TEXTO: Fp 2.1-4(5-13)
TEMA: VIVER EM UNIDADE, HUMILDADE E AMOR
Vivemos em uma sociedade que frequentemente coloca o indivíduo no centro. Somos incentivados a pensar em nossos direitos, nossos interesses, nossos desejos e nossas conquistas.
Paulo chama os cristãos de Filipos a uma mudança de perspectiva sobre esta questão. Havia entre eles comunhão, amor e participação no Evangelho. Mas como acontece em qualquer comunidade cristã, também existiam desafios relacionados à convivência, aos interesses pessoais e à necessidade de preservar a unidade. Por isso, Paulo exorta os filipenses a não colocarem seus próprios interesses acima dos interesses dos outros. Ele mostra que a verdadeira unidade cristã não nasce simplesmente de concordarmos em tudo, mas de termos Cristo como centro da nossa vida.
O cristão não deve viver olhando apenas para si mesmo. Ele é chamado a olhar para Cristo e, a partir de Cristo, olhar para o seu irmão. O apóstolo apresenta, então, o próprio Cristo como o maior exemplo de humildade, serviço e obediência. Aquele que assumiu a condição de servo e foi obediente até a morte de cruz.
Podemos resumir a mensagem desta passagem em três partes:
Primeiro, a unidade cristã nasce do amor e da comunhão (vv. 1–4). A vida cristã é marcada pela comunhão com Cristo e pelo amor entre os irmãos. Paulo chama os cristãos a viverem em unidade, tendo o mesmo amor e o mesmo propósito. Ele não deve buscar apenas os seus próprios interesses, mas também o bem daqueles que estão ao seu redor. A humildade combate o egoísmo, a competição e a busca por reconhecimento pessoal. Quando os cristãos vivem em amor, cuidado e serviço, demonstram a realidade da fé em Cristo.
Segundo, Cristo é o exemplo perfeito de humildade e obediência (vv. 5–8). Cristo é apresentado como o exemplo perfeito de humildade e obediência. Embora sendo Deus, ele assumiu a forma de servo e veio ao mundo para cumprir a vontade do Pai. Jesus não buscou seus próprios interesses, mas entregou-se por amor à humanidade. Sua humildade foi demonstrada de maneira plena quando se tornou obediente até à morte, e morte de cruz. Na cruz, Cristo realizou a obra da nossa salvação e revelou a profundidade do seu amor. Por isso, os cristãos são chamados a ter a mesma atitude de humildade e serviço. Olhar para Cristo nos ensina a colocar a vontade de Deus e o bem do próximo acima dos interesses pessoais.
Terceiro, Deus exalta Cristo e opera em nós a vontade de viver para ele (vv. 9–13). Depois de sua humilhação e morte, Cristo foi exaltado pelo Pai e recebeu o nome que está acima de todo nome. Diante de Jesus, todo joelho se dobrará e toda língua confessará que ele é o Senhor. Sua exaltação revela a vitória daquele que se humilhou para realizar nossa salvação. Paulo também ensina que Deus continua agindo na vida dos cristãos, operando neles tanto o querer como o realizar segundo a sua boa vontade. A nova vida não nasce da capacidade humana, mas da ação graciosa de Deus. Por isso, o cristão vive para Cristo com fé, gratidão e obediência. A obra de Deus em nós nos conduz a uma vida que procura honrar o Senhor em todas as circunstâncias
I
Paulo inicia este trecho lembrando aos filipenses as bênçãos que eles já receberam por estarem unidos a Cristo: “Portanto, se há alguma exortação em Cristo, se alguma consolação de amor, se alguma comunhão do Espírito, se alguns afetos e compaixões...” (v.1). O termo "portanto" implica que ele está aqui expandindo a exortação (v.27). Ele não apresenta a unidade cristã como uma obrigação isolada, mas como uma consequência daquilo que Deus realizou na vida dos cristãos. O apóstolo menciona quatro realidades que caracterizam a vida daqueles que pertencem a Cristo: exortação em Cristo, consolação de amor, comunhão do Espírito e afetos e misericórdias.
