua missão  era "preparar o caminho do Senhor".

 Assim como João Batista convidou o povo a preparar o caminho para a chegada de Jesus, nós também somos chamados, neste tempo de Advento, a preparar o coração para receber o Rei,Jesus Advento não é apenas lembrar que Jesus nasceu em Belém há dois mil anos. Mas  lembrar que Ele continua vindo. Mas toda vinda exige preparação.E a pergunta é: como estamos nos preparando para a vinda de Jesus? A forma como João preparou o povo é crucial e define o tipo de preparação que a vinda do Senhor sempre exigiu.Então,vejamos:

 Primeiro, arrependendo-se porque está próximo o reino dos céus.(v.2).  João se apresenta no deserto da Judeia,pregando uma mensagem simples e direta. Ele resumiu a preparação em uma palavra: “Arrependei-vos.” Arrependimento não é só pedir perdão — é mudar o rumo, deixar o que não agrada a Deus e escolher obedecer. Ele dizia: o Reino está chegando! Preparem-se! Mudem!

 Segundo ,produzindo  frutos dignos de arrependimento (v.8). João Batista não queria arrependimento superficial, mas arrependimento verdadeiro — aquele que produz algo compatível (“digno”) com a mudança que a pessoa diz ter vivido.Produzir frutos dignos de arrependimento é viver uma fé autêntica, visível e coerente.É permitir que Deus transforme nossas atitudes, hábitos, escolhas e relacionamentos.

 Terceiro, reconhecendo a Grandeza do Messias (vv. 11–12). João Batista era um profeta admirado, respeitado e seguido por multidões.Ainda assim, quando ele fala sobre Jesus, suas palavras são de total reverência:“Aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu.”João sabia que Jesus não era apenas mais um mestre — Ele era o Messias, o Salvador prometido, o Rei que mudaria tudo.Tenho reconhecido a grandeza de Jesus sobre minhas lutas?

 João Batista aparece no deserto, proclamando a mensagem de Deus (v. 1). Ele não possui títulos ou qualificações formais. Parece ser alguém que não tem nada, alguém que surge do nada.  Ele é a voz que clama no deserto, um arauto enviado por Deus, vivendo de forma humilde e cuja vinda já havia sido profetizada (Isaías 40.3).  E como arauto,ele anuncia  a chegada de Jesus. Veio com objetivo de aplainar os corações dos homens, afim de receberem  o cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.Ele disse simplesmente: “ Preparai o caminho do Senhor”. (v.3a). O verbo ἑτοιμάσατε ( preparar) no imperativo significa colocar em ordem, tornar apto. Implica em uma ação urgente e necessária na preparação do caminho (ὁδὸν) do Senhor. No AT, preparar o caminho significava remover obstáculos à passagem do rei. A preparação do caminho não é apenas um ato físico, mas é uma preparação que envolve uma ação espiritual contínua. Isso significa que os cristãos são chamados a examinar suas vidas, a se arrepender de suas transgressões e  buscar uma relação mais profunda com Deus. Essa preparação pode incluir práticas como oração, leitura da Bíblia e participação em cultos, que ajudam a fortalecer a fé e a disposição para ouvir a voz de Deus.

 No entanto “o caminho do Senhor”,muitas vezes, se encontram em nossas vidas obstruídos, com muitos buracos devido a mágoas, ressentimentos, falta de perdão, ódio, culpas, orgulho. São  sentimentos acabam dificultando e obstruindo o nosso acesso de Jesus. Por isso,precisamos “endireitar as  veredas.”(v.3b).Aqui também o verbo sugere uma ação contínua ou habitual.A expressão significa literalmente “tornem retas”. Era comum nivelar e corrigir rotas antes da chegada de um rei.Mas que caminho João Batista tinha que preparar e aplainar? No contexto de João Batista, isso era um chamado para que o povo removesse os obstáculos do pecado e da desobediência (arrependimento), para que estivessem moral e espiritualmente prontos para receber Jesus, o Messias.

