TEXTO: Mt 21.23-27 (28-32)
TEMA: A AUTORIDADE DE JESUS E A
VERDADEIRA OBEDIÊNCIA
Vivemos em uma sociedade em que a
autoridade é constantemente questionada. Muitas vezes, as pessoas perguntam:
“Quem lhe deu autoridade para fazer isso?” Essa também foi a pergunta dirigida
a Jesus. Os principais sacerdotes e os anciãos do povo não estavam interessados
em conhecer a verdade, mas em questionar a autoridade de Jesus e colocar em
dúvida a origem de sua missão.
Jesus, porém, não responde
simplesmente à pergunta. Ele conduz seus ouvintes a refletirem sobre a
autoridade de Deus e sobre a maneira como cada pessoa responde à sua Palavra.
Em seguida, por meio da parábola dos dois filhos, mostra que não basta falar que
obedecemos a Deus. A verdadeira obediência se manifesta quando ouvimos a sua
Palavra, nos arrependemos e confiamos nele.
Esse texto também nos leva a olhar para
nossa própria vida. Podemos conhecer a Palavra de Deus, falar sobre fé e até
afirmar que queremos obedecer ao Senhor, mas a pergunta é: como estamos
respondendo à autoridade de Jesus? Ele é verdadeiramente o nosso Senhor?
Estamos dispostos a ouvir sua Palavra, reconhecer nossos pecados,
arrepender-nos e viver pela fé?
Por isso, nesta passagem, veremos
três verdades importantes:
Primeiro, Jesus possui autoridade
que vem de Deus
(vv. 23–27). Os principais sacerdotes e anciãos questionam a autoridade de
Jesus, mas Ele mostra que sua autoridade não depende da aprovação humana. Sua
autoridade vem de Deus, e rejeitá-la significa também rejeitar aquele que o
enviou.
Segundo, Deus chama o pecador ao
arrependimento (vv.
28–30). Na parábola dos dois filhos, Jesus mostra que Deus chama as
pessoas a trabalhar em sua vinha. O filho que inicialmente recusou, mas depois
se arrependeu e foi, demonstra que Deus deseja uma mudança verdadeira de
coração e de atitude.
Terceiro, a verdadeira obediência
nasce da fé (vv.
31–32). Jesus ensina que não basta dizer que obedecemos a Deus; é necessário
confiar nele e viver de acordo com sua vontade. Os que ouviram João e creram
demonstraram arrependimento e fé, enquanto aqueles que permaneceram na
incredulidade rejeitaram o caminho da salvação.
I
Os principais sacerdotes e anciãos
questionam a autoridade de Jesus, O texto diz: “Com que autoridade fazes estas
coisas? E quem te deu essa autoridade?” (v.23). A pergunta feita a Jesus revela
a oposição das autoridades religiosas à sua pessoa e ao seu ministério. Eles
haviam visto Jesus entrar no templo, expulsar os que comercializavam naquele
lugar e ensinar o povo. Diante disso, os principais sacerdotes e os anciãos
queriam saber de onde vinha a autoridade com a qual Jesus realizava essas
coisas
Essas autoridades religiosas
ocupavam posições importantes dentro da estrutura religiosa de Israel e
consideravam-se responsáveis por preservar a ordem e a tradição do povo. Por
isso, a atuação de Jesus no templo representava um confronto direto com aquilo
que elas consideravam ser sua esfera de autoridade.
Eles são enfáticos nos seus
questionamentos: “Com que autoridade fazes estas coisas? E quem te deu essa
autoridade?” A expressão “estas coisas” provavelmente se refere ao que Jesus
vinha fazendo naquele contexto: sua entrada em Jerusalém, sua atuação no templo,
o ensino que oferecia ao povo e, especialmente, a expulsão dos comerciantes do
templo. Eles não questionavam apenas uma ação isolada, mas a legitimidade de
todo o ministério de Jesus. A pergunta, portanto, era: quem autorizou Jesus a
ensinar, corrigir e agir dessa maneira? Eles queriam que ele apresentasse uma
credencial que justificasse suas ações.