Primeiro, ele afirma: “Se há, pois, alguma exortação em Cristo” – A palavra “exortação” também pode trazer a ideia de encorajamento, estímulo e fortalecimento. Em Cristo, os cristãos recebem palavras que os animam a permanecer firmes na fé. Paulo lembra que a vida cristã não é vivida de maneira isolada. A união com Cristo também produz uma relação de cuidado e encorajamento entre os irmãos. Segunda: “Alguma consolação de amor” – O amor cristão proporciona consolo, amparo e fortalecimento. Neste sentido, o cristão que experimenta o amor de Deus em Cristo também é chamado a transmitir esse amor aos outros. A comunidade cristã deve ser um lugar em que os irmãos encontrem apoio, cuidado e encorajamento, especialmente nos momentos de dificuldade.
Terceira: “Alguma comunhão do Espírito” – A comunhão cristã tem sua origem no Espírito Santo. É ele quem reúne os cristãos em torno de Cristo e os conduz à mesma fé. Essa comunhão não significa que todos tenham a mesma personalidade, opinião ou função, mas que todos pertencem ao mesmo Senhor e participam da mesma graça. Por isso, a unidade da igreja está fundamentada na obra de Deus. Quarta: “Se há afetos e misericórdias” – Paulo aponta também para os sentimentos de amor, compaixão e cuidado que devem existir entre os cristãos. A misericórdia recebida de Deus em Cristo transforma a maneira como o cristão olha para o próximo. Quem foi alcançado pela misericórdia de Deus não deve permanecer indiferente diante das necessidades do irmão.
Assim, Paulo recorda primeiro tudo aquilo que os cristãos receberam em Cristo e, a partir disso, chama-os a viver em unidade, amor e humildade. A unidade cristã não nasce do esforço humano para criar uma aparência de harmonia, mas da comunhão com Cristo e da ação do Espírito Santo.
Paulo continua sua exortação mostrando que a comunhão recebida em Cristo deve produzir unidade na vida da igreja. Ele pede aos filipenses que completem a sua alegria por meio de uma vida marcada pelo amor, pela harmonia e pela humildade: “Completai a minha alegria, de modo que penseis a mesma coisa, tenhais o mesmo amor, sejais unidos de alma, tendo o mesmo sentimento.” (v. 2). Aqui, encontramos um forte chamado à unidade. Paulo deseja que a unidade dos filipenses seja completa. “Completai a minha alegria” – Paulo já tinha grande alegria por causa da fé dos filipenses e de sua participação no Evangelho. Agora, ele deseja que essa alegria seja completa ao ver a comunidade vivendo em verdadeira unidade. O apóstolo não está preocupado apenas com o crescimento individual dos cristãos, mas com a maneira como eles convivem uns com os outros.
Ele menciona quatro aspectos: “penseis a mesma coisa”; “tenhais o mesmo amor”; “sejais unidos de alma”; “tendo o mesmo sentimento”. Primeiro, ele afirma: “De modo que penseis a mesma coisa” – Paulo chama os cristãos a terem uma mesma disposição diante da fé e da vida cristã. Isso não significa que todos precisem pensar exatamente da mesma maneira em questões secundárias. O sentido é que estejam unidos naquilo que é fundamental: Cristo, o Evangelho e a graça de Deus. A unidade cristã nasce quando a vontade de Cristo ocupa o centro da vida da comunidade. Segundo: “Tenhais o mesmo amor” – O mesmo amor significa que os cristãos devem amar uns aos outros com o amor que receberam de Cristo. Não deve haver espaço para rivalidade, competição ou preferência pessoal que provoque divisão. O amor cristão procura o bem do outro e não apenas a satisfação dos próprios interesses.
Terceiro: “Sejais unidos de alma” – Paulo aprofunda a ideia de unidade. Os filipenses deveriam permanecer ligados uns aos outros em propósito e comunhão. A igreja não é uma reunião de pessoas que simplesmente compartilham o mesmo espaço, mas uma comunidade formada por pessoas unidas pela fé em Cristo.Quarto: “Tendo o mesmo sentimento” – Essa expressão prepara o caminho para o exemplo de Cristo apresentado nos versículos 5–8. O sentimento que Paulo deseja ver nos filipenses, é aquilo que foi demonstrado pelo próprio Jesus: humildade, serviço e disposição para colocar o bem do outro acima dos interesses pessoais.