 Mas quem era este homem que "se vestia de pelos de camelo, usava um cinto de couro e se alimentava de gafanhotos e mel silvestre?" (v.4). O que demonstra essa forma de se vestir?Para os judeus, isso era um sinal claro de que João estava cumprindo a profecia de Malaquias 4.5. Isso validava a missão profética de João. Além disso,o seu vestuário simples e sua alimentação contrastavam fortemente com o luxo e o conforto da elite religiosa e social de Jerusalém. Era uma vida de total desapego dos bens materiais, o que reforçava a sinceridade e a seriedade da sua mensagem de arrependimento.Mas também quem era este homem, cuja "toda a província da Judeia e todos os habitantes de Jerusalém iam ter com ele"? (v.5).O verbo grego usado — no tempo imperfeito — indica um fluxo contínuo, um movimento constante de pessoas indo ao deserto para ouvir sua pregação.A ida dos habitantes de Jerusalém, centro religioso e político, mostra que a mensagem de João alcançava até os líderes e pessoas influentes. O movimento também se espalhava por toda a Judeia, alcançando vilas e cidades menores, e incluía até moradores da terra ao redor do Jordão, possivelmente até regiões como Pereia e Galileia, que vinham de longe para ouvi-lo e serem batizados.

 Essa intensa busca confirma que o chamado ao arrependimento e a expectativa pela chegada do Messias eram profundamente sentidos pelo povo judeu. Eles reconheceram em João uma verdadeira voz profética.E, assim, " eram por ele batizadas no Jordão, confessando os seus pecados."(v.6).O evangelista apresenta três elementos inseparáveis: primeiro, “eram por ele batizadas”. O batismo ministrado por João era um batismo de arrependimento (Marcos 1.4; Atos 19.4), distinto do batismo cristão sacramental, que seria posteriormente instituído por Jesus. O batismo  tinha um caráter preparatório, preparando o povo para a vinda daquele que viria depois dele. O próprio João definia seu batismo: “batismo de arrependimento, para remissão de pecados”.

 Segundo,o evangelista apresenta o local: o rio Jordão. É um rio que tem profundo simbolismo histórico. Ele marca a entrada na Terra Prometida (Josué 3); é lugar de purificação (2 Reis 5 — cura de Naamã); será também o local do batismo de Jesus (Mt 3.13–17). Ao batizar no Jordão, João situa seu ministério num cenário de transição, indicando que um novo êxodo espiritual está começando — a passagem da antiga para a nova era messiânica.Terceiro,quesito refere-se à  confissão dos pecados.A confissão dos pecados ocorre em paralelo ao batismo. No grego, o particípio ἐξομολογούμενοι indica ação simultânea e contínua: enquanto eram batizados, estavam confessando.Isso mostra que  não era apenas um ritual, mas sim a expressão de uma mudança de mentalidade ( arrependimento).

 Embora muitas pessoas comuns fossem batizadas por João Batista, o Evangelho destaca a presença dos fariseus e saduceus, grupos religiosos influentes da época: “vendo,porém, que muitos fariseus e saduceus vinham ao batismo.”(v.7a). Mas quem eram esses homens?  Os fariseus eram conhecidos pela sua estrita observância da Lei e das tradições orais. Eram muito respeitados pelo povo, mas muitas vezes hipócritas e legalistas, confiando nas suas próprias obras para a justiça. Os saduceus eram a elite sacerdotal, politicamente ligados aos romanos. Eram mais liberais e rejeitavam a crença na ressurreição, anjos e vida após a morte.O fato de "muitos" deles virem ao batismo de João, pois eles geralmente consideravam-se justos o suficiente, não necessitando do batismo de arrependimento destinado aos "pecadores"

 .No entanto,  reação de João a esses líderes é carregada de indignação profética.Ele  os repreende: “Raça de víboras quem vos induziu a fugir da ira vindoura?” (v.7 b ). A expressão “Raça de víboras” (Mt 3.7), pronunciada por João Batista e posteriormente por Jesus, não é um insulto cultural, mas uma avaliação do estado espiritual dos fariseus e saduceus. Eles buscavam o rito, mas não o arrependimento. Aproximavam-se da água, mas não da verdade. Desejavam parecer justos, mas rejeitavam a transformação interior. Por isso João pergunta: “Quem vos ensinou a fugir da ira vindoura?” — uma denúncia direta contra a hipocrisia que tentava escapar do juízo apenas pela aparência externa.Essa acusação sugere que eles estavam vindo ao batismo por motivos errados (talvez para espionar, manter as aparências ou por medo), mas não com um arrependimento genuíno.A verdadeira fé não se constrói sobre máscaras religiosas, mas sobre um coração quebrantado. Deus não se impressiona com posições, títulos ou tradições humanas; Ele sonda a essência, não o discurso.A ira de Deus é a manifestação santa e justa de Seu caráter contra o pecado.