É importante perceber que Jesus não
havia buscado essa autoridade entre os líderes religiosos. Ele não dependia da
aprovação dos sacerdotes ou dos anciãos para realizar a missão que recebera.
Sua autoridade vinha de Deus. O Pai o havia enviado para realizar a missão que
lhe confiara. Portanto, a verdadeira questão não era simplesmente descobrir
quem havia dado autoridade a Jesus, mas reconhecer se estavam dispostos a
aceitar a autoridade daquele que Deus havia enviado.
Essa pergunta continua sendo
importante para nós. Jesus não é apenas um mestre entre tantos outros, cuja
palavra podemos aceitar ou rejeitar conforme nossa vontade. Ele é o Senhor e
tem autoridade sobre a nossa vida. Sua Palavra nos mostra nosso pecado, chama-nos
ao arrependimento e anuncia o perdão que recebemos pela graça, por meio da fé. Assim,
o texto nos convida não a questionar a autoridade de Jesus, mas a submeter-nos
a ela pela fé. A verdadeira obediência começa quando reconhecemos que Cristo
tem autoridade divina e confiamos nele como nosso Senhor e Salvador.
Jesus, então, afirma aos principais
sacerdotes e anciãos, que haviam questionado sua autoridade. Ele não evita a
pergunta, mas conduz aqueles homens a uma questão ainda mais profunda. Mostra
que, antes de responder, eles precisavam se examinarem sobre aquilo que já
sabiam a respeito de João Batista: “Eu também vos farei uma pergunta; se me
responderdes, também eu vos direi com que autoridade faço estas coisas” (v.24).
Jesus estabelece uma condição: se
eles respondessem à sua pergunta, ele também responderia à pergunta deles. A
questão colocada por Jesus exigia uma resposta clara: a autoridade de João
Batista vinha de Deus ou dos homens? A expressão “se me responderdes”, mostra
que Jesus lhes dá oportunidade de se posicionarem diante da verdade. Eles
precisavam reconhecer de onde vinha a autoridade de João. Se admitissem que
João havia sido enviado por Deus, teriam de levar a sério sua mensagem e seu
testemunho a respeito de Jesus.
Portanto, Jesus coloca aqueles
líderes diante de uma escolha. Eles não poderiam simplesmente permanecer
neutros. Precisavam responder. A verdade de Deus exige uma tomada de posição,
pois diante da Palavra do Senhor o ser humano é chamado a ouvir, reconhecer e
crer.
Jesus finalmente menciona o assunto
que eles haviam levantado: sua autoridade. Ele promete que, se respondessem à
sua pergunta, também lhes diria de onde vinha sua autoridade: “também eu vos
direi com que autoridade faço estas coisas”. As “coisas” que Jesus fazia
incluíam sua entrada em Jerusalém, a purificação do templo e seu ensino. Os
líderes religiosos questionavam quem havia dado a Jesus o direito de agir
daquela maneira. Entretanto, Jesus sabia que sua autoridade não procedia dos
homens. Ele havia sido enviado pelo Pai e exercia sua missão segundo a vontade
de Deus.
Assim, o evangelista nos mostra que
Jesus não precisa receber autoridade dos homens para ser Senhor e Salvador. Sua
autoridade vem de Deus. Ele ensina, confronta o pecado, anuncia o Reino, perdoa
e salva porque foi enviado pelo Pai. O desafio colocado aos líderes religiosos
continua sendo importante: não basta questionar Jesus; é necessário ouvir sua
Palavra e reconhecer sua autoridade.