Paulo. depois de falar sobre unidade, amor e comunhão, ele trata diretamente do orgulho e da busca pelos próprios interesses: “Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo.” (v.3). Paulo condena atitudes motivadas pelo desejo de defender interesses pessoais ou de criar grupos e disputas dentro da comunidade. O cristão não deve agir pensando em vencer uma discussão, conquistar reconhecimento ou impor sua própria vontade. Quando interesses pessoais ocupam o primeiro lugar, a comunhão é prejudicada. Também nada façais por “vanglória” – A vanglória é a busca pela própria honra, reconhecimento e importância. O problema não está apenas em realizar boas obras, mas em fazê-las para receber elogios e destaque. Na comunidade cristã, ninguém deve procurar ser mais importante do que os outros. Toda honra pertence ao Senhor, e tudo o que fazemos deve estar relacionado ao serviço a Deus e ao próximo.
No entanto, façais “por humildade” – Paulo apresenta a humildade como o caminho contrário ao partidarismo e à vanglória. A humildade cristã não significa desprezar a si mesmo nem negar os dons que Deus concedeu. Significa reconhecer que não somos o centro de tudo e que recebemos de Deus aquilo que temos. Além disso, Paulo chama os cristãos a olhar para o próximo com respeito e consideração. Isso não significa afirmar que o outro seja necessariamente mais capaz ou mais importante em todas as situações. Significa colocar o bem do irmão acima da busca egoísta pelos próprios interesses. O cristão aprende a perguntar não apenas “o que eu quero?”, mas também “como posso servir e beneficiar meu irmão?”
Paulo continua desenvolvendo a exortação à humildade iniciada no versículo 3. Ele mostra que a verdadeira humildade cristã não consiste apenas em uma atitude interior, mas se manifesta na maneira como o cristão olha para as necessidades e interesses das outras pessoas: “Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros.” (v.4). Paulo não está dizendo que o cristão deve desprezar suas próprias necessidades, responsabilidades ou interesses. A Bíblia não ensina a negligência pessoal. O problema está em viver concentrado exclusivamente em si mesmo, colocando os próprios desejos sempre acima dos demais. O egoísmo faz com que a pessoa enxergue apenas aquilo que lhe interessa.
Cristo não viveu para
buscar seus próprios interesses, mas entregou-se por nós. Ele deixou de lado
sua glória, assumiu a forma de servo e foi obediente até à morte de cruz. Por
isso,
O cristão é chamado a olhar além de si mesmo. Deve perceber as necessidades, dificuldades, alegrias e preocupações daqueles que estão ao seu redor. Isso envolve cuidado, disposição para ajudar, paciência e serviço. O amor cristão procura o bem do próximo. A expressão “também” é importante. Paulo não diz que devemos ignorar aquilo que é nosso, mas que devemos acrescentar à preocupação com nossos próprios interesses a preocupação com os interesses dos outros. A vida cristã não é centrada no “eu”, mas está aberta ao próximo.
Portanto, Paulo ensina que a humildade cristã se manifesta no cuidado com o próximo. Quem foi alcançado pelo amor de Cristo aprende a olhar para além de si mesmo. Na família, na igreja e na sociedade, o cristão é chamado a perguntar: “Como posso servir? Como posso ajudar? Como posso buscar o bem do meu próximo?”
II
Depois de exortar os filipenses à unidade, ao amor e à consideração pelo próximo nos versículos 1–4, ele mostra que essa atitude não é apenas uma exigência moral, mas encontra sua expressão perfeita na pessoa e na obra de Jesus. Paulo apresenta Cristo como o modelo supremo de humildade que deve orientar a vida dos cristãos.
Ele não apenas compartilhou o seu apreço e encorajamento, mas também os confrontou com um chamado profundo e essencial para a vida cristã. Ele mostrou aos filipenses que não basta apenas conhecer a Cristo, é preciso imitá-lo. Ele torna evidente esta questão quando afirma: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus.” (v.5). Paulo usa aqui o verbo grego φρονεῖτε, que significa “pensar”, “ter mentalidade”, “estar inclinado para”. Literalmente, a exortação é: "Pensai nisto em vós mesmos.” Não se trata apenas de uma reflexão intelectual, mas de uma profunda atitude e adoção de uma maneira de pensar e sentir. É um apelo ou exortação para que os cristãos de Filipos imitasse a Cristo. Seguissem o seu exemplo ao renunciar a si mesmo e obedecer aos seus mandamentos. Enfim, tivessem o mesmo sentimento (atitude) que houve também “em Cristo Jesus.”