 João Batista confronta a hipocrisia e chama a todos para uma mudança real de vida, que deve ser evidente em atitudes concretas. Ele  afirma: “Produzi,pois.frutos dignos de arrependimento.” (v.8). Produzir frutos dignos de arrependimento é viver uma fé autêntica, visível e coerente.É permitir que Deus transforme nossas atitudes, hábitos, escolhas e relacionamentos,ou seja,evidências visíveis de mudança. O que antes era mais importante deixa de ser. Na verdade, João Batista não queria arrependimento superficial, mas arrependimento verdadeiro — aquele que produz algo compatível (“digno”) com a mudança que a pessoa diz ter vivido. Os líderes religiosos acreditavam que eram automaticamente aceitos por Deus por serem descendentes de Abraão: “Temos por pai a Abraão” (v. 9a).

 Essa era a principal base do orgulho espiritual dos judeus. Eles criam que, por serem filhos de Abraão, já faziam parte do povo da aliança. Isso os diferenciava das nações pagãs. Pensavam: “Somos descendentes de Abraão, então estamos seguros.”

 João, porém, declara que Deus não depende de linhagem biológica. Ele é soberano e pode criar um povo fiel até mesmo de pedras, se quiser: “Deus pode, destas pedras, suscitar filhos a Abraão” (v. 9b).As “pedras” representam aquilo que é inanimado, incapaz, algo que parece morto e sem qualquer potencial. Mas Deus pode suscitar filhos — um povo fiel — pelo Seu poder, e não por méritos humanos. Ele pode levantar verdadeiros filhos espirituais de onde menos se espera.

 João Batista agora dirige uma advertência urgente e iminente aos fariseus e saduceus, focada na proximidade do juízo divino: "já está posto o machado à raiz das árvores" (v.10a).O machado não está guardado ou em preparação. Ele já foi colocado no lugar, prestes a golpear. Isso significa que o juízo não está distante, O tempo de espera acabou ou está se esgotando rapidamente. É uma declaração de que o juízo divino é urgente e iminente.Por isso,o  tempo de arrependimento concedido por Deus é limitado.Para João Batista, arrependimento verdadeiro sempre produz fruto. E “toda árvore que não produz bom fruto é cortada e lançada ao fogo.” (v.10b).O que é fruto? São as evidências práticas e visíveis de uma verdadeira mudança interior (arrependimento genuíno). Mas quem não produzir “frutos dignos de arrependimento"(v.8), “ é cortada e lançada ao fogo.”O ato de cortar a árvore pela raiz significa a remoção completa e a condenação. Não há mais oportunidade de recuperação para aquela árvore.O destino da árvore improdutiva é ser "lançada ao fogo". Na Bíblia, o fogo é um símbolo frequente do juízo e da ira de Deus.É um grito de alerta sobre a severidade e a proximidade do julgamento de Deus.

 O evangelista estabelece o clímax da pregação de João, contrastando poderosamente seu próprio ministério preparatório com o ministério de Jesus. Ele posiciona-se como um precursor, humildemente declarando a superioridade daquele que virá depois dele. “Eu, na verdade, vos batizo com água, para arrependimento.” O batismo de João era um sinal profético e urgente que preparava o povo para a chegada do Messias.Simbolizava o arrependimento genuíno e a purificação moral do indivíduo.Era um ato público de confissão de pecados e de aliança com o propósito iminente de Deus.Dessa forma, João cumpria sua missão de precursor, preparando um caminho espiritual no deserto.Seu batismo de água para arrependimento contrastava com o batismo de Jesus, que seria com o Espírito e Fogo.

 No entanto, diz João Batista:”mas aquele que vem após mim é mais poderoso do que eu.”(v.11a). O termo ἰσχυρός (poderoso) traz a ideia de Jesus tem poder sobre a natureza, os demônios, as enfermidades e a morte, e que ele tem autoridade nos céus e na terra. João Batista está ciente disso e por esta razão ele não se demora em declarar  “cujas sandálias não sou digno de levar.” (v.11b).Aoristo infinitivo de βαστάζω (levar) significa carregar, levar, suportar.Tradução literal seria: “ cujas sandálias não sou digno de levar.” ou de quem não sou digno de carregar as sandálias” Fazer este serviço alguém alguém, era um serviço de um escravo. Ele quem carregava as sandálias de seu senhor. João Batista entende  que não  estava à altura nem mesmo ser escravo dele. Ele compreendia que o Filho de Deus era infinitamente superior a ele, e, portanto, manifesta o humilde respeito a Jesus. Isto significa que ele jamais exaltou a si mesmo, mas manteve-se fiel a missão de anunciar o Messias.