A resposta de Jesus também está
ligada ao testemunho de João Batista por Deus. Jesus então responde com uma
pergunta sobre o batismo de João: “Donde era o batismo de João? Do céu ou dos
homens? E eles discorriam entre si: Se dissermos: Do céu, ele nos dirá: Então,
por que não crestes nele?” (v.25). Ele não está fugindo da pergunta. Ele mostra
que, antes de responder, eles precisam se posicionar diante da autoridade de
João Batista.
Jesus coloca diante dos líderes
religiosos uma pergunta objetiva: “Donde era o batismo de João?” Eles haviam
questionado a autoridade de Jesus, e agora precisam responder sobre a
autoridade de João Batista. A questão não era simplesmente sobre o batismo, mas
sobre a origem da missão e da mensagem de João. João havia pregado o
arrependimento e preparado o povo para a chegada do Messias. Seu ministério não
era independente de Deus; ele havia sido enviado para anunciar aquele que viria
depois dele. Portanto, se os líderes religiosos reconhecessem que João havia
recebido sua autoridade de Deus, teriam de considerar também o testemunho de
João a respeito de Jesus.
Jesus apresenta somente duas
possibilidades sobre a origem do batismo de João: “do céu” ou “dos homens”. Se
o batismo de João vinha do céu, sua missão tinha origem divina. Significa que a
autoridade de João vinha de Deus. Reconhecer isso exigiria aceitar sua pregação
e levar a sério seu testemunho acerca de Jesus. Mas se vinha dos homens, João
seria apenas alguém que agia por sua própria autoridade.
Os líderes não respondem
imediatamente a Jesus. Eles começam a discutir entre si qual seria a resposta
mais conveniente. Isso revela algo importante: eles não estavam procurando
sinceramente a verdade, mas tentando encontrar uma resposta que protegesse sua
posição. A preocupação deles não era: “O que Deus está nos mostrando?” A
preocupação era: “O que será melhor para nós?” Em vez de submeterem seu
entendimento à verdade de Deus, procuram calcular as consequências de cada
resposta. Isso demonstra como o pecado pode levar o ser humano a resistir à
verdade mesmo quando ela está diante de seus olhos. O problema daqueles líderes
não era falta de inteligência, mas um coração fechado para reconhecer a ação de
Deus.
A verdade é que a pergunta de Jesus
os colocou diante da Palavra de Deus e exigiu delas uma resposta sincera.
Então, começaram a raciocinar entre si, mas não por amor à verdade. Estavam
preocupados com as consequências de sua resposta: “Se dissermos: Do céu, ele
nos dirá: Então, por que não crestes nele?” Eles percebem que reconhecer a
origem divina do ministério de João os colocaria diante de uma consequência
inevitável: “por que não crestes nele?” Se João havia sido enviado por Deus,
sua mensagem deveria ser recebida com fé e obediência. Ele não apontava para si
mesmo, mas para Cristo. Portanto, rejeitar João significava também rejeitar o
testemunho que Deus estava dando acerca de Jesus.
Vejamos a incoerência daqueles
líderes: eles questionavam a autoridade de Jesus, mas se recusavam a reconhecer
a autoridade de João, que havia sido enviado por Deus para preparar o caminho
do Senhor. Ao rejeitarem João e sua mensagem, estavam, na realidade, rejeitando
o próprio Cristo para quem João apontava. A resistência à mensagem de João
revelava a dureza do coração diante da ação de Deus.
Diante de Jesus, também nós não
somos chamados a calcular o que nos é mais conveniente, nem a moldar a verdade
de Deus de acordo com nossos interesses. Somos chamados a ouvir sua Palavra,
reconhecer sua autoridade e confiar nele como aquele que foi enviado pelo Pai
para a nossa salvação. A verdadeira fé não procura desculpas para resistir à
Palavra de Deus, mas, pela ação do Espírito Santo, recebe-a com humildade e
confiança.