Como cristãos, é preciso ter os mesmos sentimentos de Jesus. Ter os mesmos sentimentos significa, antes de tudo, despojar-se de si mesmo, das virtudes que pensamos ter, dos direitos que reivindicamos, das glórias e honrarias que buscamos. Ter os sentimentos de Cristo é assumir, humildemente, a condição de servo, renunciando à nossa própria vontade em favor da vontade de Deus e do bem do próximo. Lembrem-se: para nos aproximarmos de Cristo Jesus, é preciso que tenhamos em nosso coração o desejo de ter os sentimentos que Ele tem!
A Bíblia nos ensina, como seguir o exemplo de Cristo: Paulo afirma em 1 Coríntios: “Sigam o meu exemplo, assim como eu sigo o de Cristo” (1 Coríntios 11.1). Ele ensina os cristãos a examinar cuidadosamente a vida de nosso Salvador, não apenas como um modelo distante, mas como um exemplo vivo a ser imitado em cada detalhe. Jesus também disse aos seus discípulos: “Se alguém deseja ser meu seguidor, deve renunciar a si mesmo, tomar a sua cruz e seguir-me” (Mateus 16.24).
Esta renúncia não é
apenas um ato isolado, mas uma postura contínua de negar o egoísmo e as
ambições pessoais em favor do reino de Deus. Ocorre que a essência da vida
cristã reside em seguir o exemplo de Jesus Cristo. Isto demonstra que
precisamos colocar em prática no dia a dia os sentimentos de Jesus, pois isso
envolve amar ao próximo, (Mateus 22.39), perdoar aqueles que nos ofendem
(Mateus 6.14-15), buscar a justiça com misericórdia (Miqueias 6.8), ser
compassivo com os necessitados (Mateus 25.34-40) e viver uma vida de
integridade e santidade (1 Pedro 1.15-16).
Mas qual era o “mesmo sentimento de Cristo” que os filipenses deveriam observar? Paulo apresenta a resposta a partir do versículo 6: “pois ele, subsistindo em forma de Deus.” (v.6a). Quando Paulo afirma que Jesus foi “subsistindo em forma de Deus,” significa que Cristo é a verdadeira e plena expressão da revelação de Deus. No grego, há duas palavras para explicar o termo "forma": σχῆμα e μορφῇ. A primeira se refere à forma externa, à aparência que muda com o passar do tempo, como a maneira de vestir ou o porte físico em diferentes fases da vida.
A segunda, μορφῇ, significa a forma essencial pela qual uma pessoa ou coisa é percebida pela visão; é a aparência externa que não muda, que revela a natureza intrínseca. Paulo usou este segundo termo, μορφῇ, para dizer aos filipenses, que Jesus tinha a forma de Deus, ou seja, Jesus é Deus em sua essência de modo inalterável, e que isto não pode ser mudado pelas circunstâncias. Esta não é uma mera semelhança passageira, mas uma afirmação clara da deidade de Cristo.
Portanto, Cristo é a verdadeira e plena expressão da revelação de Deus. Ele sempre foi e sempre será Deus. Embora sendo Deus, não considerou que ser igual a Deus fosse algo a que deveria se apegar. Paulo afirma que Ele “não teve por usurpação ser igual a Deus,” (v.6b). A palavra grega ἁρπαγμός e do verbo ἁρπάζω é essencial neste versículo. De modo geral significa o ato de pegar pela força, roubo; tomar algo de outro para si mesmo; apego a alguma coisa. Significa que Jesus não tentou "agarrar-se" ou "apegar-se" ao seu status e papel, exclusivamente, divinos como o Filho de Deus em sua encarnação. Não considerou que a sua igualdade com Deus fosse algo a ser usado para seu próprio benefício. Isto demonstra a sua humildade e disposição em esvaziar-se a si mesmo. O que se conclui é que Jesus não deixou de ser Deus. Ele é totalmente Deus (João 8.58; 10.30) e sempre existiu desde a eternidade. Basta olharmos para a palavra “ser” por um momento. “Ser” denota a natureza essencial da pessoa, a essência, aquilo que é inalienável e imutavelmente verdadeiro sobre Ele. Enfim, Jesus possui esta natureza como Deus. Esse é o Seu ser, quem Ele é: natureza inata, imutável, eterna, inalterável.