 João Batista  ainda afirma que “ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo." (v. 11c).Esta é uma questão que tem gerado muitos debates. Há várias interpretações sobre as palavras que João Batista se referiu. Muitos falam que o batismo com o Espirito Santo é um segundo batismo, um revestimento adicional após a conversão que faz com que a pessoa fale em línguas estranhas ou manifeste algum comportamento diferente após esse suposto segundo batismo com o Espírito Santo. Vamos primeiro refletir o que seria o batismo com o Espirito Santo?  A Bíblia mostra que o batismo que recebemos pela palavra de Jesus, unida à água, é o batismo com o Espírito Santo. Somos revestidos, perdoados, regenerados, salvos pelo santo batismo que recebemos quando o pastor joga água na cabeça em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Não existe outro batismo. Em Efésios 4.5, Paulo deixa bem claro que há um só Senhor e uma só fé, há também um só batismo. Por isso, não há outro batismo com o Espírito Santo a não ser o batismo que recebemos em nome da Trindade. O  mesmo apóstolo Paulo escreve em Tito 3.5 que Deus "nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo". Portanto,  desde nosso batismo com água temos, o Espírito Santo em sua plenitude, não precisamos esperá-lo de outra forma

 E o “batismo com fogo”, o que seria? Primeiro,vamos refletir sobre o fogo. O que ele representa?  Ele é forte e emite luz e calor. Por isso, muitas vezes, representa o grande poder de Deus. Várias passagens bíblicas retratam este poder de Deus se manifestando em fogo, consumindo holocaustos, destruindo cidades, caindo fogo do céu a pedido de profeta, coluna de fogo a guiar o povo na saída do Egito, etc. O fogo também representa destruição. Ele queima e pode causar muita devastação; da mesma forma, o julgamento divino é devastador – Isaías 66.15-16. Ele também representa purificação. Ele era usado para refinar metais, queimando todas as impurezas e deixando apenas metal puro. O fogo de Deus purifica dos pecados – 1 Coríntios 3.13-15.

 O fogo,além de ser purificador, ele também significa julgamento divino. O mesmo Jesus que envia o Espírito para operar a fé salvadora é aquele que traz o fogo do juízo para os descrentes; para aqueles que se recusam a arrependerem-se; para aqueles que  trocam o Senhor por outros deuses: Lemos em Lc 12.49, algo referente a juízo: “Eu vim para lançar fogo sobre a terra e bem quisera que já estivesse a arder.” Outros exemplo: “O Senhor cumpriu a sua ira, derramou o ardor da sua ira; e acendeu um fogo em Sião, que consumiu os seus fundamentos” ( Lamentações 4.11 ). “Quem pode resistir à sua indignação? Quem pode suportar o ardor da sua ira? A sua ira se derramou como fogo, e as rochas foram por ele quebradas” ( Na 1.6 ). “Assim derramei sobre eles a minha indignação; consumi-os com o fogo da minha ira; fiz recair sobre as suas cabeças o seu proceder, diz o Senhor Deus” ( Ezequiel 22.31 ).“E todo aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo” ( Apocalipse 20.15). 

 Portanto, o batismo do Espírito é a esperança prometida de todo crente. E o batismo de fogo é o destino terrível de todo descrente.Assim, como o “batismo do Espírito” apontava para as promessas de Deus “derramando o seu Espírito”, assim também a imagem de um “batismo de fogo” apontava  a imagem de Deus para o derramando do fogo da sua ira. Neste sentido, João advertiu quanto ao julgamento iminente que Jesus haveria de realizar  aqueles que se recusam a viver para Deus. Ocorre que haverá uma separação entre os justos e injustos. Agora, eles estão juntos. Os crentes e os não crentes, os convertidos e os não convertidos, os santos e os imundos, todos eles estão juntos. Reúnem-se juntos, se ajoelham juntos, escutam os sermões juntos, e recebem o pão e vinho na mesa do Senhor juntos, se encontram mesclados na Igreja visível de Cristo. Mas nem sempre será assim.

 Quando Cristo virá pela segunda vez, “ a sua pá,ele a tem na mão e limpará completamente a sua  eira.” (v.12a). O termo πτύον (pá) era uma ferramenta,uma espécie de garfo grande de madeira, usada no processo de separação do grão da palha.Após a colheita, o grão é levado à eira. A eira ( ἅλων)  era um lugar no campo aplanado; uma superfície plana, lisa e dura. Nesta eira o grão era  pisoteado ou batido para soltar a parte o grão da palha.A pá,então, era usada para lançar ao ar os grãos debulhados. Com esse processo, o vento levava a palha, mais leve, e os grãos, mais pesados, caíam de volta ao na eira. Este era o trabalho do lavrador naquela época: limpava e recolhia no celeiro os grãos.