No entanto, os principais
sacerdotes e anciãos consideram a possibilidade de afirmar que o batismo de
João tinha origem humana. Nesse caso, estariam dizendo que João não havia sido
enviado por Deus e que sua autoridade não era divina: “E, se dissermos: Dos
homens, tememos o povo, porque todos consideram João como profeta” (v.26). Mas,
eles mesmos sabiam que essa resposta seria problemática. João era amplamente
reconhecido pelo povo como profeta, e sua pregação havia alcançado muitas
pessoas. Sendo assim, eles “temiam o povo.” Aqui aparece claramente a motivação
deles. O temor não era de Deus, mas das pessoas. Eles estavam preocupados com a
reação do povo.
O reconhecimento de João como
profeta era tão forte entre o povo que os líderes não se sentiam livres para
negar isso publicamente. Eles estavam presos entre duas respostas: se dissessem
que João vinha de Deus, seriam confrontados por Jesus por não terem crido nele;
se dissessem que João vinha dos homens, temiam a reação do povo. Percebe-se,
portanto, que o temor dos homens estava impedindo aqueles líderes de
reconhecerem a verdade de Deus. Eles conheciam as implicações da questão, mas
preferiam proteger sua posição em vez de se submeterem à verdade.
Depois de discutirem entre si, os
principais sacerdotes e anciãos finalmente respondem a Jesus: “Não sabemos”
(v.27a). Essa resposta não significa necessariamente que eles realmente
desconhecessem a origem do batismo de João. Pelo contexto, eles haviam
percebido claramente as consequências de cada resposta. Assim, “não sabemos”
funciona como uma resposta evasiva. Eles não queriam reconhecer a verdade nem
assumir as consequências de sua própria posição. Em vez de confessarem aquilo
que sabiam, esconderam-se atrás de uma resposta conveniente.
Jesus então responde à atitude
deles: “Nem eu vos digo com que autoridade faço estas coisas” (v.27b). Ele os
havia dado uma oportunidade de responder sinceramente à sua pergunta. Contudo,
diante da recusa deles em reconhecer a verdade, Jesus não continua o debate nos
termos que eles desejavam. Isso mostra a sabedoria de Jesus. Ele não precisava
prolongar uma discussão com pessoas que não estavam buscando sinceramente a
verdade. A conversa havia revelado o verdadeiro problema daqueles líderes: eles
não queriam reconhecer a autoridade de Deus quando isso os colocava diante da
necessidade de arrependimento e fé.
Os líderes religiosos tinham diante
de si o testemunho de João e as próprias obras de Jesus, mas não queriam
reconhecer aquilo que essas evidências apontavam. Também nós somos chamados a
não usar desculpas para fugir da Palavra de Deus. Quando o Senhor nos confronta
com sua Lei, somos chamados ao arrependimento; quando anuncia o Evangelho,
somos chamados a confiar em Cristo. A Palavra de Deus não deve ser usada apenas
para satisfazer nossa curiosidade, mas recebida com fé e submissão. Jesus é o
Senhor, e sua autoridade não depende do reconhecimento dos homens.
II
Nos versículos anteriores, os
principais sacerdotes e os anciãos questionaram Jesus: “Com que autoridade
fazes estas coisas?” Jesus, porém, mostrou que a questão não poderia ser
separada da autoridade de João Batista. Quando perguntou se o batismo de João
era “do céu ou dos homens”, eles perceberam que qualquer resposta os colocaria
diante da verdade. Por isso, responderam evasivamente: “Não sabemos.” É
justamente nesse contexto que Jesus conta a parábola dos dois filhos. “Que vos
parece? Um homem tinha dois filhos. E, dirigindo-se ao primeiro, disse: Filho,
vai hoje trabalhar na vinha” (v.28).