Contudo, Ele renunciou a isso voluntariamente a fim de cumprir a vontade de Seu Pai ao se tornar humano: “Antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo” (v. 7a)." Cristo esvaziou-se de quê? De sua deidade? De sua natureza? De suas prerrogativas divinas? De ser igual a Deus? Então, vejamos! Paulo usa o termo κενόω que significa “esvaziar, tornar vazio, privar de força”. Este verbo está na terceira pessoa do singular e na voz ativa, a qual demonstra que a ação foi efetuada “por Cristo” e não “por outra pessoa em Cristo.” Isto identifica Cristo como sujeito realiza a ação de forma independente. Sendo que o objeto dessa ação está presente na palavra precedente derivada de ἑαυτοῦ que significa “ele mesmo, a si mesmo”, indicando que a ação recai sobre o próprio Cristo. A partir deste momento assume a "forma de servo", (μορφὴ δούλου), que descreve sua condição de servo humilde e obediente.
Jesus também “tornou-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana.” (v.7b). Literalmente se tornou humano. Ele assumiu a natureza humana. A natureza humana de Jesus é um tema central na fé cristã, e é descrita na Bíblia. Ela apresenta o profundo mistério do eterno e infinito Filho de Deus adentrando no tempo e no espaço e assumindo a natureza humana. Ele viveu como um ser humano. Ele entrou no mundo a partir do ventre de uma mulher, como as demais pessoas. Exercia seu ofício na carpintaria de José. Experimentou fome, cansaço, tristeza, tentação e necessidade de dormir, tal como fez no barco. De fato, Jesus tornou-se semelhante aos homens ao assumir a forma de servo, renunciando a seus privilégios celestiais.
Mas por que Jesus se fez semelhante aos homens? Vejamos cinco pontos: primeiro, para se identificar plenamente com a humanidade. Ao se tornar humano, Jesus experimentou em sua própria vida as alegrias, tristezas, tentações (sem pecar), dores e limitações da condição humana. Segundo: para ser o sacrifício perfeito pelo pecado. A lei de Deus exigia um sacrifício perfeito para a expiação dos pecados. Terceiro: para vencer a morte e o diabo. Através de sua morte e ressurreição como homem, Jesus derrotou o poder da morte e do diabo, que tinha domínio sobre aqueles que estavam sob a condenação do pecado (Hebreus 2.14-15; 1 Coríntios 15.54-57).
Quarto: para nos dar um exemplo de vida. Jesus viveu uma vida humana perfeita, demonstrando como devemos amar a Deus e ao próximo. Sua humildade, obediência, serviço e amor sacrificial são modelos para os seus seguidores (1 Pedro 2.21). Quinto: para revelar plenamente a Deus. Ao se tornar humano, Deus se revelou de uma maneira que a humanidade pudesse compreender e experimentar diretamente. Jesus disse: "Quem me vê, vê o Pai" (João 14:9). Sua vida e seus ensinamentos nos mostram o caráter, o amor e a justiça de Deus de forma tangível.
O preço pago na cruz também se manifesta no sacrifício exemplar de Jesus: “Jesus assumiu a forma de servo e humilhou-se até à morte, e morte de cruz.” (v.8). Jesus é o maior exemplo de humildade que temos na história do mundo. Ele despiu-se de Sua glória e veio como um simples homem, tornando-se servo e assumindo os pecados de toda a humanidade. Agora, precisamos olhar para Jesus e aprender sobre a verdadeira humildade. Reconhecer as nossas falhas! Deixar de lado as nossas posições, poderes e vantagens. Esvaziar-se do "eu" e assumir a forma de servos. Isto ilustra como devemos nos despojar do orgulho e servir a Cristo
Vamos aceitar o convite de Jesus: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vocês o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração e achareis descanso para a vossa alma.” (Mt 13.28,29). Portanto, ao contemplar a vida do Senhor, podemos encontrar atitudes sempre repletas de humildade.