 Cristo fará o mesmo com sua Igreja. Ele também  “limpará! Mas de que forma? Cristo virá pela segunda vez, com a pá em sua mão, Ele vai separar os justos (trigo) dos injustos (palha), e a promessa de que os justos serão reunidos no céu, enquanto os injustos enfrentarão o castigo eterno. Jesus,antes de sua subida aos céus,afirmou que no dia do juízo, todas as pessoas, as nações,  os justos como os ímpios, os bons e os maus, sem exceção, todos estarão diante do trono do grande Rei, a saber, Cristo. Ele vai separar as ovelhas e os bodes.As ovelhas e os bodes estarão de lados opostos.E cada um receberá uma sentença.Com isso entendemos que a separação será clara, evidente e sem confusão.Mas o maior consola será a sentença de Jesus aos justos: “Vinde, benditos de meu Pai! Entrai na posse do reino que vos está preparado desde a fundação do mundo.” (v.34).Os justos serão bem-aventurados naquele dia! Eles serão reunidos e armazenado no celeiro de Deus, pois colocaram suas vidas nas mãos do Senhor e agora viverão com Ele em sua presença para sempre.Que momentos maravilhosos!

 Enquanto,o trigo (justo) é colocado no deposito, a palha (injustos, perversos) que neste ponto é inútil, é reunida e queimada com fogo inextinguível. Estes terão o seu julgamento devido: “serão queimados como a palha em fogo  inextinguível.” (v.17b). João usa o verbo κατακαίω no grego, que não  significa simplesmente “queimar”, mas "queimar completamente" ou "consumir totalmente.” Geralmente, os lavradores juntavam essa palha e a queimavam. Assim, não havia perigo de o vento misturar novamente a palha com os grãos debulhados. Isto significa que todos os impenitentes, injustos e incrédulos, que se agarraram na  sua própria justiça, que estejam aderidos ao pecado,  que estejam sem Cristo, esses terão um castigo extremamente severo: Cristo “queimará a palha”. E  será queimado em jogo “inextinguível.” O termo grego  ἄσβεστος não significa  um fogo que dura para sempre, mas um fogo que é incapaz de ser apagado por por ninguém e, portanto, queima ininterruptamente, devorando completamente.João Batista é claro em sua palavras: os perversos e corruptos serão completamente consumidos e reduzidos a cinzas, assim como a palha queimada por uma chama inextinguível neste lugar horrível, chamado inverno!Então, pode estar certo, o inferno será um lugar horrível  é eterno.

 O evangelista Marcos (9.43) compara   o "fogo inextinguível"  ao termo grego γεεννα (inferno) que significa literalmente “vale de Hinom”, um lugar que ficava próximo de Jerusalém. Nos tempos bíblicos, esse vale era usado como depósito de lixo. O fogo era mantido constantemente aceso para queimar todos os detritos.  Era comum haver fogo consumindo os gases em decomposição. O que não era destruído pelo fogo era consumido por larvas. Jesus usa esta palavra como símbolo de destruição eterna. (Mateus 23.33). Marcos neste texto fala que é  o lugar “onde não lhes morre o verme, nem o fogo se paga”. (44, 46,  48). Ele descreve o lugar para aqueles que se rebelam contra Deus. O lugar é horrível! Sobre este lugar Isaías afirma: “E realmente sairão e olharão para os cadáveres dos homens que transgrediram contra mim; pois os próprios vermes sobre eles não morrerão e o próprio fogo deles não se apagará.” (Isaías 66.24).

 Estimados irmãos! Preparar o caminho para o Senhor é mais do que um ato histórico realizado por João Batista — é um chamado atual para cada um de nós. Assim como um terreno precisa ser nivelado antes de receber uma construção firme, o nosso coração precisa ser alinhado com a vontade de Deus para que Ele possa agir plenamente em nossa vida.Quando endireitamos nossos caminhos, quando removemos os obstáculos do pecado, da incredulidade e da indiferença, abrimos espaço para que a luz de Cristo brilhe mais forte em nós. E ao fazermos isso, não apenas somos transformados, mas também nos tornamos instrumentos de Deus para preparar outros corações ao nosso redor.

 Portanto, saiamos daqui não apenas como um ouvinte, mas como um construtor, um aplanador e um proclamador, preparando o caminho  que Cristo seja recebido com honra, reverência e fé viva não somente neste Advento,mas sempre.Amém!