Podemos dividir o versículo em três
partes: primeiro, “que vos parece?” Jesus inicia uma parábola fazendo essa
pergunta. Ele deseja levar os seus ouvintes a refletirem sobre aquilo que estão
ouvindo. Não apresenta simplesmente uma conclusão pronta, mas conduz os
próprios interlocutores a julgarem a situação apresentada. A pergunta é
importante porque, logo antes, os principais sacerdotes e anciãos haviam se
recusado a responder honestamente sobre João Batista. Agora, Jesus conta uma
história que os levará a confrontar a própria atitude.
Segunda parte: “um homem tinha dois
filhos.” Jesus apresenta um pai e dois filhos. Os dois pertencem à mesma
família e recebem uma ordem do mesmo pai. A diferença entre eles aparecerá não
naquilo que dizem, mas na maneira como respondem à vontade do pai. Os dois
filhos representam pessoas que ouvem a vontade de Deus, mas reagem de maneiras
diferentes. Jesus está preparando seus ouvintes para compreender que não basta
pertencer exteriormente ao povo de Deus ou dizer as palavras corretas. O que
importa é uma resposta verdadeira à Palavra de Deus.
Terceira parte: “E, dirigindo-se ao
primeiro, disse: Filho, vai hoje trabalhar na vinha.” Nesta terceira parte,
Jesus apresenta o primeiro filho. O pai se dirige a ele com uma palavra de
proximidade e afeto: “Filho. vai hoje trabalhar na vinha”. O termo “hoje” chama
a atenção para a urgência da resposta. O pai não está falando de algo para um
futuro indefinido. Há uma tarefa a ser realizada naquele momento. O convite do
pai exige uma resposta concreta: ouvir sua palavra e agir de acordo com ela.
No entanto, “Ele, porém, respondeu:
Sim, Senhor; porém não foi” (v.29). A resposta inicial demonstra respeito e
disposição. Ele chama o pai de “Senhor” e, com suas palavras, parece aceitar
prontamente o pedido. Contudo, sua atitude posterior contradiz aquilo que havia
dito. Ele afirmou que iria, mas não cumpriu a ordem recebida.
Jesus mostra que não basta uma
resposta correta de palavras quando ela não é acompanhada pela obediência. O
primeiro filho representa aqueles que podem demonstrar exteriormente respeito
por Deus, falar de maneira religiosa e até afirmar que estão dispostos a fazer
a sua vontade, mas, na prática, permanecem afastados dela. Há uma diferença
entre dizer “sim” a Deus com os lábios e viver esse “sim” na prática.
Entretanto, a parábola também
prepara o contraste com o segundo filho. Jesus apresenta a resposta: “E,
dirigindo-se ao segundo, disse-lhe o mesmo. Porém este respondeu: Não quero;
depois, arrependido, foi” (v.30). Sua resposta, porém, é direta e negativa:
“Não quero.” Ele não demonstra disposição para obedecer. Sua atitude inicial é
de resistência à vontade do pai. Essa resposta mostra que, naquele momento, o
filho estava com o coração voltado para a sua própria vontade. Ele ouve a
ordem, compreende o que o pai deseja, mas decide não obedecer. Não há tentativa
de justificar sua atitude; simplesmente afirma que não quer.
Jesus apresenta aqui uma realidade
que também encontramos na vida daqueles que, inicialmente, rejeitam a vontade
de Deus. Há pessoas que, num primeiro momento, resistem à Palavra, afastam-se
de Deus ou vivem em desobediência. Entretanto, isso não precisa ser o ponto
final de sua história. Pela ação da Palavra, podem reconhecer o seu pecado,
arrepender-se e voltar-se para o Senhor. O que antes era um “não” pode
transformar-se em uma resposta de fé e obediência.
Entretanto, algo acontece com
aquele filho: “depois, arrependido, foi”. O filho reconsidera sua atitude e
muda de caminho. A palavra “depois” mostra que a atitude do filho mudou. Ele
não permaneceu em sua primeira decisão. O texto diz que ficou “arrependido” e,
então, foi trabalhar na vinha. Aqui está o ponto central da parábola: o
arrependimento produz mudança de atitude. O filho havia dito “não”, mas depois
reconheceu seu erro e fez aquilo que o pai havia pedido. O arrependimento não
consiste apenas em sentir tristeza pelo erro. Ele envolve reconhecer que se
tomou um caminho errado e voltar-se para a vontade de Deus.