III
No entanto, Sua completa humilhação na cruz foi seguida imediatamente pela Sua exaltação: 'Deus o exaltou sobremaneira' (v.9a). A expressão 'exaltou sobremaneira' traduz o verbo grego ὑπερυψόω, que significa exaltar à mais alta posição e poder, elevando à majestade suprema. Expressão que só pode ser aplicada a Cristo. Sendo assim, Deus, o Pai enalteceu o Filho de uma forma gloriosa, elevando até a máxima altura. Deus não deixou Cristo na sepultura, mas levantou-o da morte, levou-o de volta ao céu e o glorificou (At 2.33; Hb 1.3). Deus deu a Jesus “toda autoridade no céu e na terra” (Mt 28.18). Deu a ele autoridade para julgar (Jo 5.27) e fê-lo senhor de vivos e de mortos (Rm 14.9), fazendo-o assentar à sua destra, acima de todo principado e potestade, constituindo-o a cabeça de toda a igreja (Ef 1.20-22).
Que momento maravilhoso! Deus o elevou à mais alta posição e ainda lhe “deu um nome que está acima de todo nome.” (v.9b). Mas não era qualquer nome. Era um nome que o distinguisse, nitidamente, de todos os outros nomes (Ef 1.20-21). Conforme o versículo 11 e Atos 2.36, se tem em vista um nome particular, provalmente, κύριος. Este é um termo que tem vários sentidos: pode significa senhor, mestre, amo quando usado como uma forma de atribuição; nome que chegou a ser o título oficial dos imperadores romanos. A Septuaginta, tradução grega do Antigo Testamento, usa κύριος para substituir o nome YHWH (יהוה), reforçando a ideia de que Jesus compartilha da mesma natureza e autoridade de Deus. Na teologia do Novo Testamento, é o título concedido a Jesus como resultado de sua ressurreição e exaltação: (Atos 2.36).
No entanto, este nome tornou-se comum para expressar o senhorio de Cristo no contexto do mundo greco-romano (Romanos 10.9; Filipenses 2.11). Desta maneira, quando Jesus era chamado κύριος significava que era o Senhor, o Rei dos reis e Senhor de imperadores. Este foi o grande título pelo qual Jesus chegou a ser conhecido na Igreja primitiva, que denota sua soberania absoluta. A Bíblia diz que quem tem o Filho tem a vida. Ele recebeu este nome por herança (Hb 1.4) e por doação (2.9). Por meio desse nome os enfermos são curados (At 3.6), os perdidos são salvos (At 4.12), os crentes são perdoados (1Jo 2.12), os cativos são libertos (Lc 10.17), as orações são respondidas (Jo 16.23). E o apóstolo Paulo diz que devemos fazer tudo em nome de Jesus (Cl 3.17).
Diante deste nome de Jesus, agora, todos O reconhecerão. Paulo afirma “se dobre todo o joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra.” (10a). O verbo κάμπτω (dobrar) significa reverenciar, ajoelhar-se. Demonstra que todos devem dobrar os seus joelhos, seja nos céus, na terra e debaixo da terra. Isto abrange a totalidade da criação. (Rm 8.22-1 Co 15.24-28; Ef 1.20-22). Ajoelhar-se diante de alguém, especialmente de autoridades, era sempre uma expressão de respeito e reverência por elas. Era a expressão de uma espécie de humildade. Já no sentido religioso o dobrar os joelhos é um símbolo de reverência, submissão e adoração. Na verdade, nos ajuda a focar em Deus, a reconhecer a Sua grandeza e a expressar a nossa dependência d’Ele. Representa renunciar à autojustiça e de qualquer confiança em nós mesmos, reconhecendo que é somente por meio de Deus que encontraremos a verdadeira força, e é somente nessa força que devemos nos apoiar.
Quantos personagens na Bíblia dobraram seus joelhos. É um grande exemplo para o homem. Na dedicação do templo de Jerusalém, “Salomão ficou em pé na plataforma e depois ajoelhou-se diante de toda a assembleia de Israel, levantou as mãos para o céu e orou” (2Cr 6.13). Pouco antes de morrer apedrejado, Estêvão caiu de joelhos e bradou: “Senhor não os considere culpados deste pecado” (At 7.60). Quando Elias “subiu o alto do Carmelo, dobrou-se até o chão e pôs o rosto entre os joelhos”. Com a cabeça, o peito e o ventre totalmente dobrados em cima dos joelhos, o profeta pediu chuva e ela veio (1Rs 18.42; Tg 5.18). O salmista exclama: “Vinde, adoremos e prostremo-nos, ajoelhemo-nos diante do Senhor, nosso Criador!” (Sl 95.6). Paulo escreve sobre a reverência que presta a Deus, ele a expressa nestas palavras: “Por isso, me ponho de joelhos diante do Pai, do qual toma o nome toda a família nos céus e na terra” (Ef 3.14-15). Mas o maior exemplo e modelo que todos nós temos é Jesus Cristo. Antes de Jesus ir para a cruz, Ele estava de joelhos no Jardim do Getsêmani, como sinal de sua submissão à vontade do Pai. Na agonia do Getsêmani, Jesus “se afastou a uma pequena distância, ajoelhou-se e começou a orar” (Lc 22.41).
Estes exemplos são demonstrações o quanto devemos também dobrar os nossos joelhos diante do Senhor. Por isso, dobre seus joelhos diante de Deus e clame a Ele, diante de seus problemas, dificuldades e angústias! Lute diante das batalhas que você tem enfrentado, dobrando os seus joelhos. Reconheça que você é completamente fraco e indefeso. E ninguém pode ajudá-lo mais do que o Senhor Soberano e Todo - poderoso. Descubra por si mesmo os efeitos transformadores que podem ser alcançados por meio de joelhos dobrados.
Em virtude do poder e majestade de Jesus Cristo, e pelo reconhecimento de que ele é o Senhor, toda língua o confessará. Paulo afirma: “toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor.” (v.11a). Não basta apenas um reconhecimento interno. É necessário que toda criatura proclame abertamente que Jesus Cristo é o Senhor. Confesse que Ele é o Rei dos reis, o Senhor dos senhores, o Todo-poderoso Deus, diante de quem os poderosos deste mundo vão ter que se curvar e confessar que ele é Senhor. Este título ‘Senhor” (κύριος) carrega consigo implicações de divindade, autoridade máxima e domínio. E, por isso, devemos confessar! O ato de confessar é uma declaração essencial da nossa fé. Todo este reconhecimento e confissão têm como propósito final a “glória de Deus Pai.” (v.11b). O fim último de todas as coisas é a glória de Deus (1Co 10.31). Toda a glória que não é dada a Deus é glória vazia, é vanglória. Cristo se humilhou e suportou a cruz para a glória de Deus (Jo 17.1). Ele ressuscitou e foi exaltado para a glória de Deus (2.11).
Depois de apresentar Cristo como exemplo de humildade e obediência, Paulo volta-se diretamente aos filipenses. “Assim, pois, amados meus, como sempre obedecestes, não só na minha presença, porém, muito mais agora, na minha ausência, desenvolvei a vossa salvação com temor e tremor.” (v.12). A partir daqui ele mostra como a fé em Cristo se manifesta na vida diária. Paulo fala aos filipenses com carinho. Eles são “amados”, isto é, pessoas pelas quais ele demonstra profundo afeto pastoral. Sua exortação não nasce de dureza, mas do amor e do desejo de que permaneçam firmes na fé. Paulo também reconhece a fidelidade dos filipenses. Eles já haviam demonstrado disposição para obedecer à Palavra de Deus. A vida cristã envolve ouvir a Palavra e viver de acordo com ela. A obediência não é uma tentativa de conquistar a salvação, mas uma resposta de fé à graça recebida em Cristo.
Paulo havia sido uma referência importante para aquela comunidade, mas sua fé não deveria depender da presença física do apóstolo. Eles precisavam permanecer firmes mesmo quando Paulo não estivesse entre eles: “Não só na minha presença, porém, muito mais agora, na minha ausência”. Isso também mostra que a maturidade cristã envolve permanecer fiel à Palavra mesmo quando não há alguém nos observando ou orientando pessoalmente. A fé está fundamentada em Cristo e em sua Palavra, não na presença de um líder humano.
Paulo não está ensinando que os filipenses deveriam conquistar a salvação por meio de obras. A salvação é dom da graça de Deus em Cristo. “Desenvolver” significa viver essa salvação recebida, permitindo que a fé se manifeste na vida, nas atitudes e nos relacionamentos. O cristão, salvo pela graça, cresce na fé e produz frutos de uma vida transformada pelo Evangelho. E isto deve ocorrer “Com temor e tremor” – Essas palavras expressam reverência, seriedade e humildade diante de Deus. O cristão não trata sua relação com Deus de maneira superficial. Ele reconhece a santidade e a grandeza do Senhor e vive confiando na graça divina.