Isso também serve de advertência
contra uma fé meramente exterior. Podemos falar de Deus, confessar a fé,
participar da vida da igreja e usar palavras corretas, mas tudo isso precisa
estar acompanhado de uma vida que reconheça a autoridade da Palavra de Deus.
III
Jesus agora leva seus ouvintes a uma conclusão
que eles mesmos terão de reconhecer. Depois de apresentar os dois filhos, Jesus
pergunta. A pergunta é simples: “Qual dos dois fez a vontade do pai?” (v.31a). Eles
responderam de forma clara: “O primeiro”. Eles reconhecem que foi o primeiro
filho quem fez a vontade do pai, porque, embora tenha inicialmente
desobedecido, arrependeu-se e depois foi. Assim, os próprios líderes religiosos
reconhecem que aquele que inicialmente recusou, mas depois se arrependeu e
obedeceu, foi quem realmente fez a vontade do pai. Jesus utiliza a resposta
deles para levá-los a perceber a própria incoerência.
Ele chama a atenção dos seus
ouvintes para aquilo que está prestes a declarar. Não se trata de uma simples
opinião, mas de uma verdade que confronta diretamente aqueles que estavam
questionando sua autoridade: “Em verdade vos digo que publicanos” (31b). Essas
palavras devem ter sido muito fortes para os principais sacerdotes e anciãos. Publicanos
e meretrizes eram pessoas desprezadas social e religiosamente naquela
sociedade. Os publicanos eram vistos como pecadores por sua associação com o
sistema tributário romano, enquanto as prostitutas eram consideradas
publicamente pecadoras.
Jesus agora deixa ainda mais claro
e mais surpreendente: “publicanos e meretrizes vos precedem no reino de Deus” (31c).
Os publicanos e as meretrizes, considerados pessoas pecadoras e desprezadas
pelos líderes religiosos, estavam sendo alcançados pela mensagem de
arrependimento e pela graça de Deus. A expressão “vos precedem” é especialmente
significativa. Jesus não está dizendo que o pecado dessas pessoas era
aceitável. O ponto é outro: aqueles que reconheciam sua condição pecaminosa e
recebiam a mensagem de João estavam respondendo a Deus com arrependimento e fé.
Por outro lado, os líderes religiosos, apesar de sua aparência de piedade,
estavam rejeitando a mensagem de Deus.
Jesus conclui sua palavra aos
líderes religiosos mostrando que o problema deles não estava na falta de
oportunidade para ouvir e reconhecer a verdade. Pelo contrário, eles haviam
recebido o testemunho de João Batista e haviam visto a transformação daqueles
que acolheram sua mensagem. Por isso, Jesus declara: “Porque João veio a vós
outros no caminho da justiça.” (v.32a). João Batista veio como mensageiro de
Deus, chamando o povo ao arrependimento e preparando o caminho para Cristo. A
expressão “caminho da justiça” indica que sua mensagem estava de acordo com a
vontade de Deus. João não anunciava uma mensagem própria, mas chamava as
pessoas a abandonarem o pecado e a confiarem naquele que viria depois dele. Também
não significa que João ensinava que as pessoas poderiam conquistar a salvação
por suas próprias obras. Sua pregação apontava para o arrependimento e para a
fé no Salvador. Ele preparava o povo para receber Jesus.