A vida cristã continua sendo uma vida de obediência depois da conversão. O cristão vive pela graça, permanece na Palavra e cresce na fé. Mesmo quando não há um pastor ou outro cristão por perto, ele continua chamado a permanecer fiel a Cristo, com reverência, humildade e confiança na graça de Deus.
Paulo explica o que acabou de dizer no versículo 12. Depois de chamar os filipenses a viverem a salvação “com temor e tremor”, ele mostra que a vida cristã não depende apenas do esforço humano. É Deus quem opera no cristão: “Porque Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.” (v. 13). “Porque Deus é quem efetua em vós” – Paulo coloca Deus no centro da vida cristã. O verbo “efetua” indica ação e operação. Deus age no seu povo, conduzindo e fortalecendo aqueles que pertencem a Cristo. A santificação não é uma conquista independente do cristão, mas obra de Deus em sua vida.
Deus atua também na vontade: “Tanto o querer”. Ele produz no cristão o desejo de viver de acordo com sua Palavra. O cristão passa a desejar aquilo que agrada a Deus. Esse novo querer não nasce simplesmente de uma força de vontade humana, mas da ação de Deus por meio do Evangelho e do Espírito Santo. Deus não apenas desperta o desejo de fazer o bem, mas também concede forças e condições para que esse desejo se transforme em ação. Há uma diferença entre querer fazer algo e conseguir realizá-lo. Paulo afirma que Deus opera nas duas dimensões: no querer e no realizar.
Isso impede tanto o orgulho quanto o desânimo. O cristão não pode se orgulhar de suas boas obras como se fossem resultado exclusivamente de seus próprios méritos. Ao mesmo tempo, não precisa desesperar diante de suas limitações, pois Deus continua trabalhando nele. Enfim, Deus age de acordo com sua vontade, que é boa e está relacionada ao seu propósito para aqueles que estão em Cristo. A vida cristã está nas mãos de Deus. Ele conduz seus filhos e os capacita a viverem de maneira agradável a ele.
Estimados irmãos, Paulo nos ensina que a vida cristã deve ser marcada pelo amor, pela comunhão, pela humildade e pelo cuidado com o próximo. Não devemos agir por partidarismo ou vanglória, nem buscar somente os nossos próprios interesses, mas considerar também aquilo que é dos outros. Cristo é o fundamento e o exemplo dessa vida. Aquele que existia em forma de Deus assumiu a forma de servo, tornou-se homem e humilhou-se até à morte, e morte de cruz. Ele fez tudo isso por nós e para a nossa salvação. Mas a cruz não foi o fim. Deus o exaltou sobremaneira, e toda língua confessará que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.
Por isso, somos chamados a viver de maneira coerente com a salvação que recebemos. Nossa fé deve aparecer na maneira como tratamos os irmãos, como servimos ao próximo e como enfrentamos as dificuldades da vida. A humildade cristã não procura reconhecimento, mas procura servir.
Paulo termina lembrando uma verdade consoladora: “Deus é quem efetua em vós tanto o querer como o realizar, segundo a sua boa vontade.” Não estamos sozinhos na caminhada cristã. O mesmo Deus que nos salvou em Cristo continua trabalhando em nós por meio de sua Palavra e do Espírito Santo. Portanto, olhemos para Cristo, vivamos em unidade, sirvamos com humildade e confiemos na ação de Deus. Que nossa vida como cristãos revele o amor daquele que se humilhou por nós e que agora reina como Senhor. E que, em tudo o que fizermos, o nosso propósito seja o mesmo apresentado por Paulo: “para glória de Deus Pai.”
Que possamos aprender
com o exemplo de Cristo e buscar viver com a mesma humildade e amor que Ele
demonstrou, servindo uns aos outros com alegria e nos dedicando a cumprir a
vontade de Deus. Assim, seremos verdadeiramente exaltados por Deus, não por
nossos próprios méritos, mas pela graça e pelo amor de Cristo que habita em
nós. Amém!
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