Os principais sacerdotes e os
anciãos haviam ouvido a pregação de João, mas não creram nele: “e não
acreditastes nele” (v.32b). O problema não era falta de informação. Eles
tiveram contato com a mensagem de João e puderam perceber que sua pregação
estava relacionada às promessas de Deus, mas, mesmo assim, rejeitaram aquilo
que Deus lhes dizia por meio dele. A incredulidade deles revelava uma
resistência à Palavra de Deus. Ouvir a Palavra não é suficiente; é necessário
recebê-la com fé e arrependimento.
Jesus apresenta um contraste muito
forte: “ao passo que publicanos e meretrizes creram” (v.32c). Publicanos e
meretrizes, pessoas consideradas pecadoras e desprezadas pela sociedade
religiosa da época, responderam à mensagem de João com arrependimento e fé. Jesus
não está dizendo que os pecados dessas pessoas eram aceitáveis. Pelo contrário,
o fato de terem crido demonstra que reconheceram sua necessidade de
arrependimento e da misericórdia de Deus. Aqueles que eram considerados
indignos pelos homens receberam a mensagem de João e foram conduzidos à fé.
Isso mostra que, no Reino de Deus, a salvação não é determinada pela posição
social, pela reputação ou pelos méritos humanos, mas pela graça de Deus
recebida pela fé.
Jesus volta-se novamente para os
líderes religiosos. Eles não apenas tinham rejeitado inicialmente a mensagem de
João; também viram o resultado da sua pregação. Viram pessoas consideradas
pecadoras mudarem de atitude e se voltarem para Deus. Mesmo diante desse
testemunho, permaneceram resistentes: “Vós, porém, nem depois, vendo isto”
(v.32d). A expressão “nem depois” mostra que tiveram novas oportunidades para
reconhecer o erro e mudar de atitude.
Mesmo assim, permaneceram sem
arrependimento: “vos arrependestes para crer nele” (v.32e). A expressão “não
vos arrependestes” revela o problema central. Eles não estavam simplesmente
desinformados. Tinham recebido a mensagem, tinham visto seus frutos, mas
continuavam resistindo. Tiveram oportunidade de se arrepender e crer,
mas não o fizeram. O arrependimento aqui envolve reconhecer o erro, abandonar a
resistência à Palavra e voltar-se para Deus. A fé, por sua vez, significa
confiar na promessa de Deus e receber aquele para quem João apontava: Jesus Cristo.
Por isso, Jesus mostra que o problema não era falta de evidências, mas falta de
arrependimento e fé. O Evangelho estava diante deles, mas eles não quiseram se
voltar para Cristo e nele confiar.
Estimados irmãos! O texto nos
coloca diante de uma questão fundamental: quem tem autoridade sobre a nossa
vida? Os principais sacerdotes e os anciãos questionaram Jesus, querendo saber
com que autoridade ele fazia aquelas coisas. Entretanto, o problema deles não
era falta de informação, mas a falta de disposição para reconhecer a autoridade
de Jesus. Eles ouviram a Palavra, viram as obras de Cristo, mas permaneceram
resistentes e incrédulos.
A parábola dos dois filhos também
nos ensina que Deus não procura apenas palavras, promessas ou aparências
religiosas. O primeiro filho disse que não iria, mas depois se arrependeu e
foi. O segundo disse que iria, mas não foi. Jesus mostra, assim, que a verdadeira
obediência não está simplesmente naquilo que dizemos, mas em ouvir a Palavra de
Deus e, pela ação do Espírito Santo, arrepender-nos e viver de acordo com a sua
vontade. O arrependimento transforma a direção da vida.
Portanto, irmãos, não endureçamos o
nosso coração diante da Palavra de Cristo. Reconheçamos sua autoridade,
arrependamo-nos dos nossos pecados e confiemos na sua graça. Que a nossa fé não
seja apenas uma declaração de palavras, mas uma fé que, alcançada pelo
Evangelho, produz frutos de arrependimento, amor e obediência. Que possamos
dizer “sim” ao nosso Senhor não apenas com os lábios, mas com uma vida que
confia nele e procura viver segundo a sua Palavra. Amém!
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